Hoje vi dois pássaros entretidos num voo. Às voltas pelo céu, um à frente e outro atrás, para cima e para baixo, com grandes piruetas e ziguezagues inesperados. Achei que estariam a brincar, tal como duas crianças que jogam à apanhada, rindo alto. Depois surpreendi-me com um pensamento: e se não for uma brincadeira, mas um ataque? Se aquilo a que assisto for uma perseguição, um acto de caça inclemente? Continuo a observar, sem conseguir chegar a nenhuma conclusão. Que sei eu da natureza? Que sei eu da vida? Quase nada. E depois pensei: que sei eu de ti? Quando te olho sinto que nada sei do que pensas ou desejas; sinto que és uma desconhecida. Sabes o que pensei quando via os pássaros às voltas? Que gostava que nos divorciássemos. Gostava de voar sozinho.
a gaveta do paulo
[2005 - 2026]
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LVII)
O escritor divaga sobre a importância de encontrar um sentido para a vida. Fala de forma apaixonada e convicta, completamente seguro do que diz. A audiência escuta com atenção, aderindo ao que ouve não tanto pela excelência dos argumentos mas mais pela convicção e dramatismo com que são expostos. Até que a mulher mais bonita da audiência interrompe para explicar que não concorda: «Dizer que há um sentido para a vida é absurdo. Existe é a possibilidade de vislumbrar um sentido para determinado momento da vida. Mas para este momento em particular, que estamos aqui a viver em conjunto, não consigo encontrar qualquer sentido. Tenho de o procurar noutro lado qualquer.» E sai. O escritor fica incomodado, não tanto pela discordância pública em relação aos seus argumentos, mas por ter sido contrariado pela mulher mais bonita da audiência, que estava a tentar impressionar desde o primeiro momento.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LVI)
Ao fim do dia sentava-se no velho cadeirão, ao lado da sua árvore preferida, e contemplava o horizonte longínquo. Nunca se cansava de olhar, regressando ao que já conhecia ou descobrindo novos detalhes na paisagem; desconfiava que só fazia sentido olhar quando o que se via pudesse ser complementado pela imaginação. Até que um dia o horizonte se aborreceu de tanta contemplação e lhe disse: «Pára de olhar e faz alguma coisa. Mexe-te, caralho.»
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LV)
Toda a gente pensa que a sua obsessão enquanto arquitecto é conceber paredes perfeitas que impeçam que o ruído do mundo entre numa determinada sala. Mas a verdade é que o seu objectivo é outro: a função principal das paredes é impedir que o silêncio da sala saia e se perca no mundo.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LIV)
Era uma planta muito jovem quando chegou àquela casa. Colocaram-na à beira de uma janela, onde se habituou ao excesso de luz. Nem sempre a regavam, e também se habituou à escassez de água. Foi adoptando a milenar filosofia das plantas (aceita, babe, que dói menos) e os dias foram passando. Outra coisa a que se habituou: discussões. Muito se discutia naquela casa, dia após dia. Mas não só se habituou como incorporou essa peculiar forma de estar na vida; e deu por si a desejar discutir com alguém. Talvez um dia trouxessem outra planta, e deixaria de estar sozinha; poderia discutir. Foi sonhando, enquanto olhava pela janela.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LIII)
O relatório do técnico é claro: "O planeta é dominado por uma espécie execrável. Vão produzindo umas inovações que consideram muito avançadas, mas que na verdade são (do ponto de vista científico) muito infantis; baseando-se na suposta superioridade dessa tecnologia e da sua própria evolução enquanto criaturas auto-conscientes, desconsideram todas as restantes espécies e colocam em risco a sobrevivência do planeta. Mas mesmo entre si têm comportamentos discriminatórios e agressivos não compatíveis com o actual estado civilizacional do universo. Cito apenas um exemplo: há indivíduos desta espécie que violentam os seus semelhantes por não apreciarem o seu local de nascimento. Há