Ideias registadas em cadernos e que nunca serviram para nada (XI)

Um homem percebe que foi a única pessoa no seu grupo de amigos que teve uma mãe que não lhe cantou na infância. Começa por desvalorizar esta descoberta; mas como sempre teve a percepção de ter sido uma criança feliz, essa ausência começa a incomodá-lo. Como pode um adulto ser feliz se a mãe não lhe cantou canções de embalar? Decide que precisa de esclarecer o assunto com a mãe, sem acusação mas apenas para entender. Durante semanas, tenta questioná-la em todas as visitas que faz ao lar onde ela vive. Mas nunca tem coragem. Até que chega finalmente o dia em que lhe consegue perguntar: porque nunca me cantaste, quando era criança? A mãe surpreende-se. Depois de um longo silêncio, pergunta-lhe: não te lembras? E na sua voz idosa e cansada, ténue, frágil, canta um pedaço de uma música. Ele não consegue lembrar-se, tem a certeza de que é a primeira vez que ouve aquela canção. Ou poderá estar enganado? Responde que sim, que se lembra. A mãe recomeça e continua a cantar durante muito tempo, enquanto ele escuta e pensa que ainda bem que perguntou; ainda bem que foi a tempo de ouvir a sua mãe cantar-lhe. 

Ideias registadas em cadernos e que nunca serviram para nada (X)

Uma pergunta que a atormentava era: o que vêm as pessoas que amo quando fecham os olhos? Outra pergunta: que coisas tão especiais procuram que precisam de fechar os olhos para as ver? Não o poderia confessar a ninguém, mas era por isso que as suas relações nunca duravam muito tempo: não suportava ser incapaz de ver aquilo que as pessoas que amava viam quando fechavam os olhos; não suportava que elas não partilhassem consigo as suas visões interiores. 

Ideias registadas em cadernos e que nunca serviram para nada (IX)

Um recluso passa vários anos na prisão, sendo sempre tratado pelo seu número. Quando é libertado, fica chocado quando é chamado pelo nome, que não está habituado a ouvir e do qual se distanciou. Percebe que a sua identidade passou a estar associada ao número pelo qual era conhecido e nomeado na prisão. Pede para continuar a ser chamado desse modo: pelo número que se tornou um espelho da sua identidade. Este pedido não é compreendido por ninguém, sendo ridicularizado. Mas isso não o impede de iniciar uma luta pelo reconhecimento da sua especificidade enquanto pessoa, que passa por ser chamado pelo nome com que realmente se identifica: Quinhentos e Trinta e Sete.

Ideias registadas em cadernos e que nunca serviram para nada (VIII)

Houve um homem que sentia frequentemente vontade de chorar. Mas recusava-se a fazê-lo, porque tinha vergonha de ser visto; e mesmo que o fizesse em privado, haveria sempre o risco de ser surpreendido por alguém. Não o preocupava tanto que se soubesse que chorava, mas que fosse visto a fazê-lo; para si, seria como ser visto a masturbar-se; ou a fazer sexo com alguém. Uma insuportável quebra da sua intimidade. Vivia portanto dividido entre a necessidade de chorar e a recusa em fazê-lo, para não ser surpreendido. Só em raras ocasiões cedia a essa necessidade; e quando isso ocorria, o lugar era sempre o mesmo: trancado numa casa de banho pública, num qualquer lugar anónimo e sem relação com a sua vida. E foi precisamente numa dessas ocasiões que teve uma ideia inesperada: porque não inventar locais de choro, tal como existiam casas de banho públicas? Choradouros públicos. Porque não?

Liberdade?

Apenas sou verdadeiramente livre na imaginação.
Mas, por vezes, a imaginação domina-me. Sou seu escravo.

Ideias registadas em cadernos e que nunca serviram para nada (VII)

Uma pessoa descobre por acaso que em criança foi hipnotizada a pedido dos pais, tendo-lhe sido implantadas memórias falsas. Não sabe quais, nem quantas. Percebe que a sua personalidade se desenvolveu a partir de experiências e memórias de infância não fiáveis; baseada em mentiras. Porque fariam os seus pais tal coisa? Odeia-os pelo que fizeram e por apenas o ter descoberto após a sua morte, e não os poder confrontar. Questiona toda a sua vivência, assente numa personalidade condicionada por falsidades, sendo forçada a reconhecer que a sua vida tem sido equilibrada e feliz. Uma vida bastante feliz, na verdade. Terão os pais, com a sua monstruosidade, contribuído de forma definitiva para a sua felicidade? Teria sido tão feliz sem as memórias falsas?

Ideias registadas em cadernos e que nunca serviram para nada (VI)

Um homem e uma mulher são amantes durante algumas semanas, unidos numa relação exclusivamente baseada em sexo. Quando o interesse se esgota, separam-se e não voltam a encontrar-se durante vários anos. Até que por acaso se cruzam num evento e, inesperadamente, o interesse sexual renasce, selvagem e imparável. Seguem para o mesmo local onde anteriormente se encontravam, a casa dele. Quando terminam, ela dá por si no mesmo sofá, na mesma sala, no mesmo ambiente de antes: tudo exactamente igual, como se tivesse passado apenas um dia desde a última vez em que ali estivera, e não quase dez anos. Essa consciencialização de imobilidade e tempo congelado surpreende-a e assusta-a; como se quase dez anos não fizessem diferença. Imagina como teria sido a sua vida se tivesse permanecido, se tivesse continuado ligada àquela pessoa durante todo aquele tempo: um acessório na sua vida, como aquelas fotografias penduradas na parede para onde olha enquanto se veste. As mesmas fotografias que olhava enquanto se vestia há quase dez anos.

