Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXVIII)

Por vezes, apareciam visitantes. Ele abria-lhes a porta e depois deixava-os à vontade, para que pudessem circular entre as diversas salas e explorar as dezenas de armários onde se acumulavam chaves. Cada uma dessas chaves fora criada por si, ao longo de muitos anos, e todas tinham em comum uma característica: não abriam nenhuma fechadura. Criara-as propositadamente assim: sem possibilidade de conexão. Ao lado da porta de entrada colocara um cartaz com o nome que dera ao local, Museu da Solidão. Por baixo, acrescentara uma citação da bíblia: "E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança..."

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXVII)

Olham-se quando entram no autocarro e fingem não se reconhecer. Depois, ambos mudam de ideia - quase, quase em simultâneo - e saúdam-se timidamente. Conversa de circunstância. Desvio de olhares. Foram amigos. Dormiram juntos uma única vez. Afastaram-se logo de seguida, nunca mais se cruzaram. Trinta anos depois, encontram-se num autocarro. Acabam por sorrir. Decidem fazer a viagem juntos. Quando já estão perto do destino, dão as mãos e ficam em silêncio. Despedem-se com um abraço, seguem em direcção aos seus destinos. Caminham abstraídos, cada um no seu passeio, ambos com a mente repleta de imagens (o que foi, o que poderia ter sido, o que ainda poderia vir a ser). Ambos sorriem, mas só um morre atropelado numa passadeira por não parar quando devia. Não teve tempo de deixar de sorrir.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXVI)

Sim, conhecia linguagem gestual. Mas preferia andar sempre com um caderninho e escrever nele o que queria dizer; gostava de desenhar as letras, uma a uma; gostava de olhar a pessoa enquanto lia o que lhe escrevera e antecipar no seu rosto abstraído a resposta que viria. Quando se apaixonava por alguém, partilhava alguns dos seus caderninhos; achava que era uma forma de se dar a conhecer, como se partilhasse um diário íntimo. Mas as pessoas por quem se apaixonava rapidamente deixavam de se interessar pelos caderninhos. Uma delas disse, certa vez: «Preciso de ouvir-te dizer que me amas, não me basta lê-lo.» Não soube o que responder. Se pudesse falar, teria dito: talvez um dia encontre alguém que aprecie um amor silencioso.  

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXV)

«A democracia é o mais perfeito dos sistemas. Porque é o único que permite que cada pessoa participe convictamente na eleição de alguém que, no futuro, a irá prejudicar.» Disse o ditador; e riu.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXIV)

As duas amigas estão na praia. Uma delas fala muito, mudando constantemente de assunto: blá-blá; a outra vai respondendo: hum-hum. O tempo passa. O sol começa a tornar-se menos quente. Pouca gente em redor. A luz está magnífica. Cada blá-blá vai encaixando harmoniosamente num hum-hum. O murmúrio do oceano embala-as e aproxima-as. Se fosse para acontecer algo de natureza romântica, chegara o momento perfeito. Em vez disso, a do hum-hum pergunta: «Fazes ideia de quantos grãos de areia existirão nesta praia?» A do blá-blá manda de imediato um número para o ar. E a amiga responde: «Exacto. Mais ou menos igual ao número de opiniões que uma pessoa normal consegue emitir em seis meses.» A luz continua magnífica, mas algo se alterou. 

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXIII)

O avô dá um abraço à neta. Quando o faz, não pensa no futuro, nem em mais nada. Os abraços são isso mesmo: uma suspensão do pensamento. Se tivesse sido um abraço defeituoso, daqueles que não chegam a suspender nada, talvez pudesse ter sentido que aquele poderia ser o penúltimo abraço da sua vida. Não o último; o penúltimo, ou talvez o antepenúltimo. Mas foi um bom abraço. Igual ao primeiro. Infinito: como o tempo.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXII)

As pessoas chegam e acomodam-se confortavelmente no parque escuro e tranquilo. Olham as estrelas e permanecem em silêncio. Por vezes, alguém fala: conta uma memória pessoal. Todos os outros escutam. Depois, outra pessoa fala: também conta uma memória pessoal. Costuma haver uma brisa a balancear entre as árvores, há diversos cheiros da natureza que a maioria das pessoas que ali estão não consegue identificar. Mas ninguém fala disso, nem da brisa nem dos cheiros, limitam-se a partilhar memórias. Verbalizam-nas, e elas permanecem ali sob as estrelas durante algum tempo; suspensas, vulneráveis, livres. Trouxeram-nas à rua, tal como outras pessoas passeiam cães noutros parques. 

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXI)

Foi declarado um génio. Património vivo da humanidade. Nunca ocorrera na história do planeta que tanta gente se comovesse de forma tão genuína com os poemas escritos para alguém. Independentemente da geografia ou da língua, quem o lia sentia-se afectado. Tornou-se, por isso, uma das personalidades mais reconhecidas e admiradas no planeta. Ainda assim, matou-se jovem. Nunca conseguira que o vento parasse para escutar a sua poesia, nunca conseguira afectar o vento com as suas palavras; e isso fazia-o sentir irrelevante e inconsequente; uma fraude. 

