As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Estás a ver aquelas plantas que vivem no exterior, lá em baixo? Adoro ver quando o cão dos vizinhos lhes mija em cima.» E riam.
a gaveta do paulo
[2005 - 2026]
Duas plantas com pouco juízo (XIV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Devia deixar de ir à psiquiatra. Qualquer coisa de que me queixe, ele diz sempre que é falta de rega.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Quando estou triste, sabes o que faço para rir? Imagino duas orquídeas a dançar tango.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Lá está outra vez o garoto a chutar a bola contra à parede, agora vai ficar naquilo durante horas. Quando vejo estes comportamentos das pessoas, lembro-me sempre dos dinossauros: muito espalhafato, mas tão limitadinhos da cabeça, coitados.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XI)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Penso que também deviam existir cemitérios para plantas. E depois íamos visitar lá os nossos familiares e levávamos pessoas mortas para decorar aquilo, tal como as pessoas levam flores e plantas mortas para decorar os seus cemitérios. Que achas?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (X)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Estou a sentir-me meio sem graça, acho que preciso de algo que me faça sentir um pouco mais sexy. Conheces algum bom tatuador?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (IX)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Gostava mesmo que me rodassem o vaso antes do fim do Verão. Assim, vou ficar com um daqueles bronzeados à pedreiro.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (VIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Nunca percebi bem qual o encanto de fazer sexo oral, chamem-me conservadora que não me importo.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (VII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Até que enfim que chegou o Outono. Sempre quis ver aquela árvore nua.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (VI)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Voltei a ter um pesadelo em que já não era uma planta decorativa. Desta vez era uma alface e alguém me comia com filetes e arroz branco. Ainda estou a tremer, não vês?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (V)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «No outro dia, li um artigo em que explicavam que há cada vez mais plantas a optarem por depilação laser integral. Para afastar os insectos, sabes?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (IV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Há um aspecto em que me sinto mais árvore do que planta: tenho montes de fantasias com bombeiros.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (III)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Sabes, posso parecer espalhafatosa e tal, mas no fundo sou bastante reservada. Só partilho a humidade da minha raiz com quem realmente amo.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (II)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «No outro dia li uma coisa no instagram e fiquei confusa. Consegues explicar-me o que significa exactamente ter hemorróidas?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (I)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Desculpa, mas queria fazer-te uma pergunta íntima. Como fazes para te masturbar?» E riam.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXVII)
«Sim, está tudo bem. Mas por vezes fico tão confusa, sabes? Ainda ontem estive com a terapeuta e ela diz sempre o mesmo, para me desfocalizar de mim própria porque não sou especial. Todas as semanas repete isto, que não sou especial. Mas depois vou para o instagram, e em cada foto que publico recebo montes de comentários a dizer que sou uma pessoa especial. Fico mesmo baralhada, sem saber em quem acreditar.» A viúva acena a cabeça para mostrar compreensão, faz-lhe uma festinha no braço, pede desculpa e segue a ronda, cumprimentando as pessoas que vieram ao funeral.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXVI)
As pessoas deixaram de olhar o céu para apreciar as nuvens; desinteressam-se do que não podiam agarrar e prender com as próprias mãos. Vendo isto, deus irritou-se; considerava que as nuvens eram uma das suas melhores criações e entristecia-o que as pessoas não as admirassem, não as seguissem com o olhar, não desejassem secretamente tocar-lhes. Fora para isso que as criara: para que as pessoas desejassem senti-las com a ponta dos dedos, acariciá-las com a pele das costas da mão. Sentia-se cada vez mais estúpido por ter perdido tempo com criações disto e daquilo, na expectativa de que as pessoas as compreendessem e apreciassem.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXV)
