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Libelinhas







Uma produção d' O Nariz
27 de Outubro na Marinha Grande (Casa da Cultura Teatro Stephens).
Fotos de Carla de Sousa.

Libelinhas

Cabides

Quando chega a casa faz sempre o mesmo: segue directamente para o quarto e despe-se. É com um cuidado delicado, quase terno, que arruma o vestido que usara nesse dia num cabide; depois, olha-o durante um segundo, por vezes faz-lhe uma leve carícia. Tem consciência de que esse comportamento é um pouco estranho, talvez até um pouco louco, mas não se incomoda. Os seus vestidos são mais do que roupa, são mais do que parte da sua identidade, são mais do que uma extensão de si; são como uma parte do seu corpo, são uma segunda pele; ou primeira pele? Talvez seja por isso que os cuida com tanta dedicação, quase com uma pequena ponta de obsessão. No fundo, teme que se gastem; teme que percam vigor, beleza, energia, atractividade, deslumbre; que envelheçam. É por isso que os cuida de forma tão extrema: para os poupar. Pensa nisto, por vezes; e sente algum embaraço. Mas não existe mais ninguém na sua mente, aí é livre de pensar tudo o que desejar. E por isso continua a pensar embaraços, sentindo-se livre. (Possível definição de felicidade: sentir com outra pessoa o mesmo nível de liberdade que se tem na intimidade da própria mente, aquela liberdade total que apenas parece possível no interior de cada um.) Quando chega a casa faz sempre o mesmo: segue directamente para o quarto e despe-se. Mas depois de arrumar o vestido, pode optar por destinos diferentes. Um deles é deitar-se na cama, nua; e sentir na pele o ar fresco, o toque do lençol, a carícia dos seus dedos. E deixar o espírito deambular. Deixar o espírito sonhar. (Sonhar é melhor do que viver?) É isso que faz hoje. Despe-se, arruma o vestido, deita-se na sua cama, fecha os olhos e sonha. Dentro de momentos irá regressar à vida, ao seu quotidiano, às infinitas acções concretas que compõem os dias. Mas por enquanto, sonha. E enquanto sonha, sente a sua própria pele. (Sonhar e sentir: não é mais ou menos igual?) É então que um pensamento imprevisto surge em forma de pergunta e a inquieta, a surpreende, a desassossega: quais serão os sonhos da minha pele? É um pensamento desconcertante e que, de repente, alastra em direcções inesperadas. Se o espírito sonha, também a pele deverá ter os seus próprios sonhos. Todo o corpo deverá ter os seus próprios sonhos. Os dedos. A boca. Os olhos. Os seios. O coração. Todo o corpo a sonhar, infinitos sonhos a cruzarem-se por todo o lado. Como sangue. Um arrepio percorre o seu corpo, o seu espírito; estremece, agita-se. Abre os olhos como se algo dentro de si quisesse fugir desesperadamente por eles; e encara o tecto do quarto em busca de uma fuga. Uma pergunta que incomoda: será que tenho andado a impedir que o meu corpo sonhe? Levanta-se, a possibilidade de fuga não está no tecto mas na porta. Caminha, sabe que o movimento é sempre uma salvação. E é quando vai a passar pelo vestido que antes arrumara, cuidadosamente alinhado ao lado de dezenas de outros vestidos, que pensa: será que tenho andado a poupar o corpo, tal como poupo os vestidos para que não se gastem? Será que tenho andado a poupar o coração? Temendo que perca vigor, beleza, energia, atractividade, deslumbre? Que envelheça? Será que arrumei o meu coração num cabide para o poupar, para que não se gaste?

Crónica n.º 67 para o Jornal de Leiria

Setembro


Calendário Improviso.
Doze textos para doze fotos de Sílvia Bernardino.

Agosto


Calendário Improviso.
Doze textos para doze fotos de Sílvia Bernardino.

Espelhos sem luz

Como um conto pode ser o ponto de partida para uma análise surpreendente...
Obrigado, Ana Gilbert.

