Procurava uma relação estável e plena; e para isso faria o que fosse necessário. Homens que lhe eram apresentados por amigas, homens que captavam o seu interesse nas redes sociais, homens que conhecia em sequência de contactos de trabalho, homens com quem se cruzava nas aplicações de encontros: se o seu instinto os sinalizava como potencialmente interessantes, aceitava marcar um encontro. Sempre no mesmo local, um restaurante acolhedor onde se sentia em casa. Sempre com a mesma disponibilidade para se encantar. Falava, ouvia, ria; não se incomodava com os silêncios. Havia momentos em que se divertia, havia momentos em que se entediava. Mantinha sempre a mente aberta, o espírito receptivo. Apenas tinha uma regra: os jantares duravam três horas; e se durante esse período o homem com quem estava não pronunciasse pelo menos uma vez, por sua iniciativa, a palavra "amor", despedia-se e cortava de forma paremptória qualquer possibilidade de contacto futuro. Três horas, nem mais um minuto.
a gaveta do paulo
[2005 - 2026]
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXVI)
O combatente tem uns dias de férias e regressa a casa. Uma das coisas em que mais pensa quando está no campo de batalha é no seu filho pequeno e em tudo o que gosta de fazer com ele; contar-lhe estórias antes de adormecer; andar de bicicleta; fazer bolos que nunca saem bem; desenhar; inventar coisas com legos; brincar com os cães; rir. Faz tudo isso nesse primeiro dia de férias; nem por um momento se lembra do campo de batalha, do regresso inevitável. Foi um dia longo que passou demasiado depressa. Acabou de lhe contar a estória para adormecer, estão ambos deitados no escuro; ouvem a respiração um do outro. Então o menino pergunta numa voz quase imperceptível: papá, mataste muitos inimigos? E depois: sabes o nome deles? E depois: sabes se tinham filhos? E depois: terei de lutar com esses filhos, tal como tu lutaste com os pais? E depois: achas que os vou conseguir matar, como tu mataste os pais deles? A cada nova questão, a voz do filho fica mais imperceptível, quase inaudível; como se não estivesse realmente a dizer palavras, mas apenas a ecoar pensamentos. O combatente não sabe como responder. Poderia estar apenas a imaginar? Poderiam aquelas perguntas - que atribui ao filho - serem, afinal, projecções dos seus próprios pensamentos? Concentra-se no murmúrio das respirações; ambos fingem que adormeceram.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXV)
No dia em que o filho nasceu, o pai plantou uma árvore no jardim. A sua ideia era que crescessem juntos, criança e árvore; em harmonia e cumplicidade. E assim foi. Desde muito cedo que o menino manteve uma relação especial com a sua árvore; uma relação que foi evoluindo para uma irmandade não declarada, mas concreta. O menino cresceu, e de repente era adulto; aprendeu que era necessário ser discreto quanto aos seus sentimentos, quando ao que revelava de si. As pessoas que o rodeavam tinham uma necessidade infinita de compreender e explicar tudo o que ouviam; e aquilo que não conseguiam compreender nem explicar era descartado como irracional; estúpido; loucura. Foi por isso que nunca contou a ninguém que considerava a árvore como uma irmã gémea. Nunca contou a ninguém que, tal como sempre acontece com os irmão gémeos, havia entre si e a árvore um elo subtil e inexplicável, espiritual, que lhes permitia ter um conhecimento íntimo do outro. Foi por isso que - muitos anos passados - soube que a árvore se aproximava da sua morte; sem revolta nem ressentimento, pois tivera uma vida feliz. Também sabia (tinham tido essa conversa muito cedo, ainda na infância) que a árvore desejava morrer à beira do mar. Tratou de tudo com serenidade, mas resolução; foi um processo caro e complexo, especialmente por causa das autorizações e licenças necessárias; mas nunca hesitou - apesar de ouvir constantes "irracional", "estúpido", "loucura". Até que se cumpriu o desígnio de ambos e a transplantação foi feita. Todos os dias vinha ao fim da tarde até à praia e juntava-se à árvore na sua nova casa; viam o pôr do sol juntos, aguardavam o anoitecer e o aparecimento das primeiras estrelas; nunca se cansavam da melodia do oceano. Mesmo depois de sentir que a árvore já não estava viva, continuou a vir durante muitos dias.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXIV)
