Toda a gente conhecia o seu relógio. E porque as pessoas se habituam a tudo, também se habituaram aos apitos; o relógio podia tocar a qualquer momento, em qualquer circunstância. Havia dois tipos de toque: um ligeiro pii e um sonoro hõôõõn. Ninguém conhecia o significado daqueles toques, ninguém sabia para que serviam, qual a utilidade. Existiam muitas teorias, mas ele nunca confirmava ou desmentia. E as pessoas habituavam-se. Por vezes escutavam um pii, mais frequentemente um hõôõõn; e ignoravam, da mesma forma que se finge não olhar para uma imensa borbulha vermelha que alguém tem na ponta do nariz. Nunca contou a ninguém que o relógio era um medidor de emoções, que aplicava a todos os seus interlocutores; pii significava que a pessoa estava a sentir-se insegura, hõôõõn que a pessoa era apenas estúpida. Tivera a ideia por causa de um amigo que justificava o mau comportamento de toda a gente, em qualquer circunstância, com "tens de compreender, é apenas insegurança". Na presença deste amigo, o relógio não apitou um único pii.