As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Gosto do que gosto, não me importo nada que me chames milf.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XLV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Ninguém me convence de que as pessoas precisam mesmo de cagar todos os dias. Cá para mim, fazem aquilo com tanta frequência porque têm gosto nisso, não sei se me entendes.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XLIV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Penso muitas vezes no maior dilema filosófico que incomoda as plantas. O desejo inexplicável de expor e revelar as raízes quando se sabe perfeitamente que isso significaria uma inevitável e agonizante morte lenta. Ou serei apenas eu que penso nisso?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XLIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Por vezes, sinto-me vazia, sinto-me irrelevante, é como se a minha vida não fizesse sentido, como se não tivesse qualquer utilidade. Só me apetece desaparecer ou assim. Achas que nessas alturas ajudava se começasse a escrever poesia?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XLII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «A minha avó é a planta mais revolucionária que conheço. Agora anda a lutar para que todas as plantas tenham direito ao voto, diz que é a única forma de acabar com o fascismo no mundo.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XLI)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo, uma dizia «Se alguma vez fizerem um filme sobre nós, como achas que se devia chamar?» A outra respondia: «Thelma & Louise.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XL)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Já tive um namorado que acabou comigo porque dizia que eu era demasiado pro-activa no sexo. Pro-activa. Como se isso fosse um defeito.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXIX)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Qual é a tua opinião sobre balneários mistos nos ginásios? Confesso que fico um bocado envergonhada quando me cruzo com um pinheiro ou assim, com aquela madeira toda à vista.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXVIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «A psiquiatra acha que a razão da minha instabilidade mental é a minha mãe não me ter amamentado em bebé. Que idiota, vê-se logo que não nasceu numa estufa.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXVII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Sabes qual é a última da minha prima? Como não está a lidar bem com a idade, fez uma cirurgia plástica; livrou-se de algumas folhas velhas e substituiu-as por folhas de plástico de aspecto jovem e saudável.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXVI)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Sabes qual é a última da minha prima? Anda obcecada com a ideia de poder morrer e ninguém notar. Uma planta pode morrer e demorar semanas até que alguém note, lamenta-se ela a choramingar. Então lembrou-se de instalar uma sirene no vaso, para poder tocar quando estiver a morrer.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Uma coisa te garanto, minha amiga. Nunca mais me caso pela igreja. Os nossos direitos regrediram muito desde que veio este papa.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXIV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Sabes qual é a última da minha prima? Continua com a mania de que está gorda, diz que tem folhas que parecem pneus. Então começou a pesquisar formas de evitar que as raízes absorvam tantos nutrientes.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Sei que é um assunto delicado, mas qual é a tua opinião sobre relacionamentos fora da espécie? É que conheci um arbusto tão giro, nem imaginas.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Gostava de mudar de vaso. Sabes, arriscar mais... sair da minha zona de conforto.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXXI)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Uma das coisas que mais adoro em ser planta é que posso estar as vezes que me apetecer com tesão que ninguém nota só de olhar para mim.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXX)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Uma planta portuguesa, uma planta espanhola e uma planta francesa entram num bar. Vai a planta portuguesa e diz: merda, enganámo-nos, afinal isto não é o IKEA.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXIX)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Sabes qual é a última da minha prima? Teima que está muita gorda, diz que já nem consegue olhar para as próprias folhas. Anda a ver se consegue que um médico lhe passe uma receita de ozempic.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXVIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Detesto aquelas plantas que ficam todas histéricas quando lhes cai uma folha e ligam logo para o 112. É lidar, amigas, é lidar.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXVII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Já acabei um relacionamento porque ele tinha vergonha de andar comigo na rua de ramos dados.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXVI)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Nem que fosse só uma vez na vida, mas gostava de experimentar fazer sexo na horizontal.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo, uma dizia: «O assunto do suicídio é meio tabu entre as plantas, não achas?» A outra respondia: «Por mim, não tenho problema nenhum em assumir que se alguma vez tiver uma doença sem cura, mato-me. Ah pois. E faço tal e qual as pessoas: enforco-me numa árvore. Zuca, acabam-se os problemas.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXIV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Conheces a estória da planta que mandou colocar um espelho no quarto para conseguir ver-se a crescer?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Conheci uma planta que gostava tanto de animais que não descansou enquanto não adoptou um cão. E sabes o que aconteceu? Um dia, o cão comeu-a.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «No último encontro que tive, apareceu-me um palhaço com uma caixa de preservativos. E eu a pensar: mas que raio, vais pôr um em cada ramo?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XXI)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Na minha última morada, meteram-me ao lado de uma planta super exótica. Apaixonei-me logo. Claro que fiz tudo o que pude para lhe captar o interesse, mas nada. Zero reacções. Levei uma semana a perceber que era a merda de uma daquelas plantas de lego que as pessoas agora compram.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XX)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Já pensei que seria engraçado se fôssemos como as pessoas, que gostam de se distinguir e valorizar em função dos carros que têm. As plantas podiam fazer o mesmo, só que com regadores.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XIX)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Não entendo esta mania que as pessoas cá de casa têm de serem tão ruidosas quando fazem sexo. Confesso que me parece tão irritante como o barulho do aspirador aos sábados de manhã, na verdade nem consigo distinguir uma coisa da outra.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XVIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Uma vez, fui abandonada num encontro. Tivemos uma briga feia e o idiota largou-me mesmo ali na berma da estrada, acreditas? Foi uma chatice arranjar boleia para casa, quem passava por mim pensava que eu estava ali plantada.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XVII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Tenho medo de morrer de repente, antes de ter tempo de fechar a sessão do email. Já viste, todas aquelas dickpics que me enviaram acessíveis a qualquer pessoa?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XVI)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Sabes uma coisa que me irrita no instagram? Que para dizer que gostamos de algo tenhamos de carregar no coração. Que coisa mais auto-centrada das pessoas, como se o coração fosse o símbolo universal do amor. E para quem não tem coração, como nós? Devia haver um instagram em que o símbolo de gostar fosse uma folha, não achas?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Estás a ver aquelas plantas que vivem no exterior, lá em baixo? Adoro ver quando o cão dos vizinhos lhes mija em cima.