Toda a gente lhe dizia o mesmo: a identidade de uma pessoa baseia-se na sua memória. Isso irritava-o porque significava que a sua personalidade estaria sempre associada ao passado, o que lhe parecia muito limitativo. Gostaria de ser mais condicionado pelo futuro do que pelo passado. Claro que poderia incorporar em si - naquilo que era - as suas expectativas e previsões em relação ao que esperava para o futuro, deixando de estar apenas vinculado ao passado. Mas as suas expectativas e previsões alteravam-se constantemente, por vezes de forma radical. Integrar essa volatilidade no seu quotidiano seria arriscado e, de certa forma, ingerível. O que fazer, então, para trazer o futuro para o presente? Decidiu inovar. As memórias são, por natureza, retrospectivas; para se constituírem, vão buscar algo ao passado. Mas e se existissem memórias prospectivas? Memórias que procuram algo no futuro e se formam a partir disso. Como uma semente que já se consegue visualizar - e sentir - como árvore. Claro que o futuro está por acontecer. Então - pensou, com entusiasmo - há que imaginar o futuro a partir do presente; e depois, ir a esse futuro imaginado buscar matéria para formar memórias, tal como se vai ao passado para fazer exactamente o mesmo. Assumir cada expectativa e previsão não como possibilidade mas como efectividade. Claro que essas memórias imaginadas e depois recordadas poderão não ser totalmente fidedignas; mas as memórias assentes no passado também não o são. Cada memória que tens - explicou uma vez a um amigo, que depois nunca mais lhe falou - é uma ficção; que importa se essas ficções se baseiam no que aconteceu ou no que ainda pode vir a acontecer?
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXIII)
Sempre foi acusado de não revelar emoções; de ser frio e pouco empático; de parecer quase maquinal, para não dizer desumano. Cansou-se das acusações e foi ao psicólogo procurar uma solução. E o psicólogo fez o seu diagnóstico: lamento, mas parece que não tem a capacidade de mostrar emoções porque, na verdade, não as sente. Ouviu aquilo e pensou: isso sei eu. Mas questionou: e qual o tratamento para isso? O psicólogo não hesitou: inventar emoções. Admirou-se e quis confirmar: fingir? O psicólogo explicou que se inventasse emoções podia acontecer que a sua estrutura mental se habituasse àquela novidade e começasse a absorver essas invenções e, com o tempo, a replicá-las. Como se estivesse a auto-condicionar-se a sentir; ou a aprender. Aplicou a instrução e as pessoas que o rodeavam logo notaram a diferença. Era-lhe fácil fingir. Admirou-se por nunca se ter lembrado de o fazer; facilitava-lhe muito a vida. Quando lhe perguntavam qual a origem daquele milagre, falava do psicólogo. E surpreendia-se por as pessoas da sua vida não distinguirem entre emoções reais ou fingidas, como se afinal não existisse diferença.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXII)
Iniciara a tradição no final da adolescência e ainda a cumpria, apesar de já ter mais de cinquenta anos; quase sessenta. Era simples: no primeiro dia da Primavera olhava-se ao espelho durante algumas horas. Via tudo o que tinha perante si, estudava cada detalhe, analisava cada pormenor, descobria nuances ou até novidades, reencontrava surpresas entretanto esquecidas; memorizava o seu rosto. Demorava o tempo que fosse necessário, sem pressa; depois, arrumava o espelho num armário e focava-se no que memorizara. Desde o final da adolescência que apenas se olhava ao espelho uma vez por ano. Durante trezentos e sessenta e quatro dias, a memória era o seu espelho.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXI)
