Esboço # 42

(O sol pousa lentamente sobre o mar; o calor ainda é intenso, apenas suavizado por uma ténue brisa que sopra a intervalos regulares, quase previsíveis. Há pouca gente na praia; Ele está deitado sobre a areia, indolente e imóvel, pensativo; Ela, um pouco afastada, parece dormir.)
ELE (voz arrastada, amorfa): Há quanto tempo passamos férias juntos?
ELA (sem se mover mas abrindo os olhos; num tom quase indiferente): Uns cinco, acho. (Volta a fechar os olhos; compõe o corpo na toalha.) Porque perguntas?
ELE (olhando-a com súbita intensidade, espiando-lhe o corpo com timidez): Porque desde essa altura que me apetece dormir contigo.
(Ela sorri, depois olha-o com curiosidade, talvez com carinho; Ele desvia o olhar, embaraçado e receoso.)
ELA (num tom plácido, ligeiramente condescendente): Eu sei.
(Ele mantém-se tenso, sentindo o olhar dela; ouve-se uma gargalhada distante, logo engolida pelo monótono rugido das ondas. Ela passa a mão pela coxa e, depois, acondiciona o fato de banho ao corpo num gesto que poderia ser considerado provocador. O sol move-se muito lentamente: mas ninguém o olha.)
ELA (muito tempo depois): Eles já devem estar à nossa espera. (Não se move, Ele não reage.) É melhor irmos andando.
(Mantém-se imóveis, indiferentes à passagem do tempo; confortáveis. Alguém que os olhe talvez pense que formam um casal feliz.)

Esboço # 41

(Os dois idosos sentaram-se há muito no habitual banco do jardim, à sombra, mesmo junto do rio; Ele vai dormitando, Ela olha disfarçadamente para um casal de adolescentes que está sentado num banco mais afastado e que se beija.)
ELA (num tom de voz triste e resignado): Há quantos anos não fazemos aquilo?
(Ele abre os olhos e, contrariado, espreita o parque; o seu olhar detém-se durante alguns segundos nos adolescentes.)
ELE (num tom desinteressado): Não me lembro.
(Ele volta a fechar os olhos; ela observa o modo desajeitado mas decidido como o rapaz tenta acariciar os seios da rapariga; e sorri.)

Esboço # 40

ELA (sem o olhar): Trouxeste preservativos?
ELE (irritado): Esqueci-me.
(Entram no elevador do hotel, aguardam que a porta feche; um deles carrega no número seis.)
ELA (num tom seco, definitivo): Não vou fazer sexo contigo sem preservativo.
ELE (defensivo): Mas o quarto já está pago.
(O elevador imobiliza-se, a porta abre. Ambos olham o corredor deserto, indecisos; depois, Ele sai; Ela segue-o, hesitante, talvez contrariada.)
ELE (num tom conciliador): Podemos ficar um bocado a conversar.
ELA (olhando-o, um pouco surpreendida): E falamos sobre o quê?
(Caminham pelo corredor, em silêncio.)

Esboço # 39

HOMEM 1 (num tom afável, curioso): De todas as mulheres com que te cruzas na rua, com quantas tens fantasias momentâneas? Mais ou menos.
HOMEM 2 (num tom pensativo e ponderado): Para aí com quarenta por cento.
(Ambos olham em frente, para além do passeio; todas as outras mesas da esplanada estão desertas. Não passam carros na rua há mais de cinco minutos.)
HOMEM 1 (num tom surpreendido, sem qualquer indício de ironia): Só?

Esboço # 38

FILHA (num tom curioso, quase delicado): Quando estás sozinha, em casa ou assim, costumas falar contigo própria?
MÃE (sorrindo, talvez surpreendida com a questão; ou apenas com a seriedade com que a questão foi colocada): Às vezes.
(A Filha fecha a porta do frigorífico e afasta-se até junto da janela; apetece-lhe um cigarro mas não se atreve. A mãe continua junto do fogão, comandando o avanço da refeição.)
FILHA (num tom sério, preocupado): E falas de quê?

Esboço # 37

MÉDICO (num tom displicente): Quando começares a salvar vidas, vais perceber. (Pausa breve.) O olhar de reconhecimento das pessoas é avassalador, transforma-te. (Pausa breve. Tom algo pomposo, exibicionista.) É preciso algum cuidado para não te deslumbrares, pelo menos no início. Depois, habituas-te. Deixas de contar quantos salvas, quantos morrem.
(Caminham pelo corredor deserto e fracamente iluminados, olhando em frente; as suas batas irradiam brancura.)
ESTAGIÁRIO (interrompendo o silêncio com algum receio, num tom respeitoso mas não subserviente): Com que idade comprou o primeiro descapotável?
(O Médico olha-o, surpreendido; depois, sorri.)
MÉDICO (num tom condescendente, bem disposto): Aos vinte e seis.

Esboço # 36

(Os dois homens estão sentados em cadeirões, na varanda; contemplam o horizonte com olhares algo melancólicos, especulativos, enquanto sopram as suas nuvens de fumo com vigor, tentando que não se cruzem. Ouvem-se vozes e risos distantes.)
HOMEM 1 (tentando aparentar indiferença): Há quanto tempo estão juntos?
HOMEM 2 (após uma hesitação, como se precisasse de contar): Uns onze meses, acho.
HOMEM 1 (tom displicente): Gosto dela. (Pausa breve.) Gostei logo, quando ma apresentaste na semana passada.
HOMEM 2 (sem ironia): Ainda bem.
(O Homem 1 pega num copo que está no chão, mesmo junto da sua cadeira; bebe um longo gole, volta a pousar o copo, arrota disfarçadamente.)
HOMEM 1 (tom desprendido, tentando aparentar indiferença): Quando te fartares, avisa.
(O Homem 2 sorri, sem gosto nem prazer; sopra o fumo do cigarro com vagar, olhando o céu.)
HOMEM 2 (num tom seco, agastado): Há onze meses que estou farto.
(Por momentos, os ecos de vozes cessam; depois, há uma inesperada explosão de gargalhadas. Os dois homens tentam manter-se indiferentes, contemplando o horizonte; mas quanto maior é a intensidade dos risos – a exteriorização da felicidade –, maior é o seu desagrado, maior é a tensão com que chupam os respectivos cigarros.)

Esboço # 35

(Caminham os dois pelo passeio, lado a lado, sem pressa; expressões apáticas, abatidas. Ambos olham, com interesse e intensidade diferentes, uma mulher que caminha à sua frente.)
ELA (num tom amargo, talvez magoado): Se conseguisse perder trinta quilos, voltavas a fazer amor comigo?
ELE (após uma breve hesitação, num tom sereno e algo apologético): Acho que não.
(Continuam a caminhar olhando a mulher que se afasta, sem admiração ou inveja; olhando, simplesmente.)

Esboço # 34

ADOLESCENTE 1 (num tom ligeiramente inseguro, hesitante): Costumas masturbar-te muito?
(Estão ambas estendidas num sofá, não muito distantes uma da outra, olhando para a televisão com expressões entediadas.)
ADOLESCENTE 2 (num tom indiferente): Algumas vezes por semana.
ADOLESCENTE 1 (após uma pausa e num tom receoso, quase tímido): Como costumas fazer?
ADOLESCENTE 2 (olhando a interlocutora, com uma expressão subitamente interessada e expectante): Queres que te mostre?
(Pouco tempo depois, uma delas aumenta o volume da televisão. Lá fora começou a chover.)

