Vejo a floresta à minha frente. Caminho entre as árvores, olhando-as como se as conhecesse; por vezes, toco-as ao de leve. E elas correspondem: como se apertássemos as mãos. O sol desce lá à frente, inundando a atmosfera com um manto dourado e flutuante que parece envolver todas as árvores. Escuto o som ténue causado pelos meus passos na terra; e sinto que essa terra não tem idade, é anterior à minha existência, ou à existência da própria humanidade. É como pousar os pés sobre o próprio tempo, ou as estrelas: caminhar em cima da intemporalidade. Avanço passo após passo sentindo-me leve, como se a minha presença não trouxesse peso ao universo. Escuto o diálogo de animais que não conheço, pronunciando-se nos seus idiomas cantantes; um diálogo que não me exclui; sempre me espanto, como se fosse uma primeira vez: os animais da floresta cantam, as suas linguagens são canções. Ao contrário do berro que ouço, que me traz de volta à realidade. A floresta desaparece do meu espírito: tudo o que acabei de ver - sentir - ocupou três segundos da minha vida, o tempo que espaçou os dois socos. Recebo o novo embate, gemo, volto a fechar os olhos. Perante mim, surge de novo a floresta; os pés sobre a terra, os ouvidos preenchidos com as melodias ancestrais da natureza. A tortura pode prosseguir indefinidamente: o meu espírito manter-se-á livre. A minha floresta.