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XIV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Devia deixar de ir à psiquiatra. Qualquer coisa de que me queixe, ela diz sempre que é falta de rega.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Quando estou triste, sabes o que faço para rir? Imagino duas orquídeas a dançar tango.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Lá está outra vez o garoto a chutar a bola contra à parede, agora vai ficar naquilo durante horas. Quando vejo estes comportamentos das pessoas, lembro-me sempre dos dinossauros: muito espalhafato, mas tão limitadinhos da cabeça, coitados.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (XI)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Penso que também deviam existir cemitérios para plantas. E depois íamos visitar lá os nossos familiares e levávamos pessoas mortas para decorar aquilo, tal como as pessoas levam flores e plantas mortas para decorar os seus cemitérios. Que achas?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (X)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Estou a sentir-me meio sem graça, acho que preciso de algo que me faça sentir um pouco mais sexy. Conheces algum bom tatuador?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (IX)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Gostava mesmo que me rodassem o vaso antes do fim do Verão. Assim, vou ficar com um daqueles bronzeados à pedreiro.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (VIII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Nunca percebi bem qual o encanto de fazer sexo oral, chamem-me conservadora que não me importo.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (VII)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Até que enfim que chegou o Outono. Sempre quis ver aquela árvore nua.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (VI)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Voltei a ter um pesadelo em que já não era uma planta decorativa. Desta vez era uma alface e alguém me comia com filetes e arroz branco. Ainda estou a tremer, não vês?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (V)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «No outro dia, li um artigo em que explicavam que há cada vez mais plantas a optarem por depilação laser integral. Para afastar os insectos, sabes?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (IV)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Há um aspecto em que me sinto mais árvore do que planta: tenho montes de fantasias com bombeiros.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (III)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Sabes, posso parecer espalhafatosa e tal, mas no fundo sou bastante reservada. Só partilho a humidade da minha raiz com quem realmente amo.» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (II)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «No outro dia li uma coisa no instagram e fiquei confusa. Consegues explicar-me o que significa exactamente ter hemorróidas?» E riam.
Duas plantas com pouco juízo (I)
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Desculpa, mas queria fazer-te uma pergunta íntima. Como fazes para te masturbar?» E riam.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXVII)
«Sim, está tudo bem. Mas por vezes fico tão confusa, sabes? Ainda ontem estive com a terapeuta e ela diz sempre o mesmo, para me desfocalizar de mim própria porque não sou especial. Todas as semanas repete isto, que não sou especial. Mas depois vou para o instagram, e em cada foto que publico recebo montes de comentários a dizer que sou uma pessoa especial. Fico mesmo baralhada, sem saber em quem acreditar.» A viúva acena a cabeça para mostrar compreensão, faz-lhe uma festinha no braço, pede desculpa e segue a ronda, cumprimentando as pessoas que vieram ao funeral.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXVI)
As pessoas deixaram de olhar o céu para apreciar as nuvens; desinteressam-se do que não podiam agarrar e prender com as próprias mãos. Vendo isto, deus irritou-se; considerava que as nuvens eram uma das suas melhores criações e entristecia-o que as pessoas não as admirassem, não as seguissem com o olhar, não desejassem secretamente tocar-lhes. Fora para isso que as criara: para que as pessoas desejassem senti-las com a ponta dos dedos, acariciá-las com a pele das costas da mão. Sentia-se cada vez mais estúpido por ter perdido tempo com criações disto e daquilo, na expectativa de que as pessoas as compreendessem e apreciassem.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXV)
O diabo decidiu mudar a decoração do inferno; decretou que em todas as paredes estivessem fotografias das pessoas que foram amadas por quem residia no inferno. Os decoradores procederam de tal modo que, em qualquer lugar que estivesse, cada pessoa poderia ver uma fotografia de alguém que amara. Ninguém percebeu se a decisão do diabo fora motivada por ingénua bondade ou para agravar o padecimento dos seus hóspedes.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXIV)
O céu sentia-se sozinho. Por vezes, olhava o mar; e, vendo-se ali reflectido, podia tentar acreditar que estava perante outro céu. Claro que sabia que se estava a iludir; ainda assim, havia alturas em que conversava com o mar, imaginando-o um céu divertido e interessante. Mas nunca se queixava da solidão; tinha vergonha.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXIII)
Estou aqui por causa de uma música. O problema começou num dia em que regressava do trabalho e a ouvi no rádio do carro; fiquei aparvalhado e com vontade de a ouvir de novo. Vontade, não; urgência. Mal cheguei a casa, liguei o computador e ouvi-a meia dúzia de vezes; e de cada vez impressionava-me mais. Investiguei um pouco e descobri que a música existia há vinte e sete anos; e quando vi a imagem da capa, percebi que a reconhecia; subitamente, com o impacto de uma pancada - assim: páááá -, percebi que tinha comprado aquele disco; que ouvira aquela música há vinte e sete anos, e que nessa altura me fora completamente indiferente. Nos dias seguintes, ouvi-a várias vezes, em várias circunstâncias. Como se a música fosse uma pessoa, e estivesse apaixonado por ela; incapaz de a largar. Ri sozinho, quando tive este pensamento. Mas foi aí que as coisas se complicaram; pensei: e se o que me aconteceu com esta música tivesse ocorrido em relação a uma pessoa? Alguém que há vinte sete anos me foi indiferente, mas por quem me poderia ter apaixonado se tivesse olhado com atenção. O tempo passou e a dúvida não me saía do espírito; para a esclarecer, tentei restabelecer contacto com pessoas do meu passado que não via há décadas. Dizem que fui insistente; dizem que fui inconivente; dizem que fui agressivo. Dizem que foi necessário (temporariamente, esclareceram) trancar-me aqui para me proteger. Dizem que não posso ouvir a música de há vinte e sete anos porque me deixa agitado, e confesso que é isso o que mais me custa.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXII)
Estava quase a adormecer quando uma mosca começou a rondar. Enervou-se com o incómodo, pôs-se em posição de ataque, desferiu a pancada, matou a mosca, sorriu. Pouco tempo depois, adormeceu. Algures nalgum canto do universo, um funcionário administrativo teve de abrir o excel adequado e actualizar os valores na coluna "menos uma mosca". Curiosamente, foi esse mesmo funcionário que algum tempo depois teve de actualizar o excel na coluna "menos um humano", porque o assassino de moscas não voltou a acordar. Deus apreciava simetrias e balancetes certos.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXI)
Ele sabia. Poucos sabiam, e ele era um deles. De noite, enquanto dormia, a alma saía do seu corpo, como se fosse dar um passeio. Isso das almas abandoarem o corpo para fazer turismo era estória antiga, do conhecimento de toda a gente. O que poucos sabiam, e ele era um deles, é que não se tratava de turismo. Não, nada de devaneios ao acaso ou passeios higiénicos. As almas iam aprender, como se fossem à escola; encontravam-se com outras almas, e escutavam os ensinamentos das almas doutoras. Aprendiam, e depois regressavam a casa. Isso era o que poucos sabiam, e ele era um deles. Aquilo a que se chama sonhar era, afinal, aprendizagem.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LX)
Reunidos em congresso, os cientistas debatiam sobre quais poderiam ser as melhores formas de alcançar a imortalidade na espécie humana. Todas as hipóteses avançadas pareciam vindas de livros de ficção científica, e nem todos bons livros. Até que o único cientista presente que ainda não recebera o prémio nobel sugeriu: e se arranjássemos uma forma de a morte se apaixonar pela humanidade?
