Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLVI)

Os dois miúdos caminhavam por um atalho da floresta quando, nunca curva, encontraram um anjo caído no meio da estrada. Pareceu-lhes que se tinha despistado lá nos caminhos do céu e embatido numa árvore. Como acontece a qualquer pessoa normal, sentiram-se atraídos pelo acidente e foram averiguar. O anjo estava em más condições, mas respirava. Telefonaram para o número de emergência das pessoas porque não sabiam qual o número de emergência dos anjos e ficaram à espera. Quando os bombeiros chegaram e o levaram (gemia bastante, talvez se salvasse), retomaram a caminhada. Já tinha passado um bom bocado quando um disse: e se fôssemos à praia? Pode ser que nos apareça uma sereia, tinha mais jeito do que um anjo.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLV)

O ditador estava entretido no seu passeio quando reparou na árvore. Não gostou da sua cor. Voltou para trás e disse-lhe: não gosto da tua cor. A árvore não reagiu. O ditador disse: muda já de cor. A árvore continuou sem reacção. O ditador enervou-se e ordenou que deitassem a árvore abaixo. Veio a equipa de derrube e abateu a árvore. Depois veio a equipa de transporte e o cadáver da árvore desapareceu de vista. Ainda assim, o ditador não ficou satisfeito. Porque ao lado estava uma árvore da mesma cor. O ditador perguntou: não viste o que aconteceu à outra, porque não fugiste?   

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLIV)

Houve um dia em que finalmente se cansou do egoísmo dele durante o sexo. Poderia ter-lhe dito delicadamente, com paciência e assim. Mas preferiu mostrar-lhe. Despiu-se completamente e deitou-se na cama; depois colocou uma espelho em cima da cara. Disse: pronto, faz lá amor contigo próprio.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLIII)

Domingo de manhã. Tenho onze anos e olho para a minha bicicleta quase nova; arranjei cinco autocolantes e estudo cuidadosamente a melhor localização para os colar. Não tenho pressa, o domingo costuma ser um dia muito comprido. Antes do lanche, dou uma volta de bicicleta; não me cruzo com ninguém que repare nos autocolantes novos. Não faz mal: depois de cada domingo sempre vem uma segunda-feira. Chego à escola atrasado porque começou a chover. Dois autocolantes perderam-se pelo caminho, descolando-se com a humidade. Lembro-me disto quarenta anos depois. Hoje, agora: a bicicleta, os autocolantes, a chuva. Tudo mudou, excepto a inevitabilidade de após um domingo vir sempre uma segunda-feira. Gostaria que alguém me tivesse avisado que as memórias são como autocolantes. Teria sido mais cuidadoso.  

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLII)

Quando chega a casa ao fim do dia, gosta de se sentar na varanda; bebe um café enquanto olha o horizonte vasto, atento às subtilezas e novidades. Há sempre pássaros que voam como se fossem crianças ou que - invisíveis - se dedicam às suas milenares cantorias. Quase todos os dias pensa: gostava de ser pássaro. O banco onde se senta daria para três pessoas, mas apenas o seu lugar está vago. No espaço que resta estão seis plantas; gosta de se sentar ao seu lado e imaginar que contemplam o mesmo horizonte, com o mesmo entusiasmo. Juntos. Pergunta a si próprio o que verão as plantas durante o dia; será que conversam entre si? Sentirão saudades suas? Um dia, quando chegou, perguntou-lhes numa voz baixinha: então, novidades? Não houve resposta. Sentiu-se envergonhado, mas depois pensou que talvez não tivessem ouvido por ter falado tão baixo. Voltaria a perguntar, noutro dia; mas num tom mais alto. Talvez fossem um pouco surdas.

Teia

Por vezes, sinto-me como se fosse uma aranha. Sim, ouviste bem: uma aranha. Porque o trabalho das aranhas é construir teias. E é assim que me sinto, uma construtora de teias. Na verdade, penso que apenas preciso de trabalhar numa única teia; penso que vou passar o resto dos meus dias a tecê-la, a trabalhar diariamente no que é a construção mais importante da minha vida. Uma construção lenta e paciente, cuidadosa; ternurenta. Nem sei de que são feitas as teias de aranhas; talvez de um líquido proteico que solidifica em contacto com a atmosfera? É possível. Será certamente algo muito diferente do que compõe a minha criação, isso é certo. A teia que construo dia após dia é formada por memórias. Sim, memórias. Todas as memórias bonitas que vou conseguindo reunir do meu filho, agora que ele já não me pode abraçar. Todas. Uma a uma. Entrelaçadas entre si, compondo uma estrutura delicada, mas resistente. E para que serve esta construção? Perguntas tu. Para me proteger. Não é uma construção predatória, como as teias das aranhas que vivem lá nos cantos do teu sótão. Mas é, de certa forma, uma estrutura que me permite sobreviver. Deixa que te explique. Sempre que vem o insecto da dor ou da desolação ou da tristeza (e sabes bem como eles não param de vir, sempre a esvoaçar por perto), a teia protege-me. Funciona como um escudo protector que impede a passagem daquilo que me pode magoar; desses insectos insidiosos que chegam subrepticiamente, sempre prontos a fixar em mim as suas garras e não mais largar. Por isso é que esta construção tem de ser permanentemente cuidada e reforçada, pois os insectos da tristeza ou da desolação ou da dor continuarão sempre a vir. Para mim, o luto é isso: construir esta teia que me envolve e protege, que me acolhe. Talvez não seja a imagem mais poética, as pessoas tendem a desprezar as aranhas. Mas sabes o que aprendi? A olhar para a natureza de outra forma; não apenas com respeito ou admiração, isso deveria ser o ponto de partida básico. Comecei a olhar também com um certo sentido de pertença; como se me olhasse ao espelho, na verdade. Porque sou parte da natureza, sou parte deste fluxo contínuo e complexo que inclui as florestas e os oceanos e o vento e a areia dos desertos e as nuvens de trovoada e os pandas e os periquitos e as pessoas, todas as pessoas vivas ou mortas ou por nascer, e as flores e o cheiro a laranja e o luar. E as aranhas. Aprendi que a natureza - no seu conjunto e na individualidade de cada um dos seus elementos - contém em si própria os meios que garantem a sua subsistência e a sua sobrevivência. Como as aranhas têm em si o líquido com que produzem as teias, eu própria tenho em mim - no meu corpo, em cada uma das células - aquilo que me ajudará a permanecer viva, e eventualmente sorrir nalguns dias (quase todos): sangue e memória. Entendes?