Desde cedo que se entusiasmara com a namorada do amigo. Na sua perspectiva, era um interesse relativamente inofensivo, alimentado exclusivamente na sua própria imaginação. Parecia-lhe que fantasiar com outras pessoas não era problemático; apenas seria complicado se aquilo que imaginava começasse de alguma forma a condicionar o seu comportamento; se a imaginação contaminasse a própria vida quotidiana. O que não era o caso. Portanto, imaginava coisas; e nada mais. Até que num dia de bebedeira o amigo revelou detalhes de uma das suas sessões sexuais com a namorada. Muitos detalhes. Um filme inteiro. Ele escutou com atenção e reteve cada pormenor; construiu uma memória fiel e minuciosa do que fora vivido pelo amigo. Passou a ver muitas vezes aquele filme. E nunca teve consciência do que acabou por acontecer: em determinado momento passou a ser ele o protagonista do filme, substituindo o amigo. Apropriando-se da memória alheia. No fundo, talvez fosse como o oxigénio: anda por aí na atmosfera, disponível; não tem dono. Respira-se e pronto. Tal como as memórias: usurpam-se e pronto.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XX)
Um homem caminha pelo parque ao fim do dia, entretido a olhar as pessoas com quem se cruza e a pensar na vida. De repente, desmaia. Quando acorda no hospital, não sabe quem é; não tem qualquer memória, qualquer referência. Nada. Com o tempo, os médicos percebem que o seu cérebro não irá recuperar: todas as memórias perdidas para sempre; e com elas, a base da sua identidade. As pessoas que o amam, e que lhe asseguram que ele ama de volta, iniciam um lento e paciente processo de reconstrução da sua memória, contando-lhe recordação após recordação. Ele vai guardando o que lhe transmitem e reconstruindo a sua identidade a partir do que que ouve e aprende sobre si próprio. Decepcionado, porque não gosta da pessoa que está a descobrir; da pessoa que supostamente era; da versão de si que os outros conheciam. Surpreendido com as pessoas que o amam, e que lhe asseguram que ele ama de volta: será que acreditarão mesmo que basta inserir um conjunto de memórias num corpo e, por magia, obter a exacta pessoa que pretendem?
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XIX)
Desde que perdera a mobilidade, passava muito tempo à janela. Olhava o pedaço de mundo que tinha pela frente e parecia nunca se aborrecer. Os netos foram desistindo de o tentar convencer a pedir ajuda para sair do quarto, a abandonar a janela durante algumas horas; a entrar no mundo. Tentavam perceber qual o fascínio de olhar sempre para o mesmo. Perguntavam: gostas de observar as pessoas que passam todos os dias e aprender a conhecê-las à distância? Ele sorria e respondia que sim. Ou perguntavam: gostas de ver os aviões que passam alto e imaginar quem lá irá e para onde e fazer o quê? Ele sorria e respondia que sim. Os netos tranquilizavam-se, impressionados por o avô já não esperar nada; por se limitar a estar, e isso ser suficiente. Parecia-lhes uma forma de sabedoria e falavam com orgulho do avô àqueles amigos que nunca tinham tempo para nada, que nunca paravam, que viviam sôfregos e ansiosos. No seu quarto, o velho olhava pela janela. Com esperança de que alguma daquelas pessoas que todos os dias ali passavam caísse e partisse a cabeça, morrendo ali mesmo; ou que um daqueles aviões pequeninos que passavam entre as nuvens caísse do outro lado da rua.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XVIII)
Toda a gente conhece a mulher naquela rua; quem ali vive, quem ali trabalha: habituaram-se a olhá-la como se fosse um cartaz publicitário afixado na paragem do autocarro; vê-se uma vez, talvez se leia quase tudo, esquece-se logo de seguida; apesar de continuar ali durante semanas. A mulher caminha sempre devagar, talvez por limitações físicas causadas por uma qualquer dor crónica, talvez porque não tem horário de chegada a nenhum lugar. Sempre com sacos na mão, de aspecto pesado. O que transportará? Algumas pessoas já se questionaram, mas nunca ninguém lhe perguntou. Há algo na expressão da mulher que impõe limites, como se a envolvesse uma cortina que ninguém se atreve a transpor. Até que um dia a mulher atravessa a rua a cantar. Muitas