Estória em cinco partes para Sílaba Súbita. Fotos de Sílaba Súbita.
Inflamável # 03
- És insuportável, tu. Estás
sempre triste, insuportavelmente triste. E a tua tristeza é tão intensa e
palpável, tão ostensiva, que se torna contagiante, que é inflamável e alastra,
que corrói. É como se estivesses permanentemente envolvido numa nuvem de
tristeza, uma nuvem que arrasta para o seu interior quem se aproxima de ti.
- Porque te queixas tanto? As
tuas queixas é que são inflamáveis, não têm fim. Já pensaste que talvez ande
tão triste porque tu não paras de te queixar? Olha, desampara-me mas é a nuvem,
que já vai sendo tempo.
Baque
Apesar de terem
passado quase trinta anos, lembra-se daquele fim de tarde em que subitamente
decidiu regressar a casa por um caminho diferente, um atalho de terra batida
que atravessava o deserto de campos e por onde não passavam carros. Lembra-se
do enfado que habitualmente sentia ao percorrer os dez quilómetros que
separavam escola e casa, alternando dia após dia os três percursos possíveis
numa tentativa ingénua de iludir o aborrecimento. Lembra-se que a inesperada escolha
de um trajecto alternativo lhe proporcionou a sensação de estar a baralhar o
destino e a iludir a rotina. Lembra-se como o facto de ter cedido a um impulso
súbito, a um apetecimento, lhe deu
prazer e alegria. Lembra-se da inesperada sensação de liberdade, de se ter sentido
só e de essa solidão saber bem, por ser uma opção sua, por ser um breve
intervalo do mundo e das suas pressas, uma fuga momentânea. Lembra-se de se
imaginar como um adulto ao volante do seu carro, de regresso a casa após um
aborrecido dia de trabalho, que subitamente decide conduzir sem destino nem
pressa, ouvindo música no volume máximo, sentindo que não está amarrado à sua
própria vida e controla o seu rumo (é uma chatice as bicicletas não terem
auto-rádio, pensou). Lembra-se de se sentir livre naquele ambiente virgem, onde
a natureza imperava através dos seus cheiros e cores, dos zumbidos de
bicharocos esvoaçantes que existem desde o início do mundo. Lembra-se do suor
na testa e do peso na mochila nas costas, do cansaço nas pernas, do prazer de
percorrer com o olhar os vastos horizontes verdes cobertos pela luz dourada do
fim de tarde. Lembra-se da lentidão do seu avanço na tentativa ingénua de
retardar o regresso à rotina do lanche e dos TPCs e da TV e da ansiedade
melancólica de ter treze anos para sempre. Lembra-se da suave mas inebriante
euforia de se sentir entregue àquele momento, alheado de passado ou futuro,
conectado com o presente e nada mais, sentindo essa euforia como algo quase
físico, um suave nó no estômago, uma onda de estremecimento, um baque de emoção.
Lembra-se de sorrir. Lembra-se de fazer manobras parvas e da bicicleta derrapar
e de sentir um momento de pânico. Lembra-se do descontrolo e da queda e do
embate no chão rijo por onde nunca passavam carros. Lembra-se do som do baque
provocado pela sua queda. Lembra-se da dor. Lembra-se do desmaio. Lembra-se da
sensação de medo e confusão, de névoa, de desligamento, de tristeza, ao acordar
do desmaio. Lembra-se do silêncio. Lembra-se da lentidão com que
consciencializou onde estava e o que acontecera. Lembra-se de erguer um pouco a
cabeça e olhar em redor, receoso de que alguém pudesse ter assistido à queda.
Lembra-se de se ter levantado lentamente, de tentar sacudir a sujidade da
roupa, de erguer a bicicleta. Lembra-se de pedalar com dificuldade de regresso
a casa, sentindo dor e medo e espanto e embaraço e confusão e pressa. Lembra-se
de pensar: e se não tivesse acordado do desmaio? Lembro-me, apesar de terem
passado quase trinta anos.
(38º texto de opinião para o Jornal de Leiria.)
Dedos
Dizias-me:
por vezes, as palavras não bastam. E eu respondia: sim, tens razão; mas, por
outro lado, sem palavras não existimos. Havia um silêncio e concluías: apenas
com palavras, também não.