Esboço # 33

(Os dois idosos estão sentados num banco de jardim, olhando para o vazio; um deles talvez esteja quase a adormecer.)
IDOSO 1 (numa voz arrastada, mecânica): Estás a ver aquela nuvem ali? (Aponta com a cabeça.) A mais comprida.
(O outro idoso olha preguiçosamente, sem qualquer ponta de interesse, e acena com a cabeça.)
IDOSO 1 (sem deixar de olhar a nuvem, que se move quase imperceptivelmente): Acho que já a vi, uma vez.
IDOSO 2 (desinteressado): Quando?
IDOSO 1 (no mesmo tom monocórdico, cansado): Há uns quarenta anos. (Pausa breve. Tom hesitante.) Talvez mais.
(O idoso 2 não responde e pouco depois volta a ceder à sonolência, fechando os olhos; o idoso 1 continua a observar a nuvem, vendo-a afastar-se.)
IDOSO 2 (mais tarde, ainda com os olhos fechados; num tom desprendido): Isso quer dizer que a nuvem demorou quarenta anos a dar a volta ao mundo.
(O idoso 1 acena com a cabeça, concordando; ambos se mantêm em silêncio e imperturbáveis durante alguns segundos. Depois, inesperadamente, riem em simultâneo, partilhando uma gargalhada que demora algum tempo a dissipar-se.)

Esboço # 32

(Estão sentados num banco de jardim, ligeiramente afastados mas com as mãos dadas; dezenas de pássaros esvoaçam entre as árvores, com ruído, quase com alegria, embalados por um vento desagradável que arrepia a pele dos namorados; ouve-se a estridência de uma sirene, não muito distante. Ambos olham em frente, silenciosos, satisfeitos e reconfortados com a simples presença do outro, com o silvo da respiração próxima.)
ELA (num tom de voz murmurado e quase imperceptivelmente receoso): Queres ter filhos?
ELE (após um silêncio longo, como se ponderasse cuidadosamente a resposta adequada; ou como se pensasse no assunto pela primeira vez na sua vida; num tom firme e decidido): Sim. Dois.
ELA (sorrindo mas sem o olhar): Dois? É o que eu quero, também.
(Permanecem em silêncio, sem se olharem, tocando-se apenas com as mãos; estranhamente, não há mais ninguém no parque, o que talvez lhes agrade; ou os iniba – o espectáculo do amor parecer-lhes-á, talvez, menos recompensador se não houver ninguém a assistir.)
ELE (olhando-a, com alguma apreensão): Tenho que ir. (Pausa breve.) Explicação de matemática, daqui cinco minutos.
ELA (apertando-lhe a mão com força e, logo depois, libertando-a; tom ligeiramente decepcionado): Ok.
(Ele levanta-se e pega na mochila; ela olha-o, serena.)
ELE (num tom suave): Encontramo-nos depois das aulas da tarde? (Ela acena com a cabeça, sorrindo.) Aqui? (Novo aceno.)
(Ele inclina-se e beija-a rapidamente nos lábios; ela fecha os olhos, ele não.)
ELE: Até logo.
ELA: Tchau.
(Ele afasta-se, colocando a mochila às costas; caminha com rapidez, sem olhá-la uma única vez. Ela observa-o durante alguns segundos; depois, retira o telemóvel do bolso e começa a teclar, com frenesim; talvez esteja a enviar-lhe um sms, dizendo que o ama; ou não. A sirene da ambulância ainda se ouve, insistente, assustando os pássaros.)

Esboço # 31

(A sala de convívio do lar está quase deserta: apenas dois idosos estão sentados num sofá a olhar para a televisão – que tem o som desligado – com expressões apáticas e desinteressadas; ouve-se momentaneamente o choro de alguém – um adulto –, que logo depois cessa. Uma mosca esvoaça de janela para janela, insistente e desesperada, impotente.)
IDOSO (num tom amargo e hesitante, sem retirar os olhos da televisão): Quantas vezes estiveste apaixonada? (Pausa breve; apenas se escuta o zumbido irritante da mosca, perfurando a tranquilidade da tarde.) Durante toda a vida.
IDOSA (algum tempo depois, como se tivesse pensado profundamente na resposta; mas num tom desinteressado): Nenhuma. (Pausa muito breve.) Acho que nenhuma.
(Continuam a olhar para a televisão, indiferentes à presença do outro; talvez à espera que o choro distante regresse; ou que alguém venha e ligue o som da televisão; ou que a mosca desista de tentar lutar; ou que seja hora de ir para a cama.)

Esboço # 30

(Estão sentados numa esplanada, em silêncio. Olham as pessoas que passam, sem curiosidade excessiva, não se esforçando em dissimular o aborrecimento que sentem; por vezes, mudam de posição na cadeira ou espreitam o telemóvel; ou fecham os olhos, momentaneamente. Mas não se olham.)
ELA (falando inesperadamente, como se tivesse sido súbita e irresistivelmente surpreendida pela dúvida, pela curiosidade; tom informal, curioso): Qual foi o dia mais triste da tua vida?
(Pausa breve. O silêncio arrasta-se, acentuando a monotonia da manhã.)
ELE (continuando a olhar com algum interesse uma mulher que se afasta, lânguida e provocadora; fala num tom indiferente, quase contrariado): Acho que foi o dia em que a minha ex-mulher casou.
(Ela olha-o, surpreendida e chocada, aguardando uma explicação, que ele não dá. Passa algum tempo – silêncio mais tenso que antes; mas não demasiado – e um miúdo aproxima-se, cabisbaixo; eles olham-no, talvez aliviados, e começam de imediato a arrumar os objectos espalhados no cimo da mesa, preparando-se para partir.)

Esboço # 29

ELA (num tom algo hesitante): Suspeito que a felicidade, aquilo a que chamam felicidade, seja apenas isso. (Pausa breve.) A capacidade de sincronizar a nossa velocidade pessoal, o nosso movimento, com a velocidade do mundo. (Pausa breve. Num tom tímido, vacilante): Não achas?
EU (pensativo, algo distante): Pode ser o oposto. Pode ser a capacidade de abdicar do movimento, de reduzir a velocidade a nada. (Pausa breve.) Como durante o sono. (Sorrindo.) Não és feliz quando estás a dormir?

Esboço # 28

ADOLESCENTE (num tom quase choroso): Depois, mesmo antes de tocar, levou-me ali para a zona dos cacifos, onde não estava ninguém (Pausa breve, hesitação.) E disse que não queria mais andar comigo.
MÃE (algo condescende, ligeiramente alheada): Oh filha, mas era o teu primeiro namoro. Pensavas que ia durar para sempre?
ADOLESCENTE (sem ouvir a mãe): Nem imaginas como me senti. (Pausa breve.) Raiva. Dor. Decepção. Desalento. Fúria. Desamparo. (Pausa breve. Num tom exasperado.) Sei lá. Ódio. (Pausa breve. De novo no tom choroso.) Oh mãe, foi tão mau. Achas que vou voltar a sentir-me assim tão mal? Não sei se aguento.
MÃE (num tom inesperadamente seco, rude): Habitua-te, que a partir de certa altura vais sentir-te assim permanentemente. (Pausa breve.) Permanentemente.
(A adolescente olha a mãe, incrédula e magoada; tenta sorrir, tenta não chorar. A mãe afasta-se, em silêncio.)

