Certo dia a pele começou a queixar-se. Dizia, primeiro timidamente e depois com crescente insistência: não me sinto livre. O resto do corpo ouvia, com alguma indiferença porque a pele tinha tendência para se queixar de tudo; mas a paciência foi-se consumindo. Começaram a surgir resmungos um pouco de todos os órgãos, mas nada calava a pele. Até que alguém se enervou. Disse o coração: cala-te, que já ninguém suporta tanto queixume. E depois disse: apenas tu és verdadeiramente livre neste corpo, porque apenas tu tens a possibilidade de ser tocada. O cabelo pensou: eu também posso ser tocado; mas preferiu não criar confusão e nada disse. A pele ficou em silêncio durante uns dias. Depois, primeiro timidamente e mais tarde com crescente insistência, começou a queixar-se: sinto-me demasiado livre.
a gaveta do paulo
[2005 - 2026]
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXXIII)
Todos os dias o idoso comia um chocolate mais ou menos à hora do pôr-do-sol. Um pequeno chocolate de embalagem vermelha, com nove quadradinhos. Sentava-se na sala de estar do lar, junto a uma janela; olhava lá para fora, fixando o olhar em algo indefinido ou em nada. Depois, abria a embalagem com vagar e comia sem pressa, saboreando. Por vezes, fechava os olhos; por vezes, chorava. Ninguém o incomodava durante aquele ritual; claro que comer um chocolate diariamente não era saudável, mas já estava numa idade em que não fazia grande diferença. E toda a gente sabia que aquele ritual representava um regresso ao passado, à infância; uma despedida. A reprodução de uma memória antiga: a tarde em que o seu pai lhe dera um chocolate idêntico e ele o comera à beira da janela, olhando para o jardim enquanto os pais conversavam na cozinha. O sol descia lá fora, os pássaros celebravam ruidosamente o fim do dia. Ouviu a mãe rir sete vezes, e o pai duas; uma risada por cada quadradinho de chocolate. No dia seguinte, ambos morreriam num acidente.
27 de Março de 2026
"Andamos numa busca estúpida por visibilidade, tentando a cada momento mostrar que somos únicos e especiais. E como fazemos isso? Imitando os outros. Copiando aquilo que parece dar visibilidade aos outros. Imitar para ser único. Ahahahahah. Tem tanta piada."
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXXII)
Como se esperava, veio o dia em que o mundo acabou para os seres humanos. Todos se extinguiram, e o planeta pode finalmente viver em silêncio. Uma consequência evidente do desaparecimentos da humanidade foi o despovoamento das casas; lentamente, todas foram definhando, tornando-se habitadas apenas pelo vazio. Mas o vazio é mau morador, e as casas ansiavam por repovoamento; ansiavam por acolher vida no seu interior; ansiavam por companhia. Foi então que algumas espécies de árvores começaram a nascer dentro das casas desabitadas; e lá floresceram, especialmente as que viviam em casas que optaram por abdicar do tecto para que a luz do sol e a chuva pudessem entrar livremente e alimentar os novos habitantes. Com o tempo, a paisagem passou a estar repleta destas simbioses casa-árvore: modelos perfeitos de adaptabilidade ao outro. Ramos com paredes, paredes com ramos: onde começava a árvore e terminava a casa? Prosperaram as florestas de casas arborizadas; ao longe, os mares observavam. E durante algum tempo, o planeta foi feliz.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXXI)
Acordo a pensar em ti. Talvez por ter sonhado contigo, apesar de não conseguir recordar; mas deverá ter sido um sonho intenso. Levanto-me e tomo banho; durante todo esse tempo, penso em ti; percebo como sinto saudades tuas, como me apetece ouvir-te. Depois de me vestir, pego no telefone e ligo-te. Está desligado. Como alguma coisa, bebo um café. Volto a tentar ligar. Desligado. Subitamente, tomo consciência do absurdo do meu comportamento. Morreste há três semanas e meia. Continuo com o telemóvel na mão; olho para ele, sem saber o que lhe fazer. Pergunto-me, estupidamente, o que terá acontecido ao teu telemóvel; porque raio ninguém o carrega, porque não o mantêm vivo? Sinto saudades tuas, apetece-me ouvir-te.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXX)
