O diabo decidiu mudar a decoração do inferno; decretou que em todas as paredes estivessem fotografias das pessoas que foram amadas por quem residia no inferno. Os decoradores procederam de tal modo que, em qualquer lugar que estivesse, cada pessoa poderia ver uma fotografia de alguém que amara. Ninguém percebeu se a decisão do diabo fora motivada por ingénua bondade ou para agravar o padecimento dos seus hóspedes.
a gaveta do paulo
[2005 - 2026]
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXIV)
O céu sentia-se sozinho. Por vezes, olhava o mar; e, vendo-se ali reflectido, podia tentar acreditar que estava perante outro céu. Claro que sabia que se estava a iludir; ainda assim, havia alturas em que conversava com o mar, imaginando-o um céu divertido e interessante. Mas nunca se queixava da solidão; tinha vergonha.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXIII)
Estou aqui por causa de uma música. O problema começou num dia em que regressava do trabalho e a ouvi no rádio do carro; fiquei aparvalhado e com vontade de a ouvir de novo. Vontade, não; urgência. Mal cheguei a casa, liguei o computador e ouvi-a meia dúzia de vezes; e de cada vez impressionava-me mais. Investiguei um pouco e descobri que a música existia há vinte e sete anos; e quando vi a imagem da capa, percebi que a reconhecia; subitamente, com o impacto de uma pancada - assim: páááá -, percebi que tinha comprado aquele disco; que ouvira aquela música há vinte e sete anos, e que nessa altura me fora completamente indiferente. Nos dias seguintes, ouvi-a várias vezes, em várias circunstâncias. Como se a música fosse uma pessoa, e estivesse apaixonado por ela; incapaz de a largar. Ri sozinho, quando tive este pensamento. Mas foi aí que as coisas se complicaram; pensei: e se o que me aconteceu com esta música tivesse ocorrido em relação a uma pessoa? Alguém que há vinte sete anos me foi indiferente, mas por quem me poderia ter apaixonado se tivesse olhado com atenção. O tempo passou e a dúvida não me saía do espírito; para a esclarecer, tentei restabelecer contacto com pessoas do meu passado que não via há décadas. Dizem que fui insistente; dizem que fui inconivente; dizem que fui agressivo. Dizem que foi necessário (temporariamente, esclareceram) trancar-me aqui para me proteger. Dizem que não posso ouvir a música de há vinte e sete anos porque me deixa agitado, e confesso que é isso o que mais me custa.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXII)
Estava quase a adormecer quando uma mosca começou a rondar. Enervou-se com o incómodo, pôs-se em posição de ataque, desferiu a pancada, matou a mosca, sorriu. Pouco tempo depois, adormeceu. Algures nalgum canto do universo, um funcionário administrativo teve de abrir o excel adequado e actualizar os valores na coluna "menos uma mosca". Curiosamente, foi esse mesmo funcionário que algum tempo depois teve de actualizar o excel na coluna "menos um humano", porque o assassino de moscas não voltou a acordar. Deus apreciava simetrias e balancetes certos.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXI)
Ele sabia. Poucos sabiam, e ele era um deles. De noite, enquanto dormia, a alma saía do seu corpo, como se fosse dar um passeio. Isso das almas abandoarem o corpo para fazer turismo era estória antiga, do conhecimento de toda a gente. O que poucos sabiam, e ele era um deles, é que não se tratava de turismo. Não, nada de devaneios ao acaso ou passeios higiénicos. As almas iam aprender, como se fossem à escola; encontravam-se com outras almas, e escutavam os ensinamentos das almas doutoras. Aprendiam, e depois regressavam a casa. Isso era o que poucos sabiam, e ele era um deles. Aquilo a que se chama sonhar era, afinal, aprendizagem.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LX)
Reunidos em congresso, os cientistas debatiam sobre quais poderiam ser as melhores formas de alcançar a imortalidade na espécie humana. Todas as hipóteses avançadas pareciam vindas de livros de ficção científica, e nem todos bons livros. Até que o único cientista presente que ainda não recebera o prémio nobel sugeriu: e se arranjássemos uma forma de a morte se apaixonar?