Esboço # 27

Todos os dias se queixa, insistentemente. Lamenta-se da rotina, da banalidade, da previsibilidade; diz-lhe: a vida contigo é rotineira, banal, previsível. Ela suspira, fica a vê-lo sair, bater com a porta, ouve-o esmurrar o botão de chamada do elevador.
Aproxima-se da janela, fica a vê-lo percorrer a rua com passos furiosos; e suspira, de novo. Depois, passadas algumas horas: eis que regressa. E diz, quando a vê: foda-se, que viver contigo é uma rotineira; ou: uma banalidade; ou: uma previsibilidade. (Por vezes, quando está mais irritado: uma rotineira e uma banalidade e uma previsibilidade.
Até que, certa manhã, ela morre, em silêncio (resignada, talvez); diz-se na vizinhança que o coração falhou. Mas ele sabe que não, ele conhece a verdadeira causa: morreu por causa dele; da sua presença rotineira; banal; previsível.

Esboço # 26

(A praça está deserta, apenas eles ocupam uma das mesas da esplanada. Céu cinzento e claustrofóbico, ameaçador; talvez chova, mais tarde. Ninguém passa, não há crianças a brincar com carros telecomandados, velhos a espreitar os pombos. Apenas os dois, sentados numa mesa repleta de jornais, de destroços do pequeno almoço. Ele tem estado a falar, enquanto ela escuta distraidamente.)
ELE (num tom peremptório, quase pomposo): É o que penso, por mais que encham páginas a dizer o contrário não me fazem mudar de ideias. (Pausa breve. Tom algo condescendeste, sem a olhar.) Não achas que tenho razão?
ELA (após uma breve hesitação, como se tivesse demorado a perceber que ele se lhe dirigira. Tom desprendido, desinteressado. Esforçando-se para não encolher os ombros, não revelar enfado.) Acho que sim. (Continua a passar as páginas de uma revista, desatenta.)
ELE (depois de um longo silêncio, durante o qual prosseguiu a leitura): Gente de merda, sempre a mandar sentenças. A encher os jornais com pretensiosismos e arrogâncias. (Abana a cabeça, irritado. Sobe ligeiramente o tom de voz.) Como se um gajo não tivesse direito à sua própria opinião, a pensar por si.
(Durante algum tempo apenas se ouve o crepitar dos jornais, o som distante e esporádico do tráfego. Os pombos continuam a esvoaçar sem destino nem convicção, talvez intrigados com a ausência dos reformados. E o céu tão cinzento; mas é provável que não chova.)
ELA (olhando-o incisivamente; num tom sério, quase dramático): Há quanto tempo estamos juntos?
(Ele olha-a, surpreendido e perscrutador; um pouco intimidado com o seu tom de voz.)
ELE (hesitante): Quase dois anos. (Sorri, um pouco ansioso.) Vinte meses, acho eu. (Olha-a, simultaneamente inquieto e curioso.) Porque perguntas?
ELA (sonhadora, desviando o olhar; ignorando a pergunta, ignorando-o): Vinte meses. É capaz de ser isso. (Pausa breve. Ele aguarda que ela acrescente uma explicação, incapaz de regressar ao jornal; nervoso. E ela volta a encará-lo, sem complacência ou desafio. Tom neutro, distante; factual.) Acreditas que nestes vinte meses não disseste uma única frase que me interessasse verdadeiramente?
(E é então que lá no fundo da praça aparece a primeira criança da manhã, pedalando furiosamente a sua bicicleta resplandecente.)

Esboço # 25

(Estão num quarto de hotel, estendidos na cama enorme já um pouco desordenada; ele está completamente nu, ela permanece vestida e calçada. Ela beija-lhe o sexo com alguma sofreguidão, enquanto ele se contorce ligeiramente, de olhos fechados e respiração agitada. A chuva bate com violência na janela, provocando um ruído monocórdico, quase hipnótico; há pouca luz no quarto, uma quase ausência de cor.)
ELE (abrindo de súbito os olhos, agitando-se nervosamente, tentando afastá-la; num tom de voz quase sufocado): Calma, espera aí.
(Ela prossegue durante alguns segundos; depois, afasta a boca do sexo dele e fica a olhá-lo, talvez decepcionada.)
ELE (num tom falsamente desprendido, incapaz de disfarçar a ansiedade): Temos tempo. (Sorriso embaraçado.)
(Ela afasta-se um pouco dele, sem o olhar; suspira, quase imperceptivelmente; descalça-se, atirando os sapatos para longe; depois, começa a despir-se, indiferente ao olhar apreciativo dele.)
ELE (sorrindo de novo, tentando aparentar controlo; num tom algo sobranceiro, algo arrogante): Não fazes isto ao teu marido, pois não?
ELA (olhando-o, surpreendida): Broches? Claro que faço. (Ri, enquanto despe o soutien e o deixa cair ao chão.) Sempre que posso. (Aproxima-se um pouco dele, repentinamente séria. Pausa breve.) Não me digas que pensas que o faço apenas para te dar prazer. (Ele agita-se um pouco, nervoso; talvez envergonhado. Ela sorri, tentando parecer carinhosa.) Oh querido, faço-o porque gosto. Porque me dá prazer fazê-lo. (E ri, de novo.)
(Pausa breve. Ela pega-lhe o sexo, acaricia-o com os dedos; depois, recomeça a beijá-lo. Ele fecha os olhos, sentindo o corpo tenso; suspira ruidosamente. Talvez se concentre no som da chuva, tentando ausentar-se um pouco; distrair-se, num esforço ingénuo de retardar ao máximo a ejaculação, como aconselham nas revistas; ou apenas para não se sentir tão idiota.)

Ebook # 02: Céu nublado


Novo ebook.
Colectânea de vinte e quatro micro-narrativas, acompanhadas por vinte e quatro fotografias de Alexandre Louro inspiradas nas estórias. O resultado chama-se, pouco apropriadamente, Céu nublado.
Disponível para download gratuito no RL.

Discografia # 01: Clean

1.
A estrada está deserta e o carro avança demasiado depressa; noite cerrada, brutalmente escura: mas não me lembro de ter visto o sol desaparecer, não me lembro de assistir à lenta transformação do crepúsculo em noite. Dou por mim aqui, conduzindo sem destino, já sem me lembrar de que fujo, que procuro, porque não paro. Sim, poderia parar: e aguardar pacientemente que o tempo passasse por mim, indiferente e desinteressado; assistir passivamente ao lento transformar do negro da noite no cinzento da madrugada e depois no azul da manhã – pausa para perscrutar o branco das nuvens – e no azul da tarde e no cinzento do entardecer e de novo no negro da noite e no cinzento da madrugada. Sim, poderia: como sempre.
Contudo, o carro continua a avançar. Olhos fixos no horizonte e mãos no volante (apertando-o com desnecessária força), ouvidos concentrados no silêncio; e a mente cheia, completamente cheia: pedaços de imagens irreconhecíveis e farrapos de sensações difusas misturando-se com fragmentos de passado e vislumbres de futuros que nunca se concretizarão (sonhos, acho que é como lhes chamam), memórias demasiado ténues (perenes, tão perenes que poderão ser imaginadas) de sorrisos e orgasmos e dores e toques e sabores e cheiros e carícias e choros e beijos e sons e mais sorrisos. Tudo indefinido e confuso, em constante movimento caleidoscópico; arrebatando-me e distraindo-me, devorando-me.
Fecho os olhos durante um momento, pensando que tudo o que desejo, tudo o que necessito, é de um fugaz intervalo de mim próprio, da minha mente claustrofóbica; depois, volto a abri-los: e nada mudou. O negro da escuridão (que será feito das estrelas, afinal?) e o carro a avançar serenamente, o silêncio da noite zumbindo-me nos ouvidos; e a minha mente (cheia, quase a transbordar) a perseguir-me impiedosamente; aconselhando e criticando; condicionando. Cegando-me.

