Esboço # 74

(Estão sentados na varanda há horas, apenas iluminados pela lua; por vezes passa um carro algures, apressado e ruidoso, recordando que o mundo continua a girar. Conversam preguiçosamente e riem bastante; ou permanecem longos períodos em silêncio, confortáveis e serenos; levantam-se ocasionalmente para renovar as bebidas, para petiscar qualquer coisa, para passar pela casa de banho; mas regressam sempre, como se tivessem decidido permanecer na varanda até amanhecer. Nos primeiros meses do casamento era frequente ficarem juntos pela madrugada dentro, decididos a impedir que o sono os separasse momentaneamente, incapazes de se saciarem da companhia do outro; depois, quando tudo se tornou normal e previsível e rotineiro, os hábitos foram sendo alterados, devagarinho.)
ELE (após um longo período de silêncio): Conta-me um segredo. (Sorri, talvez nervoso ou arrependido.) Alguma coisa que nunca me tenhas contado, algo intímo e secreto e estranho.
(Ela olha-o, um pouco espantada. Estuda o seu perfil, escuta a sua respiração tranquila; pondera o que fazer, quase cede à tentação de mentir.)
ELA (numa voz arrastada e hesitante, apologética): Sabes, daquelas vezes em que te apetece fazer amor e finges não perceber os meus sinais, insistes apesar de saberes que eu não quero, apesar de saberes que não me apetece? (Ele move-se, desconfortável; ambos olham a escuridão.) Quando estás a fazer amor e eu à espera que termines, sabes o que sinto? (Hesita apenas um momento; num tom triste e desencantado.) É como se estivesse a ser violada. Sinto que estou a ser violada por um estranho. E nem posso gritar.
(Ele estremece, chocado; mas não fala, não se aproxima dela. Mantém-se em silêncio, agarrando os respectivos copos e olhando a lua; ambos com vontade de fugir mas incapazes de se moverem.)

Esboço # 73

Prazo de validade expirado.

Esboço # 72

Prazo de validade expirado.

Dão-se livros # 03

O inquérito está encerrado e o livro atribuído (à Isabel.)
O resultado da votação foi equilibrado, com ligeira vantagem para os esboços. Obrigado a todos os participantes.

Esboço # 71

Prazo de validade expirado.

Esboço # 70

(As duas mulheres estão sentadas na paragem do autocarro conversando sobre trivialidades e sorrindo, espreitando sem grande interesse as pessoas que passam, apressadas e rígidas, silenciosas, escondidas nos óculos de sol.)
MULHER UM (após um silêncio, olhando a amiga com ternura): Acho tão extraordinário que continues assim, depois de saberes que tens a doença.
MULHER DOIS (um pouco distante, como se estivesse distraída, mas sorrindo): Assim, como?
MULHER UM (encolhendo os ombros): A sorrir.
MULHER DOIS (num tom desencantado, depois do sorriso desvanecer): Sabes, quando vejo alguém sorrir, pergunto-me se esse sorriso não servirá apenas para esconderá algo; algum medo, algum desespero, alguma angústia. Sei lá. (Hesita; parece momentaneamente confusa.) Pergunto-me se cada uma dessas pessoas não estará apenas a disfarçar o pânico que a corrói com os seus sorrisos. Como eu. (E sorri.)
(Depois, chega o autocarro. As duas mulheres entram, em silêncio; não correspondem ao sorriso profissional do motorista.)

Esboço # 69

Prazo de validade expirado.