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LIX)
Sempre se habituara à divisão clássica e consensual que prevalecia há milénios: havia verdade e havia mentira. Mas há muito que desconfiava que esse binário estava ultrapassado; acreditava que apenas pessoas eticamente fracas e cobardes ainda se deixavam seguir por essa simplicidade algo rústica, impingida às gentes mais susceptíveis por filósofos, moralistas e religiosos desde tempos imemoriais. Para si, a divisão que importava era outra: havia convicção e havia incerteza. Disse no seu famoso discurso: "Verdades e mentiras são categorias dinâmicas que se contaminam e confundem entre si. São formas artificiais e redutoras de capturar e aprisionar a realidade." E como falou com convicção, levaram-no a sério. Apesar de ser cómico de profissão.
Uma peça para rir
NMNM apresenta:
(uma peça para rir)
JÁ EXPERIMENTASTE AZEITONAS?
(começa mal, que o título não tem graça)
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LVIII)
Hoje vi dois pássaros entretidos num voo. Às voltas pelo céu, um à frente e outro atrás, para cima e para baixo, com grandes piruetas e ziguezagues inesperados. Achei que estariam a brincar, tal como duas crianças que jogam à apanhada, rindo alto. Depois surpreendi-me com um pensamento: e se não for uma brincadeira, mas um ataque? Se aquilo a que assisto for uma perseguição, um acto de caça inclemente? Continuo a observar, sem conseguir chegar a nenhuma conclusão. Que sei eu da natureza? Que sei eu da vida? Quase nada. E depois pensei: que sei eu de ti? Quando te olho sinto que nada sei do que pensas ou desejas; sinto que és uma desconhecida. Sabes o que pensei quando via os pássaros às voltas? Que gostava que nos divorciássemos. Gostava de voar sozinho.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LVII)
O escritor divaga sobre a importância de encontrar um sentido para a vida. Fala de forma apaixonada e convicta, completamente seguro do que diz. A audiência escuta com atenção, aderindo ao que ouve não tanto pela excelência dos argumentos mas mais pela convicção e dramatismo com que são expostos. Até que a mulher mais bonita da audiência interrompe para explicar que não concorda: «Dizer que há um sentido para a vida é absurdo. Existe é a possibilidade de vislumbrar um sentido para determinado momento da vida. Mas para este momento em particular, que estamos aqui a viver em conjunto, não consigo encontrar qualquer sentido. Tenho de o procurar noutro lado qualquer.» E sai. O escritor fica incomodado, não tanto pela discordância pública em relação aos seus argumentos, mas por ter sido contrariado pela mulher mais bonita da audiência, que estava a tentar impressionar desde o primeiro momento.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LVI)
Ao fim do dia sentava-se no velho cadeirão, ao lado da sua árvore preferida, e contemplava o horizonte longínquo. Nunca se cansava de olhar, regressando ao que já conhecia ou descobrindo novos detalhes na paisagem; desconfiava que só fazia sentido olhar quando o que se via pudesse ser complementado pela imaginação. Até que um dia o horizonte se aborreceu de tanta contemplação e lhe disse: «Pára de olhar e faz alguma coisa. Mexe-te, caralho.»
