Por vezes, quase nunca

A respiração é um mecanismo. O batimento regular do coração é um mecanismo. O orgasmo é um mecanismo. O arrepio da pele é um mecanismo. A digestão da comida é um mecanismo. Dormir é um mecanismo. Acordar é um mecanismo. Sonhar é um mecanismo. O corpo é feito de mecanismos; e ainda assim, por vezes a máquina consegue ser humana.

Ideias registadas em cadernos e que nunca serviram para nada

Alguém anda pela rua a fazer um questionário às pessoas que encontra. Apenas tem uma pergunta: és feliz? Quando a pessoa responde que sim, cola-lhe um pequeno autocolante com a frase "Felizes Anónimos" na roupa, em local bem visível. Assim, os felizes estão identificados e podem reconhecer-se uns aos outros.

Reimaginação





And when the questions are over? Reimagined
Com a fotógrafa Ana Gilbert
2022

Mas quase

Sinto o sol no corpo. Por vezes é quanto basta: sentir o sol no corpo. Não chega a ser felicidade, mas quase.

Cada momento é único e irrepetível, mas...

Temos de repetir os mesmos momentos muitas vezes: até que a nossa memória os recorde completos.

Ideias registadas em cadernos e que nunca serviram para nada

Um homem interessa-se pela vizinha. Observa-a à distância, dia após dia, chegando sempre à mesma conclusão: ela é feliz com o namorado. Tem a certeza disso: a vizinha é realmente uma mulher feliz. Mas continua a observá-la. Porque sabe que a felicidade se gasta, e que todas as relações se banalizam, mais tarde ou mais cedo. Definham. Morrem. Observa a vizinha porque sabe que basta aguardar.

Cemitérios

"E os sonhos foram desaparecendo, substituídos por outros. À medida que a idade avança os sonhos diminuem de ambição, de ousadia? Talvez os sonhos também envelheçam, tal como o corpo envelhece. Talvez os sonhos também tenham cancros e acabem por morrer em agonia. Será que percebemos quando os nossos sonhos morrem? Os seus restos mortais permanecem em nós, certamente; para onde iriam? Os sonhos estão presos dentro de quem os alimenta; tal como qualquer órgão vital do corpo. Ou talvez os sonhos nem sejam um órgão assim tão vital. Contudo, quando morrem permanecem dentro nós. Nossos prisioneiros. Ou seremos nós que somos prisioneiros de sonhos mortos?"

Aviões de papel
2020

Ideias registadas em cadernos e que nunca serviram para nada

Um menino deseja ter a sua primeira bicicleta. Pede aos pais, a todos os tios, aos avós, à professora da escola e ao treinador do futebol, aos padrinhos e às madrinhas e até ao pai de um amigo que é rico. No dia de natal recebe quatro bicicletas. Uma azul, uma verde, uma amarela, uma vermelha. Arruma-as todas no quarto e adormece a olhar para elas. E aí ficam durante meses: no quarto. Ninguém se lembra de ensinar o menino a andar de bicicleta; e ele tem vergonha de pedir.

Formiga presa na rotunda

"E se o tempo for circular? Como um carrossel, que anda sempre às voltas numa repetição permanente."

O osso da vida
2022

Vai-vem

Se repetir a mesma viagem muitas vezes deixarei de distinguir entre a ida e o regresso?

Humanidade

É ao fim do dia que o mar sente mais saudades de casa.

Sobrevivência

O movimento é a forma que o corpo tem de sonhar.

Portable link

Saudades

- E se as árvores pudessem escrever? Achas que mandavam cartas a quem?
- Ao mar.

Choro representativo

Aqui, todos temos motivos para chorar. Não seria mais fácil se combinássemos uma determinada hora e chorássemos juntos? E se fizéssemos turnos? Em cada momento alguém se ocupa do choro, libertando os outros dessa necessidade, formando uma cadeia contínua de choro. Porque não? Choro representativo.

Desígnio

Olha cada pessoa com quem te cruzas como olhas o mar.

Artista em digressão


Fotografia: Ana Gilbert

A irrevogabilidade do toque

O corpo é uma caixa de Pandora que pode ser aberta a qualquer momento. Basta um toque. 

A ciência é incapaz de provar que as pedras têm sentido de humor

Sísifo nunca se lembrou de perguntar à pedra: porque insistes em descer montanha abaixo, sempre que te trago até ao topo?
Talvez a resposta da pedra fosse: gosto de movimento.

A montanha certa

O que Sísifo não percebeu: a pedra não queria ficar naquela montanha. Não rolava até ao ponto de partida para o castigar; rolava porque aquela não era a sua montanha. Seria essa a forma de Sísifo se libertar do castigo imposto pelos deuses: levar a pedra para a montanha certa. 

335 » 347

Dicionário improvisado. Jornal de Leiria (online e versão papel).

Leis universais

A imaginação explica o mundo.
Tal como o toque explica o amor.