2.
Pergunto, num tom sereno: para onde estamos a ir?
Mas ninguém responde, como é óbvio. Foi, afinal, para isso que perguntei: para ter a certeza, a confirmação, de que ninguém responderia.
E sorrio, sozinho.

3.
De repente, regressa o desejo (confuso e avassalador, irresistível) de fechar os olhos durante mais um instante; não sei porquê, para quê. Mas é isso que faço, indiferente a motivos ou consequências: fecho os olhos. Aperto o volante com mais força, ainda mais força; o pé continua no acelerador: acelerando; e os olhos fechados, ainda.
Suponho que por esta altura já os deveria ter aberto.

4.
Depois, o carro embate inesperadamente em algo; ouço o ruído metálico, sinto um abanão. Tiro o pé do acelerador e espero, curioso; o carro rodopia, rodando sobre si próprio várias vezes; ruídos de vidros quebrados, metal arranhando o alcatrão, pedaços de plástico desintegrando-se; a minha cabeça embate no tejadilho do carro (dói um pouco), o corpo é projectado com violência para aqui e para ali, para aqui outra vez; o estômago revolvendo-se, uma estranha sensação de desequilíbrio; a pressão do cinto de segurança no meu peito. E nada mais; quietude e vazio, silêncio.
Sei que não devo largar o volante, não devo abrir os olhos. Não devo desistir.

5.
Não consigo mover-me; mas, na verdade, não preciso de o fazer. Sinto-me momentaneamente confortável, sereno: e decido permanecer assim durante mais algum tempo, expectante. Estarei morto, talvez; mas se for o caso, não posso deixar de me sentir algo decepcionado, algo ludibriado: parece-me pouco; monótono.
Aguardo; gostaria de ouvir alguém chamar-me (não consigo lembrar o meu próprio nome, o que é um pouco desconcertante). Decido abrir os olhos mas percebo que já os tenho abertos; volto a fechá-los, a abri-los: e nada muda. Assusto-me um pouco, depois muito; mas não me mexo: não consigo.

6.
Terá passado algum tempo desde o acidente; duas horas, talvez; ou vinte segundos, cinco dias, quarenta minutos. Não sei. Não importa: porque fui sendo invadido por uma estranha e tórpida sensação de apaziguamento e descompressão, de confortável esvaziamento. E sabe bem, esta inesperada leveza, esta inebriante tranquilidade. Como se tudo estivesse a começar de novo: algo como um renascimento. Ou como se tivesse, finalmente, conseguido fugir de mim próprio; libertar-me: e ver. Controlar.
Sim, agora sinto a mente vazia. Não: limpa. Tão limpa que nem o meu próprio nome recordo.

Inspiração: Clean - Depeche Mode
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Lyrics

Comme d’habitude V

1.
Via-te todos os domingos, durante alguns minutos. Conduzias o teu filho pela mão, em silêncio, sem pressa; depois, despedia-lo com um beijo na testa e ficavas a vê-lo desaparecer na entrada da sala, subindo as escadas; por fim, afastavas-te, ainda sem pressa, indiferente à presença dos outros pais; nunca dizias bom dia ou até logo; nunca sorrias; nunca permitias que o teu rosto revelasse qualquer indício de emoção, contrariedade, agitação; vinhas e partias, simplesmente: majestosa; irrelevante.
E eu espreitava-te; porque eras uma mulher bonita e misteriosa, porque o teu silêncio e a tua indiferença me cativavam. Olhava: e imaginava o som da tua voz, a possibilidade do teu sorriso; devaneava um pouco, sem maldade nem consequência, sem verdadeiro interesse.

2.
Até que, um dia, reages: correspondendo ao meu olhar; enfrentando-me: sem hostilidade nem incómodo, suponho que sem verdadeiro interesse (também). Sorrio, tentando disfarçar o desconforto, surpreendido e agradado com a tua súbita atenção; mas tu logo desvias o olhar (entediada, já?), ignorando o meu convite com displicência. E afastas-te no teu passo pausado e lânguido.
Contudo, foi quanto bastou. A troca de olhares repetiu-se nos domingos seguintes, discreta e fugaz mas intencional, consequente; revelando curiosidade e interesse, convite e disponibilidade; revelando uma ténue mas efectiva possibilidade de entendimento.

3.
Foi, pois, com naturalidade que numa dessas manhãs de domingo deixámos os respectivos filhos na catequese e nos afastámos em direcções opostas, para nos encontrarmos lá mais à frente, longe.
Despimo-nos sem pressa, excitados mas calmos, atentos à revelação do corpo do outro e agradecidos pela possibilidade de concretização da fantasia; ouvindo os inconfundíveis e monótonos burburinhos de uma missa de domingo, vindos da televisão de um vizinho. Fodemos, com vigor e ruído, com ânsia, com vontade. Depois, lavamo-nos, vestimo-nos, despedimo-nos: como se nunca tivéssemos estado verdadeiramente juntos.
Voltamos a encontrarmo-nos, minutos depois, à entrada da catequese; sem sorrisos nem palavras, sem olhares. O efeito dos orgasmos já há muito dissipado, quase esquecido. E os miúdos: atrasados.

4.
O encontro repetiu-se nos domingos seguintes; e o sexo, sempre reconfortante, foi-se tornando rotineiro e previsível mas ainda satisfatório, anestésico; perdeu-se a surpresa e a voracidade: inevitavelmente. Mas não nos ocorreu parar, desistir: porque ainda sabia bem, ainda apetecia.
Nunca conversávamos, nunca sorriamos, nunca nos acariciávamos; estávamos ali para foder, apenas; comme d’habitude? Sim. Saciar corpos, distrair espíritos, disfarçar vazios; ocupar tempo. Comme d’habitude.
Julgo que nem sentíamos curiosidade em conhecer o outro, descobrir afinidades, partilhar sentimentos; para quê? Não. Fustigávamos os sexos, gemíamos um pouco, por vezes (três ou quatro, não mais) gritavas. Gostávamos do torpor, dos cheiros que ficavam, do silêncio que os orgasmos traziam consigo; apreciávamos, em simultâneo, a presença e o desinteresse do outro (sós: mas acompanhados). Misturávamos os corpos, simplesmente: e o tempo ia passando. Uma rotina, sim; mas uma rotina diferente da habitual; um intervalo (de rotina) na rotina.