Foi
na última vez que tivemos esta conversa que decidi escrever-te um livro. E colocar
nesse livro tudo o que tenho para te dizer, todas as palavras que quero que
sejam tuas, que guardes em ti. Talvez as palavras não nos bastem porque somos
incapazes de as guardar, de as tornar parte de nós; não achas? Tontice minha,
talvez. Mas não acreditas que uma palavra exacta dita no momento adequado poderá
ter tanta importância como… sei lá… um dedo? Não tens guardadas em ti palavras
que são tão físicas e palpáveis, tão visíveis e fundamentais, tão vivas, tão pele-e-carne-e-sangue-e-osso
como cada um dos dedos das tuas mãos?
Pensei,
então, em escrever-te um livro e nele colocar todas as palavras que quero que sejam
tuas. Para que as possas ler sempre que desejares, como desejares. Para que,
por um momento, possas imaginar que são apenas tuas, criadas para ti. Para que
te apropries delas e nelas me encontres. Para que as possas sentir; como se
fossem dedos. Pele-e-carne-e-sangue-e-osso.
(Imagem: John Tarahteeff)
Uma força que vem de dentro, uma força que vem de fora
(Escrito a partir de uma série de fotos de Beta Domingues.)
Por vezes, sinto-me rodeado por escuridão. Como se ela me fosse
engolir, como se ela me pudesse apagar. Percebes isto? Alguma vez sentiste igual?
Há luz, há escuridão: e eu no meio. Debatendo-me mas, na verdade, impotente e
desarmado. Que posso eu fazer contra a escuridão do mundo? Que posso eu fazer,
se a escuridão nasce em mim? Não há forma de lhe fugir (por vezes, nem o desejo
de lhe fugir; é isto o mais triste: nem o desejo de lhe fugir). E é então,
nesses momentos, que sinto o peso do mundo sobre mim, há um desânimo que me
comprime e angustia, é até possível que o meu corpo diminua um pouco, que
pedaços microscópicos de mim sejam expelidos através da respiração; apenas a
escuridão permanece no meu interior, intocável, cancerígena, enquanto tudo o
resto vai sendo expirado lentamente.
Sinto o peso da escuridão esmagando-me o corpo (uma força que vem de dentro, uma força que vem de fora) e, quando isso acontece, quando me sinto rodeado pela escuridão, o olhar foge-me sempre, desesperado; refugia-se no chão.
Sinto o peso da escuridão esmagando-me o corpo (uma força que vem de dentro, uma força que vem de fora) e, quando isso acontece, quando me sinto rodeado pela escuridão, o olhar foge-me sempre, desesperado; refugia-se no chão.
O que não é necessariamente mau. Sabes que, por vezes, há padrões desenhados no
chão – semiocultos, disfarçados, esboçados; imaginados? – que passam
despercebidos a quem não olha durante o tempo suficiente, com a atenção
suficiente, com o desespero suficiente? Estão lá mas não são vistos; excepto
quando me sinto tão esmagado que sou incapaz de erguer o olhar, desviá-lo do
fundo do chão. E então vejo, tenho mesmo de ver. Padrões desenhados no chão.
O peso da escuridão pode ajudar-me a ver mais claro. O desespero pode iluminar. Irónico, não é?
O peso da escuridão pode ajudar-me a ver mais claro. O desespero pode iluminar. Irónico, não é?
Há momentos em que preciso olhar o chão que me prende para sentir o apelo do
voo; a necessidade do voo; a indispensabilidade do voo. Preciso firmar bem os
pés no chão para conseguir voar.
Mais uma ironia, dirás tu.
Momentos em que percebo que os pés podem não ser raízes que me fixam e
aprisionam; serão, talvez, raízes portáteis que podem erguer-me do chão,
fazer-me caminhar. E caminhar é uma forma de voo. Não é? Caminhar,
simplesmente. Por vezes, é tudo o que preciso fazer, tudo o que posso fazer:
caminhar em frente, desenhando o meu próprio padrão no chão que piso, no chão
em que voo.
