Apresentação: Arquivo - Leiria | 5 de Março | 18h30
Contos imperfeitos
Afonso Cruz | Ana Cristina Silva | Andreia Monteiro | António Manuel Venda | Cláudia Clemente |Cristina Carvalho | Elsa Margarida Rodrigues | Fausta Cardoso Pereira | Fernando José Rodrigues | Inês Botelho | Inês Fonseca Santos | João Eduardo Ferreira | João Paulo Silva | Luís Mourão | Paulo Assim | Paulo Kellerman | Paulo Moreiras | Raquel Ochoa | Sara Monteiro | Sílvia Alves
(Coordenação editorial: Paulo Kellerman e João Paulo Silva)
(Coordenação editorial: Paulo Kellerman e João Paulo Silva)
Inflamável # 03
- És insuportável, tu. Estás
sempre triste, insuportavelmente triste. E a tua tristeza é tão intensa e
palpável, tão ostensiva, que se torna contagiante, que é inflamável e alastra,
que corrói. É como se estivesses permanentemente envolvido numa nuvem de
tristeza, uma nuvem que arrasta para o seu interior quem se aproxima de ti.
- Porque te queixas tanto? As
tuas queixas é que são inflamáveis, não têm fim. Já pensaste que talvez ande
tão triste porque tu não paras de te queixar? Olha, desampara-me mas é a nuvem,
que já vai sendo tempo.
Baque
Apesar de terem
passado quase trinta anos, lembra-se daquele fim de tarde em que subitamente
decidiu regressar a casa por um caminho diferente, um atalho de terra batida
que atravessava o deserto de campos e por onde não passavam carros. Lembra-se
do enfado que habitualmente sentia ao percorrer os dez quilómetros que
separavam escola e casa, alternando dia após dia os três percursos possíveis
numa tentativa ingénua de iludir o aborrecimento. Lembra-se que a inesperada escolha
de um trajecto alternativo lhe proporcionou a sensação de estar a baralhar o
destino e a iludir a rotina. Lembra-se como o facto de ter cedido a um impulso
súbito, a um apetecimento, lhe deu
prazer e alegria. Lembra-se da inesperada sensação de liberdade, de se ter sentido
só e de essa solidão saber bem, por ser uma opção sua, por ser um breve
intervalo do mundo e das suas pressas, uma fuga momentânea. Lembra-se de se
imaginar como um adulto ao volante do seu carro, de regresso a casa após um
aborrecido dia de trabalho, que subitamente decide conduzir sem destino nem
pressa, ouvindo música no volume máximo, sentindo que não está amarrado à sua
própria vida e controla o seu rumo (é uma chatice as bicicletas não terem
auto-rádio, pensou). Lembra-se de se sentir livre naquele ambiente virgem, onde
a natureza imperava através dos seus cheiros e cores, dos zumbidos de
bicharocos esvoaçantes que existem desde o início do mundo. Lembra-se do suor
na testa e do peso na mochila nas costas, do cansaço nas pernas, do prazer de
percorrer com o olhar os vastos horizontes verdes cobertos pela luz dourada do
fim de tarde. Lembra-se da lentidão do seu avanço na tentativa ingénua de
retardar o regresso à rotina do lanche e dos TPCs e da TV e da ansiedade
melancólica de ter treze anos para sempre. Lembra-se da suave mas inebriante
euforia de se sentir entregue àquele momento, alheado de passado ou futuro,
conectado com o presente e nada mais, sentindo essa euforia como algo quase
físico, um suave nó no estômago, uma onda de estremecimento, um baque de emoção.
Lembra-se de sorrir. Lembra-se de fazer manobras parvas e da bicicleta derrapar
e de sentir um momento de pânico. Lembra-se do descontrolo e da queda e do
embate no chão rijo por onde nunca passavam carros. Lembra-se do som do baque
provocado pela sua queda. Lembra-se da dor. Lembra-se do desmaio. Lembra-se da
sensação de medo e confusão, de névoa, de desligamento, de tristeza, ao acordar
do desmaio. Lembra-se do silêncio. Lembra-se da lentidão com que
consciencializou onde estava e o que acontecera. Lembra-se de erguer um pouco a
cabeça e olhar em redor, receoso de que alguém pudesse ter assistido à queda.
