Ideias registadas em cadernos e que nunca serviram para nada (VI)

Um homem e uma mulher são amantes durante algumas semanas, unidos numa relação exclusivamente baseada em sexo. Quando o interesse se esgota, separam-se e não voltam a encontrar-se durante vários anos. Até que por acaso se cruzam num evento e, inesperadamente, o interesse sexual renasce, selvagem e imparável. Seguem para o mesmo local onde anteriormente se encontravam, a casa dele. Quando terminam, ela dá por si no mesmo sofá, na mesma sala, no mesmo ambiente de antes: tudo exactamente igual, como se tivesse passado apenas um dia desde a última vez em que ali estivera, e não quase dez anos. Essa consciencialização de imobilidade e tempo congelado surpreende-a e assusta-a; como se quase dez anos não fizessem diferença. Imagina como teria sido a sua vida se tivesse permanecido, se tivesse continuado ligada àquela pessoa durante todo aquele tempo: um acessório na sua vida, como aquelas fotografias penduradas na parede para onde olha enquanto se veste. As mesmas fotografias que olhava enquanto se vestia há quase dez anos.