Toda a gente lhe dizia o mesmo: a identidade de uma pessoa baseia-se na sua memória. Isso irritava-o porque significava que a sua personalidade estaria sempre associada ao passado, o que lhe parecia muito limitativo. Gostaria de ser mais condicionado pelo futuro do que pelo passado. Claro que poderia incorporar em si - naquilo que era - as suas expectativas e previsões em relação ao que esperava para o futuro, deixando de estar apenas vinculado ao passado. Mas as suas expectativas e previsões alteravam-se constantemente, por vezes de forma radical. Integrar essa volatilidade no seu quotidiano seria arriscado e, de certa forma, ingerível. O que fazer, então, para trazer o futuro para o presente? Decidiu inovar. As memórias são, por natureza, retrospectivas; para se constituírem, vão buscar algo ao passado. Mas e se existissem memórias prospectivas? Memórias que procuram algo no futuro e se formam a partir disso. Como uma semente que já se consegue visualizar - e sentir - como árvore. Claro que o futuro está por acontecer. Então - pensou, com entusiasmo - há que imaginar o futuro a partir do presente; e depois, ir a esse futuro imaginado buscar matéria para formar memórias, tal como se vai ao passado para fazer exactamente o mesmo. Assumir cada expectativa e previsão não como possibilidade mas como efectividade. Claro que essas memórias imaginadas e depois recordadas poderão não ser totalmente fidedignas; mas as memórias assentes no passado também não o são. Cada memória que tens - explicou uma vez a um amigo, que depois nunca mais lhe falou - é uma ficção; que importa se essas ficções se baseiam no que aconteceu ou no que ainda pode vir a acontecer?