Ideias registadas em cadernos que ainda não serviram para nada (XV)

Um escritor decide escrever a sua autobiografia. Para isso, inicia um processo de recolha de memórias; todos os dias, durante algumas horas, regista momentos da sua vida. Passadas algumas semanas, começa a sentir dificuldade em recordar novas memórias, o que implica fazer um maior esforço de concentração e busca. Disciplina-se a procurar memórias desaparecidas, apesar da crescente frustração que sente por a consciencialização ser difícil e até dolorosa. Mas com o passar do tempo, percebe que após um período de maior dificuldade acaba por surgir um detalhe novo, interessante, até surpreendente, que depois precisa explorar. Como encontrar um dedo na terra e escavar em redor até tornar visível a estátua a que o dedo pertence. Esse processo de escavar memórias a partir da frustração vai-se tornando produtivo. Surgem memórias inesperadas, que vai registando. Em nenhum momento ocorre ao escritor que o seu cérebro pode estar a inventar recordações, como mecanismo de defesa contra a dor de não ser capaz de apresentar memórias. Em nenhum momento lhe ocorre que pode não haver estátuas; apenas terra.