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Se aparece no jornal…

Estou com o Ricardo e a Beatriz numa esplanada da Praça. O Ricardo é um velho amigo e a Beatriz é a sua nova namorada; estão felizes e fazem as coisas que os namorados felizes costumam fazer: ignoram-me. Sigo distraidamente os seus olhares cúmplices e diálogos tontos, enquanto vou pensando na vida. «Eh pá, estás na lua ou quê?», pergunta de repente o Ricardo. Explico que estou a pensar num tema para a crónica do jornal. «Não é o fim do mundo, se o jornal sair sem o teu texto.» A Beatriz ri e dá-lhe uma palmada no braço: «Estúpido.» «Ele é que está sempre a dizer que se calhar ninguém lê as crónicas.» «Isso é normal, os escritores estão sempre com dúvidas; o teu papel como amigo é incentivar.» «E eu incentivo. Mas já andas nisto há quanto tempo? Quatro anos ou assim?» «Quase oito.», respondo eu. «Então começa a reciclar as antigas.» «És tão parvo, um escritor nunca faz isso.», defende-me a Beatriz. «Tens ideia de quantas crónicas já escreveu ele em que o tema é a atrapalhação porque não se lembra de nenhum assunto?» Vira-se para mim e pergunta: «Quantas?» «Algumas.», digo eu. «Vês? Algumas. E agora será igual. Quanto é que apostas que a próxima crónica vai ser sobre esta conversa?» «A sério? Nunca apareci numa crónica.» «Aproveita e manda um recado à tua mãe. Depois, ela pode comprar o jornal.» «Estás sempre a apalermar. Mas ok: mãe, gosto muito de ti.» «Estou apenas a contribuir para o aumento da tiragem do jornal.» «E se te deixasses de tretas e lhe contasses aquilo da Arquivo?» O Ricardo vira-se para mim: «Nunca te contei aquilo da Arquivo?» Não, nunca contara. «Oh pá, estava convencido que sim. A sério que não? Olha que é uma estória fixe. Então foi assim: estava lá à espera, sabes como é. Eles têm sempre o jornal nas mesas, certo? E eu ia passando as páginas, enquanto o Pedro não vinha. Calhou ser na semana em que tu escrevias. Então fiquei a ler a tua crónica. Era aquela em que falavas da nova peça. E quanto disseste aquilo da peça se passar no céu e haver lá um sequestro, desatei a rir. Agora repara na coincidência do caraças. Nessa altura, a Beatriz estava lá.» «Fui comprar uns brincos, para oferecer à minha prima.» «E quando eu ri bem alto, ela ouviu e ficou a pensar em quem seria o parvo que estava para ali a rir que nem um animal.» «A gargalhada chamou-me a atenção e olhei. E depois já sabes como são as coisas, às vezes há algo que nos prende o olhar.» «Eu prendi-lhe o olhar, é o que ela quer dizer.» «Então chegou o Pedro, que estava sempre a dizer oh Ricardo para aqui, oh Ricardo para ali. E assim, fiquei a saber o nome do animal.» «Quando ela chegou a casa foi procurar no Facebook todos os Ricardos de Leiria. E pronto: encontrou.» «Se não fosses tu, não estávamos aqui. Percebes?» «E agora vai lá escrever a crónica, ok? A ver se nos fazes rir.» «Isso é tudo aldrabice, certo?», pergunto eu. «Não és do tempo em que diziam: se aparece no jornal, só pode verdade?» E riem, trocando um dos seus olhares cúmplices.

Crónica para o Jornal de Leiria.

Postais pedidos



Enquanto passeiam, a menina encontra uma azeitona no chão. Pega-a delicadamente e aproxima-se do avô. «Que tens aí?», pergunta o avô. A menina estende-lhe a mão com a azeitona e sorri: «Uma árvore.»

Postais pedidos

Por vezes, apetece fazer qualquer coisa tonta... Por exemplo: enviar postais e imaginar o sorriso de quem os recebe.
Postais de papel escritos à mão. Com uma estória. Entregues por um carteiro.
Uma pausa nos gifs e memes e emojis e likes. E nos feeds.
Quem quiser, peça. E um dia destes receberá um postal. É só escrever para minimalistamini@gmail.com e esperar uns tempos.

Raiz


Exposição de Sandrine Cordeiro na Livraria Arquivo.
A partir de 2 de Novembro.