Mas é impossível fechar os olhos enquanto se caminha. Então, caminho e olho o
horizonte; contudo, mais tarde ou mais cedo, será impossível ceder à tentação
de erguer o olhar até lá acima, bem alto. O céu é tão sedutor, não achas? Tão
ilusoriamente sedutor. Na verdade, é lá que desejo voar, e não na terra suja.
Correr no céu.
Desejo sofregamente o céu, a sua luz. Esquecendo que, no fundo, essa
luz é uma escuridão; uma escuridão diferente daquela a que estamos habituados,
uma escuridão que cega; uma escuridão que entra em mim porque que não consigo
deixar de a inspirar após expirar o ânimo que ainda guardo.
Escuridão por dentro, escuridão em redor, escuridão por cima; e é
fodido.
Esmagado entre chão e céu, balanceando entre escuridões antagónicas, vou
caminhando; e talvez o caminho que ainda falta percorrer me conduza ao refúgio
que procuro. Sabes como imagino o meu refúgio? Um sítio aberto e livre,
simultaneamente céu e chão, onde todas as escuridões confluam e se anulem entre
si; ou se equilibrem, pelo menos. Não desejo castelos nem fortalezas
inexpugnáveis, não desejo desertos nem mares sem limites, não desejo imensidões
inabitadas nem belezas esmagadoras nem prazeres intermináveis. Desejo, apenas,
aquilo que o meu olhar e o meu espírito reconhecerão imediatamente como sendo
presente e passado e futuro, indissociáveis. Um local que seja passado e
presente e futuro; que seja tudo. Um ponto e uma linha, em simultâneo. Será
esse o meu refúgio.
Sabes o que pensei no outro dia? O quanto preciso de música. Isso já tu sabes.
Mas, pela primeira vez, pensei em música num sentido mais lato, não apenas em
canções, não apenas naquela harmonia mágica entre vozes humanas e instrumentos
musicais que pode causar estremecimento e arrepio e riso e choro e emoção pura
e prazer, tanto prazer. Esse, afinal, é apenas um tipo de música.
Estava a pensar isso, em silêncio, respirando devagar e, de repente,
percebi: há música no som da minha respiração; de qualquer respiração. E este é
apenas um exemplo. No fundo, há música em tudo o que tem vida em si, em tudo o
que vive verdadeiramente. Foi isso que pensei; uma tontice, portanto. Preciso
de música desesperadamente porque a minha música interior talvez esteja (como
eu) moribunda; e então, substituo-a.
E a escuridão recua um pouco.
Caminhar pé ante pé, de forma firme mas leve (raízes que voam), com um rumo
definido mas sem prisões condicionadoras, deixando um rasto desenhado no chão;
e escutando a música da minha própria respiração. Parece tão simples, não é? E
é simples, sei que é simples; já fui assim, um dia. Lembro-me.
E agora vou lanchar, que já te aborreci demasiado…
Legos
«Uma
caixa de legos, era isso que me deixava ansioso naquele dia; vira-a numa montra
muito tempo antes, de passagem, e ficara a pensar nela. Tinha dois camiões de
bombeiros vermelhos, bem grandes (um daqueles de levar água e outro com escadas
gigantes), uma ambulância branca e cinco figuras fardadas com utensílios de
salvar vidas; reparara em tudo isso e logo ficara apaixonado, a pensar nas
tardes de domingo que poderia passar a construir e a brincar; também reparara na
etiqueta do preço, que dizia: cinco contos, setecentos e cinquenta escudos;
sabia que aquilo era uma imensidão de dinheiro porque a minha mesada era de cem
escudos. Ainda tentei fazer umas contas para perceber quanto tempo precisaria
para reunir todo aquele dinheiro poupando a mesada mas logo desisti. De
qualquer forma, o que acabei por fazer foi pedir os legos à minha mãe; ela não
deu grande importância mas como nos dias seguintes eu não me calava, lá acabou
por fazer uma proposta: se as notas da escola fossem boas na Páscoa, receberia
a caixa de legos.»
«Eras
bom aluno?»
«Nem
por isso, era um bocado preguiçoso.»
«Ainda
és?»
«Um
pouco. É algo que tenho que me esforçar para contrariar. A preguiça faz parte
de mim, da minha essência.»
«E
dessa vez, esforçaste-te? Funcionas bem com estímulos, com a perspectiva de
recompensas?»
