Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XCIV)

Regressava ao escritório depois do almoço quando se cruzou com um cão. Olhou-o durante uns instantes, curioso e interessado; e como o cão se afastava, decidiu segui-lo. Foram andado ao acaso, sem destino aparente. Separados, mas próximos. Tentava perceber a lógica do percurso, intuir os objectivos, antecipar possíveis direcções. A meio da tarde, o cão instalou-se debaixo de uma árvore e adormeceu de imediato; ficou a vê-lo dormir durante um bocado, com pena de não poder fazer o mesmo. Mas quem determinara que não podia fazer o mesmo? Sentou-se à beira do cão e recostou-se na árvore. Escutou o suave ressonar do seu companheiro; estudou a rota do sol e calculou que teria pelo menos uma hora de sombra. Acordou com fome.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XCIII)

Tinha o vício de humanizar a natureza. Por exemplo, sentia o vento no corpo e dizia: parece hesitante e incerto, como se não soubesse para onde está a ir; ou porquê. Até que um dia percebeu que andava enganado, compreendeu que passara a vida a fazer tudo ao contrário. Não deveria tentar humanizar a natureza, mas antes naturalizar-se a si próprio. Por exemplo, admitir: neste momento não sei para onde estou a ir, ou porquê; como o vento.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XCII)

Numa madrugada de domingo de 1876 um rapaz fugiu de casa para não ter que ir à missa. Escondeu-se na floresta que rodeava a aldeia e entreteve-se a subir a uma árvore; gostava de sentir a textura rugosa dos troncos nas mãos, cheirar aquele verde que o fazia sentir-se livre; por vezes olhava o céu e sorria. Depois, mudou de árvore; fechou os olhos e deixou-se estar a ouvir os pássaros. Pensou: talvez Deus exista. A missa ainda não tinha terminado quando escorregou de um tronco e partiu o pescoço no chão fofo. O funeral ocorreu no dia seguinte, havendo missa. Passados cento e cinquenta anos, ninguém recorda este rapaz; ninguém sabe que ele existiu. A floresta também já não existe, mas o céu ainda é o mesmo.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XCI)

Na aparência, era um clube de leitura. Reuniam-se e faziam leituras, sobre as quais debatiam com entusiasmo; mas não sobre livros premiados ou tops de vendas. Falavam das suas próprias escritas: traziam os velhos cadernos da escola primária e liam os textos que tinham escrito a pedido da professora. Sobre visitas a sítios especiais, sobre familiares que admiravam, sobre prendas de natal que tinham surpreendido; sobre planos para o futuro; sobre como era ser criança.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XC)

O rapaz falou bem alto, assertivo e orgulhoso, para que toda a sala o ouvisse: «Na minha opinião, o lugar das mulheres é em casa, a tomar conta das coisas.» Houve um instante de silêncio, que não chegou a durar um segundo; um silêncio tenso e expectante, antecipatório de uma possível desgraça. Mas passado esse instante, o que aconteceu foi escutar-se um estrondoso riso: todas as raparigas presentes na sala riram, assertivas e orgulhosas. Todas.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXXIX)

Quando ia para dentro (sempre após o terceiro aviso da mãe), deixava os brinquedos espalhados pelo quintal. Não fazia sentido arrumá-los porque no dia seguinte iria prosseguir a brincadeira, como se não tivesse ocorrido um intervalo. Dizia a si próprio: amanhã brinco mais. E ia tomar banho. Continuou a dizê-lo todos os dias, mesmo depois da mãe ter deixado de o chamar, mesmo depois de já não viver naquela casa, mesmo depois da sua idade ter triplicado ou quintuplicado. Amanhã brinco mais.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXXVIII)

Quando a borboleta viu pela primeira vez um arco-íris ficou sem reacção. Pareceu-lhe algo mágico e sublime, proporcionando-lhe uma experiência inédita que a elevou a um estado místico de profunda paz e serenidade. Demorou algum tempo a recuperar desse estado orgástico, depois do arco-íris desaparecer. E logo quis repetir a experiência. Tentou recuperar todos os pensamentos que tivera e todos os gestos que executara imediatamente antes da visão ocorrer; depois, fixou-os um a um na sua memória pela ordem que lhe parecia a certa, de forma a poder reproduzi-los com exactidão. Foi o que passou o resto da vida a fazer: repetir ritos para encontrar o transcendente.   