O diabo decidiu mudar a decoração do inferno; decretou que em todas as paredes estivessem fotografias das pessoas que foram amadas por quem residia no inferno. Os decoradores procederam de tal modo que, em qualquer lugar que estivesse, cada pessoa poderia ver uma fotografia de alguém que amara. Ninguém percebeu se a decisão do diabo fora motivada por ingénua bondade ou para agravar o padecimento dos seus hóspedes.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXIV)
O céu sentia-se sozinho. Por vezes, olhava o mar; e, vendo-se ali reflectido, podia tentar acreditar que estava perante outro céu. Claro que sabia que se estava a iludir; ainda assim, havia alturas em que conversava com o mar, imaginando-o um céu divertido e interessante. Mas nunca se queixava da solidão; tinha vergonha.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXIII)
Estou aqui por causa de uma música. O problema começou num dia em que regressava do trabalho e a ouvi no rádio do carro; fiquei aparvalhado e com vontade de a ouvir de novo. Vontade, não; urgência. Mal cheguei a casa, liguei o computador e ouvi-a meia dúzia de vezes; e de cada vez impressionava-me mais. Investiguei um pouco e descobri que a música existia há vinte e sete anos; e quando vi a imagem da capa, percebi que a reconhecia; subitamente, com o impacto de uma pancada - assim: páááá -, percebi que tinha comprado aquele disco; que ouvira aquela música há vinte e sete anos, e que nessa altura me fora completamente indiferente. Nos dias seguintes, ouvi-a várias vezes, em várias circunstâncias. Como se a música fosse uma pessoa, e estivesse apaixonado por ela; incapaz de a largar. Ri sozinho, quando tive este pensamento. Mas foi aí que as coisas se complicaram; pensei: e se o que me aconteceu com esta música tivesse ocorrido em relação a uma pessoa? Alguém que há vinte sete anos me foi indiferente, mas por quem me poderia ter apaixonado se tivesse olhado com atenção. O tempo passou e a dúvida não me saía do espírito; para a esclarecer, tentei restabelecer contacto com pessoas do meu passado que não via há décadas. Dizem que fui insistente; dizem que fui inconivente; dizem que fui agressivo. Dizem que foi necessário (temporariamente, esclareceram) trancar-me aqui para me proteger. Dizem que não posso ouvir a música de há vinte e sete anos porque me deixa agitado, e confesso que é isso o que mais me custa.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXII)
Estava quase a adormecer quando uma mosca começou a rondar. Enervou-se com o incómodo, pôs-se em posição de ataque, desferiu a pancada, matou a mosca, sorriu. Pouco tempo depois, adormeceu. Algures nalgum canto do universo, um funcionário administrativo teve de abrir o excel adequado e actualizar os valores na coluna "menos uma mosca". Curiosamente, foi esse mesmo funcionário que algum tempo depois teve de actualizar o excel na coluna "menos um humano", porque o assassino de moscas não voltou a acordar. Deus apreciava simetrias e balancetes certos.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXI)
Ele sabia. Poucos sabiam, e ele era um deles. De noite, enquanto dormia, a alma saía do seu corpo, como se fosse dar um passeio. Isso das almas abandoarem o corpo para fazer turismo era estória antiga, do conhecimento de toda a gente. O que poucos sabiam, e ele era um deles, é que não se tratava de turismo. Não, nada de devaneios ao acaso ou passeios higiénicos. As almas iam aprender, como se fossem à escola; encontravam-se com outras almas, e escutavam os ensinamentos das almas doutoras. Aprendiam, e depois regressavam a casa. Isso era o que poucos sabiam, e ele era um deles. Aquilo a que se chama sonhar era, afinal, aprendizagem.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LX)
Reunidos em congresso, os cientistas debatiam sobre quais poderiam ser as melhores formas de alcançar a imortalidade na espécie humana. Todas as hipóteses avançadas pareciam vindas de livros de ficção científica, e nem todos bons livros. Até que o único cientista presente que ainda não recebera o prémio nobel sugeriu: e se arranjássemos uma forma de a morte se apaixonar?
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LIX)
Sempre se habituara à divisão clássica e consensual que prevalecia há milénios: havia verdade e havia mentira. Mas há muito que desconfiava que esse binário estava ultrapassado; acreditava que apenas pessoas eticamente fracas e cobardes ainda se deixavam seguir por essa simplicidade algo rústica, impingida às gentes mais susceptíveis por filósofos, moralistas e religiosos desde tempos imemoriais. Para si, a divisão que importava era outra: havia convicção e havia incerteza. Disse no seu famoso discurso: "Verdades e mentiras são categorias dinâmicas que se contaminam e confundem entre si. São formas artificiais e redutoras de capturar e aprisionar a realidade." E como falou com convicção, levaram-no a sério. Apesar de ser cómico de profissão.
Uma peça para rir
NMNM apresenta:
(uma peça para rir)
JÁ EXPERIMENTASTE AZEITONAS?
(começa mal, que o título não tem graça)
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