Desde cedo que se entusiasmara com a namorada do amigo. Na sua perspectiva, era um interesse relativamente inofensivo, alimentado exclusivamente na sua própria imaginação. Parecia-lhe que fantasiar com outras pessoas não era problemático; apenas seria complicado se aquilo que imaginava começasse de alguma forma a condicionar o seu comportamento; se a imaginação contaminasse a própria vida quotidiana. O que não era o caso. Portanto, imaginava coisas; e nada mais. Até que num dia de bebedeira o amigo revelou detalhes de uma das suas sessões sexuais com a namorada. Muitos detalhes. Um filme inteiro. Ele escutou com atenção e reteve cada pormenor; construiu uma memória fiel e minuciosa do que fora vivido pelo amigo. Passou a ver muitas vezes aquele filme. E nunca teve consciência do que acabou por acontecer: em determinado momento passou a ser ele o protagonista do filme, substituindo o amigo. Apropriando-se da memória alheia. No fundo, talvez fosse como o oxigénio: anda por aí na atmosfera, disponível; não tem dono. Respira-se e pronto. Tal como as memórias: usurpam-se e pronto.