29 de Janeiro de 2026, 22h05

A tempestade foi devastadora.
Toda a região está num estado caótico, destruição visível por todo o lado.
Ainda não há energia eléctrica, nalguns sítios serão precisas semanas até que as casas voltem a ter luz.
Durante quilómetros, apenas escuridão, aldeia após aldeia.
Nenhum vestígio de iluminação.
Como se o mundo estivesse apagado.
Até que de repente, numa curva acentuada, surge à beira da estrada uma casa que tem luz nas janelas. 
Algum afortunado com gerador.
Um afortunado que aprecia o natal: daquelas pessoas que colocam iluminações natalícias no exterior da casa, linhas de luz a acompanhar as linhas da casa.
Quilómetros de escuridão, e de repente um oásis de luz.
Luz natalícia.
Talvez seja estupidez, talvez seja esperança.
A linha entre ambas sempre foi muito ténue.

Pelo contrário

"Talvez não queiramos, simplesmente, demonstrar fraqueza e vulnerabilidade, talvez não queiramos denunciar-nos; ou, pelo contrário, seremos todos boas pessoas, que se retraem para que a nossa tristeza não contagie as pessoas de quem gostamos, que não têm culpa nenhuma?"

Consultório
2011

Diálogo de cegos

"- Um jardineiro cego? Como é possível?
- As árvores não têm olhos, pois não? Portanto, estão no mesmo nível, ele e as árvores. Sem visão.
- Comunicam de outra forma.
- Sim, uma comunicação baseada na confiança. Não no olhar e nas avaliações que se fazem a partir do olhar. Mas na confiança."

Porque não paramos?
2022

Nudez



Aequilibria
(com a fotógrafa Elsa Arrais)
2025

O grito


A casa que (ainda) temos dentro
Fotografia de cena: Íris Rocha

23 de Janeiro




A casa que (ainda) temos dentro
Fotografia de cena: Cristina Vicente

A importância de pensar

"Talvez a identidade resida no que se pensa. Sou o que penso?"

Aviões de papel
2020

Talvez

"O alívio é uma forma de felicidade?"

O osso da vida
2022

É

"Queres alguém que te olhe sem decepção, sem aquele desejozinho ranhoso de te tornar melhor, não é?"

Serviços mínimos de felicidade
2016

Lição

"Se uma árvore pudesse caminhar, nunca deixaria as suas raízes para trás."

A casa que (ainda) temos dentro
2026

Ainda

Home cinema

"Talvez a realidade seja uma tela onde se projecta o que já se viveu, o que se imagina, o que se sonha."

Phantasos
2026

Resistência

"Ainda sonho memórias."

O osso da vida
2022

Bullying

"Deus brinca connosco. Goza connosco. Faz-no sofrer, oferece-nos ilusões, manda-nos autocarros para cima. Mata-nos sem aviso. Será que se ri de nós? Como será o riso de deus? Como podemos acreditar na existência de um deus se não lhe conhecemos o riso?"

Diário de quem ficou (II)
2024

Evolução

No início, havia primatas.
Daí evoluíram humanos e macacos.
Os macacos evoluíram para macacos.
Os humanos evoluíram para carneiros.
Os carneiros avançam para o matadouro. Pelo caminho, vão tirando selfies.

Por trás da cortina


Fotografia de ensaio: Cristina Vicente

Realidade incompleta

"A realidade é apenas um suporte: precisa de ser complementada. Um recipiente: precisa de ser preenchida."

Phantasos
2026

Ou mais

II

Talvez o amor
Seja feito de tempo.

Tal como de tempo são feitas algumas árvores,
Daquelas que vivem duzentos anos
Ou mais.

Será que o amor também morre de pé?

E quando acabarem as perguntas?
2022

Repórter de imagem


A casa que (ainda) temos dentro
Fotografia de ensaio: Cristina Vicente

23 de Janeiro

"Deus criou a normalidade."

Palavras fotografadas

Oito ligações portáteis

Uma.
Duas.
Três.
Quatro.
Cinco.
Seis.
Sete.
Oito.

23 de Janeiro

"No início, Deus criou o homem; e depois a mulher. E desse homem e dessa mulher nasceram todos os outros homens e mulheres que alguma vez existiram ou existirão. Todos. Há em todos essa origem comum a que não podem fugir. Essa raiz. Esse nivelamento. Somos todos iguais. Somos todos normais. Sim, é verdade que por vezes há quem pense, quem imagine, quem sonhe, quem acredite que é diferente, que é especial. Que é único. Há quem se perca, há sempre quem se perca..."

Três letras



23 de Janeiro

"Às vezes, sinto que estou à porta do mundo e não sei como entrar. Como se me fosse exigida uma senha secreta que desconheço, e sem a qual permanecerei para sempre de fora."

Três letras



23 de Janeiro

"É preciso ter imaginação para ver o futuro."

Um poema

E quando acabarem as perguntas?

Um ano de vida no teatro equivale a quatro na vida normal

Um ano de Nem Marias Nem Manéis.
Próxima apresentação: 23 de Janeiro de 2026. Bilhetes aqui.