pessoas confirmam para si próprias o que tinham pensado: talvez seja um pouco louca. Incomodam-se porque o inesperado e o inexplicável quase sempre causa desconforto. Mas o canto é belo. Como se aquela mulher fosse uma cantora profissional numa sala de concertos. Passa devagar, arrastando os sacos; levando consigo o canto, que vai deixando um rasto atrás de si como um eco que pousa suavemente sobre a rua. No dia seguinte, a mulher volta a passar em silêncio, fazendo a sua travessia ritual que apenas para si faz sentido. Quem a ouviu cantar no dia anterior sente uma inesperada angústia, causada pelo silêncio; como se a normalidade fosse, afinal, o canto. Para essas pessoas, o resto do dia tornou-se inexplicavelmente melancólico. Mas talvez no dia seguinte a mulher volte a descerrar a cortina.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XVII)
Tinha um espírito curioso e leve. Isso significava que gostava de conhecer novas pessoas e descobri-las, envolver-se com elas. Também gostava muito de sexo. E durante umas semanas tudo corria bem. Mas com o tempo começava a sentir algum incómodo em relação à pessoa com quem estava; e esse desconforto ocorria sempre após o sexo. Era como se de repente começasse a ver aquela pessoa noutra perspectiva, a perceber-lhe limitações e defeitos. Como se o pós-sexo revelasse a essência da pessoa, na sua crueza e rugosidade. Afastava-se e algum tempo depois começava um novo relacionamento com outra pessoa. E voltava a acontecer o mesmo: a descoberta, o encanto, o prazer, o estranhamento, o desagrado. Começou a ser demasiado perturbador, pelo que de forma inconsciente foi espaçando os relacionamentos. Uma protecção. O seu espírito tornou-se menos curioso e leve. Percebia que o problema só surgia após o sexo, mas na verdade não lhe interessavam relacionamentos que excluíssem actividade sexual. Foi tornando-se mais solitária porque doía-lhe investir em relacionamentos que sabia que durariam apenas algumas semanas (até contabilizou: o desconforto surgia em média a partir da décima quinta relação sexual com determinado parceiro). Foi então que se dedicou à masturbação; percebeu que poderia ser um substituto razoável. Até que um dia, após uma sessão particularmente intensa, sentiu pela primeira vez o sentimento de estranhamento surgir; mas como era ela o seu próprio parceiro, o desagrado direcionou-se em relação a si.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XVI)
A função dela é acompanhar pessoas que estão a morrer. Estar presente. Pegar a mão. Partilhar silêncio. Dar tempo. Ouvir. Guardar. Sabe com precisão quantas pessoas acompanhou; os seus nomes, os seus rostos, os seus cheiros, os seus olhares; e as suas palavras. Porque guarda frases ditas por cada uma dessas pessoas: as suas emoções convertidas em palavras. Uma herança que guarda e partilha. Todas as semanas visita uma escola e passa uma hora com os meninos do terceiro ano. Leva-lhes bolos, sorrisos, abraços. E as palavras que herdou. Em cada semana, as crianças são desafiadas a escrever estórias. O ponto de partida de cada uma dessas estórias é uma frase que ela escutou de alguém que morreria em breve e que transmite àqueles jovens escritores. As crianças não conhecem a origem das frases, mas apreciam o desafio de escrever; apreciam ler em voz alta os textos que inventaram; apreciam os elogios. Não sabem que ao integrar aquelas frases em estórias estão a preservar a memória de pessoas que nunca conheceram; estão a mantê-las vivas. Estão a participar na fluidez incessante do universo.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XV)
