As duas amigas estão na praia. Uma delas fala muito, mudando constantemente de assunto: blá-blá; a outra vai respondendo: hum-hum. O tempo passa. O sol começa a tornar-se menos quente. Pouca gente em redor. A luz está magnífica. Cada blá-blá vai encaixando harmoniosamente num hum-hum. O murmúrio do oceano embala-as e aproxima-as. Se fosse para acontecer algo de natureza romântica, chegara o momento perfeito. Em vez disso, a do hum-hum pergunta: «Fazes ideia de quantos grãos de areia existirão nesta praia?» A do blá-blá manda de imediato um número para o ar. E a amiga responde: «Exacto. Mais ou menos igual ao número de opiniões que uma pessoa normal consegue emitir em seis meses.» A luz continua magnífica, mas algo se alterou.
a gaveta do paulo
[2005 - 2026]
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXIII)
O avô dá um abraço à neta. Quando o faz, não pensa no futuro, nem em mais nada. Os abraços são isso mesmo: uma suspensão do pensamento. Se tivesse sido um abraço defeituoso, daqueles que não chegam a suspender nada, talvez pudesse ter sentido que aquele poderia ser o penúltimo abraço da sua vida. Não o último; o penúltimo, ou talvez o antepenúltimo. Mas foi um bom abraço. Igual ao primeiro. Infinito: como o tempo.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXII)
As pessoas chegam e acomodam-se confortavelmente no parque escuro e tranquilo. Olham as estrelas e permanecem em silêncio. Por vezes, alguém fala: conta uma memória pessoal. Todos os outros escutam. Depois, outra pessoa fala: também conta uma memória pessoal. Costuma haver uma brisa a balancear entre as árvores, há diversos cheiros da natureza que a maioria das pessoas que ali estão não consegue identificar. Mas ninguém fala disso, nem da brisa nem dos cheiros, limitam-se a partilhar memórias. Verbalizam-nas, e elas permanecem ali sob as estrelas durante algum tempo; suspensas, vulneráveis, livres. Trouxeram-nas à rua, tal como outras pessoas passeiam cães noutros parques.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXI)
Foi declarado um génio. Património vivo da humanidade. Nunca ocorrera na história do planeta que tanta gente se comovesse de forma tão genuína com os poemas escritos para alguém. Independentemente da geografia ou da língua, quem o lia sentia-se afectado. Tornou-se, por isso, uma das personalidades mais reconhecidas e admiradas no planeta. Ainda assim, matou-se jovem. Nunca conseguira que o vento parasse para escutar a sua poesia, nunca conseguira afectar o vento com as suas palavras; e isso fazia-o sentir irrelevante e inconsequente; uma fraude.
Duas plantas com pouco juízo (LIX)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Olha para aquilo. Não achas que é difícil respeitar uma pessoa depois de ver o estado das cuecas que pendura no estendal?» E riam.
Livro de parede
Livro de parede - 5º encontro
Um projeto de Paulo Kellerman, em parceria com a União das Freguesias de Marrazes e Barosa e as/os amigas/os da Sousa Santos - Biblioteca do Janardo, com o apoio do Município de Leiria. Fotos: Luís Melo | Musaiko para a União das Freguesias de Marrazes e Barosa
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXX)
Apenas tinha um espelho, que estava na casa de banho. Olhava-se nele duas vezes por dia, depois de se levantar e antes de se deitar. Exceptuando esses dois momentos diários, o espelho estava sempre coberto por um pano escuro. Uma vez contara a uma mulher que levara a casa e que precisara de ir à casa de banho para que servia o pano: "Serve para impedir que o espelho apanhe luz; assim, resiste melhor ao ambiente, o que retarda o seu envelhecimento. Ora, se o espelho se mantém jovem, é natural que quando me olho nele também eu pareça jovem. Entendes?" A mulher rira tanto, mas tanto, que depois disso ainda não tivera coragem de levar mais ninguém a casa. Mas continuava a tapar o espelho.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXIX)
Pediu um caderno à mãe; duas semanas depois, pediu outro. Só quando ia no quinto mostrou à mãe o que andava a fazer: escrevia números em extenso. Começara em um e chegara a dezanove mil e oitocentos. Quando já passara o cinquenta mil, descobriram o seu passatempo na escola. E quando chegou aos cem mil, houve uma pequena notícia no jornal da terra. Dizia-se que estava a tentar bater o recorde mundial de escrita de números em extenso. Não se importava que pensassem isso; não iria confessar que estava a escrever para o pai; a ajudá-lo. Sabia que ele estava num país distante e que o seu trabalho era apanhar fruta; sabia - porque ele lhe explicara - que teria dinheiro suficiente para regressar a casa depois de ter apanhado oito milhões de alperces. Antes de dormir, olhava sempre a sua pilha de cadernos onde ia registando um a um os alperces colhidos pelo pai.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXVIII)
Era um grupo quase secreto. Juntava pessoas que por algum motivo já tinham sido forçadas a transportar nos braços uma criança morta. Reuniam uma vez por semana e quase não falavam; unia-as um silêncio único e inexplicável, que expressava algo do que sentiam e eram incapazes de verbalizar. Surpreendiam-se sempre por o grupo ter tantos membros, apesar de ser quase secreto.
Duas plantas com pouco juízo (LVIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Três plantas entram num bar e sentam-se à mesa. Uma diz: a primeira que perder uma folha paga a conta.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (LVII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Não tenho qualquer problema em assumir que já fiz algumas intervenções estéticas. Um enxerto aqui, outro ali; qual o problema? Vergonha é ter ramos flácidos.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (LVI)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Qual é a tua opinião sobre lingerie vermelha? Achas que destaca o nosso verde ou é um pouco too much?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (LV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo, uma dizia: «Enquanto planta, qual é a coisa que mais te faz impressão nas pessoas?» A outra respondia: «A obsessão que têm por mamas.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (LIV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Pronto, lá vem a dona da casa outra vez com o regador... puta de merda, sempre a encharcar-nos. Será que também gostava que lhe despejassem água em cima da cabeça dia sim, dia não?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (LIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Sabes qual é a última da minha prima? Viu no instagram que oferecem viagens aos escritores para irem ao Brasil e agora também quer ser escritora. Só numa semana escreveu sete romances com inteligência artificial, mas ainda não a chamaram.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (LII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo, uma dizia: «Sabias que tal como as pessoas, há plantas que acham que são da realeza?» A outra respondia: «Ai sim? E não cagam como nós?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (LI)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Duas plantas paraplégicas chegam às urgências e dizem: estamos a entrar em trabalho de parto. A enfermeira de serviço olha para elas e diz: what the fuck, desde quando é que as plantas falam?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (L)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Para nós, cada ramo representa uma possibilidade de masturbação, não é verdade? Fico com pena das pessoas, coitadas, só com um ramito no corpo...» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XLIX)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Fizeste empréstimo para comprar o vaso? Ou alugaste e estás a pagar renda?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XLVIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo, uma dizia: «Qual foi o maior disparate que fizeste na tua juventude?» A outra respondia: «Envolver-me com um cacto. É verdade que se mantinha sempre rijo, mas só deus sabe o que sofri.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XLVII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Deixei de gostar da Shakira desde que ela se tornou vegetariana. Nós, as plantas, temos de nos unir e ser solidárias com os vegetais, vimos todos da mesma terra.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XLVI)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Gosto do que gosto, não me importo nada que me chames milf.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XLV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Ninguém me convence de que as pessoas precisam mesmo de cagar todos os dias. Cá para mim, fazem aquilo com tanta frequência porque têm gosto nisso, não sei se me entendes.» E riam.
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