Ideias registadas em cadernos e que nunca serviram para nada (V)

Um funcionário de uma agência funerária encontra uma forma dissimulada de esconder uma folha de papel e um lápis na roupa dos mortos que prepara, antes da ida para o cemitério. No topo da folha escrevera: "Se conseguires comunicar, manda-me uma carta a explicar como são as coisas desse lado". Ao longo da sua vida profissional, deixa o recado em centenas de mortos. Todos os dias vai à caixa de correio verificar se chega alguma mensagem.

Aquilo que sempre fui

"Estava tão habituada a ser aquilo que sempre fui que nem me passava pela cabeça que poderia ser algo diferente, que poderia tentar ser algo novo. Mas poderia; posso."

Serviços mínimos de felicidade
2016

Ideias registadas em cadernos e que nunca serviram para nada (IV)

Há uma mulher que sonha frequentemente com pessoas que não conhece. Por vezes, questiona-se quem serão essas pessoas; se será gente real com quem se cruzou e não se lembra; se será gente que não existe, inventada pela sua mente; se será gente que ainda não conhece, mas poderá vir a conhecer. É esta última possibilidade, mais exotérica, que a perturba e impele a fazer algo. Decide-se a concentrar-se mais nos sonhos, para recordar melhor os detalhes dos rostos com que sonha e, depois de acordar, desenhá-los. E com esses desenhos na mão, partir em busca das pessoas reais a quem pertencerão esses rostos sonhados e desenhados.

Por vezes, quase nunca

A respiração é um mecanismo. O batimento regular do coração é um mecanismo. O orgasmo é um mecanismo. O arrepio da pele é um mecanismo. A digestão da comida é um mecanismo. Dormir é um mecanismo. Acordar é um mecanismo. Sonhar é um mecanismo. O corpo é feito de mecanismos; e ainda assim, por vezes a máquina consegue ser humana.

Ideias registadas em cadernos e que nunca serviram para nada (III)

Alguém anda pela rua a fazer um questionário às pessoas que encontra. Apenas tem uma pergunta: és feliz? Quando a pessoa responde que sim, cola-lhe um pequeno autocolante com a frase "Felizes Anónimos" na roupa, em local bem visível. Assim, os felizes estão identificados e podem reconhecer-se uns aos outros.

Reimaginação





And when the questions are over? Reimagined
Com a fotógrafa Ana Gilbert
2022

Mas quase

Sinto o sol no corpo. Por vezes é quanto basta: sentir o sol no corpo. Não chega a ser felicidade, mas quase.

Cada momento é único e irrepetível, mas...

Temos de repetir os mesmos momentos muitas vezes: até que a nossa memória os recorde completos.

Ideias registadas em cadernos e que nunca serviram para nada (II)

Um homem interessa-se pela vizinha. Observa-a à distância, dia após dia, chegando sempre à mesma conclusão: ela é feliz com o namorado. Tem a certeza disso: a vizinha é realmente uma mulher feliz. Mas continua a observá-la. Porque sabe que a felicidade se gasta, e que todas as relações se banalizam, mais tarde ou mais cedo. Definham. Morrem. Observa a vizinha porque sabe que basta aguardar.

Cemitérios

"E os sonhos foram desaparecendo, substituídos por outros. À medida que a idade avança os sonhos diminuem de ambição, de ousadia? Talvez os sonhos também envelheçam, tal como o corpo envelhece. Talvez os sonhos também tenham cancros e acabem por morrer em agonia. Será que percebemos quando os nossos sonhos morrem? Os seus restos mortais permanecem em nós, certamente; para onde iriam? Os sonhos estão presos dentro de quem os alimenta; tal como qualquer órgão vital do corpo. Ou talvez os sonhos nem sejam um órgão assim tão vital. Contudo, quando morrem permanecem dentro nós. Nossos prisioneiros. Ou seremos nós que somos prisioneiros de sonhos mortos?"

Aviões de papel
2020

Ideias registadas em cadernos e que nunca serviram para nada (I)

Um menino deseja ter a sua primeira bicicleta. Pede aos pais, a todos os tios, aos avós, à professora da escola e ao treinador do futebol, aos padrinhos e às madrinhas e até ao pai de um amigo que é rico. No dia de natal recebe quatro bicicletas. Uma azul, uma verde, uma amarela, uma vermelha. Arruma-as todas no quarto e adormece a olhar para elas. E aí ficam durante meses: no quarto. Ninguém se lembra de ensinar o menino a andar de bicicleta; e ele tem vergonha de pedir.

Formiga presa na rotunda

"E se o tempo for circular? Como um carrossel, que anda sempre às voltas numa repetição permanente."

O osso da vida
2022

Vai-vem

Se repetir a mesma viagem muitas vezes deixarei de distinguir entre a ida e o regresso?

Humanidade

É ao fim do dia que o mar sente mais saudades de casa.

Sobrevivência

O movimento é a forma que o corpo tem de sonhar.

Portable link

Saudades

- E se as árvores pudessem escrever? Achas que mandavam cartas a quem?
- Ao mar.

Choro representativo

Aqui, todos temos motivos para chorar. Não seria mais fácil se combinássemos uma determinada hora e chorássemos juntos? E se fizéssemos turnos? Em cada momento alguém se ocupa do choro, libertando os outros dessa necessidade, formando uma cadeia contínua de choro. Porque não? Choro representativo.

Desígnio

Olha cada pessoa com quem te cruzas como olhas o mar.