Esboço # 68

(A mulher ainda não se moveu, desde que o médico anunciou o veredicto; ele vai falando, num tom paciente e sereno – quase interessado –, sobre possibilidades e desenvolvimentos, sobre prazos e perigos e limitações, sobre esperança, enquanto ela escuta, apática e pensativa, estranhamente serena.)
MÉDICO (desconfortável e incomodado, genuinamente triste; num tom assertivo): Temos que ter fé. Acreditar. Nunca, nunca desistir. (A mulher mantém-se indiferente, como se não tivesse ainda compreendido as implicações do que ouviu; como se não tivesse entendido que acabara de ser condenada.) Entretanto, é preciso aproveitar. (Sorri, nervoso.) Aproveitar todos os momentos. Todos.
MULHER (num tom frio e distante; olhando ainda pela janela, incapaz – ou desinteressada? – de enfrentar o médico): Aproveitar? Aproveitar o quê? (Encolhe os ombros, subitamente desesperada por se sentir incapaz de chorar.) O que há para aproveitar?
(O médico desvia o olhar, constrangido; mas não demasiado. Olha o relógio sub-repticiamente e tenta disfarçar – sem grande empenho – um suspiro.)

Esboço # 67

(Acorda subitamente, assustada.)
MULHER (num tom murmurado e receoso, muito apreensivo): Voltei a ter aquele pesadelo.
(Aguarda durante um instante, ainda incapaz de se mover, de abrir os olhos; logo depois, recorda que está sozinha, que não há ninguém para a escutar, para a tranquilizar, para a abraçar. Passaram meses e meses: mas continua a não haver ninguém. Abre os olhos, num esforço ingénuo de tentar expulsar a escuridão que sente dentro de si; tenta esquecer o pesadelo, perguntando-se se terá gritado; espera não ter acordado os garotos. E mantém-se vigilante, tentando localizar na escuridão as suas suaves respirações, separando-as do silêncio opressivo; tentando distingui-las e acompanhá-las, envolvida pelo seu ritmo monótono e previsível, seguro; tentando sentir-se menos só, apenas um bocadinho menos só.)

Esboço # 66

Prazo de validade expirado.

Esboço # 65

Prazo de validade expirado.

Dão-se livros # 03

Desta vez não há desafio, apenas uma pergunta relativa ao que tem sido disponibilizado no blogue. Quais são as estórias mais interessantes: as normais ou os esboços?
Entre os emails recebidos até 21 de Outubro será sorteado o vencedor do livro.

Autópsia # 02: Convidar

1.
Tenho perfeita consciência de que me descontrolei completamente, ao escolher a roupa que trago vestida (e há quanto tempo a comprara, há quanto tempo fantasiava usá-la? Nem me lembro.). Exagerei ao escolher esta t-shirt elástica que delineia de forma obscena o contorno dos meus seios, centímetro a centímetro, terminando na saliência dos mamilos (suspeito que haja gente a olhar com ânsia de tocar, ânsia de perceber por que motivo estarão tão rígidos, tão protuberantes); e exagerei ao escolher uma saia mais ousada do que o habitual, uma saia cujo principal propósito é revelar o princípio das coxas; apenas o princípio, para que o resto seja intuído, adivinhado, fantasiado. Exagerei ao desistir voluntariamente de ser uma mulher completa, um rosto e uma expressão, um conjunto quase harmonioso de sensações e dores e fantasias, para me transformar num simples corpo, num pedaço de carne.
Sem disfarces ou subterfúgios, sem maquilhagem ou protecção; apenas um corpo, exposto e convidativo; disponível.

2.
O dia passou lento e claustrofóbico, repleto de olhares e insinuações, indícios de convite, desajeitadas manifestações de interesse; sinto que a minha simples mudança de vestuário (ou melhor: o significado que essa mudança representa) libertou em todos uma espécie de vontade de foder (de admissão de vontade de foder), uma avidez de sexo que sempre andou à solta pelo escritório, latente e disfarçada, mas que agora, de súbito, se revela de forma quase palpável, quase sufocante.
Contudo, apenas um colega (um rapaz mais novo da contabilidade que por vezes me pede cigarros e passa à minha frente ao entrar no elevador, sem me segurar a porta) fez uma tentativa concreta, uma verdadeira proposta; e quando o rejeitei, irritou-se.
Não me digas que o modo como estás vestida não é um convite descarado, diz ele misturando ódio nas palavras. (Ódio? Talvez não; decepção, apenas.) Tento reagir com calma, não o afrontar demasiado; não o afastar definitivamente. Claro que é um convite, digo eu. Desvio o olhar e acrescento, num tom mais baixo, menos confiante: mas não é um convite para ti.
Ele parece sentir uma súbita vontade de me bater mas controla-se, claro que se controla; e encolhe os ombros, conformado. Sinto-me agradecida por não me perguntar a quem se dirige o convite, afinal; não saberia que responder.