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXXVII)

Marcel lutava contra o tempo, adivinhando a proximidade da morte. Passava as madrugadas debruçado nos seus cadernos, obsessivo, acrescentando palavras ao sétimo e último capítulo da sua obra; chamar-lhe-ia O Tempo Reencontrado. Encerrado no seu casulo de cortiça, protegido do mundo, vivia para a escrita; e escrevendo, vivia. Até que numa cinzenta tarde de Novembro (sentia-se o vento a libertar-se, a chuva não tardaria: os pássaros anunciavam-no) aconteceu o inesperado: recebeu um convite para comparecer num festival literário.  

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXXVI)

O caracol acabou por ser internado numa clínica psiquiátrica, após um diagnóstico de depressão e burnout. Não conseguia lidar com os conflitos permanentes que sentia por ser simultaneamente inquilino e senhorio da mesma concha.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXXV)

A mesa caminhava distraidamente pela cidade. Desviava-se das pessoas que enchiam os passeios e respeitava os semáforos das passadeiras, apesar das luzes verdes e vermelhas apenas terem símbolos de seres humanos e não de mesas; ainda assim, sentia-se incluída. Como sempre, pensava em formas de conseguir concretizar o seu maior sonho: andar de bicicleta. Foi então que o tigre saltou do interior de uma paragem de autocarros e a despedaçou; nem teve tempo para dizer ai.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXXIV)

Tinham sido felizes durante alguns anos. Depois, deixaram de o ser. Foi um divórcio tranquilo, sem atropelos nem complexos. Decidiram continuar a encontrar-se com alguma regularidade por causa dos filhos; pelo menos uma vez por mês, juntavam-se e partilhavam novidades sobre as crianças, que depois se tornaram adolescentes, que depois se tornaram jovens adultos. Claro que nunca tinham tido realmente filhos, ambos eram inférteis; mas imaginaram-nos. E depois alimentaram a imaginação, até quase acreditarem que aquelas crianças (e depois aqueles adolescentes, e depois aqueles jovens adultos) realmente existiam. 

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXXIII)

Era um coveiro com leituras. Lia tanto nos tempos livros, entre enterros, que começou a conseguir reconhecer no rosto dos mortos que enterrava as leituras que cada um fora acumulando em vida. Por exemplo, reconhecia com facilidade um morto que tivesse lido o Crime e Castigo ou o D. Quixote. Identificava na expressão de uma velhota se fora leitora do Livro do Desassossego ou na dum jovem morto antes do tempo se chegara a ler o Mrs Dalloway. Mas apenas uma vez se cruzou com alguém que lera os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido; ficou tão comovido que no dia seguinte precisou de pedir folga. Tinha pena de nunca chegar a tempo de falar com as pessoas sobre cada um daqueles livros.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXXII)

É ao fim do dia, quando o sol desaparece lentamente deixando atrás de si um subtil rasto de luz dourada e as ondas acalmam um pouco o seu rumor incessante, que a ilha sente mais saudades do tempo em que fazia parte de um continente. Mas não se arrepende.

Exclusivos


Todos os dias vai à livraria ler a nova estória. Por vezes, fica a pensar no que leu durante o resto do dia; outras vezes, sente que foi tempo perdido. Explica a uma amiga que gosta da efemeridade daquela forma de leitura: «Cada estória apenas  vive durante um dia, como as libelinhas, e depois desaparece para sempre; por muito que queiras, não podes regressar ao que leste. São textos sem existência física, apenas permanecem no espírito de quem os leu.» A amiga encolhe os ombros e pergunta: «Se tirares foto aos textos, podes guardá-los no telemóvel e lê-los quantas vezes quiseres.» E ri. 

