Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXVII)

Olham-se quando entram no autocarro e fingem não se reconhecer. Depois, ambos mudam de ideia - quase, quase em simultâneo - e saúdam-se timidamente. Conversa de circunstância. Desvio de olhares. Foram amigos. Dormiram juntos uma única vez. Afastaram-se logo de seguida, nunca mais se cruzaram. Trinta anos depois, encontram-se num autocarro. Acabam por sorrir. Decidem fazer a viagem juntos. Quando já estão perto do destino, dão as mãos e ficam em silêncio. Despedem-se com um abraço, seguem em direcção aos seus destinos. Caminham abstraídos, cada um no seu passeio, ambos com a mente repleta de imagens (o que foi, o que poderia ter sido, o que ainda poderia vir a ser). Ambos sorriem, mas só um morre atropelado numa passadeira por não parar quando devia. Não teve tempo de deixar de sorrir.