Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXIII)

Sempre foi acusado de não revelar emoções; de ser frio e pouco empático; de parecer quase maquinal, para não dizer desumano. Cansou-se das acusações e foi ao psicólogo procurar uma solução. E o psicólogo fez o seu diagnóstico: lamento, mas parece que não tem a capacidade de mostrar emoções porque, na verdade, não as sente. Ouviu aquilo e pensou: isso sei eu. Mas questionou: e qual o tratamento para isso? O psicólogo não hesitou: inventar emoções. Admirou-se e quis confirmar: fingir? O psicólogo explicou que se inventasse emoções podia acontecer que a sua estrutura mental se habituasse àquela novidade e começasse a absorver essas invenções e, com o tempo, a replicá-las. Como se estivesse a auto-condicionar-se a sentir; ou a aprender. Aplicou a instrução e as pessoas que o rodeavam logo notaram a diferença. Era-lhe fácil fingir. Admirou-se por nunca se ter lembrado de o fazer; facilitava-lhe muito a vida. Quando lhe perguntavam qual a origem daquele milagre, falava do psicólogo. E surpreendia-se por as pessoas da sua vida não distinguirem entre emoções reais ou fingidas, como se afinal não existisse diferença.