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Transparência

Estou na varanda a apanhar sol e, como é hábito, penso disparates. Por exemplo: uma prova da inexistência de deus é o facto de as pessoas terem a pele opaca. Uma entidade perfeita, caso existisse, teria criado os humanos com pele transparente. Como a vida seria mais fácil e enriquecedora se pudéssemos olhar para dentro dos outros, e os outros para dentro de nós; ver a realidade pura, sem subterfúgios nem máscaras nem disfarces. O sol está forte e aquece-me a careca, o pensamento seguinte é óbvio: se a pele fosse transparente, bronzearia ou não? Rio um bocadito do disparate, e rir sozinho é um prazer bom, apesar de se achar que é coisa de doidos. Quando o riso passa, distraio-me com uma vizinha que se aproxima; talvez a veja uma ou duas vezes por semana e nunca lhe descobri um sorriso. Oito anos, zero sorrisos. Porquê? Se a senhora fosse transparente, talvez conseguisse perceber o que lhe rouba o sorriso; ou para quem o guarda. A vizinha desaparece e logo a esqueço, lembro-me que podia ir buscar um livro e ler um bocado; mas distraio-me com uns pássaros que esvoaçam como se não houvesse passado ou futuro, como se nada importasse além do simples bater das asas. Será que os pássaros têm depressões? Não, é impossível; qualquer ser que tenha a capacidade de voar estará geneticamente impedido de sentir tristeza. Se tivesse o telemóvel à mão, mandava uma mensagem a uma amiga veterinária a perguntar: os pássaros sentem tristeza? E depois íamos tomar um café. Talvez lhe dissesse: o facto de haver pássaros poderá ser uma prova da existência de deus, não achas? Contudo, penso eu enquanto o sol me aquece a pele, um deus que criasse pássaros voadores e, simultaneamente, homens incapazes de voar seria um deus algo perverso; caso em que se aplicaria o verso de uma antiga música: “Penso que deus tem um sentido de humor doentio e quando eu morrer espero encontrá-lo a rir.” Em inglês soa mais bonito. E de repente apetece-me ouvir discos. Mas não posso ouvir discos e apanhar sol ao mesmo tempo. Por isso, assobio a música, baixinho. Os pássaros sentirão inveja dos humanos? Talvez gostassem de conseguir assobiar; ou de desenhar; ou de voar dentro de aviões; ou de comer entrecosto com batatas fritas e, no final, lamberem os dedos; ou de, simplesmente, ter dedos. Não sabemos. Na verdade, não sabemos nada sobre nada, como dizia um filósofo com nome de político. Os pássaros desapareceram e continua a apetecer-me ouvir discos. Não é ouvir música, é ouvir discos. O quase imperceptível sibilar da agulha no vinil lembra que nem a música pode aspirar à perfeição (apenas alcançável aos deuses); é o ruído do sibilar que torna a música humana. Ou poderá a música provar que os homens que a criam são, momentaneamente, deuses? Fazer música deve ser como voar, e eu sou incapaz de ambas as coisas. Resta-me ir lanchar, para distrair os disparates. Ah, penso de repente: se a pele fosse transparente, ver-se-ia a digestão. Afinal, talvez a opacidade seja útil. É possível que após o lanche escreva sobre tudo isto; o que será mais um disparate, porque escrever é uma forma de transparência.

(Crónica para o Jornal de Leiria)

Crescendo numa pedra (revisitada)




Crescendo numa pedra (revisitada). Exposição de fotografia de Teresa Marques dos Santos para a qual escrevi alguns textos. A partir de 22 de Março.

30 sílabas































Alguns do textos que escrevi para o projecto Sílaba Súbita ao longo dos últimos anos. Todas as fotos são da Sílaba Súbita.