milénios que não me deparava com uma espécie tão ostensivamente imbecil, como o referido exemplo comportamental demonstra. Recomendo que não seja feita qualquer aproximação por parte da sociedade das civilizações inter-espaciais e que se permita que esta espécie definhe e se auto-extinga, conduzida pela sua arrogante estupidez." O burocrata que analisa este relatório coloca-lhe um carimbo, dando despacho positivo, e sente-se feliz por não ser desses técnicos que têm de explorar territórios tão selvagens e depressivos; arrepia-se ao tomar consciência - uma vez mais - de como ainda há focos de horror espalhados pelo universo. Suspira. Sente que o trabalho se arrasta, que tarda em chegar a hora de encerrar a repartição. Suspira de novo. Talvez saia mais cedo, precisa de comprar mais tinta para o carimbo.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LII)
Por vezes, tudo o que o oceano deseja é sossego e tranquilidade; parar um pouco. Mas a lua não deixa.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LI)
Era uma vez uma pessoa que decidiu adoptar um cão. O cão instalou-se e logo adoptou uma árvore que vivia no jardim. A árvore não se importou; quando tinha adoptado aquela pessoa já sabia que mais tarde ou mais cedo viria um animal. É da natureza das famílias irem crescendo.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (L)
A estrela decidiu dormir uma sesta. Quando acordou, o minúsculo e longínquo planeta que gostava de contemplar quando acordava (tinha sonhos agitados e observar a insignificância tranquilizava-a) já não era azul.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLIX)
O homem e a mulher viviam naquela caverna há muito tempo. Aborreciam-se um pouco, assim sozinhos. Certo dia, um deles começou a emitir um som específico sempre que desejava sexo; o outro, percebendo o significado desse som, também começou a reproduzi-lo sempre que lhe apetecia. Com o tempo, passaram a desenvolver sons individualizados para cada uma das posições que, em determinado momento, queriam explorar. E assim nasceu a linguagem humana. Numa caverna, por aborrecimento.
As saudades não te impedem de voar
Companhia Nem Marias Nem Manéis em parceria com Associação Hirundo
Fotografia de cena: Cristina Vicente
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLVIII)
Foi um dia cansativo; Deus observava com desânimo a sua criação e lamentava-se. «A humanidade cansa-me tanto. Que aborrecida é toda esta gente, às voltas de um lado para o outro a pensar: ai, que eu sou tão importante.» O secretário sorriu, gostava quando Deus imitava vozes. «Nem têm consciência da sorte que têm. Não se esforçam em nada, uma tristeza. Ai, que eu sou tão especial.» O secretário voltou a sorrir; mas depois, preocupou-se porque Deus ficou demasiado tempo em silêncio, o que nunca era bom sinal. «Sabes o que podia fazer, para ver se aprendiam? Tornar a respiração um mecanismo não automático. Tinha piada, não tinha? Cada pessoa precisava concentrar-se permanentemente na respiração, e caso se distraísse parava de respirar. Desconcentrava-se, morria. Pumba. Ai, que me está a faltar o ar.» Disse isto e riu durante muito tempo. O secretário abanou a cabeça, sem sorrir.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLVII)
Viviam juntos desde sempre. E o cão já o conhecia tão bem que conseguia antecipar os seus movimentos e acções. Dizia com frequência aos vizinhos: conhece-me melhor do que me conheço a mim próprio. Por isso, foi com naturalidade que passou a confiar inteiramente no cão com quem vivia desde sempre quando o seu estado de demência evoluiu e se tornou grave. Por exemplo: levantava-se e, após dar cinco passos, esquecia-se do que pretendia fazer, de qual o destino, de qual o objectivo; então, bastava-lhe seguir o cão e ver até onde ele o conduziria. O cão sabia, o cão sabia sempre.
o EXTERIOR do INTERIOR
33 fotografias do interior do Estabelecimento Prisional de Leiria (Jovens) tiradas por reclusos.
33 textos inspirados nessas fotografias escritos por 33 autoras.