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LIX)
Sempre se habituara à divisão clássica e consensual que prevalecia há milénios: havia verdade e havia mentira. Mas há muito que desconfiava que esse binário estava ultrapassado; acreditava que apenas pessoas eticamente fracas e cobardes ainda se deixavam seguir por essa simplicidade algo rústica, impingida às gentes mais susceptíveis por filósofos, moralistas e religiosos desde tempos imemoriais. Para si, a divisão que importava era outra: havia convicção e havia incerteza. Disse no seu famoso discurso: "Verdades e mentiras são categorias dinâmicas que se contaminam e confundem entre si. São formas artificiais e redutoras de capturar e aprisionar a realidade." E como falou com convicção, levaram-no a sério. Apesar de ser cómico de profissão.
Uma peça para rir
NMNM apresenta:
(uma peça para rir)
JÁ EXPERIMENTASTE AZEITONAS?
(começa mal, que o título não tem graça)
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LVIII)
Hoje vi dois pássaros entretidos num voo. Às voltas pelo céu, um à frente e outro atrás, para cima e para baixo, com grandes piruetas e ziguezagues inesperados. Achei que estariam a brincar, tal como duas crianças que jogam à apanhada, rindo alto. Depois surpreendi-me com um pensamento: e se não for uma brincadeira, mas um ataque? Se aquilo a que assisto for uma perseguição, um acto de caça inclemente? Continuo a observar, sem conseguir chegar a nenhuma conclusão. Que sei eu da natureza? Que sei eu da vida? Quase nada. E depois pensei: que sei eu de ti? Quando te olho sinto que nada sei do que pensas ou desejas; sinto que és uma desconhecida. Sabes o que pensei quando via os pássaros às voltas? Que gostava que nos divorciássemos. Gostava de voar sozinho.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LVII)
O escritor divaga sobre a importância de encontrar um sentido para a vida. Fala de forma apaixonada e convicta, completamente seguro do que diz. A audiência escuta com atenção, aderindo ao que ouve não tanto pela excelência dos argumentos mas mais pela convicção e dramatismo com que são expostos. Até que a mulher mais bonita da audiência interrompe para explicar que não concorda: «Dizer que há um sentido para a vida é absurdo. Existe é a possibilidade de vislumbrar um sentido para determinado momento da vida. Mas para este momento em particular, que estamos aqui a viver em conjunto, não consigo encontrar qualquer sentido. Tenho de o procurar noutro lado qualquer.» E sai. O escritor fica incomodado, não tanto pela discordância pública em relação aos seus argumentos, mas por ter sido contrariado pela mulher mais bonita da audiência, que estava a tentar impressionar desde o primeiro momento.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LVI)
Ao fim do dia sentava-se no velho cadeirão, ao lado da sua árvore preferida, e contemplava o horizonte longínquo. Nunca se cansava de olhar, regressando ao que já conhecia ou descobrindo novos detalhes na paisagem; desconfiava que só fazia sentido olhar quando o que se via pudesse ser complementado pela imaginação. Até que um dia o horizonte se aborreceu de tanta contemplação e lhe disse: «Pára de olhar e faz alguma coisa. Mexe-te, caralho.»