5.
Até hoje.
Não quis tomar banho e vesti-me apressadamente, enquanto permanecias na cama; talvez me olhasses, não sei. Talvez te apetecesse perguntar: porquê a pressa? (Não saberia o que responder.)
Saí, sem te olhar. E aqui estou, à espera que o garoto acabe a catequese. Há outros pais a aguardar (conversas inconsequentes, iguais às da semana passada e às da outra semana); uma ameaça de chuva a pairar; vontade de estar noutro lado qualquer; pressa de caminhar, de ir. E os risos das crianças, lá longe; um carro a passar, demasiado depressa; um gato gordo e imóvel à espreita de uma janela; o vento a sacudir quase imperceptivelmente as árvores. Tu a aproximares-te (sinto o teu cheiro, antes de te ver: também não tomaste banho.)
Aproximas-te, sim. Mas não paras onde costumas aguardar, junto ao habitual pedaço de parede; continuas a caminhar, sem aparente hesitação ou dúvida, sem pressa; aproximas-te: de mim. E eu não me mexo, não olho, não respiro; estendes as mãos e os teus dedos percorrem-me a face, o cabelo; puxam-me para ti. Depois, os lábios: tocando os meus.
Fecho os olhos, incapaz de resistir, incapaz de não corresponder ao teu beijo; incapaz de perceber. Sinto a tua língua acariciar-me, o teu corpo junto ao meu; sinto, também, os miúdos a descerem as escadas em audível correria, aproximando-se. As conversas circundantes silenciam-se (por um momento, pergunto-me se não terá sido apenas para isso que decidiste beijar-me publicamente: para suspender a monotonia das conversas desta gente) mas o vento continua a agitar as árvores, a embalar as folhas; e o gato continuará à janela, olhando.
Quase tudo como antes, como sempre: excepto o beijo, que prossegue. Conduzindo a nada, certamente; apenas prosseguindo.

Esboço # 24

Já há muito tempo que não falamos. Ele num sofá, eu na poltrona: em silêncio, vagamente esquecidos da presença do outro. Vimos o filme, ansiosos pelo final; ou talvez com vontade de que nunca acabe: porque, então, teremos de falar, olhar, partilhar qualquer coisa; consciencializar que o outro está ali (para sempre?).
É então que as pessoas do filme começam a despir-se; logo depois, estão a foder, convicta e ruidosamente. Olhamos para aquilo, sem nos mexermos, talvez respirando mais devagar (ou mais depressa?), infelizes por não estarmos sós. Os seios dela são bonitos, ele chupa-os com vigor; gemidos e música; o tempo a arrastar-se penosamente: no filme, na nossa sala.
Mas quando a cena de sexo termina, sinto que sou percorrida pelo seu olhar; ignoro-o mas logo depois chega a voz dele: apetece-te? Não respondo, com esperança que não insista, enquanto os segundos (parecem horas, não é?) vão passando, silenciosos e desconfortáveis, opressivos.
Continuo a olhar para o filme; ele levanta-se, aproxima-se, toca-me; tento não estremecer quando sinto o seu contacto (terei conseguido?), sorrio para disfarçar o incómodo. E ele, como é óbvio, apressa-se a interpretar o meu sorriso como aceitação.
Agora, estamos a despirmo-nos, sem grande entusiasmo, talvez sem verdadeira vontade; gestos mecânicos e automáticos, desfasados, vagamente inconsequentes: coincidindo com os nossos sentimentos. Daqui pouco, estaremos a foder, tal como o casal do filme (e quem representará melhor, nós ou eles?). Pergunto-me distraidamente o que teria acontecido se em vez da cena de sexo, houvesse uma cena de divórcio; ficaria ele igualmente excitado, propondo-me a separação do mesmo modo que propôs a foda?
Sorrio, sem alegria. Sinto a sua mão percorrer-me o interior da coxa e aproximar-se do sexo, o que não é propriamente agradável; depois, respondo ao seu beijo, sem entusiasmo mas com competência. E é então que começo a pensar a ti.

Esboço # 12 (Extended vocal remix)

