Ideias registadas em cadernos que ainda não serviram para nada (XVII)

Tinha um espírito curioso e leve. Isso significava que gostava de conhecer novas pessoas e descobri-las, envolver-se com elas. Também gostava muito de sexo. E durante umas semanas tudo corria bem. Mas com o tempo começava a sentir algum incómodo em relação à pessoa com quem estava; e esse desconforto ocorria sempre após o sexo. Era como se de repente começasse a ver aquela pessoa noutra perspectiva, a perceber-lhe limitações e defeitos. Como se o pós-sexo revelasse a essência da pessoa, na sua crueza e rugosidade. Afastava-se e algum tempo depois começava um novo relacionamento com outra pessoa. E voltava a acontecer o mesmo: a descoberta, o encanto, o prazer, o estranhamento, o desagrado. Começou a ser demasiado perturbador, pelo que de forma inconsciente foi espaçando os relacionamentos. Uma protecção. O seu espírito tornou-se menos curioso e leve. Percebia que o problema só surgia após o sexo, mas na verdade não lhe interessavam relacionamentos que excluíssem actividade sexual. Foi tornando-se mais solitária porque doía-lhe investir em relacionamentos que sabia que durariam apenas algumas semanas (até contabilizou: o desconforto surgia em média a partir da décima quinta relação sexual com determinado parceiro). Foi então que se dedicou à masturbação; percebeu que poderia ser um substituto razoável. Até que um dia, após uma sessão particularmente intensa, sentiu pela primeira vez o sentimento de estranhamento surgir; mas como era ela o seu próprio parceiro, o desagrado direcionou-se em relação a si.