Ideias registadas em cadernos e que nunca serviram para nada (VIII)

Houve um homem que sentia frequentemente vontade de chorar. Mas recusava-se a fazê-lo, porque tinha vergonha de ser visto; e mesmo que o fizesse em privado, haveria sempre o risco de ser surpreendido por alguém. Não o preocupava tanto que se soubesse que chorava, mas que fosse visto a fazê-lo; para si, seria como ser visto a masturbar-se; ou a fazer sexo com alguém. Uma insuportável quebra da sua intimidade. Vivia portanto dividido entre a necessidade de chorar e a recusa em fazê-lo, para não ser surpreendido. Só em raras ocasiões cedia a essa necessidade; e quando isso ocorria, o lugar era sempre o mesmo: trancado numa casa de banho pública, num qualquer lugar anónimo e sem relação com a sua vida. E foi precisamente numa dessas ocasiões que teve uma ideia inesperada: porque não inventar locais de choro, tal como existiam casas de banho públicas? Choradouros públicos. Porque não?