Ebook # 03: Silêncios Ilustrados


Enquanto não chega o novo livro, está pronto mais um ebook onde se procura conciliar texto e imagem. Trata-se de um conjunto de contos anteriormente publicados no livro Silêncios Entre Nós e a partir dos quais Licínio Florêncio criou um conjunto de ilustrações originais; o resultado chama-se Silêncios Ilustrados e está disponível para consulta ou download gratuito aqui.

Ebook # 03

Mais uma estória do livro Silêncios Entre Nós ilustrada por Licínio Florêncio. Pode ser lida aqui e aqui . O ebook estará disponível brevemente.

Na contracapa, diz assim:

Chega de Fado, o quarto volume de contos de Paulo Kellerman editado pela Deriva, representa a consolidação do percurso discreto mas sólido, e em diversos aspectos ímpar, que este escritor tem vindo a desenvolver. Explorando ao máximo as potencialidades da narrativa breve e marcado por uma construção original, Chega de Fado é um livro habitado por vinte personagens que, unidas em duplas, compõem os dez “capítulos” que o formam; em cada um destes “capítulos” (verdadeiros esquissos de potenciais romances), as estórias vão-se sucedendo sob diversas formas narrativas (contos, micro-narrativas, diálogos dramáticos) e evoluindo ou desevoluindo até à inevitável, e por vezes inconsequente, confrontação final.
Desta multiplicidade de estórias, formatos e vozes nasce uma radiografia desapaixonada e incisiva do quotidiano, um retrato cru dos gestos e dos silêncios, das banalidades e das frustrações, das esperanças e dos secretismos que atravessam as relações e caracterizam a precariedade e imprevisibilidade dos comportamentos e sentimentos de todos nós.
Numa escrita elegante e sensível, Paulo Kellerman compõe ambientes urbanos e impessoais perpassados pela omnipresença da incomunicação e da melancolia, ambientes sombrios povoados por seres ávidos de intimidade e compreensão mas incapazes de alcançar uma qualquer forma de felicidade, mesmo que transitória. Ambientes saturados de pessimismo e desânimo, de apatia e solidão, de impotência, de desconforto existencial; até que alguém se insurge e grita chega de repetição e passividade e monotonia, chega de lamúria; chega de fado.

Dão-se livros # 06

Agradeço a generosa participação de todos; o sorteio decidiu que o livro fosse para a Vera. Obrigado e até Fevereiro.

Chega de Fado


Dão-se livros # 06

O próximo livro, a publicar pela Deriva em Fevereiro, chamar-se-á “Chega de Fado”; gostaria de receber opiniões sobre este título. Entre quem se der ao trabalho (até 20 de Janeiro), será sorteado um livro.

Ebook # 03


Mais uma estória do livro Silêncios Entre Nós ilustrada pelo Licínio.

Ebook # 03


Um destes dias haverá novo ebook, composto por ilustrações originais criadas por Licínio Florêncio a partir de estórias publicadas no livro Silêncios Entre Nós. Este é um dos exemplos, inspirado nesta estória.

Dão-se livros # 05

Desafio encerrado e livro atribuído à Conceição.
Obrigado a todos pela participação.

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Saber mais.

Esboço # 78

ELA (irritada): Mas para que se reformou tão cedo? (Encolho os ombros, desinteressado.) Como ocupa tanto tempo livre?
EU (distraído): Anda por aí. (Espreito o telemóvel, à espera de um toque; uma fuga.) Pelas lojas.
ELA (indignada): Pelas lojas? Que lojas?
EU (ainda a olhar para o telemóvel): De roupa. (Estou um pouco surpreendido com a sua animosidade; e envergonhado, também.) Basicamente, passa os dias a comprar roupa.
ELA (incrédula): Mas que faz ela com tanta roupa?
EU (num tom que pretendo indiferente): Usa-a.
ELA (impaciente): Usa-a? Para quê? Para desfilar pelas lojas de roupa?
EU (sentindo-me miserável por a estar a denunciar): Não. Para se olhar ao espelho. (Olho-a, com uma ponta de desafio.) Para se ver. Para se sentir apreciada.
(Permanecemos em silêncio até a nossa mãe regressar, muito tempo mais tarde.)