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LV)
Toda a gente pensa que a sua obsessão enquanto arquitecto é conceber paredes perfeitas que impeçam que o ruído do mundo entre numa determinada sala. Mas a verdade é que o seu objectivo é outro: a função principal das paredes é impedir que o silêncio da sala saia e se perca no mundo.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LIV)
Era uma planta muito jovem quando chegou àquela casa. Colocaram-na à beira de uma janela, onde se habituou ao excesso de luz. Nem sempre a regavam, e também se habituou à escassez de água. Foi adoptando a milenar filosofia das plantas (aceita, babe, que dói menos) e os dias foram passando. Outra coisa a que se habituou: discussões. Muito se discutia naquela casa, dia após dia. Mas não só se habituou como incorporou essa peculiar forma de estar na vida; e deu por si a desejar discutir com alguém. Talvez um dia trouxessem outra planta, e deixaria de estar sozinha; poderia discutir. Foi sonhando, enquanto olhava pela janela.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LIII)
O relatório do técnico é claro: "O planeta é dominado por uma espécie execrável. Vão produzindo umas inovações que consideram muito avançadas, mas que na verdade são (do ponto de vista científico) muito infantis; baseando-se na suposta superioridade dessa tecnologia e da sua própria evolução enquanto criaturas auto-conscientes, desconsideram todas as restantes espécies e colocam em risco a sobrevivência do planeta. Mas mesmo entre si têm comportamentos discriminatórios e agressivos não compatíveis com o actual estado civilizacional do universo. Cito apenas um exemplo: há indivíduos desta espécie que violentam os seus semelhantes por não apreciarem o seu local de nascimento. Há milénios que não me deparava com uma espécie tão ostensivamente imbecil, como o referido exemplo comportamental demonstra. Recomendo que não seja feita qualquer aproximação por parte da sociedade das civilizações inter-espaciais e que se permita que esta espécie definhe e se auto-extinga, conduzida pela sua arrogante estupidez." O burocrata que analisa este relatório coloca-lhe um carimbo, dando despacho positivo, e sente-se feliz por não ser desses técnicos que têm de explorar territórios tão selvagens e depressivos; arrepia-se ao tomar consciência - uma vez mais - de como ainda há focos de horror espalhados pelo universo. Suspira. Sente que o trabalho se arrasta, que tarda em chegar a hora de encerrar a repartição. Suspira de novo. Talvez saia mais cedo, precisa de comprar mais tinta para o carimbo.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LII)
Por vezes, tudo o que o oceano deseja é sossego e tranquilidade; parar um pouco. Mas a lua não deixa.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LI)
Era uma vez uma pessoa que decidiu adoptar um cão. O cão instalou-se e logo adoptou uma árvore que vivia no jardim. A árvore não se importou; quando tinha adoptado aquela pessoa já sabia que mais tarde ou mais cedo viria um animal. É da natureza das famílias irem crescendo.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (L)
A estrela decidiu dormir uma sesta. Quando acordou, o minúsculo e longínquo planeta que gostava de contemplar quando acordava (tinha sonhos agitados e observar a insignificância tranquilizava-a) já não era azul.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLIX)
O homem e a mulher viviam naquela caverna há muito tempo. Aborreciam-se um pouco, assim sozinhos. Certo dia, um deles começou a emitir um som específico sempre que desejava sexo; o outro, percebendo o significado desse som, também começou a reproduzi-lo sempre que lhe apetecia. Com o tempo, passaram a desenvolver sons individualizados para cada uma das posições que, em determinado momento, queriam explorar. E assim nasceu a linguagem humana. Numa caverna, por aborrecimento.
As saudades não te impedem de voar
Companhia Nem Marias Nem Manéis em parceria com Associação Hirundo
Fotografia de cena: Cristina Vicente
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLVIII)
Foi um dia cansativo; Deus observava com desânimo a sua criação e lamentava-se. «A humanidade cansa-me tanto. Que aborrecida é toda esta gente, às voltas de um lado para o outro a pensar: ai, que eu sou tão importante.» O secretário sorriu, gostava quando Deus imitava vozes. «Nem têm consciência da sorte que têm. Não se esforçam em nada, uma tristeza. Ai, que eu sou tão especial.» O secretário voltou a sorrir; mas depois, preocupou-se porque Deus ficou demasiado tempo em silêncio, o que nunca era bom sinal. «Sabes o que podia fazer, para ver se aprendiam? Tornar a respiração um mecanismo não automático. Tinha piada, não tinha? Cada pessoa precisava concentrar-se permanentemente na respiração, e caso se distraísse parava de respirar. Desconcentrava-se, morria. Pumba. Ai, que me está a faltar o ar.» Disse isto e riu durante muito tempo. O secretário abanou a cabeça, sem sorrir.
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