Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLVIII)

Foi um dia cansativo; Deus observava com desânimo a sua criação e lamentava-se. «A humanidade cansa-me tanto. Que aborrecida é toda esta gente, às voltas de um lado para o outro a pensar: ai, que eu sou tão importante.» O secretário sorriu, gostava quando Deus imitava vozes. «Nem têm consciência da sorte que têm. Não se esforçam em nada, uma tristeza. Ai, que eu sou tão especial.» O secretário voltou a sorrir; mas depois, preocupou-se porque Deus ficou demasiado tempo em silêncio, o que nunca era bom sinal. «Sabes o que podia fazer, para ver se aprendiam? Tornar a respiração um mecanismo não automático. Tinha piada, não tinha? Cada pessoa precisava concentrar-se permanentemente na respiração, e caso se distraísse parava de respirar. Desconcentrava-se, morria. Pumba. Ai, que me está a falar o ar.» Disse isto e riu durante muito tempo. O secretário abanou a cabeça, sem sorrir.