Bastidores


Fotografia: Cristina Vicente

Duas plantas com pouco juízo (LIX)

As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Olha para aquilo. Não achas que é difícil respeitar uma pessoa depois de ver o estado das cuecas que pendura no estendal?» E riam.

Livro de parede





Livro de parede - 5º encontro

Um projeto de Paulo Kellerman, em parceria com a União das Freguesias de Marrazes e Barosa e as/os amigas/os da Sousa Santos - Biblioteca do Janardo, com o apoio do Município de Leiria. Fotos: Luís Melo | Musaiko para a União das Freguesias de Marrazes e Barosa

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXX)

Apenas tinha um espelho, que estava na casa de banho. Olhava-se nele duas vezes por dia, depois de se levantar e antes de se deitar. Exceptuando esses dois momentos diários, o espelho estava sempre coberto por um pano escuro. Uma vez contara a uma mulher que levara a casa e que precisara de ir à casa de banho para que servia o pano: "Serve para impedir que o espelho apanhe luz; assim, resiste melhor ao ambiente, o que retarda o seu envelhecimento. Ora, se o espelho se mantém jovem, é natural que quando me olho nele também eu pareça jovem. Entendes?" A mulher rira tanto, mas tanto, que depois disso ainda não tivera coragem de levar mais ninguém a casa. Mas continuava a tapar o espelho. 

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXIX)

Pediu um caderno à mãe; duas semanas depois, pediu outro. Só quando ia no quinto mostrou à mãe o que andava a fazer: escrevia números em extenso. Começara em um e chegara a dezanove mil e oitocentos. Quando já passara o cinquenta mil, descobriram o seu passatempo na escola. E quando chegou aos cem mil, houve uma pequena notícia no jornal da terra. Dizia-se que estava a tentar bater o recorde mundial de escrita de números em extenso. Não se importava que pensassem isso; não iria confessar que estava a escrever para o pai; a ajudá-lo. Sabia que ele estava num país distante e que o seu trabalho era apanhar fruta; sabia - porque ele lhe explicara - que teria dinheiro suficiente para regressar a casa depois de ter apanhado oito milhões de alperces. Antes de dormir, olhava sempre a sua pilha de cadernos onde ia registando um a um os alperces colhidos pelo pai.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXVIII)

Era um grupo quase secreto. Juntava pessoas que por algum motivo já tinham sido forçadas a transportar nos braços uma criança morta. Reuniam uma vez por semana e quase não falavam; unia-as um silêncio único e inexplicável, que expressava algo do que sentiam e eram incapazes de verbalizar. Surpreendiam-se sempre por o grupo ter tantos membros, apesar de ser quase secreto.

Duas plantas com pouco juízo (LVIII)

As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Três plantas entram num bar e sentam-se à mesa. Uma diz: a primeira que perder uma folha paga a conta.» E riam.

10 anos a fotografar palavras







Fotos: Gil de Lemos

Duas plantas com pouco juízo (LVII)

As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Não tenho qualquer problema em assumir que já fiz algumas intervenções estéticas. Um enxerto aqui, outro ali; qual o problema? Vergonha é ter ramos flácidos.» E riam.

Duas plantas com pouco juízo (LVI)

As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Qual é a tua opinião sobre lingerie vermelha? Achas que destaca o nosso verde ou é um pouco too much?» E riam.

Duas plantas com pouco juízo (LV)

As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo, uma dizia: «Enquanto planta, qual é a coisa que mais te faz impressão nas pessoas?» A outra respondia: «A obsessão que têm por mamas.» E riam.

Duas plantas com pouco juízo (LIV)

As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Pronto, lá vem a dona da casa outra vez com o regador... puta de merda, sempre a encharcar-nos. Será que também gostava que lhe despejassem água em cima da cabeça dia sim, dia não?» E riam.

Duas plantas com pouco juízo (LIII)

As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Sabes qual é a última da minha prima? Viu no instagram que oferecem viagens aos escritores para irem ao Brasil e agora também quer ser escritora. Só numa semana escreveu sete romances com inteligência artificial, mas ainda não a chamaram.» E riam.

Duas plantas com pouco juízo (LII)

As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo, uma dizia: «Sabias que tal como as pessoas, há plantas que acham que são da realeza?» A outra respondia: «Ai sim? E não cagam como nós?» E riam.

Duas plantas com pouco juízo (LI)

As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Duas plantas paraplégicas chegam às urgências e dizem: estamos a entrar em trabalho de parto. A enfermeira de serviço olha para elas e diz: what the fuck, desde quando é que as plantas falam?» E riam.

Duas plantas com pouco juízo (L)

As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Para nós, cada ramo representa uma possibilidade de masturbação, não é verdade? Fico com pena das pessoas, coitadas, só com um ramito no corpo...» E riam.

Duas plantas com pouco juízo (XLIX)

As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Fizeste empréstimo para comprar o vaso? Ou  alugaste e estás a pagar renda?» E riam.