Artista em digressão


Fotografia: Ana Gilbert

A irrevogabilidade do toque

O corpo é uma caixa de Pandora que pode ser aberta a qualquer momento. Basta um toque. 

A ciência é incapaz de provar que as pedras têm sentido de humor

Sísifo nunca se lembrou de perguntar à pedra: porque insistes em descer montanha abaixo, sempre que te trago até ao topo?
Talvez a resposta da pedra fosse: gosto de movimento.

A montanha certa

O que Sísifo não percebeu: a pedra não queria ficar naquela montanha. Não rolava até ao ponto de partida para o castigar; rolava porque aquela não era a sua montanha. Seria essa a forma de Sísifo se libertar do castigo imposto pelos deuses: levar a pedra para a montanha certa. 

335 » 347

Dicionário improvisado. Jornal de Leiria (online e versão papel).

Leis universais

A imaginação explica o mundo.
Tal como o toque explica o amor.

29 de Janeiro de 2026, 22h05

A tempestade foi devastadora.
Toda a região está num estado caótico, destruição visível por todo o lado.
Ainda não há energia eléctrica, nalguns sítios serão precisas semanas até que as casas voltem a ter luz.
Durante quilómetros, apenas escuridão, aldeia após aldeia.
Nenhum vestígio de iluminação.
Como se o mundo estivesse apagado.
Até que de repente, numa curva acentuada, surge à beira da estrada uma casa que tem luz nas janelas. 
Algum afortunado com gerador.
Um afortunado que aprecia o natal: daquelas pessoas que colocam iluminações natalícias no exterior da casa, linhas de luz a acompanhar as linhas da casa.
Quilómetros de escuridão, e de repente um oásis de luz.
Luz natalícia.
Talvez seja estupidez, talvez seja esperança.
A linha entre ambas sempre foi muito ténue.

Pelo contrário

"Talvez não queiramos, simplesmente, demonstrar fraqueza e vulnerabilidade, talvez não queiramos denunciar-nos; ou, pelo contrário, seremos todos boas pessoas, que se retraem para que a nossa tristeza não contagie as pessoas de quem gostamos, que não têm culpa nenhuma?"

Consultório
2011

Diálogo de cegos

"- Um jardineiro cego? Como é possível?
- As árvores não têm olhos, pois não? Portanto, estão no mesmo nível, ele e as árvores. Sem visão.
- Comunicam de outra forma.
- Sim, uma comunicação baseada na confiança. Não no olhar e nas avaliações que se fazem a partir do olhar. Mas na confiança."

Porque não paramos?
2022

Nudez



Aequilibria
(com a fotógrafa Elsa Arrais)
2025

O grito


A casa que (ainda) temos dentro
Fotografia de cena: Íris Rocha

23 de Janeiro




A casa que (ainda) temos dentro
Fotografia de cena: Cristina Vicente

A importância de pensar

"Talvez a identidade resida no que se pensa. Sou o que penso?"

Aviões de papel
2020

Talvez

"O alívio é uma forma de felicidade?"

O osso da vida
2022

É

"Queres alguém que te olhe sem decepção, sem aquele desejozinho ranhoso de te tornar melhor, não é?"

Serviços mínimos de felicidade
2016

Lição

"Se uma árvore pudesse caminhar, nunca deixaria as suas raízes para trás."

A casa que (ainda) temos dentro
2026

Ainda

Home cinema

"Talvez a realidade seja uma tela onde se projecta o que já se viveu, o que se imagina, o que se sonha."

Phantasos
2026

Resistência

"Ainda sonho memórias."

O osso da vida
2022

Bullying

"Deus brinca connosco. Goza connosco. Faz-no sofrer, oferece-nos ilusões, manda-nos autocarros para cima. Mata-nos sem aviso. Será que se ri de nós? Como será o riso de deus? Como podemos acreditar na existência de um deus se não lhe conhecemos o riso?"

Diário de quem ficou (II)
2024

Evolução

No início, havia primatas.
Daí evoluíram humanos e macacos.
Os macacos evoluíram para macacos.
Os humanos evoluíram para carneiros.
Os carneiros avançam para o matadouro. Pelo caminho, vão tirando selfies.

Por trás da cortina


Fotografia de ensaio: Cristina Vicente

Realidade incompleta

"A realidade é apenas um suporte: precisa de ser complementada. Um recipiente: precisa de ser preenchida."

Phantasos
2026

Ou mais

II

Talvez o amor
Seja feito de tempo.

Tal como de tempo são feitas algumas árvores,
Daquelas que vivem duzentos anos
Ou mais.

Será que o amor também morre de pé?

E quando acabarem as perguntas?
2022

Repórter de imagem


A casa que (ainda) temos dentro
Fotografia de ensaio: Cristina Vicente