Basicamente, era um caracol preguiçoso. Gostava de estar sossegado no seu canto da floresta, indiferente às pressas do mundo. Havia um pássaro seu amigo que lhe dizia: «Oh pá, tu és o único caracol que tem duas conchas. Essa em que vives e onde te proteges da chuva. E outra, que não se vê mas que é a mais rija: aquela onde te escondes do mundo.» O caracol encolhia os ombros (faz de conta, porque os caracóis não têm ombros), o pássaro encolhia os ombros (faz de conta, porque os pássaros não têm ombros) e ficavam os dois a olhar para as árvores. Depois, o pássaro cansava-se do silêncio e falava dos seus voos. Contava como era bom furar as nuvens com o bico e sentir a sua brancura húmida, como era inebriante sobrevoar o mar e sentir os salpicos das ondas nas penas, como gostava de voar na direcção do pôr-do-sol e sentir que um dia chegaria até junto dele, como sentia serenidade quando pousava no cimo do farol e contemplava aquela linha mágica onde o azul do céu se mistura com o azul do mar. E suspirava. Para afastar a fantasia, o caracol dizia uma qualquer coisa pragmática e anti-sonho, como por exemplo: «És palerma. Então não sabes que se conseguisses chegar junto ao sol, te queimavas todo? Pode parecer mais fraquinho quando está a desaparecer mas olha que mesmo assim está quente. Uns cinquenta e nove graus. Pelo menos.» A fantasia afastava-se. E antes de regressar aos seus esvoaçamentos, o pássaro dizia: «Gostava de te levar comigo, um dia. Mas o peso das tuas conchas é demasiado para mim.» Contudo, ambos sabiam que quando partilhava os seus voos e os seus sentires, o pássaro transportava o amigo consigo. Depois do pássaro partir, o caracol percorria os seus caminhos de sempre e deixava neles o seu rasto pegajoso; mas, na verdade, estava a voar; o seu espírito voava. E de tal forma esses voos eram reais que começaram a corroer as suas conchas. Foi por isso que, certo dia, deu por si a planear um voo verdadeiro. Como perceber em que momento um sonho se transforma num plano? Talvez isso seja tão difícil de determinar como perceber onde termina o azul do céu e começa o azul do mar. Mas que importa? Há dois azuis e de repente ambos se transformam apenas num, em algo que é muito mais do que uma simples soma de duas partes. 1+1=∞. «Oh pá, é magia. E não penses mais nisso.», diria o pássaro. Houve, portanto, um momento em que o sonho passou a plano. E, na segurança da sua concha, o caracol começou a preparar uma viagem de descoberta. Um voo. Uma caminhada, que é aquilo que os caracóis fazem quando precisam sair das suas conchas e sentir o mundo. Planeou que caminharia até ao farol, porque de tudo o que o pássaro lhe contava era o farol o que mais o fascinava. Não diria nada a ninguém, limitar-se-ia a ir (talvez amanhã, porque basicamente era preguiçoso. Mas iria…); e após uma longa e difícil jornada até ao topo do farol, contemplaria a imensidão do horizonte e talvez conseguisse sentir-se verdadeiramente parte do mundo; nesse momento, as suas conchas ficariam mais leves, tão leves que nem as sentiria. E poderia aguardar a chegada do pássaro, para o surpreender: «Que andas a fazer por aqui?», diria num tom sério. E depois ririam, juntos. Leves.

(Crónica para Jornal de Leiria)