Todos os dias vai à livraria ler a nova estória. Por vezes, fica a pensar no que leu durante o resto do dia; outras vezes, sente que foi tempo perdido. Mas começa a sentir um certo embaraço, porque nunca encontra mais ninguém a ler a estória. Será uma ideia tão tonta que não interessa a mais ninguém? Continua a regressar todos os dias, mas lê à pressa, como se temesse ser surpreendida a fazê-lo. Até que um dia tem uma ideia inesperada: será que as estórias não interessam a mais ninguém porque são escritas apenas para si? Fica a pensar nisso. Aquele apenas provoca-lhe um sorriso. Continua a regressar todos os dias; continua a ler à pressa, para que ninguém a surpreenda a sorrir. 

Todos os dias vai à livraria ler a nova estória. Por vezes, fica a pensar no que leu durante o resto do dia; outras vezes, sente que foi tempo perdido. Começa a ser essa a sensação mais frequente: a de tempo perdido. Talvez deixe de vir todos os dias. Talvez deixe de se interessar. Mas dá por si a regressar, como se fosse algo incontrolável (como uma paixão; ou um espirro). Porque a estória seguinte pode ser especialmente marcante e (quem sabe?) mudar a sua vida. Continua a regressar, à espera do incrível. Nunca o encontra, mas continua a regressar. 

Todos os dias vai à livraria ler a nova estória. Por vezes, fica a pensar no que leu durante o resto do dia; outras vezes, sente que foi tempo perdido. Mas há alturas em que se enerva com o que lê; sente-se confrontada, como se as estórias apontassem para direcções em que não quer olhar. Esse sentimento começa a torna-se mais frequente; mais incomodativo; mais angustiante. Até que desiste e decide não voltar à livraria. Na última visita diz a uma livreira, apontando para o local onde está a estória do dia: «Mais valia tirarem isso daí e substituírem por um espelho.» A livreira sorri e responde que já pensou o mesmo, apesar de ser mentira. 

Todos os dias vai à livraria ler a nova estória. Por vezes, fica a pensar no que leu durante o resto do dia; outras vezes, sente que foi tempo perdido. Há alturas em que, após a leitura, retira um caderno e faz algumas anotações breves. As livreiras reparam, uma até comenta com o escritor: «Deve gostar muitas das tuas estórias, por vezes tira notas.» Não lhe passa pela cabeça que aquilo que a leitora regista no caderno são discordâncias ortográficas e aquilo que considera incorrecções gramaticais. Erros.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXXI)

Toda a gente conhecia o seu relógio. E porque as pessoas se habituam a tudo, também se habituaram aos apitos; o relógio podia tocar a qualquer momento, em qualquer circunstância. Havia dois tipos de toque: um ligeiro pii e um sonoro hõôõõn. Ninguém conhecia o significado daqueles toques, ninguém sabia para que serviam, qual a utilidade. Existiam muitas teorias, mas ele nunca confirmava ou desmentia. E as pessoas habituavam-se. Por vezes escutavam um pii, mais frequentemente um hõôõõn; e ignoravam, da mesma forma que se finge não olhar para uma imensa borbulha vermelha que alguém tem na ponta do nariz. Nunca contou a ninguém que o relógio era um medidor de emoções, que aplicava a todos os seus interlocutores; pii significava que a pessoa estava a sentir-se insegura, hõôõõn que a pessoa era apenas estúpida. Tivera a ideia por causa de um amigo que justificava o mau comportamento de toda a gente, em qualquer circunstância, com "tens de compreender, é apenas insegurança". Na presença deste amigo, o relógio não apitou um único pii.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXX)