BARMAN (olhando o CLIENTE, enquanto esfrega um copo com gestos desnecessariamente cuidadosos): E então lá estamos todos caladinhos, a olhar para a frente, com medo não sei de quê, com vergonha não sei de quê. (Pausa breve.) Os autocarros são lugares estranhos, não são? As pessoas estão ali tão próximas umas das outras mas são incapazes de, sei lá, interagirem. Todos a fazerem uma espécie de intervalo nas suas vidas, sempre à espera de qualquer coisa, de chegarem ao seu destino, ou de fugirem lá do sítio de onde querem fugir.
CLIENTE (evitando o olhar do BARMAN): Não entro num autocarro há uns vinte anos, ou mais.
BARMAN: A sério? Tem sorte, que assim não se cruza com todos estes mortos-vivos, com esta gente adiada. (Pausa; arruma o copo com gestos cuidados e pega noutro, que começa a esfregar.) Mas é fodido, não é? Parece mesmo que andamos todos à procura de algo ou a fugir de algo. Não há hipótese, ou é uma coisa ou é a outra. Nunca estamos contentes, não conseguimos sentarmo-nos quietinhos e saborear o momento.
(Longa pausa. O CLIENTE permanece alheado. O BARMAN prossegue a limpeza dos copos, muito devagarinho, como se temesse que se lhe acabassem os copos.)
BARMAN (tentando parecer entusiasmado): Bom, lá íamos no autocarro, a chuva a bater nas janelas, tudo cinzento lá fora. Estava sentado ao lado duma mulher ainda nova, uns trintas ou coisa assim. Um perfume do caraças, enjoativo. Quietinha, com as mãos em cima dos joelhos, sempre a olhar lá para fora. (Pausa breve.) Tento sentar-me sempre ao lado de mulheres porque às vezes, sabe como é, há toques involuntários, nas curvas e assim. E não gosto de ser tocado por homens, por aqueles velhos meio mortos que andam sempre nos autocarros ou pelos garotos dos liceus.
CLIENTE (monocórdico, como se contrariado): Mas se for uma mulher, já não faz mal…
BARMAN (rindo): Não me queixo. Mas esta de hoje estava lá congelada no canto dela, protegida pela nuvem de perfume. E eu a perguntar-me: porque raio andam sempre as pessoas tão tristes? (Pausa breve.) Já reparou?, anda sempre tudo de rosto fechado, como se o mundo estivesse para acabar.
CLIENTE (com ligeira agressividade): E você? Está sempre alegre?
BARMAN (olhando o copo com atenção desnecessária): Estar, não estou. Mas esforço-me um bocadinho, só um bocadinho, percebe?, para não andar sempre com peninha de mim. (Pausa breve.) É que me chateia a maneira como as pessoas andam sempre com este olhar acusador, como se toda a gente, todo o mundo, fosse responsável pelas suas misérias. (Pausa breve.) Chateia-me mesmo.
(Longa pausa. O BARMAN pega um dos copos já limpos e compara-o ao que tem nas mãos; depois de olhar, arruma-os cuidadosamente. Fica um momento indeciso. O CLIENTE bebe um gole breve do copo que tem à sua frente; pousa-o mas não o larga. O BARMAN pega um novo copo e esfrega-o.)
CLIENTE: Então e depois, que fez a mulher?
BARMAN (olhando o CLIENTE, sem rancor): Sabe o que fez? Começou a chorar. (Riso, um pouco forçado.) Em silêncio, não se ouvia nada. Mas eu, bom… De vez enquando espreitava-lhe as pernas, tinha uns joelhos muito bem feitos, moldados pelas calças de ganga justas, e eu olhava, do mesmo modo que olhava para a careca do homem que ia à minha frente ou para o ténis roto de uma rapariga que estava lá na outra fila. (Pausa breve.) Tudo serve para um gajo se distrair, não é?
(BARMAN pára de esfregar o copo, fica pensativo.)
BARMAN: Havia qualquer coisa nas mãos dela, que me chamou a atenção. Tinha-as ali no colo, muito quietinhas, como se não soubesse o que lhes fazer. Bonitas, dedos muito compridos. Unhas bem tratadas. Mas depois começou a apertá-las, a mexer os dedos. Como se lhe estivesse a doer qualquer coisa, sabe como é. (Pausa breve.) E então pus-me a olhar pela janela e depois, como se fosse por acidente, espreitei-lhe o rosto.
CLIENTE (ligeiramente alheado): Já me perguntei muitas vezes isso: porque temos tanto medo de olhar o rosto dos desconhecidos?
(O BARMAN acena com a cabeça. Volta a esfregar o seu copo. Breve silêncio.)
BARMAN: Podia ficar a olhá-la o tempo que quisesse, que a mulher estava muito longe, noutro mundo. Mas chorava a sério, lágrimas a escorrerem devagarinho pela face. E eu ali, atrapalhado. Pus-me a olhar para a rapariga dos ténis rotos, tentando não pensar nela, não me intrometer. Quietinho, a ver se não sobrava para mim.
CLIENTE: Às vezes, sinto isso. Vemos que alguém está atrapalhado e não nos aproximamos, tememos que aquilo seja contagioso, que nos afecte. Mas a verdade é que, lá no fundo, até sentimos uma pontinha de satisfação; ou, pelo menos, de alívio. Porque não é connosco. (Pausa breve.) É um pouco como se achássemos que o número de desgraças que poderão acontecer, no mundo, é limitado; e tudo o que acontecer aos outros, já não nos acontece a nós. Uma desgraça gasta, inofensiva. Uma que não nos fará mal, a nós.
(O CLIENTE bebe mais um gole. O BARMAN parou de esfregar o copo, olha o CLIENTE com alguma surpresa, talvez com apreensão. Pousa o copo e dá uns passos, pega uma garrafa e trá-la consigo; pega um dos copos que acabou de esfregar e enche-o. Bebe um gole. Fecha os olhos. Arrota muito ligeiramente. Abre os olhos, espreita o CLIENTE. Arruma a garrafa, bebe mais um gole. Pega no copo que antes estava a esfregar.)
BARMAN (sem olhar o CLIENTE): Estava eu ali, sem me mexer, como se fosse um garoto envergonhado, à espera que a mulher acabasse lá com a crise dela. Enjoado com o perfume, misturado com o cheiro do autocarro, com o cheiro daquela gente toda, e das pessoas que estiveram ali sentadas desde a última vez que o autocarro foi lavado, há três anos ou assim, e que deixaram um pedacinho de si, do seu cheiro. Tudo misturado. (Pausa breve.) E depois passou-me uma coisa pela cabeça, não sei.
(O BARMAN olha o CLIENTE, que o ignora. Ambos bebem dos seus copos, em simultâneo.)
BARMAN (aproximando-se um passo, diminuindo o volume da voz quase imperceptivelmente): Sabe o que fiz?
CLIENTE (curioso): Não.
BARMAN: Agarrei-lhe a mão.
(O CLIENTE sorri ligeiramente. O BARMAN está a esfregar o copo com uma energia inesperada.)
BARMAN: Agarrei-lhe a mão, como o raio de um adolescente apaixonado.
CLIENTE: E ela?
BARMAN: Apertou-me os dedos com força. E ali ficámos muito tempo, a olhar em frente, rígidos. O autocarro aos solavancos, para aqui e para ali; pessoas a saírem, pessoas a entrarem. E nós de mãos dadas, em silêncio.
(Ouve-se o ruído longínquo de uma sirene, que se vai aproximando. Os dois homens estão em silêncio, distantes. O BARMAN esfrega o copo, de novo com gestos lentos e olha para a rua; o CLIENTE olha para o seu copo, que está vazio. O ruído da sirene foi-se aproximando e agora volta a afastar-se, lentamente.)
BARMAN: Finalmente, o aperto dela começou a suavizar um pouco, tornou-se menos agressivo, menos desesperado. Um pouco depois, deixou de me pegar. E durante uns instantes fiquei ali com a mão dela na minha, completamente inerte, morta. (Pausa breve.) Larguei-a, suavemente. Um bocado depois, o autocarro pára e ela levanta-se. Encolho-me, para a deixar passar mas as nossas pernas esfregam-se, inevitavelmente. (Pausa breve.) Gosto muito destes toques acidentais, entre estranhos. Há algo de sensual, talvez por causa da possibilidade latente, não sei; excita-me imaginar até onde poderia conduzir aquele toque, fantasiar que não foi algo acidental mas uma carícia disfarçada, inconsciente, um convite. (Pausa breve.) Mas neste caso foi um pouco desagradável. Não sei explicar, como um casal de divorciados que se encontram e se beijam da face, porque tem que ser. Desconfortável.
(O BARMAN olha o CLIENTE, como se buscasse a sua cumplicidade, a sua concordância. Dá uns passos, pega uma garrafa e aproxima-se dele. Enche o seu copo, muito devagar. O CLIENTE olha o líquido, que não solicitou. O BARMAN afasta-se, arruma a garrafa.)
BARMAN (num tom triste): Não me olhou, uma única vez. (Sorri.)
CLIENTE (após um momento de silêncio): Se pensarmos nisso, não percebemos bem porquê mas a verdade é que temos medo dos outros, dos desconhecidos. Não arriscamos tomar iniciativas, talvez por receio de não sermos correspondidos, ou simplesmente de sermos mal interpretados. Porque se estamos a iniciar algo o outro pode pensar que estamos a pedir qualquer coisa, não é? E, portanto, estamos a revelar fraqueza de dois modos: denunciamos que há algo que nos faz falta e colocamo-nos na desconfortável posição de podermos ser recusados. (Pausa breve.) Por vezes, penso, acho que todos pensamos, que a felicidade pode depender de uma simples palavra, de um gesto. Um olhar que arriscamos e que pode mudar a nossa vida por completo.
(O CLIENTE bebe um gole prolongado do seu copo, pousa-o com um ruído seco e desagradável. O BARMAN está a olhar para o copo do CLIENTE, distraído, com as mãos vazias.)
CLIENTE (com um sorriso vago, quase imperceptível): Mas recusamo-nos a acreditar que possa ser assim tão simples, tão banal, tão descomplicado.
BARMAN (pegando um dos seus copos): Estamos a proteger-nos.
CLIENTE: É isso, pior não se fica. Para quê arriscar?
(O CLIENTE brinca com o copo, entorna umas gotas no balcão. O BARMAN passa com o seu pano dos copos pelo balcão molhado, com gestos muito lentos.)
BARMAN (olhando o CLIENTE, num tom quase desafiante): Bom, mas hoje tomei a iniciativa. Peguei a mão de uma mulher desconhecida e amparei-a num momento difícil. Ela não correspondeu, nem sequer agradeceu. Nada. (Pausa breve.) Mas, e se tivesse olhado? Se sorrisse? Se me perguntasse o nome? (Pausa breve.) É simples, sim. Mas nunca resulta.
(O CLIENTE sorri.)