Pelo menos numa coisa concordamos

«Se agora pudesses fugir, para onde irias?»
«Porque haveria de querer fugir?»
«Todos queremos fugir. Porque seria diferente contigo?»
«Tu queres fugir?»
«Claro que sim. Por vezes. Muitas vezes.»
«E porque não o fazes?»
«Porque para fugir é preciso ter coragem.»
«É?»
«Claro que sim. A ideia de que a fuga é a opção dos cobardes parece-me bastante parva. Já pensaste nisso? A maior parte das vezes, a alternativa mais fácil é precisamente ficar. A permanência é mais fácil, a continuidade é mais fácil. Uma fuga é uma quebra da ordem, um desafio à ordem. Exige coragem, não achas?»
«Não sei. Nunca tinha pensado nisso.»
«Não? Nunca pensas em fugir?»
«Queres que te diga a verdade? Todos os dias penso em fugir.» 
«De quê?»
«Nem sei. É preciso fugir de alguma coisa?»
«Geralmente, fugimos porque algo nos persegue. E a maior parte das vezes esse algo somos nós próprios. Somos nós que nos perseguimos, que forçamos a nossa própria fuga.»
«Isso parece-me demasiado filosófico. E dizem que a filosofia é a ciência do saber pensar mas cá para mim é a ciência do conseguir complicar. É verdade que não reflecti sobre isto mas parece-me simples. A necessidade de fuga pode ser um mero desejo de estar noutro lado, não? Quero estar ali e não aqui, apenas isso. E provavelmente quando chegar ali percebo que já não quero estar lá.»
«É assim que se passa contigo?»
«Por vezes, é. Ou melhor, acho que é o que se passa sempre. Mas já me habituei a não reparar, a fingir que não percebo.»
«A tua vida é um fingimento?»
«Não poupas nas perguntas, tu.»
«Desculpa.»
«Não faz mal.»
«E então? É?»
«Gosto de ti. Quero impressionar-te, quero seduzir-te, quero agradar-te; porque gostaria que também gostasses de mim. Parece simples, não achas? E no fundo podemos reduzir tudo a isso: à necessidade de ser gostado. Queremos que gostem de nós. Apenas isso. E se sentimos que não gostam, tendemos a fingir ser algo que não somos, algo que imaginamos que os outros possam apreciar em nós. Fingimos porque precisamos.»
«Que perspectiva sombria da vida.»
«E não será assim com toda a gente?»
«Preocupas-te com o que os outros pensam de ti?»
«Por vezes, claro que sim. Mas também me preocupo com o que penso de mim. No fundo, a opinião que temos de nós próprios acaba por determinar tudo.»
«E que opinião tens de ti próprio?»
«Geralmente, a opinião que tenho de mim é muito condicionada pela opinião que os outros têm de mim; como se me precisasse de olhar ao espelho, sabes? Se não te olhares ao espelho durante um mês, acabas por começar a esquecer o aspecto do teu rosto. Podes até correr o risco de não te reconheceres de imediato. Não acontece isso contigo?»
«Nem por isso.»
«E se não vês o teu reflexo nos outros, também acabas por perder um pouco a noção daquilo que és. Se ninguém te diz que tem saudades tuas, por exemplo; isso reflecte algo, penso eu. Reflecte que ninguém gosta de ti o suficiente para sentir saudades tuas, que ninguém sente verdadeiramente a tua ausência. Que não fazes falta.»
«E não poderá apenas significar que as pessoas não querem ou não conseguem dizer que têm saudades, apesar de as sentirem? Há muita gente que prefere não o fazer, que julga que dizer que tem saudades é uma forma de pedir atenção, de se intrometer na vida no outro. Não dizer que tem saudades pode ser um acto de respeito pelo outro. De respeito pelo seu espaço e pelo seu tempo; e pelos seus sentires, claro.»
«É verdade. Mas se toda a gente agir desse modo, ninguém verbaliza o que sente. E a partir de certo momento, todos seríamos forçados a intuir os sentimentos dos outros. Porque se não o diz, não podemos ter a certeza. Resta-nos adivinhar.»
«Mas não é a palavra que confere certeza seja ao que for. Não é por ser dito, por se transformar em palavras, que um sentimento ganha consistência.»
«Pois não. Mas por outro lado, se o outro não diz o que sente, como poderás saber? Vais falar-me de olhares, de gestos, de atitudes? Claro que um olhar pode dizer mais que uma biblioteca cheia de palavras. Mas o ideal, parece-me, é que o gesto coincida com a palavra. Que o gesto seja demonstrado mas também dito.»
«Não é o facto de ser dito que o torna mais real, mais concreto. Um sentimento está muito além das palavras que o possam descrever. Aliás, as palavras são apenas uma convenção. Sentes de determinada forma e é conveniente que dês uma designação a esse sentimento; e então atribuis-lhe uma palavra pré-definida, que consensualmente descreve aquilo que sentes. No fundo, a mania de reduzir tudo a palavras é uma forma de preguiça.»
«Achas mesmo?»
«Diz-me, o que preferes: que diga que te amo ou que te beije de uma forma que te mostre o quanto te amo?»