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LV)
Toda a gente pensa que a sua obsessão enquanto arquitecto é conceber paredes perfeitas que impeçam que o ruído do mundo entre numa determinada sala. Mas a verdade é que o seu objectivo é outro: a função principal das paredes é impedir que o silêncio da sala saia e se perca no mundo.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LIV)
Era uma planta muito jovem quando chegou àquela casa. Colocaram-na à beira de uma janela, onde se habituou ao excesso de luz. Nem sempre a regavam, e também se habituou à escassez de água. Foi adoptando a milenar filosofia das plantas (aceita, babe, que dói menos) e os dias foram passando. Outra coisa a que se habituou: discussões. Muito se discutia naquela casa, dia após dia. Mas não só se habituou como incorporou essa peculiar forma de estar na vida; e deu por si a desejar discutir com alguém. Talvez um dia trouxessem outra planta, e deixaria de estar sozinha; poderia discutir. Foi sonhando, enquanto olhava pela janela.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LIII)
O relatório do técnico é claro: "O planeta é dominado por uma espécie execrável. Vão produzindo umas inovações que consideram muito avançadas, mas que na verdade são (do ponto de vista científico) muito infantis; baseando-se na suposta superioridade dessa tecnologia e da sua própria evolução enquanto criaturas auto-conscientes, desconsideram todas as restantes espécies e colocam em risco a sobrevivência do planeta. Mas mesmo entre si têm comportamentos discriminatórios e agressivos não compatíveis com o actual estado civilizacional do universo. Cito apenas um exemplo: há indivíduos desta espécie que violentam os seus semelhantes por não apreciarem o seu local de nascimento. Há milénios que não me deparava com uma espécie tão ostensivamente imbecil, como o referido exemplo comportamental demonstra. Recomendo que não seja feita qualquer aproximação por parte da sociedade das civilizações inter-espaciais e que se permita que esta espécie definhe e se auto-extinga, conduzida pela sua arrogante estupidez." O burocrata que analisa este relatório coloca-lhe um carimbo, dando despacho positivo, e sente-se feliz por não ser desses técnicos que têm de explorar territórios tão selvagens e depressivos; arrepia-se ao tomar consciência - uma vez mais - de como ainda há focos de horror espalhados pelo universo. Suspira. Sente que o trabalho se arrasta, que tarda em chegar a hora de encerrar a repartição. Suspira de novo. Talvez saia mais cedo, precisa de comprar mais tinta para o carimbo.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LII)
Por vezes, tudo o que o oceano deseja é sossego e tranquilidade; parar um pouco. Mas a lua não deixa.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LI)
Era uma vez uma pessoa que decidiu adoptar um cão. O cão instalou-se e logo adoptou uma árvore que vivia no jardim. A árvore não se importou; quando tinha adoptado aquela pessoa já sabia que mais tarde ou mais cedo viria um animal. É da natureza das famílias irem crescendo.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (L)
A estrela decidiu dormir uma sesta. Quando acordou, o minúsculo e longínquo planeta que gostava de contemplar quando acordava (tinha sonhos agitados e observar a insignificância tranquilizava-a) já não era azul.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLIX)
O homem e a mulher viviam naquela caverna há muito tempo. Aborreciam-se um pouco, assim sozinhos. Certo dia, um deles começou a emitir um som específico sempre que desejava sexo; o outro, percebendo o significado desse som, também começou a reproduzi-lo sempre que lhe apetecia. Com o tempo, passaram a desenvolver sons individualizados para cada uma das posições que, em determinado momento, queriam explorar. E assim nasceu a linguagem humana. Numa caverna, por aborrecimento.
As saudades não te impedem de voar
Companhia Nem Marias Nem Manéis em parceria com Associação Hirundo
Fotografia de cena: Cristina Vicente
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLVIII)
Foi um dia cansativo; Deus observava com desânimo a sua criação e lamentava-se. «A humanidade cansa-me tanto. Que aborrecida é toda esta gente, às voltas de um lado para o outro a pensar: ai, que eu sou tão importante.» O secretário sorriu, gostava quando Deus imitava vozes. «Nem têm consciência da sorte que têm. Não se esforçam em nada, uma tristeza. Ai, que eu sou tão especial.» O secretário voltou a sorrir; mas depois, preocupou-se porque Deus ficou demasiado tempo em silêncio, o que nunca era bom sinal. «Sabes o que podia fazer, para ver se aprendiam? Tornar a respiração um mecanismo não automático. Tinha piada, não tinha? Cada pessoa precisava concentrar-se permanentemente na respiração, e caso se distraísse parava de respirar. Desconcentrava-se, morria. Pumba. Ai, que me está a faltar o ar.» Disse isto e riu durante muito tempo. O secretário abanou a cabeça, sem sorrir.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLVII)
Viviam juntos desde sempre. E o cão já o conhecia tão bem que conseguia antecipar os seus movimentos e acções. Dizia com frequência aos vizinhos: conhece-me melhor do que me conheço a mim próprio. Por isso, foi com naturalidade que passou a confiar inteiramente no cão com quem vivia desde sempre quando o seu estado de demência evoluiu e se tornou grave. Por exemplo: levantava-se e, após dar cinco passos, esquecia-se do que pretendia fazer, de qual o destino, de qual o objectivo; então, bastava-lhe seguir o cão e ver até onde ele o conduziria. O cão sabia, o cão sabia sempre.
o EXTERIOR do INTERIOR
33 fotografias do interior do Estabelecimento Prisional de Leiria (Jovens) tiradas por reclusos.
33 textos inspirados nessas fotografias escritos por 33 autoras.
Coordenação fotográfica: Tânia Silva
Coordenação literária: Paulo Kellerman
Coordenação editorial: Patrícia Grilo
Edição: EAPN - Rede Europeia Anti-Pobreza
Apoio: Estabelecimento Prisional de Leiria (Jovens), Centro Protocolar da Justiça, Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLVI)
Os dois miúdos caminhavam por um atalho da floresta quando, nunca curva, encontraram um anjo caído no meio da estrada. Pareceu-lhes que se tinha despistado lá nos caminhos do céu e embatido numa árvore. Como acontece a qualquer pessoa normal, sentiram-se atraídos pelo acidente e foram averiguar. O anjo estava em más condições, mas respirava. Telefonaram para o número de emergência das pessoas porque não sabiam qual o número de emergência dos anjos e ficaram à espera. Quando os bombeiros chegaram e o levaram (gemia bastante, talvez se salvasse), retomaram a caminhada. Já tinha passado um bom bocado quando um disse: e se fôssemos à praia? Pode ser que nos apareça uma sereia, tinha mais jeito do que um anjo.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLV)
O ditador estava entretido no seu passeio quando reparou na árvore. Não gostou da sua cor. Voltou para trás e disse-lhe: não gosto da tua cor. A árvore não reagiu. O ditador disse: muda já de cor. A árvore continuou sem reacção. O ditador enervou-se e ordenou que deitassem a árvore abaixo. Veio a equipa de derrube e abateu a árvore. Depois veio a equipa de transporte e o cadáver da árvore desapareceu de vista. Ainda assim, o ditador não ficou satisfeito. Porque ao lado estava uma árvore da mesma cor. O ditador perguntou: não viste o que aconteceu à outra, porque não fugiste?
