Era um coveiro com leituras. Lia tanto nos tempos livres, entre enterros, que começou a conseguir reconhecer no rosto dos mortos que enterrava as leituras que cada um fora acumulando em vida. Por exemplo, reconhecia com facilidade um morto que tivesse lido o Crime e Castigo ou o D. Quixote. Identificava na expressão de uma velhota se fora leitora do Livro do Desassossego ou na dum jovem morto antes do tempo se chegara a ler o Mrs Dalloway. Mas apenas uma vez se cruzou com alguém que lera os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido; ficou tão comovido que no dia seguinte precisou de pedir folga.