Um escritor decide escrever a sua autobiografia. Para isso, inicia um processo de recolha de memórias; todos os dias, durante algumas horas, regista momentos da sua vida. Passadas algumas semanas, começa a sentir dificuldade em recordar novas memórias, o que implica fazer um maior esforço de concentração e busca. Disciplina-se a procurar memórias desaparecidas, apesar da crescente frustração que sente por a consciencialização ser difícil e até dolorosa. Mas com o passar do tempo, percebe que após um período de maior dificuldade acaba por surgir um detalhe novo, interessante, até surpreendente, que depois precisa explorar. Como encontrar um dedo na terra e escavar em redor até tornar visível a estátua a que o dedo pertence. Esse processo de escavar memórias a partir da frustração vai-se tornando produtivo. Surgem memórias inesperadas, que vai registando. Em nenhum momento ocorre ao escritor que o seu cérebro pode estar a inventar recordações, como mecanismo de defesa contra a dor de não ser capaz de apresentar memórias. Em nenhum momento lhe ocorre que pode não haver estátuas; apenas terra.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XIV)
Uma mulher escreve um diário durante décadas. Quando perde a capacidade de escrever, por não conseguir controlar os tremores das mãos, decide interromper a escrita. Mas não abandonada os diários. Pelo contrário: passa os seus dias a reler pedaços do que escreveu, escolhendo ao acaso entre os muitos cadernos que preencheu ao longo dos anos. A recordar. A reviver. Tal como os seus colegas do lar passam os dias a ver televisão para se distraírem, ela entretém-se com o que foi a sua própria vida; como se visse uma telenovela de que foi protagonista.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XIII)
Um cientista cria um teste de felicidade simples e barato, que pode ser utilizado por qualquer pessoa em qualquer momento. Apenas existem dois resultados possíveis: positivo (a pessoa está feliz) ou negativo (a pessoa não está feliz). O uso do teste começa por ser uma brincadeira, até que com o tempo se torna uma ferramenta social de uso comum. Depois chega o dia em que as autoridades começam a interpelar pessoas ao acaso, obrigando-as a fazer o teste; e sempre que alguém apresenta resultado negativo, a pessoa pode ser detida. A acusação é a de propagar uma doença altamente contagiosa, a infelicidade, sendo portanto uma ameaça para a sociedade.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XII)
O plano da aranha é construir uma teia gigante. Não apenas para ser gigante, pois não se preocupa em bater recordes. A aranha tem um objectivo específico; um plano secreto. Dia após dia, continua a trabalhar na sua obra, focada e determinada como apenas as aranhas conseguem ser. Não partilha com ninguém o seu desígnio, talvez caiba aos vindouros (os seus biógrafos; sim, considera que a sua missão é de tal envergadura que não faltarão biógrafos a querer contar a sua história) procurar pistas, recolher os subtis indícios que vai deixando. O plano secreto da aranha é ser a primeira na história a conseguir capturar um elefante com uma teia. Dia após dia, tece o seu sonho.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XI)
Um homem percebe que foi a única pessoa no seu grupo de amigos que teve uma mãe que não lhe cantou na infância. Começa por desvalorizar esta descoberta; mas como sempre teve a percepção de ter sido uma criança feliz, essa ausência começa a incomodá-lo. Como pode um adulto ser feliz se a mãe não lhe cantou canções de embalar? Decide que precisa de esclarecer o assunto com a mãe, sem acusação mas apenas para entender. Durante semanas, tenta questioná-la em todas as visitas que faz ao lar onde ela vive. Mas nunca tem coragem. Até que chega finalmente o dia em que lhe consegue perguntar: porque nunca me cantaste, quando era criança? A mãe surpreende-se. Depois de um longo silêncio, pergunta-lhe: não te lembras? E na sua voz idosa e cansada, ténue, frágil, canta um pedaço de uma música. Ele não consegue lembrar-se, tem a certeza de que é a primeira vez que ouve aquela canção. Ou poderá estar enganado? Responde que sim, que se lembra. A mãe recomeça e continua a cantar durante muito tempo, enquanto ele escuta e pensa que ainda bem que perguntou; ainda bem que foi a tempo de ouvir a sua mãe cantar-lhe.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (X)