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLIV)
Houve um dia em que finalmente se cansou do egoísmo dele durante o sexo. Poderia ter-lhe dito delicadamente, com paciência e assim. Mas preferiu mostrar-lhe. Despiu-se completamente e deitou-se na cama; depois colocou uma espelho em cima da cara. Disse: pronto, faz lá amor contigo próprio.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLIII)
Domingo de manhã. Tenho onze anos e olho para a minha bicicleta quase nova; arranjei cinco autocolantes e estudo cuidadosamente a melhor localização para os colar. Não tenho pressa, o domingo costuma ser um dia muito comprido. Antes do lanche, dou uma volta de bicicleta; não me cruzo com ninguém que repare nos autocolantes novos. Não faz mal: depois de cada domingo sempre vem uma segunda-feira. Chego à escola atrasado porque começou a chover. Dois autocolantes perderam-se pelo caminho, descolando-se com a humidade. Lembro-me disto quarenta anos depois. Hoje, agora: a bicicleta, os autocolantes, a chuva. Tudo mudou, excepto a inevitabilidade de após um domingo vir sempre uma segunda-feira. Gostaria que alguém me tivesse avisado que as memórias são como autocolantes. Teria sido mais cuidadoso.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLII)
Quando chega a casa ao fim do dia, gosta de se sentar na varanda; bebe um café enquanto olha o horizonte vasto, atento às subtilezas e novidades. Há sempre pássaros que voam como se fossem crianças ou que - invisíveis - se dedicam às suas milenares cantorias. Quase todos os dias pensa: gostava de ser pássaro. O banco onde se senta daria para três pessoas, mas apenas o seu lugar está vago. No espaço que resta estão seis plantas; gosta de se sentar ao seu lado e imaginar que contemplam o mesmo horizonte, com o mesmo entusiasmo. Juntos. Pergunta a si próprio o que verão as plantas durante o dia; será que conversam entre si? Sentirão saudades suas? Um dia, quando chegou, perguntou-lhes numa voz baixinha: então, novidades? Não houve resposta. Sentiu-se envergonhado, mas depois pensou que talvez não tivessem ouvido por ter falado tão baixo. Voltaria a perguntar, noutro dia; mas num tom mais alto. Talvez fossem um pouco surdas.
Teia
Por vezes, sinto-me como se fosse uma aranha. Sim, ouviste bem: uma aranha. Porque o trabalho das aranhas é construir teias. E é assim que me sinto, uma construtora de teias. Na verdade, penso que apenas preciso de trabalhar numa única teia; penso que vou passar o resto dos meus dias a tecê-la, a trabalhar diariamente no que é a construção mais importante da minha vida. Uma construção lenta e paciente, cuidadosa; ternurenta. Nem sei de que são feitas as teias de aranhas; talvez de um líquido proteico que solidifica em contacto com a atmosfera? É possível. Será certamente algo muito diferente do que compõe a minha criação, isso é certo. A teia que construo dia após dia é formada por memórias. Sim, memórias. Todas as memórias bonitas que vou conseguindo reunir do meu filho, agora que ele já não me pode abraçar. Todas. Uma a uma. Entrelaçadas entre si, compondo uma estrutura delicada, mas resistente. E para que serve esta construção? Perguntas tu. Para me proteger. Não é uma construção predatória, como as teias das aranhas que vivem lá nos cantos do teu sótão. Mas é, de certa forma, uma estrutura que me permite sobreviver. Deixa que te explique. Sempre que vem o insecto da dor ou da desolação ou da tristeza (e sabes bem como eles não param de vir, sempre a esvoaçar por perto), a teia protege-me. Funciona como um escudo protector que impede a passagem daquilo que me pode magoar; desses insectos insidiosos que chegam subrepticiamente, sempre prontos a fixar em mim as suas garras e não mais largar. Por isso é que esta construção tem de ser permanentemente cuidada e reforçada, pois os insectos da tristeza ou da desolação ou da dor continuarão sempre a vir. Para mim, o luto é isso: construir esta teia que me envolve e protege, que me acolhe. Talvez não seja a imagem mais poética, as pessoas tendem a desprezar as aranhas. Mas sabes o que aprendi? A olhar para a natureza de outra forma; não apenas com respeito ou admiração, isso deveria ser o ponto de partida básico. Comecei a olhar também com um certo sentido de pertença; como se me olhasse ao espelho, na verdade. Porque sou parte da natureza, sou parte deste fluxo contínuo e complexo que inclui as florestas e os oceanos e o vento e a areia dos desertos e as nuvens de trovoada e os pandas e os periquitos e as pessoas, todas as pessoas vivas ou mortas ou por nascer, e as flores e o cheiro a laranja e o luar. E as aranhas. Aprendi que a natureza - no seu conjunto e na individualidade de cada um dos seus elementos - contém em si própria os meios que garantem a sua subsistência e a sua sobrevivência. Como as aranhas têm em si o líquido com que produzem as teias, eu própria tenho em mim - no meu corpo, em cada uma das células - aquilo que me ajudará a permanecer viva, e eventualmente sorrir nalguns dias (quase todos): sangue e memória. Entendes?