Diário de Leiria, 29 de Abril de 2026
(Convite: Associação Leiria Compassiva)

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLI)

Mantinha há anos a mesma estratégia. Quatro encontros de descoberta do outro, a fase do encantamento. No quinto encontro, o primeiro beijo. No sexto, beijo acompanhado de mão no interior das cuecas do outro. No sétimo, a primeira relação sexual. No décimo, a primeira noite passada em conjunto. E era esse o momento determinante, aquele que decidia se haveria futuro comum ou não: o primeiro despertar junto do outro. Talvez um dia chegasse ao décimo primeiro encontro.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XL)

Chegava o fim do dia e o escritor sentava-se na varanda para descansar de um dia de escrita. Observava o desaparecimento do sol e, depois, a lenta transformação de cores na atmosfera que inevitavelmente terminaria em escuridão. Ouvia a agitação dos pássaros, procurava o aparecimento da primeira estrela. Sentia o toque da brisa na pele e tentava identificar que cheiros transportava e trazia até si; achava-se uma espécie de detective de cheiros. E pensava nos seus leitores; pensava nas pessoas que naquele exacto momento pudessem estar a ler algum dos seus livros. Quem seriam? Imaginava-os em varandas como a sua, talvez tocados pela mesma brisa mas desinteressados da primeira estrela; imaginava-os a emocionarem-se com o que liam; imaginava-os a imaginarem como seria o escritor que escrevera aqueles livros. Não lhe bastava imaginar personagens, precisava também de imaginar leitores; como se fossem personagens.

Passe-vite





Nem Marias Nem Manéis no Café Central
Fotografias: Cristina Vicente

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXXIX)

Certo dia a pele começou a queixar-se. Dizia, primeiro timidamente e depois com crescente insistência: não me sinto livre. O resto do corpo ouvia, com alguma indiferença porque a pele tinha tendência para se queixar de tudo; mas a paciência foi-se consumindo. Começaram a surgir resmungos um pouco de todos os órgãos, mas nada calava a pele. Até que alguém se enervou. Disse o coração: cala-te, que já ninguém suporta tanto queixume. E depois disse: apenas tu és verdadeiramente livre neste corpo, porque apenas tu tens a possibilidade de ser tocada. O cabelo pensou: eu também posso ser tocado; mas preferiu não criar confusão e nada disse. A pele ficou em silêncio durante uns dias. Depois, primeiro timidamente e mais tarde com crescente insistência, começou a queixar-se: sinto-me demasiado livre.

Estória do dia


Livraria Arquivo. Uma estória nova a cada dia.
Fotografia: Cristina Vicente

Trinta anos






23 de Abril de 2026
Livraria Arquivo
Com Nem Marias Nem Manéis
Fotografias: Cristina Vicente

Arquivo particular

Livros recomendados.

Artista introspectivo


Fotografia: Cristina Vicente

24 de Abril


Mexe, mexe.

39 and counting


ONU

Liberdade de mexer


Inscrições abertas e desejadas.

353 » 354

Dicionário improvisado. Jornal de Leiria (online e versão em papel).

1996


30 anos

Estória do dia

Todos os dias, uma estória nova para ler na Livraria Arquivo
A partir de um de Abril.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXXIII)

Todos os dias o idoso comia um chocolate mais ou menos à hora do pôr-do-sol. Um pequeno chocolate de embalagem vermelha, com nove quadradinhos. Sentava-se na sala de estar do lar, junto a uma janela; olhava lá para fora, fixando o olhar em algo indefinido ou em nada. Depois, abria a embalagem com vagar e comia sem pressa, saboreando. Por vezes, fechava os olhos; por vezes, chorava. Ninguém o incomodava durante aquele ritual; claro que comer um chocolate diariamente não era saudável, mas já estava numa idade em que não fazia grande diferença. E toda a gente sabia que aquele ritual representava um regresso ao passado, à infância; uma despedida. A reprodução de uma memória antiga: a tarde em que o seu pai lhe dera um chocolate idêntico e ele o comera à beira da janela, olhando para o jardim enquanto os pais conversavam na cozinha. O sol descia lá fora, os pássaros celebravam ruidosamente o fim do dia. Ouviu a mãe rir sete vezes, e o pai duas; uma risada por cada quadradinho de chocolate. No dia seguinte, ambos morreriam num acidente.  

27 de Março de 2026

"Andamos numa busca estúpida por visibilidade, tentando a cada momento mostrar que somos únicos e especiais. E como fazemos isso? Imitando os outros. Copiando aquilo que parece dar visibilidade aos outros. Imitar para ser único. Ahahahahah. Tem tanta piada."