Autópsia # 01: Silenciar

1.
Estás na sala a ver televisão e eu na cama, à tua espera; excitada, o espírito alvoraçado e o corpo ansioso, a antecipar o orgasmo (mais importante: a antecipar todo o percurso que teremos de percorrer até alcançar o orgasmo, carícia após carícia). E tu sem vir, adiando.
Admito: cedo nos habituámos a criar estratégias para adiar a inevitabilidade do sexo; ambos aprendemos a detectar no outro os indícios da excitação e, como raramente as vontades coincidem, fomos aperfeiçoando alguns métodos que nos permitissem contornar a obrigatoriedade de satisfazer o desejo do outro. Estabelecemos uma estratégia silenciosa e envergonhada, que nos embaraça e constrange, mas que funciona, que nos satisfaz; mas a verdade é que se um de nós quer foder, prefere não o fazer (cerrar os olhos e tentar dissolver a excitação em fantasias, por exemplo) a ter de admitir que o outro o fará contrariado; a ter de admitir que o outro irá foder por favor.
Mas claro que, por vezes, toda esta racionalização se revela absurda e inconsequente: e engolir a excitação, fantasiar orgasmos, não chega; por vezes, é necessário ceder; engolir o orgulho e acreditar que o outro também cederá; que o outro também quer.
Vou esperando, então.

2.
Impaciente, salto da cama e passeio-me, langorosa e convidativa, pela sala; com esperança que percebas e venhas (importa-me lá que o faças por favor; amanhã pensarei nisso, lidarei com o arrependimento; mas, agora, preciso mesmo que venhas), com esperança que não me forces a pedir; tentando desculpar – desculpar, apenas; e não justificar – o teu desinteresse. Mas limitas-te a sorrir, sem alegria nem ânimo; sem me olhar.
Regresso à cama, onde espero, nua e gélida, desesperançada; transformando a frustração em paciência. Quando finalmente chegas, entras na cama cuidadosamente, com movimentos lentos e silenciosos, talvez até sustendo a respiração; tentas que os nossos corpos não se toquem; ou melhor: fazes um esforço consciente para não me tocares. E eu mantenho-me imóvel e rígida, certa de que sabes que estou acordada. Vou esperando, sabendo que nada acontecerá; mas sou incapaz de interromper o silêncio e pedir-te: fode-me, que preciso de acalmar o corpo, adormecer o espírito. Quero fazê-lo mas sei que não conseguirei; e a contradição (há poucos minutos parecia quase disposta à degradação de pedir) destroça-me: porque não a compreendo; não me compreendo.
Por isso, deixo-me estar quieta e infeliz, a tristeza a corroer-me devagarinho; sinto a decepção invadir-me, logo acompanhada pela indignação, pela revolta; pondero se devo confrontar-te, iniciar uma discussão, disfarçar o choro com gritos. Claro que não me movo, que não reajo: limito-me a aguardar que o silêncio da noite me embale, me adormeça.