«Não
sei. Às vezes. Depende. Dessa vez, até me esforcei; durante uma semana ou duas,
pelo menos.»
«Mas
não foi suficiente.»
«Não
foi suficiente. Acho que no meu caso nunca é o suficiente. Não recebi o que
desejava e fiz uma birra monumental, cheguei a ameaçar que fugia de casa. Por
causa de uma caixa de lego, para veres como era uma criança idiota. Mas a minha
mãe não se comoveu, limitou-se a ignorar-me. E isso, já se sabe, resulta
sempre. Somos impotentes perante a indiferença dos outros.»
«Como
era a tua mãe?»
«Sorria
muito, dava abraços; fazia-me festinhas no cabelo. Contava-me estórias para
adormecer; pregava-me partidas e ria muito alto. Era muito bem-disposta, muito
generosa. Muito presente.»
«Não
tens más memórias dela?»
«Da
minha mãe? Não, penso que não.»
«De
certa forma, endeusaste-a.»
«Talvez.
Qual é o mal?»
«Nenhum.
Não estava a criticar nem nada. Mas que aconteceu depois?»
«Decidi
poupar dinheiro; o que me davam como presente, algum que ganhei a lavar os
carros dos vizinhos, mais qualquer coisa que arranjei quando vendi brinquedos
que já não queria aos meus colegas. Também desviei, digamos assim, uma nota de
quinhentos escudos ao meu avô.»
«Roubaste?
Querias mesmo os legos.»
«Queria.
Mas era também uma questão de provar qualquer coisa à minha mãe; como se fosse
um duelo ou assim. Uma questão de honra.»
«E
conseguiste o dinheiro suficiente?»
«Quando
cheguei aos cinco contos, a minha mãe disse que acrescentava o que faltava.»
«E
depois?»
«Prometeu
que compraria a caixa de legos da próxima vez que fosse à cidade. E a próxima
vez foi nesse sábado, esse último sábado. Passei o dia ansioso, à espera, a
andar de um lado para o outro, a planear coisas. Ainda não sabia que por vezes
mais vale termos sonhos que não conseguimos concretizar, ter apenas os sonhos e
nada mais, isso basta; o que nos faz felizes é sonhar, é ter uma perspectiva e
um desejo, a sua concretização acaba por provocar um vazio, uma decepção. Claro
que outras vezes o que interessa é apenas a concretização e nada mais, a
antecipação apenas aumenta o prazer e a intensidade dessa concretização.»
«Que
conversa, começas sempre a divagar com filosofias. Que queres dizer com essa
história de último sábado?»
«A
minha mãe morreu nesse dia. Houve um acidente, os meus pais morreram quando
regressavam a casa.»
«Mas
que horror. Tinhas que idade?»
«Nove
anos.»
«Nove
anos.»
«Nove
anos. Fiquei sozinho.»
«Como
aconteceu? Contas-me?»
«Um
despiste. O carro despistou-se e eles morreram. Tão simples quanto isso; mas é
sempre assim, não é? Simples. As grandes catástrofes são sempre pequenas
quebras na normalidade, algo muito simples e banal mas com consequências
devastadoras.»
«Como
soubeste? Quem te deu a notícia?»
«O meu
avô.»
«Conta-me.
Gostava de saber como foi.»
«Estava
ansioso que eles regressassem, por causa dos legos; por vezes ia à janela
espreitar e ficava a olhar para a estrada, atento ao ruído dos carros. Pensava
no que eles poderiam andar a fazer, imaginava-os no carro, calados e sérios, ou
a rirem, ou de mão dada. Ia esperando e quanto mais se prolongava a espera,
mais enervado e impaciente ficava. Pensava coisas más, tipo não quererem saber
de mim e apenas se preocuparem com a sua diversão, coisas idiotas que sabia não
serem verdade enquanto as pensava. Não era frequente deixarem-me sozinho mas
julgo que estavam a tentar incentivar a minha autonomia; e de qualquer forma,
os meus avós viviam por perto, provavelmente vigiavam-me à distância sem eu
perceber. Não tenho bem noção do tempo, mas não deverei ter ficado sozinho mais
do que uma hora ou duas, apesar de para uma criança isso parecer uma
eternidade. De qualquer forma, lá estava a espumar de impaciência. Então, de
repente ouvi um carro parar na entrada; tive de fazer um grande esforço para
não correr até à janela, para confirmar que eram eles. Obriguei-me a ficar
quietinho, a fingir que não estava ansioso. Ouvi passos a aproximarem-se e
imaginei o sorriso da minha mãe ao entregar-me a caixa de legos, imaginei-a a
dizer-me que a merecera e conquistara, imaginei-a a receber o meu abraço
agradecido com o seu riso ruidoso, imaginei-a a olhar-me com alegria quando
escutasse o inconfundível som dos legos embatendo na mesa. Tive que conter um
sorriso de antecipação, tentar manter uma expressão de indiferença. Mas quando
a porta abriu, não foi a minha mãe que entrou.»