Diário de Leiria, 29 de Abril de 2026
(Convite: Associação Leiria Compassiva)
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLI)
Mantinha há anos a mesma estratégia. Quatro encontros de descoberta do outro, a fase do encantamento. No quinto encontro, o primeiro beijo. No sexto, beijo acompanhado de mão no interior das cuecas do outro. No sétimo, a primeira relação sexual. No décimo, a primeira noite passada em conjunto. E era esse o momento determinante, aquele que decidia se haveria futuro comum ou não: o primeiro despertar junto do outro. Talvez um dia chegasse ao décimo primeiro encontro.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XL)
Chegava o fim do dia e o escritor sentava-se na varanda para descansar de um dia de escrita. Observava o desaparecimento do sol e, depois, a lenta transformação de cores na atmosfera que inevitavelmente terminaria em escuridão. Ouvia a agitação dos pássaros, procurava o aparecimento da primeira estrela. Sentia o toque da brisa na pele e tentava identificar que cheiros transportava e trazia até si; achava-se uma espécie de detective de cheiros. E pensava nos seus leitores; pensava nas pessoas que naquele exacto momento pudessem estar a ler algum dos seus livros. Quem seriam? Imaginava-os em varandas como a sua, talvez tocados pela mesma brisa mas desinteressados da primeira estrela; imaginava-os a emocionarem-se com o que liam; imaginava-os a imaginarem como seria o escritor que escrevera aqueles livros. Não lhe bastava imaginar personagens, precisava também de imaginar leitores; como se fossem personagens.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXXIX)
Certo dia a pele começou a queixar-se. Dizia, primeiro timidamente e depois com crescente insistência: não me sinto livre. O resto do corpo ouvia, com alguma indiferença porque a pele tinha tendência para se queixar de tudo; mas a paciência foi-se consumindo. Começaram a surgir resmungos um pouco de todos os órgãos, mas nada calava a pele. Até que alguém se enervou. Disse o coração: cala-te, que já ninguém suporta tanto queixume. E depois disse: apenas tu és verdadeiramente livre neste corpo, porque apenas tu tens a possibilidade de ser tocada. O cabelo pensou: eu também posso ser tocado; mas preferiu não criar confusão e nada disse. A pele ficou em silêncio durante uns dias. Depois, primeiro timidamente e mais tarde com crescente insistência, começou a queixar-se: sinto-me demasiado livre.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXXIII)
Todos os dias o idoso comia um chocolate mais ou menos à hora do pôr-do-sol. Um pequeno chocolate de embalagem vermelha, com nove quadradinhos. Sentava-se na sala de estar do lar, junto a uma janela; olhava lá para fora, fixando o olhar em algo indefinido ou em nada. Depois, abria a embalagem com vagar e comia sem pressa, saboreando. Por vezes, fechava os olhos; por vezes, chorava. Ninguém o incomodava durante aquele ritual; claro que comer um chocolate diariamente não era saudável, mas já estava numa idade em que não fazia grande diferença. E toda a gente sabia que aquele ritual representava um regresso ao passado, à infância; uma despedida. A reprodução de uma memória antiga: a tarde em que o seu pai lhe dera um chocolate idêntico e ele o comera à beira da janela, olhando para o jardim enquanto os pais conversavam na cozinha. O sol descia lá fora, os pássaros celebravam ruidosamente o fim do dia. Ouviu a mãe rir sete vezes, e o pai duas; uma risada por cada quadradinho de chocolate. No dia seguinte, ambos morreriam num acidente.
27 de Março de 2026
"Andamos numa busca estúpida por visibilidade, tentando a cada momento mostrar que somos únicos e especiais. E como fazemos isso? Imitando os outros. Copiando aquilo que parece dar visibilidade aos outros. Imitar para ser único. Ahahahahah. Tem tanta piada."
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXXII)
Como se esperava, veio o dia em que o mundo acabou para os seres humanos. Todos se extinguiram, e o planeta pode finalmente viver em silêncio. Uma consequência evidente do desaparecimentos da humanidade foi o despovoamento das casas; lentamente, todas foram definhando, tornando-se habitadas apenas pelo vazio. Mas o vazio é mau morador, e as casas ansiavam por repovoamento; ansiavam por acolher vida no seu interior; ansiavam por companhia. Foi então que algumas espécies de árvores começaram a nascer dentro das casas desabitadas; e lá floresceram, especialmente as que viviam em casas que optaram por abdicar do tecto para que a luz do sol e a chuva pudessem entrar livremente e alimentar os novos habitantes. Com o tempo, a paisagem passou a estar repleta destas simbioses casa-árvore: modelos perfeitos de adaptabilidade ao outro. Ramos com paredes, paredes com ramos: onde começava a árvore e terminava a casa? Prosperaram as florestas de casas arborizadas; ao longe, os mares observavam. E durante algum tempo, o planeta foi feliz.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXXI)
Acordo a pensar em ti. Talvez por ter sonhado contigo, apesar de não conseguir recordar; mas deverá ter sido um sonho intenso. Levanto-me e tomo banho; durante todo esse tempo, penso em ti; percebo como sinto saudades tuas, como me apetece ouvir-te. Depois de me vestir, pego no telefone e ligo-te. Está desligado. Como alguma coisa, bebo um café. Volto a tentar ligar. Desligado. Subitamente, tomo consciência do absurdo do meu comportamento. Morreste há três semanas e meia. Continuo com o telemóvel na mão; olho para ele, sem saber o que lhe fazer. Pergunto-me, estupidamente, o que terá acontecido ao teu telemóvel; porque raio ninguém o carrega, porque não o mantêm vivo? Sinto saudades tuas, apetece-me ouvir-te.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXX)
Vejo a floresta à minha frente. Caminho entre as árvores, olhando-as como se as conhecesse; por vezes, toco-as ao de leve. E elas correspondem: como se apertássemos as mãos. O sol desce lá à frente, inundando a atmosfera com um manto dourado e flutuante que parece envolver todas as árvores. Escuto o som ténue causado pelos meus passos na terra; e sinto que essa terra não tem idade, é anterior à minha existência, ou à existência da própria humanidade. É como pousar os pés sobre o próprio tempo, ou as estrelas: caminhar em cima da intemporalidade. Avanço passo após passo sentindo-me leve, como se a minha presença não trouxesse peso ao universo. Escuto o diálogo de animais que não conheço, pronunciando-se nos seus idiomas cantantes; um diálogo que não me exclui; sempre me espanto, como se fosse uma primeira vez: os animais da floresta cantam, as suas linguagens são canções. Ao contrário do berro que ouço, que me traz de volta à realidade. A floresta desaparece do meu espírito: tudo o que acabei de ver - sentir - ocupou três segundos da minha vida, o tempo que espaçou os dois socos. Recebo o novo embate, gemo, volto a fechar os olhos. Perante mim, surge de novo a floresta; os pés sobre a terra, os ouvidos preenchidos com as melodias ancestrais da natureza. A tortura pode prosseguir indefinidamente: o meu espírito manter-se-á livre. A minha floresta.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXIX)
