Ideias registadas em cadernos que ainda não serviram para nada (XVI)

A função dela é acompanhar pessoas que estão a morrer. Estar presente. Pegar a mão. Partilhar silêncio. Dar tempo. Ouvir. Guardar. Sabe com precisão quantas pessoas acompanhou; os seus nomes, os seus rostos, os seus cheiros, os seus olhares; e as suas palavras. Porque guarda frases ditas por cada uma dessas pessoas: as suas emoções convertidas em palavras. Uma herança que guarda e partilha. Todas as semanas visita uma escola e passa uma hora com os meninos do terceiro ano. Leva-lhes bolos, sorrisos, abraços. E as palavras que herdou. Em cada semana, as crianças são desafiadas a escrever estórias. O ponto de partida de cada uma dessas estórias é uma frase que ela escutou de alguém que morreria em breve e que transmite àqueles jovens escritores. As crianças não conhecem a origem das frases, mas apreciam o desafio de escrever; apreciam ler em voz alta os textos que inventaram; apreciam os elogios. Não sabem que ao integrar aquelas frases em estórias estão a preservar a memória de pessoas que nunca conheceram; estão a mantê-las vivas. Estão a participar na fluidez incessante do universo.