«Como
era o teu avô?»
«Era
muito sossegado e silencioso; era raro vê-lo rir, não por andar mal disposto
mas porque era o seu jeito. Nunca o vi chateado ou irritado, era muito paciente
e sereno. E um pouco solitário. Portanto, identificava-me bastante com ele. Levava-me
à pesca e ficávamos os dois em silêncio, a olhar as nuvens; construía-me
animais de madeira e depois pintávamo-los juntos; ensinou-me a trepar árvores,
a distinguir os pássaros e a imitar-lhes os cantos. Construía cabanas comigo e
levava-me em passeios de motorizada; por vezes dava-lhe para falar e então contava-me
histórias da sua infância. Dizia que gostava mais de mim do que da minha avó e
do Benfica, juntos. Como imaginas, adorava-o.»
«Que
pensaste quando o viste à porta?»
«Fiquei
decepcionado, porque estava à espera de ver a minha mãe. Mas nada mais, além
disso. Ele ficou ali a olhar para mim e achei isso um bocado estranho; depois,
lembrei-me de repente que ouvira um carro chegar. E o meu avô não tinha carro.
Fiquei confuso.»
«E então? De quem era
o carro, afinal?»
«Era da
polícia, que estava lá fora à espera não sei bem de quê. O meu avô aproximou-se
de mim, sentou-se ao meu lado no sofá. Estava a ver televisão, não me lembro o
quê; já tentei muitas vezes lembrar-me mas nunca consegui, a minha mente apagou
essa informação, provavelmente por ser irrelevante e desnecessária; mas
gostaria de saber. Estava a ver televisão e ele sentou-se ao meu lado. Ficámos
ali os dois, a olhar para a televisão, em silêncio, e comecei a achar aquilo um
bocado estranho. Passou muito tempo, pelo menos acho que passou muito tempo. E
então ele meteu uma mão em cima do meu joelho e disse: a mamã e o papá não vão
voltar nunca mais. Olhei para ele, confuso, sem perceber. Pensei nos legos,
durante um momento; depois pensei como iria ser do jantar. Tentei concentrar-me
nas palavras, à espera que ele dissesse mais alguma coisa, que explicasse. Mas
ele não disse mais nada. Estava a olhar para ele, admirado que a sua expressão,
que era muito estranha, uma expressão que nunca lhe vira. Foi a expressão dele
que me assustou verdadeiramente, mais do que as palavras que ainda não
entendera bem. Olhei bem e, de repente, percebi que o meu avô estava a chorar.
Era por isso que não falava; não conseguia. Era por isso que parecia
assustador. Ele estava a chorar.»
«Quando
é que percebeste o que estava realmente a acontecer?»
«O meu
avô acabou por me abraçar; se calhar fê-lo apenas para que não o visse chorar. Mas
quando o abraço terminou, ele já se dominara, parecia quase normal. Lá fora
havia pássaros a cantarolar e eu disse ao avô, numa voz baixinha: estás a ouvir
os melros? Ele acenou com a cabeça e quase sorriu; mas não chegou a sorrir. E
por isso olhámos para a televisão, ouvimos os pássaros durante muito tempo. Perguntei,
de repente: o que achas que será o jantar? Mas ele nem reagiu. Parecia que
íamos ficar assim para sempre.»
«É
desconcertante quando uma pessoa quase sorri mas não chega a fazê-lo. Como se
decidisse não o fazer. Como se preferisse não o fazer. Que podemos pensar de
alguém que opta por não sorrir? Enfim, desculpa. Estou com devaneios.»