Sempre foi um terapeuta atento e delicado; trabalha com cada um dos seus pacientes de forma a contribuir para a superação das angústias e dores que trazem consigo. Auxilia-os da melhor forma que sabe, estimulando-os a que percebam por si próprios as causas dos seus sofrimentos e as melhores estratégias de superação. Sabe que a sua função não é apresentar soluções, mas acompanhar cada paciente no seu próprio percurso em busca de uma possibilidade de resolução. Acompanha - presença efectiva, solidária; mas também desafiante, se necessário - o percurso feito por cada um; perante cada sucesso ou fracasso, está sempre presente. E assim aprende o que pode ser eficaz ou não; como se o seu consultório fosse, afinal, um laboratório; um local de exploração e teste, de aprendizagem. Se um dia tiver alguma daquelas dores ou angústias, poderá (talvez) aplicar em si o que aprendeu com os seus pacientes; como se, afinal, fossem eles o terapeuta. Como se eles, ao percorrerem os seus itinerários individuais de superação únicos e diferenciados, compusessem um mapa de caminhos e rotas possíveis; um mapa onde são assinalados atalhos e becos sem saída, locais de interesse ou a evitar, postos de abastecimento ou de refúgio. Um mapa precioso a cuja composição assiste dia após dia, maravilhado com a cartografia das emoções que é desenhada perante si. Agradecido aos seus pacientes por lhe mostrarem que é possível navegar entre as emoções humanas (essa selva fulgurante e misteriosa); e não se perder.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXVIII)
Um escritor tem o hábito de registar ideias e pensamentos em cadernos quase diariamente. Os anos passam e a colecção de cadernos aumenta: são dezenas deles, coloridos e de diferentes tamanhos, alinhados numa estante. Por vezes, gosta de olhar e apreciar o seu passado - assim à distância, sem entrar nele; perceber que está ali, disponível. A verdade é que sente um conforto inexplicável ao olhar aquele arquivo de pensamentos e ideias; mas é muito raro pegar num dos cadernos e ler o que escreveu. Quando o faz, a reacção é sempre a mesma: sente um enorme embaraço; questiona-se sobre os motivos de ter escrito aquilo, questiona-se sobre que pessoa era aquela e na qual já não se revê. O incómodo pode ser tão grande que costumam passar meses até voltar a abrir um dos cadernos, geralmente por distração. Apesar disso, nunca suspende a recolha de ideias, nunca cessa de registar. Os anos passam e a colecção de cadernos aumenta, imparável. Não se percebe para quê.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXVII)
Procurava uma relação estável e plena; e para isso faria o que fosse necessário. Homens que lhe eram apresentados por amigas, homens que captavam o seu interesse nas redes sociais, homens que conhecia em sequência de contactos de trabalho, homens com quem se cruzava nas aplicações de encontros: se o seu instinto os sinalizava como potencialmente interessantes, aceitava marcar um encontro. Sempre no mesmo local, um restaurante acolhedor onde se sentia em casa. Sempre com a mesma disponibilidade para se encantar. Falava, ouvia, ria; não se incomodava com os silêncios. Havia momentos em que se divertia, havia momentos em que se entediava. Mantinha sempre a mente aberta, o espírito receptivo. Apenas tinha uma regra: os jantares duravam três horas; e se durante esse período o homem com quem estava não pronunciasse pelo menos uma vez, por sua iniciativa, a palavra "amor", despedia-se e cortava de forma paremptória qualquer possibilidade de contacto futuro. Três horas, nem mais um minuto.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXVI)
O combatente tem uns dias de férias e regressa a casa. Uma das coisas em que mais pensa quando está no campo de batalha é no seu filho pequeno e em tudo o que gosta de fazer com ele; contar-lhe estórias antes de adormecer; andar de bicicleta; fazer bolos que nunca saem bem; desenhar; inventar coisas com legos; brincar com os cães; rir. Faz tudo isso nesse primeiro dia de férias; nem por um momento se lembra do campo de batalha, do regresso inevitável. Foi um dia longo que passou demasiado depressa. Acabou de lhe contar a estória para adormecer, estão ambos deitados no escuro; ouvem a respiração um do outro. Então o menino pergunta numa voz quase imperceptível: papá, mataste muitos inimigos? E depois: sabes o nome deles? E depois: sabes se tinham filhos? E depois: terei de lutar com esses filhos, tal como tu lutaste com os pais? E depois: achas que os vou conseguir matar, como tu mataste os pais deles? A cada nova questão, a voz do filho fica mais imperceptível, quase inaudível; como se não estivesse realmente a dizer palavras, mas apenas a ecoar pensamentos. O combatente não sabe como responder. Poderia estar apenas a imaginar? Poderiam aquelas perguntas - que atribui ao filho - serem, afinal, projecções dos seus próprios pensamentos? Concentra-se no murmúrio das respirações; ambos fingem que adormeceram.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXV)
No dia em que o filho nasceu, o pai plantou uma árvore no jardim. A sua ideia era que crescessem juntos, criança e árvore; em harmonia e cumplicidade. E assim foi. Desde muito cedo que o menino manteve uma relação especial com a sua árvore; uma relação que foi evoluindo para uma irmandade não declarada, mas concreta. O menino cresceu, e de repente era adulto; aprendeu que era necessário ser discreto quanto aos seus sentimentos, quando ao que revelava de si. As pessoas que o rodeavam tinham uma necessidade infinita de compreender e explicar tudo o que ouviam; e aquilo que não conseguiam compreender nem explicar era descartado como irracional; estúpido; loucura. Foi por isso que nunca contou a ninguém que considerava a árvore como uma irmã gémea. Nunca contou a ninguém que, tal como sempre acontece com os irmão gémeos, havia entre si e a árvore um elo subtil e inexplicável, espiritual, que lhes permitia ter um conhecimento íntimo do outro. Foi por isso que - muitos anos passados - soube que a árvore se aproximava da sua morte; sem revolta nem ressentimento, pois tivera uma vida feliz. Também sabia (tinham tido essa conversa muito cedo, ainda na infância) que a árvore desejava morrer à beira do mar. Tratou de tudo com serenidade, mas resolução; foi um processo caro e complexo, especialmente por causa das autorizações e licenças necessárias; mas nunca hesitou - apesar de ouvir constantes "irracional", "estúpido", "loucura". Até que se cumpriu o desígnio de ambos e a transplantação foi feita. Todos os dias vinha ao fim da tarde até à praia e juntava-se à árvore na sua nova casa; viam o pôr do sol juntos, aguardavam o anoitecer e o aparecimento das primeiras estrelas; nunca se cansavam da melodia do oceano. Mesmo depois de sentir que a árvore já não estava viva, continuou a vir durante muitos dias.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXIV)