Lembra-se de se ter levantado lentamente, de tentar sacudir a sujidade da
roupa, de erguer a bicicleta. Lembra-se de pedalar com dificuldade de regresso
a casa, sentindo dor e medo e espanto e embaraço e confusão e pressa. Lembra-se
de pensar: e se não tivesse acordado do desmaio? Lembro-me, apesar de terem
passado quase trinta anos.
(38º texto de opinião para o Jornal de Leiria.)
Dedos
Dizias-me:
por vezes, as palavras não bastam. E eu respondia: sim, tens razão; mas, por
outro lado, sem palavras não existimos. Havia um silêncio e concluías: apenas
com palavras, também não.
Foi
na última vez que tivemos esta conversa que decidi escrever-te um livro. E colocar
nesse livro tudo o que tenho para te dizer, todas as palavras que quero que
sejam tuas, que guardes em ti. Talvez as palavras não nos bastem porque somos
incapazes de as guardar, de as tornar parte de nós; não achas? Tontice minha,
talvez. Mas não acreditas que uma palavra exacta dita no momento adequado poderá
ter tanta importância como… sei lá… um dedo? Não tens guardadas em ti palavras
que são tão físicas e palpáveis, tão visíveis e fundamentais, tão vivas, tão pele-e-carne-e-sangue-e-osso
como cada um dos dedos das tuas mãos?
Pensei,
então, em escrever-te um livro e nele colocar todas as palavras que quero que sejam
tuas. Para que as possas ler sempre que desejares, como desejares. Para que,
por um momento, possas imaginar que são apenas tuas, criadas para ti. Para que
te apropries delas e nelas me encontres. Para que as possas sentir; como se
fossem dedos. Pele-e-carne-e-sangue-e-osso.
(Imagem: John Tarahteeff)
Uma força que vem de dentro, uma força que vem de fora
(Escrito a partir de uma série de fotos de Beta Domingues.)
Por vezes, sinto-me rodeado por escuridão. Como se ela me fosse
engolir, como se ela me pudesse apagar. Percebes isto? Alguma vez sentiste igual?
Há luz, há escuridão: e eu no meio. Debatendo-me mas, na verdade, impotente e
desarmado. Que posso eu fazer contra a escuridão do mundo? Que posso eu fazer,
se a escuridão nasce em mim? Não há forma de lhe fugir (por vezes, nem o desejo
de lhe fugir; é isto o mais triste: nem o desejo de lhe fugir). E é então,
nesses momentos, que sinto o peso do mundo sobre mim, há um desânimo que me
comprime e angustia, é até possível que o meu corpo diminua um pouco, que
pedaços microscópicos de mim sejam expelidos através da respiração; apenas a
escuridão permanece no meu interior, intocável, cancerígena, enquanto tudo o
resto vai sendo expirado lentamente.
Sinto o peso da escuridão esmagando-me o corpo (uma força que vem de dentro, uma força que vem de fora) e, quando isso acontece, quando me sinto rodeado pela escuridão, o olhar foge-me sempre, desesperado; refugia-se no chão.
Sinto o peso da escuridão esmagando-me o corpo (uma força que vem de dentro, uma força que vem de fora) e, quando isso acontece, quando me sinto rodeado pela escuridão, o olhar foge-me sempre, desesperado; refugia-se no chão.
O que não é necessariamente mau. Sabes que, por vezes, há padrões desenhados no
chão – semiocultos, disfarçados, esboçados; imaginados? – que passam
despercebidos a quem não olha durante o tempo suficiente, com a atenção
suficiente, com o desespero suficiente? Estão lá mas não são vistos; excepto
quando me sinto tão esmagado que sou incapaz de erguer o olhar, desviá-lo do
fundo do chão. E então vejo, tenho mesmo de ver. Padrões desenhados no chão.