Esboço # 77

(Estão há algum tempo a conversar entre si, quase esquecidos da minha presença. Vou comendo sem grande apetite, tentando disfarçar o enfado; por vezes, olho para as mesas em redor, em busca de algo que me distraia.)
EU (falando inesperadamente, surpreendendo-me mais a mim próprio do que a eles): Lembram-se quando eu era garoto e me levavam ao parque? (Olham-me, um pouco contrariados.) Andava por ali, nos balancés e escorregas, a imitar os outros garotos, perguntando-me quando é que começaria a sentir-me excitado e feliz. (Hesito e eles entreolham-se, curiosos.) E vocês sempre à minha volta, lembram-se? A fotografar, sempre a fotografar-me; mas cada um com a sua máquina, e isso espantava-me um pouco; no princípio até me sentia especial por causa disso. Mas depois comecei a estranhar, a perguntar para que serviriam tantas fotografias. Fotografias atrás de fotografias, centenas delas. (Escutam-me com apreensão, desagradados.) Nunca conversavam comigo, em vez disso tiravam-me fotografias e depois comparavam-nas e discutiam-nas, conversavam longamente sobre elas, enquanto eu continuava nos balancés, à espera que me chamassem. Como se as malditas fotografias falassem por mim, representando-me. Lembram-se? (O meu pai é o primeiro a desviar o olhar, o que me surpreende; e agrada.) Nunca me mostravam as fotos, nunca me pediam opinião; as minhas fotos eram um assunto exclusivamente vosso. (Sorrio, tentando que esse sorriso os magoe.) Lembram-se? Falavam sobre as minhas fotos e sobre mim, fartavam-se de falar sobre mim. Mas nunca falavam comigo. Nunca.
(Pego o garfo e levo um pedaço de batata à boca; mastigo devagarinho, reparando como o restaurante está silencioso.)

Esboço # 76

(Eles saem, um pouco apressados e sorridentes, depois de repetirem uma vez mais as despedidas; ficamos sós, em silêncio, ouvindo o elevador descer.)
ELA (num tom triste): Precisas agir sempre assim?
EU (surpreendido): Assim, como?
ELA (olhando-me com agressividade): Como acabaste de agir, agora mesmo.
EU (hesitante): Desculpa, não percebo a que te referes.
ELA (simultaneamente incrédula e desgostosa): Não percebes? Queres que eu acredite que não percebes como magoas os teus pais, agindo como ages?
(Olho-a, espantado; e ela percebe a genuidade do meu espanto, da minha surpresa.)
ELA (num tom mais comedido): Não tens consciência do modo ignóbil como tratas os teus pais? A forma arrogante e presunçosa e impaciente como te diriges a eles, como os escutas, como os olhas? (Aproxima-se, surpreendida com o meu espanto.) Como se a sua simples presença te incomodasse, te irritasse.
(Olho-a, verdadeiramente atónito; forçando-me a acreditar que está a exagerar; tentando pensar em algo para dizer, uma palavra qualquer que justifique, desculpe, atenue. Olho-a, assustado e confuso, curioso em ouvir o que terei a dizer. Mas é ela que fala.)
ELA (compreensiva, quase conciliadora): Estás chocado. Nunca pensaste que fosses tão transparente, pois não? (Olha-me durante mais um segundo e depois afasta-se na direcção da cozinha; muito tempo depois, ouço-a assobiar.)

Dão-se livros # 05

E como estamos em época de oferecer presentes e tal, desta vez nem há desafio. A quem interessar receber um livro, basta enviar um email a dizer olá ou quero um livro ou o que calhar; entre todos os emails recebidos até 21 de Dezembro será sorteado o vencedor do livro.

Uma espécie de western: fascículo # 21

Estou, então, a metamorfosear-me em espírito; e tudo o que me apetece pensar é: não dói nada. Resta-me partir por aí, em busca de outras fantasmas; e distrair a solidão.
The end.

Uma espécie de western: fascículo # 20

Sinto o inesperado e estranho calor de uma expiração acariciar-me o rosto, adivinho a presença de alguém junto de mim, muito próxima, tão próxima quanto possível. Ainda me pergunto se deverei abrir os olhos uma última vez mas opto por não o fazer porque sei que não fará qualquer diferença, prefiro limitar-me a sentir a respiração que me acompanha, a saborear o conforto ilusório e inconsequente de não morrer só.
Talvez seja apenas um qualquer animal selvagem que se prepara para me devorar, aproximando-se porque talvez já me julgue morto; ou será que estou efectivamente morto há algum tempo e ainda não o percebi, aceitei? Afinal, quantos anos demora um homem a morrer? Poderá, por outro lado, ser o Xerife, que finalmente me alcançou, que se prepara para me pontapear suavemente (no ombro, numa perna?), até ter a certeza de que estou morto. (Ou, penso vagamente – sorrindo –, poderá ser o difuso e omnipresente encenador?)
Prefiro, contudo, acreditar que quem está junto de mim é o cavalo; sim, é possível que tenha regressado, para se despedir, para me acompanhar durante o último momento, num gesto fútil de solidariedade animal, de cumplicidade entre seres que pisaram o mesmo chão e respiraram o mesmo oxigénio, seres que compreendem e aceitam a irrelevância das suas existências. (Gostava de lhe ter dado um nome. Mas não faria diferença, afinal.)
Depois, deixo de sentir a respiração tocar-me o rosto; mas sei que está lá, ainda: eu é que não consigo, nem quero, continuar a senti-la. A sentir.