Chega finalmente a casa. Senta-se no seu cadeirão em frente à janela e olha o céu azul, as nuvens ocasionais; depois, chora. O funeral foi quase insuportável: despedir-se da mulher com quem foi casado quarenta e sete anos seria sempre um momento quase insuportável. Fecha os olhos, e vê o seu rosto sorridente. Agora será sempre assim: precisará de fechar os olhos para ver o seu rosto sorridente. Quarenta e sete anos de companheirismo e de ternura, de quase-amor. De paciência e de compreensão, de aceitação. Sim, tinham sido felizes. Ambos sabiam que ele tinha uma preferência sexual não assumida por homens, e que essa preferência jamais seria concretizada. Ambos sabiam, e ainda assim tinham sido felizes. Quarenta e sete anos de quase-amor.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXIX)

As pessoas chegam e acomodam-se confortavelmente no parque escuro e tranquilo; é fundamental que esteja escuro e que seja impossível as pessoas reconhecerem-se umas às outras. Olham as estrelas e permanecem em silêncio. Por vezes, alguém fala: conta uma memória pessoal. Todos os outros escutam. Depois, outra pessoa fala: também conta uma memória pessoal. Costuma haver uma brisa, há diversos cheiros da natureza que a maioria das pessoas que ali estão não conseguem identificar. Mas ninguém fala disso, limitam-se a partilhar memórias. Verbalizam-nas, e elas permanecem ali sob as estrelas durante algum tempo; livres. Por vezes, as memórias não sabem o que fazer com essa liberdade; mas acabam quase sempre por se relacionar entre si, estudando-se e desafiando-se, aventurando-se. Como crianças à solta num parque infantil.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXVIII)

Por vezes, apareciam visitantes. Ele abria-lhes a porta e depois deixava-os à vontade, para que pudessem circular entre as diversas salas e explorar as dezenas de armários onde se acumulavam chaves. Cada uma dessas chaves fora criada por si, ao longo de muitos anos, e todas tinham em comum uma característica: não abriam nenhuma fechadura. Criara-as propositadamente assim: sem possibilidade de conexão. Ao lado da porta de entrada colocara um cartaz com o nome que dera ao local, Museu da Solidão. Por baixo, acrescentara uma citação da bíblia: "E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança..."

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXVII)

Olham-se quando entram no autocarro e fingem não se reconhecer. Depois, ambos mudam de ideia - quase, quase em simultâneo - e saúdam-se timidamente. Conversa de circunstância. Desvio de olhares. Foram amigos. Dormiram juntos uma única vez. Afastaram-se logo de seguida, nunca mais se cruzaram. Trinta anos depois, encontram-se num autocarro. Acabam por sorrir. Decidem fazer a viagem juntos. Quando já estão perto do destino, dão as mãos e ficam em silêncio. Despedem-se com um abraço, seguem em direcção aos seus destinos. Caminham abstraídos, cada um no seu passeio, ambos com a mente repleta de imagens (o que foi, o que poderia ter sido, o que ainda poderia vir a ser). Ambos sorriem, mas só um morre atropelado numa passadeira por não parar quando devia. Não teve tempo de deixar de sorrir.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXXVI)

Sim, conhecia linguagem gestual. Mas preferia andar sempre com um caderninho e escrever nele o que queria dizer; gostava de desenhar as letras, uma a uma; gostava de olhar a pessoa enquanto lia o que lhe escrevera e antecipar no seu rosto abstraído a resposta que viria. Quando se apaixonava por alguém, partilhava alguns dos seus caderninhos; achava que era uma forma de se dar a conhecer, como se partilhasse um diário íntimo. Mas as pessoas por quem se apaixonava rapidamente deixavam de se interessar pelos caderninhos. Uma delas disse, certa vez: «Preciso de ouvir-te dizer que me amas, não me basta lê-lo.» Não soube o que responder. Se pudesse falar, teria dito: talvez um dia encontre alguém que aprecie um amor silencioso.