Um escritor tem o hábito de registar ideias e pensamentos em cadernos quase diariamente. Os anos passam e a colecção de cadernos aumenta: são dezenas deles, coloridos e de diferentes tamanhos, alinhados numa estante. Por vezes, gosta de olhar e apreciar o seu passado - assim à distância, sem entrar nele; perceber que está ali, disponível. A verdade é que sente um conforto inexplicável ao olhar aquele arquivo de pensamentos e ideias; mas é muito raro pegar num dos cadernos e ler o que escreveu. Quando o faz, a reacção é sempre a mesma: sente um enorme embaraço; questiona-se sobre os motivos de ter escrito aquilo, questiona-se sobre que pessoa era aquela e na qual já não se revê. O incómodo pode ser tão grande que costumam passar meses até voltar a abrir um dos cadernos, geralmente por distração. Apesar disso, nunca suspende a recolha de ideias, nunca cessa de registar. Os anos passam e a colecção de cadernos aumenta, imparável. Não se percebe para quê.