Vejo a floresta à minha frente. Caminho entre as árvores, olhando-as como se as conhecesse; por vezes, toco-as ao de leve. E elas correspondem: como se apertássemos as mãos. O sol desce lá à frente, inundando a atmosfera com um manto dourado e flutuante que parece envolver todas as árvores. Escuto o som ténue causado pelos meus passos na terra; e sinto que essa terra não tem idade, é anterior à minha existência, ou à existência da própria humanidade. É como pousar os pés sobre o próprio tempo, ou as estrelas: caminhar em cima da intemporalidade. Avanço passo após passo sentindo-me leve, como se a minha presença não trouxesse peso ao universo. Escuto o diálogo de animais que não conheço, pronunciando-se nos seus idiomas cantantes; um diálogo que não me exclui; sempre me espanto, como se fosse uma primeira vez: os animais da floresta cantam, as suas linguagens são canções. Ao contrário do berro que ouço, que me traz de volta à realidade. A floresta desaparece do meu espírito: tudo o que acabei de ver - sentir - ocupou três segundos da minha vida, o tempo que espaçou os dois socos. Recebo o novo embate, gemo, volto a fechar os olhos. Perante mim, surge de novo a floresta; os pés sobre a terra, os ouvidos preenchidos com as melodias ancestrais da natureza. A tortura pode prosseguir indefinidamente: o meu espírito manter-se-á livre. A minha floresta.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXIX)
Sempre foi um terapeuta atento e delicado; trabalha com cada um dos seus pacientes de forma a contribuir para a superação das angústias e dores que trazem consigo. Auxilia-os da melhor forma que sabe, estimulando-os a que percebam por si próprios as causas dos seus sofrimentos e as melhores estratégias de superação. Sabe que a sua função não é apresentar soluções, mas acompanhar cada paciente no seu próprio percurso em busca de uma possibilidade de resolução. Acompanha - presença efectiva, solidária; mas também desafiante, se necessário - o percurso feito por cada um; perante cada sucesso ou fracasso, está sempre presente. E assim aprende o que pode ser eficaz ou não; como se o seu consultório fosse, afinal, um laboratório; um local de exploração e teste, de aprendizagem. Se um dia tiver alguma daquelas dores ou angústias, poderá (talvez) aplicar em si o que aprendeu com os seus pacientes; como se, afinal, fossem eles o terapeuta. Como se eles, ao percorrerem os seus itinerários individuais de superação únicos e diferenciados, compusessem um mapa de caminhos e rotas possíveis; um mapa onde são assinalados atalhos e becos sem saída, locais de interesse ou a evitar, postos de abastecimento ou de refúgio. Um mapa precioso a cuja composição assiste dia após dia, maravilhado com a cartografia das emoções que é desenhada perante si. Agradecido aos seus pacientes por lhe mostrarem que é possível navegar entre as emoções humanas (essa selva fulgurante e misteriosa); e não se perder.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXVIII)
Um escritor tem o hábito de registar ideias e pensamentos em cadernos quase diariamente. Os anos passam e a colecção de cadernos aumenta: são dezenas deles, coloridos e de diferentes tamanhos, alinhados numa estante. Por vezes, gosta de olhar e apreciar o seu passado - assim à distância, sem entrar nele; perceber que está ali, disponível. A verdade é que sente um conforto inexplicável ao olhar aquele arquivo de pensamentos e ideias; mas é muito raro pegar num dos cadernos e ler o que escreveu. Quando o faz, a reacção é sempre a mesma: sente um enorme embaraço; questiona-se sobre os motivos de ter escrito aquilo, questiona-se sobre que pessoa era aquela e na qual já não se revê. O incómodo pode ser tão grande que costumam passar meses até voltar a abrir um dos cadernos, geralmente por distração. Apesar disso, nunca suspende a recolha de ideias, nunca cessa de registar. Os anos passam e a colecção de cadernos aumenta, imparável. Não se percebe para quê.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXVII)