3.
Depois, subitamente, tomo consciência do teu ressonar; e sinto-me ainda mais só e desamparada, mais triste; como se percebesse finalmente que nunca estive verdadeiramente acompanhada. E o sentimento de solidão e desamparo é tão incisivo, tão dilacerante, que sinto uma desesperada necessidade de conforto, de toque; suponho que poderia suspender o meu ódio por ti e aproximar-me cuidadosamente, aconchegar o meu corpo no teu (como estás a dormir, talvez não te afastasses); sentir a tua pele, a tua pulsação, o teu calor: e enganar a solidão, iludi-la momentaneamente (até que o sono chegue); usar-te. Mas no último instante consigo resistir à tentação e prefiro ceder a uma outra forma de desespero, mais privada, mais segura; prefiro desdobrar-me em companhia (inventar companhia): e toco-me.
Toco-me, numa ingénua tentativa de me sentir menos só; os segundos passam, pérfidos e inconsequentes, acusadores, enquanto os meus toques evoluem inconscientemente (ou muito conscientemente?) para algo novo e diferente, para algo surpreendente e inesperado. Dou por mim a masturbar-me a poucos centímetros de ti, enquanto escuto o teu ressonar monótono e pacificador. E por mais que tente, não consigo sentir-me envergonhada ou culpada ou miserável. Pelo contrário: sinto-me confortável; avançando tranquilamente em direcção ao orgasmo, à auto-suficiência. À libertação, talvez.
(E repara: falo sempre em foder; nunca em fazer amor.)

Galeria # 11



Lucian Freud - Hotel bedroom


(Ela permanece há muito deitada, fixando o vazio com um olhar apático e distante. Ele passeia pelo quarto, tentando disfarçar o nervosismo, tropeçando na sua própria ansiedade; senta-se na pequena poltrona e levanta-se logo de seguida, olha pela janela como se procurasse uma possibilidade de fuga ou uma distracção, escuta a respiração amorfa dela tentando detectar irregularidades, volta a sentar-se na poltrona; por vezes, apetece-lhe gritar; ou fugir, em silêncio e sem destino; ou rir bem alto, como um louco.)
ELE (num tom contido, miraculosamente neutro): Já estamos bastante atrasados.
(Ela não reage; como se estivesse a dormir: mas com os olhos abertos. Ele dá mais uns passos, desorientados e inconsequentes; sente-se ridículo por estar constantemente a andar para chegar a lado nenhum.)
ELE (com desprezo): Sabes o que descobri desde que casei contigo? (Hesita, talvez esperançoso que a sua súbita agressividade provoque uma reacção.) Que a tristeza é contagiosa. (E fica a olhar para Ela, sem saber o que mais acrescentar.)

Galeria # 10



Sangram Majumdar - Kitchen light


(Jantam em silêncio, na cozinha escurecida; a lâmpada fundira-se há três dias mas Ele ainda não se decidira a trocá-la; por isso, é necessário abrir a porta do frigorífico para que a sua fraca luz lhes ilumine a solidão. Ela já lhe falara nisso algumas vezes, tentando não parecer desesperada; depois desistira.)
ELA (tom algo defensivo, assustada por surpreender o seu olhar perscrutador e incisivo): Porque estás a olhar-me assim?
(Ele mantém o olhar durante alguns segundos, continuando a mastigar lentamente.)
ELE (tom pensativo): Estava a tentar lembrar-me por que motivo me apaixonei por ti.
(Ela escuta, sem o olhar; e só alguns instantes depois de Ele se calar, percebe o verdadeiro significado das palavras; como se não estivessem apenas a alguns centímetros de distância e o som das vozes tivesse que percorrer vários mundos. Então, quando compreende, sente que o coração pára durante um momento, vacilante; sente: mas sabe que está apenas a imaginar. Entretanto, Ele levanta-se sem pressa e afasta-se. Ela tenta distrair-se, pensando como será quando a lâmpada do frigorífico também fundir.)

Galeria # 09


Sandra Fisher - Mark & Sarah

(Estão os dois deitados em cima dos lençóis; não fizeram nem irão fazer amor, saboreando a volúpia de estarem nus e vagamente excitados mas recusarem a possibilidade de sexo, de a adiarem para um momento talvez próximo mas ainda incerto. Tocam-se ligeiramente, para se sentirem acompanhados; mas ambos apreciam o facto de, na verdade, se sentirem momentaneamente sós.)
ELE (abrindo os olhos mas sem se mover): Qual é a última coisa em que pensas antes de adormecer?
ELA (sem abrir os olhos): Em ti.
ELE (fechando os olhos): Quando vais deixar de me mentir?
(Ela sorri ligeiramente mas não responde; Ele logo desiste de aguardar uma resposta. E ambos adormecem pouco depois, olhando-se através das pálpebras cerradas.)