«Sabes
o que aconteceu aos legos?»
«Aos
legos?»
«Sim. A
minha mãe comprara-os, estavam no carro no momento do acidente. Na verdade,
foram testemunha do acidente. Talvez tenha sido a última coisa que fizera
pensando em mim: comprar aqueles legos e imaginar a minha alegria quando os
recebesse. O carro ficou destruído, os meus pais morreram; mas os legos
sobreviveram, a merda dos legos sobreviveram. Descobri-os alguns dias mais
tarde, quando finalmente tive coragem para entrar no quarto dos meus pais. Fui
viver uns tempos com os meus avós mas depois alguém decidiu que seria mais
salutar para mim regressar a casa, ao meu ambiente normal, ao meu espaço; e
então mudámo-nos todos, eu e os meus avós; fingindo normalidade ou procurando
normalidade. E então, um dia, quis visitar o quarto dos meus pais; estar perto
deles, senti-los. Sei lá. Tinha nove anos, sabia lá eu o que fazia. Fui. E
entre as coisas normais que se encontram sempre no quarto dos pais, estavam
algumas que não conhecia, que nunca vira; e adivinhei logo que só poderiam ter
sido resgatadas dos destroços do acidente. E entre essas coisas, lá estavam os
legos.»
«Que
fizeste com eles?»
«Nada. Que
poderia fazer? Pensei distraidamente como algo que desejamos pode, de repente,
tornar-se algo que odiamos. E fiquei ali, sentado no chão, a olhar para o
vazio. Como fazia quando era muito pequeno e acordava de noite, assustado;
levantava-me e ia até ao quarto dos meus pais, silenciosamente; sentava-me no
chão, mesmo à beira da cama e ouvia-os respirarem, sentia o seu cheiro. E
passava muito tempo, ou na verdade talvez só passassem apenas cinco minutos ou
assim, e depois lá regressava ao meu quarto e tentava adormecer. Nunca soube se
os meus pais sabiam que eu estava ali, perto deles, e fingiam dormir. Foi uma
daquelas perguntas que não houve tempo para fazer; porque temos sempre coisas
para perguntar mas acreditamos que haverá tempo para o fazer e vamos adiando e
adiando e adiando. Não nos passa pela cabeça que os nossos pais possam morrer,
não é? Mas morrem e há uma quantidade insuportável de coisas que ficam por
perguntar, por dizer, por saber.»
«As
coisas verdadeiramente importantes quase nunca nos passam pela cabeça.»
«Ainda
tenho os legos mas nunca abri a caixa.»
«Porque
os guardaste?»
«Como
poderia não guardar? A minha mãe comprou-os para mim, talvez tenha sido a
última coisa que fez a pensar em mim. Irei guardá-los para sempre. São uma
memória concreta, viva; uma memória em que posso tocar. Sabes, por vezes penso
na minha mãe e imagino o que me diria, que conselhos daria, que perguntas faria.
Ou, pelo menos, quase consigo imaginar.»
«E o
teu pai? Porque não falaste do teu pai?»
«Não me
apetece falar do meu pai, agora. Na verdade, já nem sei porque comecei a falar
de tudo isto.»
«Perguntei-te
qual tinha sido o pior dia da tua vida. E tu contaste-me algo íntimo e doloroso
sem hesitação; confiaste em mim, como se nos conhecêssemos desde sempre.
Fico-te muito agradecida.»
«Não
precisas agradecer. Quero que saibas de mim, que me conheças, que me percebas,
que me sintas.»
E
sorriram, olhando-se e silêncio. Era a primeira vez que se viam depois do primeiro
beijo, uma semana antes; tinham abandonado o hospital juntos e caminhado até a
um cafezinho que existia na esquina, sentindo-se confortáveis com a proximidade
do outro; sentaram-se frente a frente, olharam, sorriram. Depois, começaram a
conversar. Era suposto almoçarem juntos mas distraíram-se, como se bastassem as
palavras para se alimentarem (ambos tiveram esse pensamento mas não o
verbalizaram, com receio de parecerem demasiado idiotas). Por três vezes,
tocaram-se nas mãos; e custou-lhes muito largarem-se.
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