Esboço # 23

ELE (num tom nostálgico, quase sonhador): Sim, era muito falador. (Pausa breve.) Chegava a casa e começava logo a tagarelar sobre o que tinha acontecido nesse dia, coisas banais e inconsequentes, em que nem reparara com atenção enquanto aconteciam mas que, em retrospectiva, quando as contava, pareciam-me interessantes. (Pausa breve. Sorriso.) Como se só acontecessem para que eu, mais tarde, as pudesse contar. (Novo sorriso, quase forçado.) O que fazia de mim uma espécie de coleccionar de eventos. Não. De tópicos de conversa. (Pausa longa, algo desconfortável. Aguardo, sem impaciência nem verdadeiro interesse.) Ia falando, um pouco indiferente às reacções que causava, sem reparar que nunca havia perguntas ou manifestações de curiosidade. Nada, na verdade. (Pausa breve. Tom quase envergonhado.) Suponho que partia do princípio de que tudo o que pudesse dizer seria importante para eles e, portanto, escutariam sempre com curiosidade e interesse. (Pausa breve. Tom hesitante.) Todos acreditamos nisso, não é?
(Encolho os ombros e desvio o olhar. O silêncio arrasta-se, vagamente opressivo.)
ELE (talvez envergonhado): Eu acreditava. E ia falando e falando; eles olhavam para mim e sorriam, acenavam com a cabeça, voltavam a sorrir, voltavam a acenar com a cabeça. (Pausa breve.) Sempre assim, dia após dia. Como se me dominasse uma ânsia de lhes falar, de contar, de merecer a sua atenção. (Hesitando.) Como se a minha vida, a minha presença naquela casa, apenas fizesse verdadeiro sentido enquanto falasse e o silêncio pudesse ser sinónimo de uma espécie de não existência. Percebes?
(Aceno com a cabeça, tentando mostrar-me compreensivo e solidário. Tentando: talvez sem grande sucesso.)
ELE (pensativo): Tentar alimentar o seu interesse por mim, através da palavra. (Pausa breve.) Uma forma inconsciente de forçar a aproximação, talvez. (Sorriso triste, desconsolado.) De forçar a intimidade.
(Levanto-me e caminho até à janela, olho o céu sem atenção nem prazer; por nenhum motivo, apenas para não me manter quieto, expectante; para forçar o movimento, contrariar a estagnação. Ouço-o respirar lentamente, talvez olhando-me. Suponho que aguarde uma reacção minha, uma manifestação de interesse.)
EU (forçando-me a fazer a pergunta, cuja resposta intuo): Mas que idade tinhas? (Pausa muito breve, hesitação subtil.) Quando percebeste que os teus pais não estavam realmente interessados no que tivesses para lhes contar. (Pausa breve.) Em ti.
ELE (encolhendo os ombros, desviando o olhar): Nove. Nove anos. (Pausa longa.) Quase nove anos.
(Continuo à janela, olhando o céu; perguntando-me se haverá um dia em que as nuvens deixem de ser brancas. Ele continua sentado na poltrona, respirando lentamente; talvez a perguntar-se se algo mudou na sua vida, em todos estes anos.)

# 62: Todo o tempo disponível

1.
Entro em casa, empurro a porta, avanço uns passos. Tento lembrar-me se há algo que deva fazer, algo que tenha adiado, alguma tarefa pendente; penso, devagar, percorrendo todo o espectro possível, disponível. Depois, desisto de pensar e avanço até ao quarto; fico durante um bocado a olhar para a cama, a pensar que daqui uns minutos, ou horas, estarei lá; penso, uma vez mais, em como a cama é o objecto da minha casa, da minha vida, com que mais me relaciono, com que tenho maior intimidade; e sorrio, com tristeza. Começo a despir-me, peça após peça, até ficar completamente nua; depois, caminho preguiçosamente pelo quarto, sentido o corpo descontraído, a pele livre; pergunto-me se alguém, algum dia, voltará a contemplar o meu corpo, assim, despido e vulnerável, disponível; talvez não. E apesar da dor, sinto também um princípio de liberdade.
Saio do quarto e dou algumas voltas desnecessárias pela casa. O cão persegue-me, irritante. Tento não pensar no funeral. Tento não pensar no morto; depois, tento recordar o seu sorriso: e não consigo.
Regresso ao quarto, deito-me. Durante um instante, é agradável sentir o corpo assim, simultaneamente livre e acarinhado; mas a sensação logo se dissipa. Lá fora escurece lentamente, enquanto o mundo se esforça para se manter em silencioso. Fecho os olhos, volto a abri-los. Espero que os minutos passem, lentos e vazios. Depois, levanto-me e cubro o corpo, gélido, com algumas roupas, as primeiras que encontro; volto a deitar-me, a fechar os olhos, a esperar.

2.
Acordo de súbito, agitada por um pesadelo. Aconchego-me na cama, confusa e assustada, momentaneamente distraída com o longínquo e difuso uivo dos lobos ecoando lá longe, na pradaria; depois, lembro-me que – agora – estou sozinha, que talvez assim esteja por muito tempo: e sinto a solidão entranhar-se no meu corpo, apropriar-se dele, controlá-lo. Permaneço rígida, com os olhos a perscrutar a escuridão, a mente a perscrutar o futuro; sem esperança. Então, começo a chorar, pela primeira vez em muito, muito tempo; não porque tenha cedido, por fim, ao desamparo; apenas porque não tenho mais nada, mesmo mais nada, para fazer, para me distrair. Porque até os longínquos lobos se calaram, talvez apaziguados: deixando-me ainda mais só.
Suponho que acabarei por voltar a adormecer.

3.
O sol da manhã entra pela janela da cozinha; e é agradável. Pequenas nuvens de pó bailam no ar, descubro uma frágil teia de aranha na cortina; sons imprecisos – talvez imaginados? – de vidas desconhecidas e apressadas, lá fora. O cheiro insidioso de sopa estragada agonia-me; e fico a olhar a panela, a perguntar-me que representa, afinal, esta sopa, por que motivo ainda não consegui despedir-me dela. O cão aproxima-se, vagaroso: tão insuportavelmente presente, disponível; possessivo.
Como um pedaço de pão seco, devagar; e de repente exaspera-me esta vida sem pressa, sempre lenta e lenta e lenta, esta vida em que há tempo para tudo e em que tudo se deve fazer devagar: porque há tão pouco para fazer que tem que se prolongar cada tarefa, cada pensamento, cada gesto, para que todo o tempo disponível seja preenchido e ocupado e considerado bem gasto, utilmente gasto. Começo, então, a mastigar com mais rapidez. Depois, dominada por um impulso súbito, pego na panela de sopa e deito-a à pia; lavo a panela, abro a janela. Sinto o cheiro partir, derrotado.
E depois imobilizo-me a meio de um gesto, de um pensamento; respiro fundo, olho em redor: a tentar perceber se algo mudou.

4.
Saio à rua, por fim. Ainda sem objectivo nem destino, apenas decidida a sair de casa e caminhar livremente, respirar ar puro; fugir de mim própria, talvez. Ser olhada e testemunhar perante o mundo que ainda estou viva, que ocupo espaço e consumo ar, que conto; perceber nos olhares, nas expressões, das pessoas com quem me cruzar a minha existência efectiva, concreta, palpável. Desligar o silêncio: e preenchê-lo com qualquer coisa.
Caminho, então. Sinto no corpo a suave agitação do vento vindo da pradaria, trazendo consigo o cheiro da vastidão e do vazio, da intemporalidade, transportando ténues e difusos – enganadores – indícios de liberdade. Reparo, uma vez mais, como as florzinhas do meu jardim morreram há muito, transformando-se em macabros cadáveres ressequidos; tento recordar a longínqua manhã que passei de joelhos na terra, plantando e regando e cuidando, uma suave manhã de primavera, distante e quase – quase – esquecida; uma recordação tão longínqua que parece emprestada, uma recordação de outra pessoa qualquer; talvez de uma outra vida minha; e pergunto-me, sorrindo secretamente, quantas vidas compõem uma vida. Paro para abrir a cancela, sentindo a rugosidade da madeira, deixando a mão um momento mais que o necessário; depois, dou uns passos e volto a parar, fecho a cancela. E é então que reparo no cão, deitado na sombra, ao lado da árvore. Estranho a sua imobilidade e, por um momento, suspeito que esteja morto. Mas não está, certamente que não. Volto a abrir a cancela e caminho até à rua; respiro fundo, o sol quente a incomodar-me um pouco, só um pouco. Lá por cima, farrapos de nuvens, vagando preguiçosamente, arrastando-se em direcção à pradaria.

