As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Ninguém me convence de que as pessoas precisam mesmo de cagar todos os dias. Cá para mim, fazem aquilo com tanta frequência porque têm gosto nisso, não sei se me entendes.» E riam.
a gaveta do paulo
[2005 - 2026]
Duas plantas com pouco juízo (XLIV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Penso muitas vezes no maior dilema filosófico que incomoda as plantas. O desejo inexplicável de expor e revelar as raízes quando se sabe perfeitamente que isso significaria uma inevitável e agonizante morte lenta. Ou serei apenas eu que penso nisso?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XLIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Por vezes, sinto-me vazia, sinto-me irrelevante, é como se a minha vida não fizesse sentido, como se não tivesse qualquer utilidade. Só me apetece desaparecer ou assim. Achas que nessas alturas ajudava se começasse a escrever poesia?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XLII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «A minha avó é a planta mais revolucionária que conheço. Agora anda a lutar para que todas as plantas tenham direito ao voto, diz que é a única forma de acabar com o fascismo no mundo.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XLI)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo, uma dizia «Se alguma vez fizerem um filme sobre nós, como achas que se devia chamar?» A outra respondia: «Thelma & Louise.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XL)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Já tive um namorado que acabou comigo porque dizia que eu era demasiado pro-activa no sexo. Pro-activa. Como se isso fosse um defeito.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXIX)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Qual é a tua opinião sobre balneários mistos nos ginásios? Confesso que fico um bocado envergonhada quando me cruzo com um pinheiro ou assim, com aquela madeira toda à vista.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXVIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «A psiquiatra acha que a razão da minha instabilidade mental é a minha mãe não me ter amamentado em bebé. Que idiota, vê-se logo que não nasceu numa estufa.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXVII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Sabes qual é a última da minha prima? Como não está a lidar bem com a idade, fez uma cirurgia plástica; livrou-se de algumas folhas velhas e substituiu-as por folhas de plástico de aspecto jovem e saudável.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXVI)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Sabes qual é a última da minha prima? Anda obcecada com a ideia de poder morrer e ninguém notar. Uma planta pode morrer e demorar semanas até que alguém note, lamenta-se ela a choramingar. Então lembrou-se de instalar uma sirene no vaso, para poder tocar quando estiver a morrer.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Uma coisa te garanto, minha amiga. Nunca mais me caso pela igreja. Os nossos direitos regrediram muito desde que veio este papa.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXIV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Sabes qual é a última da minha prima? Continua com a mania de que está gorda, diz que tem folhas que parecem pneus. Então começou a pesquisar formas de evitar que as raízes absorvam tantos nutrientes.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Sei que é um assunto delicado, mas qual é a tua opinião sobre relacionamentos fora da espécie? É que conheci um arbusto tão giro, nem imaginas.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Gostava de mudar de vaso. Sabes, arriscar mais... sair da minha zona de conforto.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXI)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Uma das coisas que mais adoro em ser planta é que posso estar as vezes que me apetecer com tesão que ninguém nota só de olhar para mim.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXX)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Uma planta portuguesa, uma planta espanhola e uma planta francesa entram num bar. Vai a planta portuguesa e diz: merda, enganámo-nos, afinal isto não é o IKEA.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXIX)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Sabes qual é a última da minha prima? Teima que está muita gorda, diz que já nem consegue olhar para as próprias folhas. Anda a ver se consegue que um médico lhe passe uma receita de ozempic.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXVIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Detesto aquelas plantas que ficam todas histéricas quando lhes cai uma folha e ligam logo para o 112. É lidar, amigas, é lidar.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXVII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Já acabei um relacionamento porque ele tinha vergonha de andar comigo na rua de ramos dados.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXVI)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Nem que fosse só uma vez na vida, mas gostava de experimentar fazer sexo na horizontal.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo, uma dizia: «O assunto do suicídio é meio tabu entre as plantas, não achas?» A outra respondia: «Por mim, não tenho problema nenhum em assumir que se alguma vez tiver uma doença sem cura, mato-me. Ah pois. E faço tal e qual as pessoas: enforco-me numa árvore. Zuca, acabam-se os problemas.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXIV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Conheces a estória da planta que mandou colocar um espelho no quarto para conseguir ver-se a crescer?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Conheci uma planta que gostava tanto de animais que não descansou enquanto não adoptou um cão. E sabes o que aconteceu? Um dia, o cão comeu-a.» E riam.
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