Ideias registadas em cadernos (XIX)

Desde que perdera a mobilidade, passava muito tempo à janela. Olhava o pedaço de mundo que tinha pela frente e parecia nunca se aborrecer. Os netos foram desistindo de o tentar convencer a pedir ajuda para sair do quarto, a abandonar a janela durante algumas horas; a entrar no mundo. Tentavam perceber qual o fascínio de olhar sempre para o mesmo. Perguntavam: gostas de observar as pessoas que passam todos os dias e aprender a conhecê-las à distância? Ele sorria e respondia que sim. Ou perguntavam: gostas de ver os aviões que passam alto e imaginar quem lá irá e para onde e fazer o quê? Ele sorria e respondia que sim. Os netos tranquilizavam-se, impressionados por o avô já não esperar nada; por se limitar a estar, e isso ser suficiente. Parecia-lhes uma forma de sabedoria e falavam com orgulho do avô àqueles amigos que nunca tinham tempo para nada, que nunca paravam, que viviam sôfregos e ansiosos. No seu quarto, o velho olhava pela janela. Com esperança de que alguma daquelas pessoas que todos os dias ali passavam caísse e partisse a cabeça, morrendo ali mesmo; ou que um daqueles aviões pequeninos que passavam entre as nuvens caísse do outro lado da rua.