Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXVI)

Sim, conhecia linguagem gestual. Mas preferia andar sempre com um caderninho e escrever nele o que queria dizer; gostava de desenhar as letras, uma a uma; gostava de olhar a pessoa enquanto lia o que lhe escrevera e antecipar no seu rosto abstraído a resposta que viria. Quando se apaixonava por alguém, partilhava alguns dos seus caderninhos; achava que era uma forma de se dar a conhecer, como se partilhasse um diário íntimo. Mas as pessoas por quem se apaixonava rapidamente deixavam de se interessar pelos caderninhos. Uma delas disse, certa vez: «Preciso de ouvir-te dizer que me amas, não me basta lê-lo.» Não soube o que responder. Se pudesse falar, teria dito: talvez um dia encontre alguém que aprecie um amor silencioso.