Uma espécie de western: fascículo # 19

Mas mudo de ideias, por nenhum motivo; e abro-os, devagarinho. Vejo uma estrela a piscar, envolvida pelo cinzento-escuro do céu; uma única estrela, ocupando toda a imensidão do horizonte, suficiente para iluminar a vastidão do universo. E decido que será ela a guiar-me, que será o seu ténue brilho a conduzir-me e orientar-me entre o negrume que se abate lentamente sobre mim, que reclama o meu regresso.
Fecho os olhos porque sei que a estrela continuará lá, sei que a escuridão do universo se confundirá imperceptivelmente com a escuridão do meu olhar, da minha vida; sei que tudo é (foi) escuridão, e que estou apenas a regressar.
Penso em tudo o que fica para trás, em tudo o que me motivou e distraiu, em tudo o que me entreteve; revivo memórias e prazeres e sensações. Evoco os ingénuos mantras que pretendi que orientassem a minha existência, que me esforcei por cumprir: viver plenamente, com paixão e entrega, com fervor e voracidade, aproveitar e saborear e dissecar cada momento, cada segundo, cada oportunidade. E sorrio, incrédulo com a minha simplicidade, com a minha arrogância. Pergunto-me: para quê, afinal?
Desisto de procurar uma resposta pouco depois; sei, agora, que não existe; que se existir, não altera nada. Mas persisto em sorrir, não sei porquê, para quê; sorrio, simplesmente. E suponho que ficarei aqui para sempre, talvez à espera que o deserto se transforme novamente em floresta; assistindo à lenta imutabilidade da natureza. Tornando-me parte do cenário.
(Reparo que tenho sorrido algumas vezes nestas últimas horas; vários sorrisos, genuínos e pacificadores, serenos; felizes. Sim, suponho que – apesar de tudo – esteja a ser um dia bom.)

Uma espécie de western: fascículo # 18

Talvez a vida seja apenas o percurso que cada um tem de fazer em busca do lugar onde deve morrer. Fico a pensar nisto durante uns instantes (as dores desapareceram, restando apenas a incapacidade de as sentir; e, por isso, posso distrair-me assim, ingenuamente, pensando nisto e naquilo, em nada, em tudo); depois, digo a mim próprio (voz baixinha, envergonhada): mas que pensamento mais disparatado.
Soube-me bem, falar; e penso em mais qualquer coisa que possa dizer a mim próprio, ouvir de mim próprio. Penso porque é tudo o que me resta, agora: pensar. E olho o céu, assistindo à lenta transformação do azul em cinzento; não há nuvens, não há vento; nada que distraia ou adie, nada que denuncie vida, nada que ofereça esperança. Apenas o silêncio do mundo mesclando-se imperceptivelmente com o silêncio do meu próprio corpo, engolindo-o e dissolvendo-o.
Depois, surge uma pequena nuvem, minúscula – talvez imaginada; e enquanto a olho, enquanto a imagino, regressa o pensamento de há pouco, teimoso e persistente, insidioso: procurar o local adequado para morrer. E por um momento, gostava – o último desejo do condenado – que estivesse aqui alguém que me pudesse explicar (pacientemente, de preferência; sem pressa nem sobranceria) que não importa nada o local onde se morre, do mesmo modo que não importa nada o local onde se vive; aqui ou ali ou acolá: apenas um cenário. Alguém que me explicasse (que me recordasse): talvez a natureza seja apenas um cenário e os homens meros actores e figurantes, que correm e riem e sofrem e sonham e fodem e acreditam e adiam e morrem. Alguém que me sorrisse, quando eu perguntasse: mas, se assim for, quem é o dramaturgo, o encenador? Quem nos escreve, quem nos ensaia?
Tento erguer-me mas não consigo, o corpo deixou de obedecer; então, desisto e deixo-me simplesmente deslizar pela rocha, deito-me na terra rija, fecho os olhos; pergunto-me se os voltarei a abrir, se quero voltar a abri-los.
Acho que não.

