Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXIX)

As pessoas chegam e acomodam-se confortavelmente no parque escuro e tranquilo; é fundamental que esteja escuro e que seja impossível as pessoas reconhecerem-se umas às outras. Olham as estrelas e permanecem em silêncio. Por vezes, alguém fala: conta uma memória pessoal. Todos os outros escutam. Depois, outra pessoa fala: também conta uma memória pessoal. Costuma haver uma brisa, há diversos cheiros da natureza que a maioria das pessoas que ali estão não conseguem identificar. Mas ninguém fala disso, limitam-se a partilhar memórias. Verbalizam-nas, e elas permanecem ali sob as estrelas durante algum tempo; livres. Por vezes, as memórias não sabem o que fazer com essa liberdade; mas acabam quase sempre por se relacionar entre si, estudando-se e desafiando-se, aventurando-se. Como crianças à solta num parque infantil.