Um homem percebe que foi a única pessoa no seu grupo de amigos que teve uma mãe que não lhe cantou na infância. Começa por desvalorizar esta descoberta; mas como sempre teve a percepção de ter sido uma criança feliz, essa ausência começa a incomodá-lo. Como pode um adulto ser feliz se a mãe não lhe cantou canções de embalar? Decide que precisa de esclarecer o assunto com a mãe, sem acusação mas apenas para entender. Durante semanas, tenta questioná-la em todas as visitas que faz ao lar onde ela vive. Mas nunca tem coragem. Até que chega finalmente o dia em que lhe consegue perguntar: porque nunca me cantaste, quando era criança? A mãe surpreende-se. Depois de um longo silêncio, pergunta-lhe: não te lembras? E na sua voz idosa e cansada, ténue, frágil, canta um pedaço de uma música. Ele não consegue lembrar-se, tem a certeza de que é a primeira vez que ouve aquela canção. Ou poderá estar enganado? Responde que sim, que se lembra. A mãe recomeça e continua a cantar durante muito tempo, enquanto ele escuta e pensa que ainda bem que perguntou; ainda bem que foi a tempo de ouvir a sua mãe cantar-lhe.