Toda a gente lhe dizia o mesmo: a identidade de uma pessoa baseia-se na sua memória. Isso irritava-o porque significava que a sua personalidade estaria sempre associada ao passado, o que lhe parecia muito limitativo. Gostaria de ser mais condicionado pelo futuro do que pelo passado. Claro que poderia incorporar em si - naquilo que era - as suas expectativas e previsões em relação ao que esperava para o futuro, deixando de estar apenas vinculado ao passado. Mas as suas expectativas e previsões alteravam-se constantemente, por vezes de forma radical. Integrar essa volatilidade no seu quotidiano seria arriscado e, de certa forma, ingerível. O que fazer, então, para trazer o futuro para o presente? Decidiu inovar. As memórias são, por natureza, retrospectivas; para se constituírem, vão buscar algo ao passado. Mas e se existissem memórias prospectivas? Memórias que procuram algo no futuro e se formam a partir disso. Como uma semente que já se consegue visualizar - e sentir - como árvore. Claro que o futuro está por acontecer. Então - pensou, com entusiasmo - há que imaginar o futuro a partir do presente; e depois, ir a esse futuro imaginado buscar matéria para formar memórias, tal como se vai ao passado para fazer exactamente o mesmo. Assumir cada expectativa e previsão não como possibilidade mas como efectividade. Claro que essas memórias imaginadas e depois recordadas poderão não ser totalmente fidedignas; mas as memórias assentes no passado também não o são. Cada memória que tens - explicou uma vez a um amigo, que depois nunca mais lhe falou - é uma ficção; que importa se essas ficções se baseiam no que aconteceu ou no que ainda pode vir a acontecer?
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXIII)
Sempre foi acusado de não revelar emoções; de ser frio e pouco empático; de parecer quase maquinal, para não dizer desumano. Cansou-se das acusações e foi ao psicólogo procurar uma solução. E o psicólogo fez o seu diagnóstico: lamento, mas parece que não tem a capacidade de mostrar emoções porque, na verdade, não as sente. Ouviu aquilo e pensou: isso sei eu. Mas questionou: e qual o tratamento para isso? O psicólogo não hesitou: inventar emoções. Admirou-se e quis confirmar: fingir? O psicólogo explicou que se inventasse emoções podia acontecer que a sua estrutura mental se habituasse àquela novidade e começasse a absorver essas invenções e, com o tempo, a replicá-las. Como se estivesse a auto-condicionar-se a sentir; ou a aprender. Aplicou a instrução e as pessoas que o rodeavam logo notaram a diferença. Era-lhe fácil fingir. Admirou-se por nunca se ter lembrado de o fazer; facilitava-lhe muito a vida. Quando lhe perguntavam qual a origem daquele milagre, falava do psicólogo. E surpreendia-se por as pessoas da sua vida não distinguirem entre emoções reais ou fingidas, como se afinal não existisse diferença.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXII)
Iniciara a tradição no final da adolescência e ainda a cumpria, apesar de já ter mais de cinquenta anos; quase sessenta. Era simples: no primeiro dia da Primavera olhava-se ao espelho durante algumas horas. Via tudo o que tinha perante si, estudava cada detalhe, analisava cada pormenor, descobria nuances ou até novidades, reencontrava surpresas entretanto esquecidas; memorizava o seu rosto. Demorava o tempo que fosse necessário, sem pressa; depois, arrumava o espelho num armário e focava-se no que memorizara. Desde o final da adolescência que apenas se olhava ao espelho uma vez por ano. Durante trezentos e sessenta e quatro dias, a memória era o seu espelho.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXI)
Desde cedo que se entusiasmara com a namorada do amigo. Na sua perspectiva, era um interesse relativamente inofensivo, alimentado exclusivamente na sua própria imaginação. Parecia-lhe que fantasiar com outras pessoas não era problemático; apenas seria complicado se aquilo que imaginava começasse de alguma forma a condicionar o seu comportamento; se a imaginação contaminasse a própria vida quotidiana. O que não era o caso. Portanto, imaginava coisas; e nada mais. Até que num dia de bebedeira o amigo revelou detalhes de uma das suas sessões sexuais com a namorada. Muitos detalhes. Um filme inteiro. Ele escutou com atenção e reteve cada pormenor; construiu uma memória fiel e minuciosa do que fora vivido pelo amigo. Passou a ver muitas vezes aquele filme. E nunca teve consciência do que acabou por acontecer: em determinado momento passou a ser ele o protagonista do filme, substituindo o amigo. Apropriando-se da memória alheia. No fundo, talvez fosse como o oxigénio: anda por aí na atmosfera, disponível; não tem dono. Respira-se e pronto. Tal como as memórias: usurpam-se e pronto.
Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XX)
Um homem caminha pelo parque ao fim do dia, entretido a olhar as pessoas com quem se cruza e a pensar na vida. De repente, desmaia. Quando acorda no hospital, não sabe quem é; não tem qualquer memória, qualquer referência. Nada. Com o tempo, os médicos percebem que o seu cérebro não irá recuperar: todas as memórias perdidas para sempre; e com elas, a base da sua identidade. As pessoas que o amam, e que lhe asseguram que ele ama de volta, iniciam um lento e paciente processo de reconstrução da sua memória, contando-lhe recordação após recordação. Ele vai guardando o que lhe transmitem e reconstruindo a sua identidade a partir do que que ouve e aprende sobre si próprio. Decepcionado, porque não gosta da pessoa que está a descobrir; da pessoa que supostamente era; da versão de si que os outros conheciam. Surpreendido com as pessoas que o amam, e que lhe asseguram que ele ama de volta: será que acreditarão mesmo que basta inserir um conjunto de memórias num corpo e, por magia, obter a exacta pessoa que pretendem?
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