«Tu não me amas.»
«Mas se amasse? E já agora, como sabes que não te amo? Porque não te disse? Para ti, o amor apenas existe a partir do momento em que se anuncia formalmente?»
«Achas que isso pode vir a acontecer?»
«O quê?»
«Que venhas a amar-me.»
«Primeiro teríamos que definir o que significa amar, não é? Vês como as palavras apenas complicam as coisas?»
«Estás a fugir à pergunta.»
«E não posso fugir às perguntas que quiser? Diz-me tu, então: achas possível que eu venha a amar-te? Seja lá o que signifique isso de amar.»
«Parece-te normal estarmos para aqui a falar de amor? Quando, no fundo, nem meia dúzia de vezes falámos?»
«Também foges às perguntas, afinal.»
«Se calhar é demasiado cedo para fazer certas perguntas.»
«O problema nunca está nas perguntas mas nas respostas. E não devemos fazer as perguntas se não estivermos preparados para as respostas.»
«És tão sentenciosa.»
«Estás preparado para a resposta à tua pergunta? E se disser que te amo? Estás preparado para isso?»
«Estás a brincar com as palavras.»
«Tu é que és defensor do uso da palavra. E se as palavras permitem que se brinque com elas, é mau sinal. Já com os sentimentos, é mais complicado brincar.»
«Também estás a brincar com os meus sentimentos, de certa forma.»
«Desculpa, então. Não, não te amo. Não faço ideia se alguma vez amarei. Nem sei, sequer, se quero amar-te.»
«Se queres? Mas então o amor é um acto de decisão? De opção?»
«Tens razão. Agora, expressei-me mal. Se calhar, estou defensiva.»
«Porquê?»
«Não sei. No fundo, é como dizes. É um pouco disparatado estarmos aqui a falar de amor quando mal nos conhecemos.»
«Mas o facto de o estarmos a fazer talvez seja revelador de algo, não?»
«De que somos parvos, talvez.»
«Porque estás defensiva?»
«Talvez porque o amor me assuste. O amor é avassalador, não se controla, não se liga nem desliga. Ou existe ou não existe, ponto final. E, por isso, assusta-me. Porque me vulnerabiliza completamente. O amor é aquilo que, simultaneamente, mais nos fortalece e enfraquece, já reparaste? O que queria dizer era que não sei se neste momento da minha vida me quero vulnerabilizar.»
«Tens medo do que sentes, do que podes sentir?»
«Claro. Agrada-te a ideia de que possa apaixonar-me por ti? Excita-te?»
«Que disseste há pouco? Se não estiveres preparada para as respostas, não faças as perguntas.»
«Agrada-te?»
«Tu agradas-me.»
«Achas que esta conversa vai conduzir a algum lado?»
«Todas as conversas conduzem a algum lado. E gosto do destino desta.»
«Não achas disparatado falar de futuro quando o presente deveria merecer toda a nossa atenção? Quando o presente é feliz.»
«É? Estás feliz?»
«Claro. Falar contigo faz-me feliz.»
«Porquê?»
«Racionalizar a felicidade é algo que não me interessa. Uma perda de tempo, acho eu.»
«Sim, talvez seja. Afinal, o problema da felicidade é o pós-felicidade, não? Estamos felizes e parece que o mundo parou, nada mais interessa; somos o mundo. Mas de repente, a felicidade cessa. E pronto. Cessa, simplesmente; ponto final. E os momentos que se seguem a essa constatação são desoladores. Como se tivéssemos acabado de perder tudo, como se fossemos forçados a recomeçar sempre e sempre; como se, no fundo, tudo o que vivemos acabe por ser quase irrelevante.»
«Lá está, essa é mais uma forma de misturar presente e futuro. Quando o que importa, acho eu, é desligar o presente do passado e do futuro. Interessa o momento, em si.»
«Mas o momento apenas pode ser verdadeiramente valorizado quando enquadrado numa continuidade, numa linha evolutiva. Cada momento, por si, isolado, vale pouco. O que o valoriza e potencia, o que o intensifica, é o enquadramento. Este momento, por exemplo. É um momento feliz, em si próprio. Mas o que o torna verdadeiramente especial é tudo o que conduziu até aqui e tudo o que seguirá. O cadenciar de momentos, a sequência.»
«Como se a vida fosse um dominó. Conheço a perspectiva. As peças que se tocam, que estão interligadas, que são interdependentes; que apenas cumprem a sua função quando conjugadas com as outras peças, etc., etc., etc. Já reparaste que é uma perspectiva que menoriza o valor individual de cada peça? Que insinua que importa mais o conjunto do que a individualidade. Uma espécie de comunismo. E a verdade é que não sei se concordo muito com isso. Percebo mas não concordo.»
«Esta conversa faz-te feliz, mesmo que não tenha qualquer continuidade? Mesmo que nunca mais nos vejamos? A possibilidade que daqui uns dias nos voltemos a encontrar não contribui em nada para que este momento, o aqui e agora, seja mais feliz?»
«Será que concordamos em alguma coisa?»
«Sim. Pelo menos numa coisa concordamos. Nisto.»
E beija-a.