Em ambos?

"Pai, a minha cabeça diz para ter medo mas o meu coração diz que vai correr tudo bem. Em quem acredito?"

Aisha
2025

Ilhas

"Não me assusta a inevitabilidade dos naufrágios. Tranquiliza-me a existência de ilhas; a possibilidade de refúgio; a crença na sobrevivência; a ingenuidade do optimismo."

Cores da melancolia
2023

Facto

"A loucura é apenas uma forma diferente de olhar a realidade."

A casa que (ainda) temos dentro
2026

Olá

"O tempo aproxima-se, e irá passar por nós. O que lhe diríamos, se parasse para nos escutar?"

18 » 20
2023

Stop

"Como se pode dar um abraço a alguém que não permanece parado? Como se consegue beijar quem está sempre em movimento? É preciso parar para amar."

Até as pedras precisam de raízes
2025

(...)

"Sinto-me deficiente: nasci com défice de palavras."

Gastar palavras
2005

Ver o invisível

"Quando te cruzares com alguém, imagina que essa pessoa tem consigo uma mala de viagem invisível, onde transporta as suas raízes. Quando olhares alguém procura ver essa mala. Não olhes apenas a pessoa, o seu corpo, a sua aparência; procura também a mala invisível. Não olhes apenas com o olhar."

A casa que temos dentro
2025

Não

"Pergunto-me por que motivo é tão importante que os outros percebam que somos felizes; preocupar-nos-ia tanto a perseguição da nossa própria felicidade se não houvesse ninguém interessado em a testemunhar?"

Silêncios entre nós
2008

Todas

"Comecei a perguntar-me quantas coisas são feitas porque, no momento, fazem sentido, mas depois de concretizadas parecem absurdas."

Há sempre uma dor qualquer, não é?
2021

Carrossel

"Limitamo-nos a desejar, estamos sempre prisioneiros de um desejo qualquer; e, por vezes, até vamos atrás dele, perseguimo-lo perseverantemente; mas chegamos lá e não é nada daquilo, encontramos apenas uma decepção. Ou até é aquilo que queríamos, que procurávamos; mas, no fundo, é irrelevante. Porque começamos logo a desejar outra coisa qualquer."

Chega de fado
2010

Mandamento

"O prazer é aquilo que te adere à vida. O prazer é aderência."

Nem bestas nem santas
2025

Sim

"Estou a pensar, e pensar é uma forma de movimento. O pensamento é acção, não achas?”

Geografias corporais
2022

Presença

"Duas pessoas encontram-se para um passeio. Caminham juntas, sem nunca se tocarem. Não sabem para que serve aquele passeio, mas apreciam-no."

Aequilibria
2025

Oh, yeah

"Desculpa, mas penso que as pessoas nunca falam para se conhecerem ou darem a conhecer. As pessoas falam para se distraírem, simplesmente. Para passar o tempo."

Mente-me e seremos mais felizes
2013

Labirintos

"Este és tu. Sempre às voltas. Não encontras a saída porque nem sequer percebes que precisas encontrar uma saída. Estás preso e nem sabes. Como podes abrir uma porta que não vês?"

O tempo (somos nós)
2022

Teorias

"A espera pode ser a única coisa que nos mantém vivos. Ou se calhar, quando não esperamos nada é porque já estamos mortos. Viver é esperar. Se não esperas nada, mais vale estares morta."

Libelinhas
2018

Experiências

"Será que se deixar de me olhar ao espelho conseguirei esquecer o meu rosto? Conseguirei esquecer como sou, o que sou, quem sou? Conseguirei esquecer-me?"

Serviços mínimos de felicidade
2016

Inventar palavras

"Olha-se ao espelho e não sabe o que vê. Também não sabe o que sente; quantas sensações já terá sentido para as quais não existe nome? Sensações que não podem ser captadas nem classificadas por uma palavra, e portanto talvez não possam ser realmente apreendidas ou compreendidas em toda a sua complexidade. O que fazer com o que se sente e não se consegue explicar?"

Aviões de papel
2020

Adivinhação

"O olhar é a forma mais inexacta de comunicação que existe porque o que vejo no olhar do outro é apenas aquilo que desejo ver, que quero ver; como se o olhar do outro fosse um espelho Ou uma bola de cristal."

O osso da vida
2022

Eu, a marioneta

"Como pode uma marioneta mover-se quando se libertou dos fios que a controlavam? O que o mundo queria que acreditasse é que, sem fios, eu não teria existência. O mundo queria que acreditasse que para uma marioneta a liberdade é uma inutilidade."

Cruza as pernas como uma rainha
2025

Ainda não acabaram

I

Dizes que o teu corpo é como um museu
Onde guardas a tua vida.

Porquê guardar?

E quando acabarem as perguntas?
2022

23 de Janeiro

"Tu não decides nada. Não tens escolhas. Aprende isso. Interioriza isso. Pratica isso. A individualidade é um mito. A individualidade é uma subversão. A individualidade é uma opressão. Somos todos iguais. Somos todos normais."