Uma pergunta que a atormentava era: o que vêem as pessoas que amo quando fecham os olhos? Outra pergunta: que coisas tão especiais procuram que precisam de fechar os olhos para as ver? Não o poderia confessar a ninguém, mas era por isso que as suas relações nunca duravam muito tempo: não suportava ser incapaz de ver aquilo que as pessoas que amava viam quando fechavam os olhos; não suportava que elas não partilhassem consigo as suas visões interiores.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (IX)
Um recluso passa vários anos na prisão, sendo sempre tratado pelo seu número. Quando é libertado, fica chocado quando é chamado pelo nome, que não está habituado a ouvir e do qual se distanciou. Percebe que a sua identidade passou a estar associada ao número pelo qual era conhecido e nomeado na prisão. Pede para continuar a ser chamado desse modo: pelo número que se tornou um espelho da sua identidade. Este pedido não é compreendido por ninguém, sendo ridicularizado. Mas isso não o impede de iniciar uma luta pelo reconhecimento da sua especificidade enquanto pessoa, que passa por ser chamado pelo nome com que realmente se identifica: Quinhentos e Trinta e Sete.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (VIII)
Houve um homem que sentia frequentemente vontade de chorar. Mas recusava-se a fazê-lo, porque tinha vergonha de ser visto; e mesmo que o fizesse em privado, haveria sempre o risco de ser surpreendido por alguém. Não o preocupava tanto que se soubesse que chorava, mas que fosse visto a fazê-lo; para si, seria como ser visto a masturbar-se; ou a fazer sexo com alguém. Uma insuportável quebra da sua intimidade. Vivia portanto dividido entre a necessidade de chorar e a recusa em fazê-lo, para não ser surpreendido. Só em raras ocasiões cedia a essa necessidade; e quando isso ocorria, o lugar era sempre o mesmo: trancado numa casa de banho pública, num qualquer lugar anónimo e sem relação com a sua vida. E foi precisamente numa dessas ocasiões que teve uma ideia inesperada: porque não inventar locais de choro, tal como existiam casas de banho públicas? Choradouros públicos. Porque não?
Liberdade?
Apenas sou verdadeiramente livre na imaginação.
Mas, por vezes, a imaginação domina-me. Sou seu escravo.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (VII)
Uma pessoa descobre por acaso que em criança foi hipnotizada a pedido dos pais, tendo-lhe sido implantadas memórias falsas. Não sabe quais, nem quantas. Percebe que a sua personalidade se desenvolveu a partir de experiências e memórias de infância não fiáveis; baseada em mentiras. Porque fariam os seus pais tal coisa? Odeia-os pelo que fizeram e por apenas o ter descoberto após a sua morte, e não os poder confrontar. Questiona toda a sua vivência, assente numa personalidade condicionada por falsidades, sendo forçada a reconhecer que a sua vida tem sido equilibrada e feliz. Uma vida bastante feliz, na verdade. Terão os pais, com a sua monstruosidade, contribuído de forma definitiva para a sua felicidade? Teria sido tão feliz sem as memórias falsas?
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (VI)
Um homem e uma mulher são amantes durante algumas semanas, unidos numa relação exclusivamente baseada em sexo. Quando o interesse se esgota, separam-se e não voltam a encontrar-se durante vários anos. Até que por acaso se cruzam num evento e, inesperadamente, o interesse sexual renasce, selvagem e imparável. Seguem para o mesmo local onde anteriormente se encontravam, a casa dele. Quando terminam, ela dá por si no mesmo sofá, na mesma sala, no mesmo ambiente de antes: tudo exactamente igual, como se tivesse passado apenas um dia desde a última vez em que ali estivera, e não quase dez anos. Essa consciencialização de imobilidade e tempo congelado surpreende-a e assusta-a; como se quase dez anos não fizessem diferença. Imagina como teria sido a sua vida se tivesse permanecido, se tivesse continuado ligada àquela pessoa durante todo aquele tempo: um acessório na sua vida, como aquelas fotografias penduradas na parede para onde olha enquanto se veste. As mesmas fotografias que olhava enquanto se vestia há quase dez anos.
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