Uma espécie de western: fascículo # 17

O cavalo já se refrescou, agora passeia nervosamente, mantendo-se afastado de mim, ignorando-me; em silêncio absoluto, como se desejasse que não desse por ele, que o esquecesse. E sei o que isto significa: mas não me revolto. Permito que fuja, que me abandone.
Quando, um pouco mais tarde, o procuro com o olhar e não encontro, sou incapaz de me sentir mais só que antes. E tento não ter pena de mim, não pensar – demasiado – em arrependimento. A noite cai, transmitindo-me tranquilidade; e talvez seja melhor assim: morrer devagarinho, sem medo nem ansiedade, sentindo o silêncio e escutando a solidão. Sem testemunhas.
Sim, encontrei um bom lugar para morrer; e pergunto-me se alguém terá escolhido este refúgio para morrer, antes; se alguém o escolherá no futuro. Ou se terei encontrado, finalmente, o meu lugar no mundo.

Uma espécie de western: fascículo # 16

Sim, talvez não seja um abutre; e anjo não será: que faria ele por aqui? Penso, então, em fantasmas, nos fantasmas das velhas lendas. Vou sentindo o sangue fugir de mim, irredutível, enquanto penso como a pradaria estará certamente repleta de fantasmas índios, vagueando sem objectivo nem destino, sem pressa, enclausurados na sua imortalidade; e quase me apetece ceder à tentação, ao desvario, de abrir bem os olhos e procurá-los por entre a cintilação da luz, por entre as palpitações do silêncio. Nem que fossem aqueles temidos espíritos que pertenceram, um dia, a homens cruéis e, agora, ocupam a sua eternidade percorrendo campos e planícies, ou montanhas e pradarias, em busca de pessoas que possam perseguir e amaldiçoar, tornando-as consequentemente homens cruéis e, após a morte, espíritos temidos, numa espécie de imparável contágio malévolo.
Pergunto-me quantas vezes já me terei cruzado com um destes espíritos; pergunto-me, também, quanto tempo faltará para me tornar um deles.

Uma espécie de western: fascículo # 15

Quando chegamos junto ao riacho, paramos; permaneço durante alguns instantes a olhar o pedaço de água cristalina que desliza preguiçosamente entre tufos de ervas selvagens e rochas de colorações misteriosas, como se esperasse autorização de alguém, como se já nem o privilégio de pisar terra firme me fosse concedido; por fim, quando admito que afinal estou apenas a ponderar se valerá a pena ou não, forço-me a descer do cavalo com lentidão; sento-me numa rocha, aperto a ferida com a mão. Olho o charco que as gotas de sangue vão formando lentamente, segundo após segundo, reparo como o vermelho é menos vívido do que algumas horas atrás.
Um abutre passa, lá por cima; o suave ruído provocado pelo seu voo parece-me sinistro, malévolo; felizmente, já não há nada a temer, esgotei o medo; e por isso não o olho, não me protejo. De qualquer modo, talvez nem seja um abutre. Não importa; até poderia ser um anjo: que se foda.

Banda sonora


Foi finalmente editado Concret Exploratoire, composto pelo meu amigo Nelson para outros fins mas que, digo eu, serve bem como banda sonora aqui da Gaveta.
Ouvir aqui, por favor. (Saudades das aventuras radiofónicas. Obrigado, Nelson.)

Uma espécie de western: fascículo # 14

Irei certamente morrer por aqui, caído ao chão e rodeado de nada – ou melhor: rodeado de vazio, o que sempre é preferível a nada; e permanecerei de boca aberta e olhos esbugalhados para sempre, assistindo à lenta dissolução do meu corpo, do meu espírito, da memória da minha existência; virá o vento e agitará indolentemente os meus cabelos, hora após hora após hora: até ao dia em que eles se comecem a desprender da minha cabeça e voem pela pradaria, acompanhados pelos ecos da noite, pelas sombras das nuvens. Será tudo o que restará de mim: os meus cabelos esvoaçando por aí.
Olho em redor, curioso e atento: quantos fragmentos de corpos mortos e esquecidos divagarão por aqui, à minha volta?

Uma espécie de western: fascículo # 13

O eco dos tiros acabou de se dissipar no deserto quando o cavalo, finalmente, ergue a cabeça e começa a caminhar na minha direcção; fico a aguardar, sem impaciência nem pressa, apreciando a sua elegância. Depois, ergo-me e subo para o seu dorso, cobrindo o seu pêlo com o meu sangue; aguarda com paciência o meu sinal, perfeitamente imóvel, silencioso; solidário. Por fim, avança. Avançamos: pelo deserto, entre árvores imaginadas.
Há uma palavra que, recorrentemente, volta a preencher-me os pensamentos, parasitando-os; e vou pensando nela, obsessivamente, enquanto perco sangue, gota após gota: arrependimento. Por vezes, espreito por cima do ombro e vejo como o meu sangue se tem espalhado pelo deserto; reparo, com surpresa – e também com orgulho, talvez –, como é vermelho e brilhante, vívido. Depois, volto a olhar em frente: avançando, passo após passo. E pensando, por vezes, em arrependimento.