Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXXIII)

Todos os dias o idoso comia um chocolate mais ou menos à hora do pôr-do-sol. Um pequeno chocolate de embalagem vermelha, com nove quadradinhos. Sentava-se na sala de estar do lar, junto a uma janela; olhava lá para fora, fixando o olhar em algo indefinido ou em nada. Depois, abria a embalagem com vagar e comia sem pressa, saboreando. Por vezes, fechava os olhos; por vezes, chorava. Ninguém o incomodava durante aquele ritual; claro que comer um chocolate diariamente não era saudável, mas já estava numa idade em que não fazia grande diferença. E toda a gente sabia que aquele ritual representava um regresso ao passado, à infância; uma despedida. A reprodução de uma memória antiga: a tarde em que o seu pai lhe dera um chocolate idêntico e ele o comera à beira da janela, olhando para o jardim enquanto os pais conversavam na cozinha. O sol descia lá fora, os pássaros celebravam ruidosamente o fim do dia. Ouviu a mãe rir sete vezes, e o pai duas; uma risada por cada quadradinho de chocolate. No dia seguinte, ambos morreriam num acidente.