O peso da escuridão pode ajudar-me a ver mais claro. O desespero pode iluminar. Irónico, não é?
O peso da escuridão pode ajudar-me a ver mais claro. O desespero pode iluminar. Irónico, não é?
Há momentos em que preciso olhar o chão que me prende para sentir o apelo do
voo; a necessidade do voo; a indispensabilidade do voo. Preciso firmar bem os
pés no chão para conseguir voar.
Mais uma ironia, dirás tu.
Momentos em que percebo que os pés podem não ser raízes que me fixam e
aprisionam; serão, talvez, raízes portáteis que podem erguer-me do chão,
fazer-me caminhar. E caminhar é uma forma de voo. Não é? Caminhar,
simplesmente. Por vezes, é tudo o que preciso fazer, tudo o que posso fazer:
caminhar em frente, desenhando o meu próprio padrão no chão que piso, no chão
em que voo.
Mas é impossível fechar os olhos enquanto se caminha. Então, caminho e olho o
horizonte; contudo, mais tarde ou mais cedo, será impossível ceder à tentação
de erguer o olhar até lá acima, bem alto. O céu é tão sedutor, não achas? Tão
ilusoriamente sedutor. Na verdade, é lá que desejo voar, e não na terra suja.
Correr no céu.
Desejo sofregamente o céu, a sua luz. Esquecendo que, no fundo, essa
luz é uma escuridão; uma escuridão diferente daquela a que estamos habituados,
uma escuridão que cega; uma escuridão que entra em mim porque que não consigo
deixar de a inspirar após expirar o ânimo que ainda guardo.
Escuridão por dentro, escuridão em redor, escuridão por cima; e é
fodido.
Esmagado entre chão e céu, balanceando entre escuridões antagónicas, vou
caminhando; e talvez o caminho que ainda falta percorrer me conduza ao refúgio
que procuro. Sabes como imagino o meu refúgio? Um sítio aberto e livre,
simultaneamente céu e chão, onde todas as escuridões confluam e se anulem entre
si; ou se equilibrem, pelo menos. Não desejo castelos nem fortalezas
inexpugnáveis, não desejo desertos nem mares sem limites, não desejo imensidões
inabitadas nem belezas esmagadoras nem prazeres intermináveis. Desejo, apenas,
aquilo que o meu olhar e o meu espírito reconhecerão imediatamente como sendo
presente e passado e futuro, indissociáveis. Um local que seja passado e
presente e futuro; que seja tudo. Um ponto e uma linha, em simultâneo. Será
esse o meu refúgio.
Sabes o que pensei no outro dia? O quanto preciso de música. Isso já tu sabes.
Mas, pela primeira vez, pensei em música num sentido mais lato, não apenas em
canções, não apenas naquela harmonia mágica entre vozes humanas e instrumentos
musicais que pode causar estremecimento e arrepio e riso e choro e emoção pura
e prazer, tanto prazer. Esse, afinal, é apenas um tipo de música.
Estava a pensar isso, em silêncio, respirando devagar e, de repente,
percebi: há música no som da minha respiração; de qualquer respiração. E este é
apenas um exemplo. No fundo, há música em tudo o que tem vida em si, em tudo o
que vive verdadeiramente. Foi isso que pensei; uma tontice, portanto. Preciso
de música desesperadamente porque a minha música interior talvez esteja (como
eu) moribunda; e então, substituo-a.
E a escuridão recua um pouco.
Caminhar pé ante pé, de forma firme mas leve (raízes que voam), com um rumo
definido mas sem prisões condicionadoras, deixando um rasto desenhado no chão;
e escutando a música da minha própria respiração. Parece tão simples, não é? E
é simples, sei que é simples; já fui assim, um dia. Lembro-me.
E agora vou lanchar, que já te aborreci demasiado…
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