Dão-se livros # 02

Acabou o passatempozinho. Obrigado a todos os que gastaram algum do seu tempo à procura de quadros com potencialidades literárias; surgiram sugestões verdadeiramente estimulantes e desafiadoras.
O sorteio decidiu que a vencedora fosse a Alexandra.
Em Outubro, dá-se mais um livro. Até lá.

Esboço # 64

(Estão sentados na sala de espera do dentista, sozinhos. Ela olha distraidamente uma revista que retirou da pequena mesa que está à sua frente enquanto Ele espreita com uma expressão aborrecida pela enorme janela; não falam desde que saíram do carro, onde discutiram uma vez mais.)
ELE (sem a olhar; tom agastado, revelando um indício de desespero): Mas que mais queres de mim? Que posso eu fazer? (Hesitando.) Explica-me.
(Ela continua a passar os olhos pelas páginas da revista, indiferente e alheada, como se não o tivesse escutado.)
ELA (algum tempo mais tarde; cedendo a um impulso súbito, incapaz de se conter): Podias fazer algumas das coisas de que falam nas revistas femininas. (Ele olha-a, um pouco surpreendido; depois, desvia o olhar para a revista que Ela segura nas mãos.) Podias ser um marido de revista feminina.
(Ele tenta decifrar o seu tom de voz, perceber se falou com ironia ou não; como é incapaz de o fazer, evita responder. Ela, talvez irritada com o seu silêncio, atira inesperadamente a revista que tem nas mãos para cima da mesa; depois, levanta-se e caminha um pouco pela sala, olhando de perto e com excessiva atenção os quadros que estão pendurados pelas paredes. Ele, sentindo-se ignorado, não resiste à provocação de pegar na revista que Ela estivera a folhear.)
ELE (num tom neutro, olhando sem grande curiosidade as páginas da revista): Mas como? Tu também não és propriamente uma mulher de revista feminina.
(Ela continua a olhar fixamente um quadro, em silêncio; mas é incapaz de conter um sorriso, fugaz e amargurado, contrariado; mas um sorriso.)

Esboço # 63

Prazo de validade expirado.

Esboço # 62

Prazo de validade expirado.

Dão-se livros # 02

Prossegue a série de mini passatempos de que resultará a oferta de exemplares dos livros que aparecem aqui ao lado.
Segundo desafio: enviar um email sugerindo um quadro que possa servir de pretexto à escrita de uma estória; vale tudo menos repetir os pintores que já integram a galeria da gaveta.
Entre as respostas enviadas até 21 de Setembro será sorteado alguém que receberá um exemplar de um dos livros (à sua escolha).