Procurava uma relação estável e plena; e para isso faria o que fosse necessário. Homens que lhe eram apresentados por amigas, homens que captavam o seu interesse nas redes sociais, homens que conhecia em sequência de contactos de trabalho, homens com quem se cruzava nas aplicações de encontros: se o seu instinto os sinalizava como potencialmente interessantes, aceitava marcar um encontro. Sempre no mesmo local, um restaurante acolhedor onde se sentia em casa. Sempre com a mesma disponibilidade para se encantar. Falava, ouvia, ria; não se incomodava com os silêncios. Havia momentos em que se divertia, havia momentos em que se entediava. Mantinha sempre a mente aberta, o espírito receptivo. Apenas tinha uma regra: os jantares duravam três horas; e se durante esse período o homem com quem estava não pronunciasse pelo menos uma vez, por sua iniciativa, a palavra "amor", despedia-se e cortava de forma paremptória qualquer possibilidade de contacto futuro. Três horas, nem mais um minuto.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXVI)
O combatente tem uns dias de férias e regressa a casa. Uma das coisas em que mais pensa quando está no campo de batalha é no seu filho pequeno e em tudo o que gosta de fazer com ele; contar-lhe estórias antes de adormecer; andar de bicicleta; fazer bolos que nunca saem bem; desenhar; inventar coisas com legos; brincar com os cães; rir. Faz tudo isso nesse primeiro dia de férias; nem por um momento se lembra do campo de batalha, do regresso inevitável. Foi um dia longo que passou demasiado depressa. Acabou de lhe contar a estória para adormecer, estão ambos deitados no escuro; ouvem a respiração um do outro. Então o menino pergunta numa voz quase imperceptível: papá, mataste muitos inimigos? E depois: sabes o nome deles? E depois: sabes se tinham filhos? E depois: terei de lutar com esses filhos, tal como tu lutaste com os pais? E depois: achas que os vou conseguir matar, como tu mataste os pais deles? A cada nova questão, a voz do filho fica mais imperceptível, quase inaudível; como se não estivesse realmente a dizer palavras, mas apenas a ecoar pensamentos. O combatente não sabe como responder. Poderia estar apenas a imaginar? Poderiam aquelas perguntas - que atribui ao filho - serem, afinal, projecções dos seus próprios pensamentos? Concentra-se no murmúrio das respirações; ambos fingem que adormeceram.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXV)
No dia em que o filho nasceu, o pai plantou uma árvore no jardim. A sua ideia era que crescessem juntos, criança e árvore; em harmonia e cumplicidade. E assim foi. Desde muito cedo que o menino manteve uma relação especial com a sua árvore; uma relação que foi evoluindo para uma irmandade não declarada, mas concreta. O menino cresceu, e de repente era adulto; aprendeu que era necessário ser discreto quanto aos seus sentimentos, quando ao que revelava de si. As pessoas que o rodeavam tinham uma necessidade infinita de compreender e explicar tudo o que ouviam; e aquilo que não conseguiam compreender nem explicar era descartado como irracional; estúpido; loucura. Foi por isso que nunca contou a ninguém que considerava a árvore como uma irmã gémea. Nunca contou a ninguém que, tal como sempre acontece com os irmão gémeos, havia entre si e a árvore um elo subtil e inexplicável, espiritual, que lhes permitia ter um conhecimento íntimo do outro. Foi por isso que - muitos anos passados - soube que a árvore se aproximava da sua morte; sem revolta nem ressentimento, pois tivera uma vida feliz. Também sabia (tinham tido essa conversa muito cedo, ainda na infância) que a árvore desejava morrer à beira do mar. Tratou de tudo com serenidade, mas resolução; foi um processo caro e complexo, especialmente por causa das autorizações e licenças necessárias; mas nunca hesitou - apesar de ouvir constantes "irracional", "estúpido", "loucura". Até que se cumpriu o desígnio de ambos e a transplantação foi feita. Todos os dias vinha ao fim da tarde até à praia e juntava-se à árvore na sua nova casa; viam o pôr do sol juntos, aguardavam o anoitecer e o aparecimento das primeiras estrelas; nunca se cansavam da melodia do oceano. Mesmo depois de sentir que a árvore já não estava viva, continuou a vir durante muitos dias.
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