Ideias registadas em cadernos (XVIII)

Toda a gente conhece a mulher naquela rua; quem ali vive, quem ali trabalha: habituaram-se a olhá-la como se fosse um cartaz publicitário afixado na paragem do autocarro; vê-se uma vez, talvez se leia quase tudo, esquece-se logo de seguida; apesar de continuar ali durante semanas. A mulher caminha sempre devagar, talvez por limitações físicas causadas por uma qualquer dor crónica, talvez porque não tem horário de chegada a nenhum lugar. Sempre com sacos na mão, de aspecto pesado. O que transportará? Algumas pessoas já se questionaram, mas nunca ninguém lhe perguntou. Há algo na expressão da mulher que impõe limites, como se a envolvesse uma cortina que ninguém se atreve a transpor. Até que um dia a mulher atravessa a rua a cantar. Muitas pessoas confirmam para si próprias o que tinham pensado: talvez seja um pouco louca. Incomodam-se porque o inesperado e o inexplicável quase sempre causa desconforto. Mas o canto é belo. Como se aquela mulher fosse uma cantora profissional numa sala de concertos. Passa devagar, arrastando os sacos; levando consigo o canto, que vai deixando um rasto atrás de si como um eco que pousa suavemente sobre a rua. No dia seguinte, a mulher volta a passar em silêncio, fazendo a sua travessia ritual que apenas para si faz sentido. Quem a ouviu cantar no dia anterior sente uma inesperada angústia, causada pelo silêncio; como se a normalidade fosse, afinal, o canto. Para essas pessoas, o resto do dia tornou-se inexplicavelmente melancólico. Mas talvez no dia seguinte a mulher volte a descerrar a cortina.