Coordenação fotográfica: Tânia Silva
Coordenação literária: Paulo Kellerman
Coordenação editorial: Patrícia Grilo
Edição: EAPN - Rede Europeia Anti-Pobreza
Apoio: Estabelecimento Prisional de Leiria (Jovens), Centro Protocolar da Justiça, Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLVI)
Os dois miúdos caminhavam por um atalho da floresta quando, nunca curva, encontraram um anjo caído no meio da estrada. Pareceu-lhes que se tinha despistado lá nos caminhos do céu e embatido numa árvore. Como acontece a qualquer pessoa normal, sentiram-se atraídos pelo acidente e foram averiguar. O anjo estava em más condições, mas respirava. Telefonaram para o número de emergência das pessoas porque não sabiam qual o número de emergência dos anjos e ficaram à espera. Quando os bombeiros chegaram e o levaram (gemia bastante, talvez se salvasse), retomaram a caminhada. Já tinha passado um bom bocado quando um disse: e se fôssemos à praia? Pode ser que nos apareça uma sereia, tinha mais jeito do que um anjo.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLV)
O ditador estava entretido no seu passeio quando reparou na árvore. Não gostou da sua cor. Voltou para trás e disse-lhe: não gosto da tua cor. A árvore não reagiu. O ditador disse: muda já de cor. A árvore continuou sem reacção. O ditador enervou-se e ordenou que deitassem a árvore abaixo. Veio a equipa de derrube e abateu a árvore. Depois veio a equipa de transporte e o cadáver da árvore desapareceu de vista. Ainda assim, o ditador não ficou satisfeito. Porque ao lado estava uma árvore da mesma cor. O ditador perguntou: não viste o que aconteceu à outra, porque não fugiste?
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLIV)
Houve um dia em que finalmente se cansou do egoísmo dele durante o sexo. Poderia ter-lhe dito delicadamente, com paciência e assim. Mas preferiu mostrar-lhe. Despiu-se completamente e deitou-se na cama; depois colocou uma espelho em cima da cara. Disse: pronto, faz lá amor contigo próprio.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLIII)
Domingo de manhã. Tenho onze anos e olho para a minha bicicleta quase nova; arranjei cinco autocolantes e estudo cuidadosamente a melhor localização para os colar. Não tenho pressa, o domingo costuma ser um dia muito comprido. Antes do lanche, dou uma volta de bicicleta; não me cruzo com ninguém que repare nos autocolantes novos. Não faz mal: depois de cada domingo sempre vem uma segunda-feira. Chego à escola atrasado porque começou a chover. Dois autocolantes perderam-se pelo caminho, descolando-se com a humidade. Lembro-me disto quarenta anos depois. Hoje, agora: a bicicleta, os autocolantes, a chuva. Tudo mudou, excepto a inevitabilidade de após um domingo vir sempre uma segunda-feira. Gostaria que alguém me tivesse avisado que as memórias são como autocolantes. Teria sido mais cuidadoso.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLII)
Quando chega a casa ao fim do dia, gosta de se sentar na varanda; bebe um café enquanto olha o horizonte vasto, atento às subtilezas e novidades. Há sempre pássaros que voam como se fossem crianças ou que - invisíveis - se dedicam às suas milenares cantorias. Quase todos os dias pensa: gostava de ser pássaro. O banco onde se senta daria para três pessoas, mas apenas o seu lugar está vago. No espaço que resta estão seis plantas; gosta de se sentar ao seu lado e imaginar que contemplam o mesmo horizonte, com o mesmo entusiasmo. Juntos. Pergunta a si próprio o que verão as plantas durante o dia; será que conversam entre si? Sentirão saudades suas? Um dia, quando chegou, perguntou-lhes numa voz baixinha: então, novidades? Não houve resposta. Sentiu-se envergonhado, mas depois pensou que talvez não tivessem ouvido por ter falado tão baixo. Voltaria a perguntar, noutro dia; mas num tom mais alto. Talvez fossem um pouco surdas.
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