Galeria # 08



Eric Fischl - Untitled


(Permaneço deitada na cama, ainda nua; o prazer proporcionado pelo sexo já se dissipou há muito, deixando-me estranhamente apática e indiferente, quase desconsolada. Não me apetece mover, fechar os olhos ou mantê-los abertos, pensar; não me apetece aceitar que o mundo continue a avançar, levando-me consigo. Ouço-a sair da casa de banho, aproximando-se; não quero – não consigo – olhá-la mas sei que vem enrolada numa toalha. Talvez pudesse perguntar-lhe por que nunca se seca na casa de banho, por que motivo prefere fazê-lo junto de mim.)
ELA (num tom indiferente, como se falasse para si própria): Foda-se, que está outra vez a chover.
(Fecho os olhos e concentro-me momentaneamente no silêncio que preenche o quarto, enquanto respiro o cheiro a sexo que ainda perdura; depois, Ela liga a televisão e o silêncio é estilhaçado – mas o cheiro permanece, insidioso. Pergunto-me por que motivo não se aproxima mais, não me toca; pergunto-me, também, há quanto tempo terá deixado de me amar. Não me movo, insisto em não me mover, paralisada por um receio indefinido e persistente, supersticioso; Ela continua a secar-se, acariciando-se com indiferença. Será que me olha, apreciando o meu corpo? Duvido. Estou quase, quase a perguntar-lhe se faz ideia por que motivo nunca nos tocamos depois de fazer sexo, o que poderá significar isso; mas não o faço: temo a resposta.)
ELA (tom abrupto, um pouco acusador): Vais dormir?
(Não respondo; na verdade, apetecia-me dizer-lhe que me sinto como se andasse a dormir há anos, incessantemente. Ela acaba de se secar e aproxima-se da televisão, mudando o canal. De repente, sinto-me incapaz de me submeter uma vez mais à tristeza e desistir; apetece-me reagir, lutar, agredir.)
EU (sem me mover, sem a olhar): Porque vais sempre tomar banho, depois de fazermos sexo? (Hesito e sinto o seu olhar fixar-se em mim.) Seja ao acordar ou a meio da noite, seja à hora de almoço. Vais sempre. (Respiro fundo, tentando controlar-me. Apetece-me acrescentar: como se o banho fosse o teu verdadeiro orgasmo.) Porquê?
(Finalmente, sinto que estou a libertar-me da paralisia; movo-me ligeiramente e olho-a, sem agressividade mas também sem afecto.)
EU (tom cândido, quase nostálgico): Sentes-te suja, quando beijas o meu corpo? (Ela olha-me durante mais um instante, perplexa e insegura, incapaz de reagir; depois, desvia o olhar, devagarinho. Afasta-se, recuando um passo: pergunto-me se conseguirá voltar a olhar-me.)

Galeria # 07



Alberto Sughi - La Stanza del Tempo


ELA (num tom apático): Não podias sorrir um pouco?
(Ele interrompe a leitura, contrariado, mas não desvia o olhar do livro.)
ELE (cauteloso): Desculpa?
ELA (impertinente, sem o olhar): Sorrir, simplesmente. Uma vez por semana ou assim. (Tom quase impertinente.) Custava-te muito?
ELE (levantando os olhos do livro; tom cauteloso): Desculpa, não percebo.
(Ela suspira e recosta-se no sofá, talvez com vontade de chorar.)
ELE (pesaroso): Queres que eu sorria, mesmo que não tenha vontade de o fazer? Que finja? (Num tom inesperadamente mais afável, quase carinhoso.) Preferirias assim? (Hesita.) Que eu fosse falso e dissimulado e fingido?
(Ela não responde – talvez com vontade de gritar que sim, que preferia a falsidade e a dissimulação e o fingimento à indiferença, à apatia; fecha os olhos durante um momento, respira fundo; Ele observa-a, atento e curioso. Depois, muito mais tarde, quando percebe que o diálogo terminou, regressa à leitura.)

Galeria # 06


Edward Hopper - Cape Cod evening

(Ele está sentado no degrau das traseiras, contemplando pensativamente o horizonte e espreitando o cão que corre por ali; por vezes, homem e animal trocam olhares cúmplices, solidários: como se partilhassem algo. Ela aproxima-se em silêncio e permanece junto dele, olhando-o soturnamente; talvez à espera que ele repare em si.)
ELA (tom constrangido): Esse cão é mais importante para ti do que eu, não é?
ELE (muito tempo depois; tom relutante): Talvez.
(O cão aproxima-se dele e deixa cair aos seus pés algo que prende na boca; depois, afasta-se. Ela cruza os braços e olha para o chão, pensando em como toda a gente a ignora, incluindo o cão; perguntando-se como deverá reagir a uma resposta daquelas; se valerá a pena reagir. Então, uma brisa agreste sopra subitamente do lado da floresta, indiciando que – apesar de tudo – o mundo talvez continue a girar, a vida a avançar; indicando, também, que se aproxima a hora de começar a pensar no jantar. O vento passa, insidioso e desconfortável; ninguém fala: nem o cão rosna, sequer.)