Obrigado...



"«Serviços mínimos de felicidade», de Paulo Kellerman (Leiria, 1974) é um hino à angústia de uma mulher que sofre o acidente maior: o da própria filha que jaz inconsciente numa cama de hospital. Sentimos o seu monólogo interior com a força de um terramoto que conduz à ruína. Quando nos achamos sem abrigos o que resta, senão a honestidade que nos devemos. Eis o que mais me comoveu na obra, a autenticidade da voz desta mãe, agora sem a força de o ser, que não se poupa. Exaustiva, minuciosa e massacrante, mas também leve, distraída, errante e, por isso mesmo, redentora. A filha é sempre mencionada como P. . P de palavra impronunciável na dor indescritível de repetir o nome daquela que talvez não torne a abraçar. Lemos a noite mais longa. Não são as horas que custam a passar, até à certeza do que acontecerá ao seu amor maior. São os segundos. E enquanto os sente, de forma insuportável, numa dormência do corpo e dos sentimentos, entretém-se a «usar o pensamento para fugir» (pág. 31), projectando a sua vida numa tela privada, assistindo ao desenrolar da película da sua existência, na mais absoluta solidão. Conhecemos pormenores desde o momento decisivo da desgraça que estilhaçou as três vidas, passando pela construção da vida em comum com Afonso, o marido, pai de P., a quem mal conhece, até à trivialidade de um vestido bonito numa mulher sedutora, mais o encanto de algumas das paisagens que a habitam.

Qualquer momento é apropriado ao recomeço, inclusive, quando nos parecer que já morremos, muitas vezes, embora ainda não o tivéssemos constatado. Esta mulher fala-nos das suas várias mortes, consciencializando-se de cada uma delas, à medida que a atingem, implacáveis. Falta-nos o ar na maior parte das linhas.

É curioso que apenas Afonso, invisível nos afectos, seja identificado. Apenas o pai-condutor-responsável pode ser gritado, acusado, julgado. Identificar o desamor nos outros é mais fácil do que detectá-lo ao espelho. Eis que esta conversa, consigo mesma, a obrigará ao confronto com o que é, com o que julgava ser e lhe aparece agora desprovido de sentido, desfazendo, neste combate, todas as ilusões de poder ser alguma coisa através de terceiros.

Mais do que encontrar respostas para todas as questões que a narradora se coloca, importa repensar. Colocarmo-nos no seu lugar sem nome que é o de todos nós.

Se chegarmos àquele momento em que tudo muda, irremediavelmente, aquele que poderá ser o derradeiro, andámos a escolher o que desejávamos? O que podia ela ter feito diferente para não assassinar os sonhos da filha com pessimismo, realismo e afins? O que podia ela ter feito diferente para não ter desistido dos seus próprios sonhos? Sendo tarde para a filha, ainda o é para si?

Eis que o livro chega ao fim. Nos nossos olhos, silêncio, todavia, a sua música continua a tocar para nós, como nos auscultadores de P. logo após o desastre.

«Quem disse que terá de existir uma relação directa entre falar e amar?» (Pág. 62)

Talvez não haja. Sou parca em certezas. Tenho esta: este romance, que escava a esperança sob o desespero, é um acto de amor.

Obrigada, Paulo.

Felicidade














12.11.2016. Livraria Arquivo. 
Apresentação de Serviços Mínimos de Felicidade. Por VEIA – Vertente Exploratória em Intervenção Artística. 
Fotos de Gil Álvaro de Lemos.