Ideias registadas em cadernos (XXII)

Iniciara a tradição no final da adolescência e ainda a cumpria, apesar de já ter mais de cinquenta anos; quase sessenta. Era simples: no primeiro dia da Primavera olhava-se ao espelho durante algumas horas. Via tudo o que tinha perante si, estudava cada detalhe, analisava cada pormenor, descobria nuances ou até novidades, reencontrava surpresas entretanto esquecidas; memorizava o seu rosto. Demorava o tempo que fosse necessário, sem pressa; depois, arrumava o espelho num armário e focava-se no que memorizara. Desde o final da adolescência que apenas se olhava ao espelho uma vez por ano. Durante trezentos e sessenta e quatro dias, a memória era o seu espelho.