5.
Avanço, sem firmeza nem convicção. Há homens de rostos compungidos que me acenam solenemente, enquanto erguem o chapéu; crianças que param de gritar ou rir quando me vêem; mulheres que ostentam expressões angustiadas enquanto me olham e que, logo depois, regressam às suas conversas inconsequentes e irrelevantes; passo e causo uma suave, ligeiríssima, impressão: mas logo sou esquecida. Pergunto-me vagamente se esta irredutível solidão que sinto será, secretamente, partilhada por todas estas mulheres com quem me cruzo, que me olham; se terá sido assim com as mulheres que viveram há cem anos, se será – ainda – assim com as mulheres que viverão daqui cem anos.
Entro no mercado, onde sou recebida com um silêncio respeitoso. Apalpo as cenouras, escolho três; couve e batata e nabo e feijão; arrumo tudo no cesto, entrego moedas à senhora que há anos me vende cenouras e couves e batatas e nabos e feijões – lembro-me, de repente, que também ela é viúva. Depois, quando estou a receber o troco, decido que não preciso dos legumes que acabo de comprar: não voltarei a fazer sopa.
Chego à rua e a luz da manhã cega-me um pouco, forçando-me a caminhar com passos um pouco trôpegos. Há alguns trabalhadores das minas a percorrer a praça, tumultuosos e exaltados, apregoando ruidosamente a descoberta de vestígios – concretos? Imaginados? Mas que importa, afinal? – de ouro; uma possibilidade de mudança, apenas: o suficiente para os fazer temporariamente felizes. Quatro ou cinco rapazes, trabalhadores de um qualquer rancho insignificante em visita à cidade, com as botas cobertas de bosta de vaca e os chapéus descoloridos pelo sol, olham em frente, ignorando os mineiros, talvez arrependidos das suas opções, talvez apenas a aguardar que o tempo passe e se descubram noutro sítio qualquer, diferentes. E depois, envolvendo a cidade: o apito inesperado do comboio, aproximando-se.
À entrada da igreja hesito durante um momento; mas entro, empurrando a grande porta de madeira, coberta pelo suor gordurento e solidificado de centenas de mãos; sento-me e olho para a enorme e solene cruz. Penso no meu marido; depois deixo de pensar nele: e pergunto-me se é isto que é suposto sentir uma viúva. Recordo o estranho pistoleiro que trouxe o seu cadáver, amarrado a um cavalo: a expressão misteriosa e o olhar opressivo, os seus gestos dissimulados; tão insuportavelmente silencioso; pergunto-me que segredos esconderá, no âmago da sua alma. E depois imagino como seria bom ter segredos, algo a esconder, a proteger; como é monótona esta existência linear e virtuosa, pública.
Fico a pensar nisto durante muito tempo. Como seriam os meus segredos, se os tivesse?

6.
Saio da igreja, esquecendo propositadamente o cesto de legumes que deixara à entrada. É possível que alguém repare e, daqui umas horas, me apareça à porta, fazendo a entrega com um sorriso embaraçado, aguardando um sorriso embaraçado em troca; e terei que fingir surpresa, agradecer. Vou caminhando, com o olhar no chão. Talvez isto possa contar como segredo: esqueci os legumes de propósito porque já não os quero, é este o meu grande segredo. E sorrio, preparada para o guardar com tenacidade.
Passo após passo. O saloon ruidoso. O gabinete do Xerife, fechado; pergunto-me quantas vezes lá terei entrado; três? Cavalos que cheiram mal. Nuvens – ainda as mesmas nuvens – arrastando-se vagarosamente pelo céu descolorido. Olhares dissimulados e perscrutadores, invasivos. O murmúrio arrastado da pradaria, ecoando no silêncio. Cacarejos de galinhas. Risos de crianças. O apito do comboio, que parte. E eu a deslizar pela rua, sem deixar pegadas.
Como antes. Como sempre.

7.
Depois, enquanto caminho, passos lentos e olhos fixos no chão – onde estarão, afinal, as minhas pegadas de há pouco? –, penso no meu marido. No morto.
Recordo, sem dor nem exaltação, como estive profundamente apaixonada por ele, sem limites nem concessões, sem receios ou hesitações; recordo como vivia para ele, com ele, nele. Obsessivamente, dia após dia: durante um mês. Ou mesmo que fossem dois, três, quatro. Uma vida.
Recordo, também, como inevitavelmente a paixão começou a desvanecer, implodindo lentamente, tão lentamente. Num dia amava-o profundamente; e no seguinte continuava a amá-lo: mas menos profundamente. Só um pedacinho menos, um pedacinho quase imperceptível, tão insignificante que quase – quase – poderia ter sido confundido com uma inexistência; mas eu sabia. Sabia que a paixão, feita de fascínio e amor e novidade e deslumbramento e conforto e compreensão e prazer e riso e sintonia e sexo e voracidade, se estava a transformar em repetição, em rotina, em monotonia, em frustração, em decepção, em silêncio. Lentamente, sempre lentamente.
Caminho pela rua poeirenta, sentindo-me quente e desconfortável, amorfa, minúsculas gotas de suor formando-se na minha testa, a roupa pesada, colando-se à pele; recordando o longínquo dia em que dei por mim a tentar perceber para onde fora essa paixão que, durante algum tempo, avassalara a minha vida e justificara a minha existência; onde estava? Em que se transformara? Quando regressaria? A tentar perceber se a minha vida já passara.
Caminho, sem pressa; ainda sem perceber se a minha vida já passou.
Pergunto-me se o cão ainda estará estendido à beira do jardim; penso se, afinal, não estará mesmo morto; e tento não ter demasiada esperança.

8.
Entro em casa, empurro a porta, avanço uns passos. Tento lembrar-me se há algo que deva fazer, algo que tenha adiado, alguma tarefa pendente; penso, devagar, percorrendo todo o espectro possível, disponível. Depois, desisto de pensar e avanço até ao quarto; fico durante um bocado a olhar para a cama, a pensar que daqui uns minutos, ou horas, estarei lá; penso, uma vez mais, em como a cama é o objecto da minha casa, da minha vida, com que mais me relaciono, com que tenho maior intimidade; e sorrio, com tristeza. Começo a despir-me, peça após peça, até ficar completamente nua; depois, caminho preguiçosamente pelo quarto, sentido o corpo descontraído, a pele livre; pergunto-me se alguém, algum dia, contemplará o meu corpo, assim, despido e vulnerável, disponível; talvez não. E apesar da dor, sinto também um princípio de liberdade.
Mas, logo de seguida, invade-me a desconfortável sensação de já ter vivido este momento, de que me estou a repetir. E apetece-me parar: e mudar; viver outra coisa, experimentar outra sensação. Sim, apetece.