Um olhar

Por vezes, basta um olhar para viajar no tempo. Por exemplo: olho-te e instantaneamente regresso a 2013, àquele fim de tarde em que quiseste que o nosso passeio de bicicleta pelo campo seguisse um trajecto mais longo do que o habitual e escolhemos um caminho que, afinal, nunca mais acabava, ambos cansados e arrependidos porque cinco quilómetros é uma coisa e quinze é outra, forçados a pedalar furiosamente para fugir de um cão que veio atrás de nós com vontade de usar os dentes (lembras o cantar das cigarras, o cheiro doce de toda aquela verdura, o toque da brisa no rosto?). Mas logo depois já estou na manhã de natal de 2009, a mesa coberta com os legos acabadinhos de receber, os dois a construir casas com telhados amarelos e a conversar sobre os natais passados. No instante seguinte salto para 2014 e para as dez horas de espera à porta do estádio do Porto enquanto vivias o sonho de assistir ao primeiro grande concerto da vida. E como não ficar preso à manhã de Inverno de 2004 em que foste operada ao coração e durante algum tempo o mundo parou? Como não sorrir ao regressar àquele dia de 2017 em que tiveste vinte num exame nacional? O olhar ainda é o mesmo mas já me faz regressar ao dia de 2015 em que, pela primeira vez, pediste um livro meu para ler. Sorrio ao lembrar o sábado de 2007 em que aprendeste a cantar comigo a música do Tom Sawyer. Sorrio ainda mais ao recordar o dia de2011 em que criámos um blogue para publicar os teus desenhos e começaste a coleccionar elogios. Continuo a sorrir ao recordar aquela tarde de 2005 em que vimos juntos mais um filme da Barbie e a certeza que tive de que iria sentir umas saudades imensas daqueles filmes idiotas cheios de cantorias. E de repente já estou a recordar o dia de setembro de 2006 em que foste pela primeira vez à escola, revivo aquela sensação entusiasmante mas também melancólica de que algo muda para sempre que senti ao ouvir o click do portão a fechar. Lembro aquele dia de 2008 em que tive a ideia de te subornar porque gostaria de dar um passeio longo até à feira das velharias e tu não querias porque era mais de uma hora a pé; então, propus incluir no passeio uma ida ao McDonald's e lá fomos até às velharias procurar discos e livros antes de comer batatas fritas e recolher um par de brinquedos. Lembras? Para inevitavelmente regressar à manhã de um domingo de Agosto de 2000 em que nasceste e o mundo se transformou noutra coisa, em algo infinitamente melhor. Tudo isto num único olhar. És como uma máquina do tempo, que me mantém ligado ao passado, que me oferece uma perspectiva do futuro, que me dá sentido no presente; tudo em simultâneo. Basta um olhar porque tudo pode estar contido num simples olhar, porque também o olhar sente e pensa e toca e guarda as suas próprias memórias. Basta um olhar para perceber que cada momento é multidimensional, composto por uma infinidade de sensações, memórias, sonhos, afectos, ilusões, sentimentos, emoções, projectos, palavras, toques, possibilidades, medos, fantasias, prazeres, angústias. Porque é de tudo isso que são formados os momentos, cada momento. E é tudo isso que me tens proporcionado desde um domingo de Agosto de 2000, a cada olhar.

Crónica para o Jornal de Leiria.

Extensão


Projecto com Ana Gilbert. 
Textos e fotos disponíveis aqui.

O que pensa o teu nariz quando respira o meu cheiro? O que pensa o teu coração quando perscrutas o meu rosto? Percebo que estranhas as minhas perguntas. Talvez não saibas que cada pedaço do teu corpo tem pensamentos autónomos. O teu coração pensa, o teu sexo pensa, as tuas mãos pensam, a tua boca pensa. Infinitos pensamentos cruzam-se no teu interior, faíscam por um instante ou eternizam-se entre as células, arrastam-se, combatem-se, anulam-se, misturam-se, morrem e renascem. E tudo converge para o cérebro, onde toda essa imensidão de pensamentos antagónicos é recolhida, analisada, conjugada, resumida. E aquilo que julgas ser o teu pensamento – o teu pensamento oficial – é apenas uma breve e tosca súmula da infinidade de pensamentos que o teu corpo produz.
- Queres dizer que o cérebro aprisiona os pensamentos?

Julho


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Doze textos para doze fotos de Sílvia Bernardino.