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Viajar sem ter ido

Texto escrito em pareceria com Teresa Bret Afonso, a coleccionadora de sorrisos.

Se lhe perguntassem

Via como as nuvens passavam, via como os pássaros passavam, via como as crianças passavam. Tranquilas, as nuvens; ruidosos, os pássaros; alegres, as crianças. 

Se lhe perguntassem:
«És uma árvore feliz?»
Responderia sem hesitação:
«Sou.»

Porque sentia-se genuinamente feliz. Mas, apesar da felicidade, via como as nuvens passavam, via como os pássaros passavam, via como as crianças passavam; e invejava um pouco a liberdade de nuvens e pássaros e crianças. Invejava a possibilidade de passar, que era algo que nunca poderia fazer. O destino das árvores é estar, e não passar. E ela estava, imaginando como seria passar. Sonhando.

Se lhe perguntassem:
«És uma árvore sonhadora?»
Responderia sem hesitação:
«Sou.»

Se não fosse envergonhada, explicaria que o sonho era a sua verdadeira raiz; era o sonho que a sustentava, sólida e forte, e lhe permitia crescer centímetro a centímetro em direcção ao sol. Mas falar de sonhos não é conversa que uma árvore tenha, suspeitava que não seria realmente compreendida se confidenciasse os seus segredos a alguém. E a sensação de incompreensão era um tipo de solidão que sentia de forma particularmente incisiva, mas inconfessável (porque falar de solidão também não é conversa que uma árvore tenha). E por isso, distraía-se: via como as nuvens passavam, via como os pássaros passavam, via como as crianças passavam.

Tranquilas, as nuvens; ruidosos, os pássaros; alegres, as crianças. Mas as nuvens nunca paravam, os pássaros nunca pousavam, as crianças nunca se aproximavam.

Até que um dia, estava a árvore a pensar nos seus sonhos quando se aproximou uma criança; dia sem nuvens e em que ainda não se tinham visto pássaros por ali mas a criança aproximou-se mesmo. E ali ficou a olhar a árvore com os seus olhos brilhantes e curiosos; rodeou-a e andou à sua volta, tocou-a com os seus dedos pequeninos.

«Falas português?» 

Perguntou a menina. A árvore sorriu, apesar de não ter boca nem músculos nem olhos que pudessem brilhar; apesar de não ter rosto. Mas sorriu, porque para sorrir basta ter corpo.

«Olha, podes fazer-me um favor?»

E sem esperar uma resposta, começou a prender o balão que trazia consigo num dos ramos da árvore.

«Tomas conta do meu balão, enquanto vou andar de bicicleta?»

Era um balão vermelho. E a árvore imaginou que o seu ramo era uma mão, imaginou que o seu tronco era o corpo de uma menina; imaginou-se criança a passear um balão vermelho, pés descalços na relva verde, cabeça erguida em direcção ao céu azul; e a brisa a fazer cócegas na sua pele. Imaginou ou sonhou?

Se lhe perguntassem:
«Preferes sonhar ou imaginar?»
Responderia sem hesitação:
«Prefiro quando não consigo distinguir uma coisa da outra, quando se misturam.»

Se passasse ali um pintor talvez gostasse de fixar numa tela aquele quadro inesperado: uma árvore a fingir-se criança. Mas não passou nenhum pintor e a árvore deixou-se estar quieta, completamente quieta (na sua imaginação, mexia-se muito; e nos sonhos também); a saborear aquela novidade, a sentir aquele momento. A viajar com o seu balão.

Mas depois de um momento vem sempre outro. E ninguém poderia adivinhar que o momento que estava quase a chegar seria um momento mau. Começou quando a árvore sentiu que o cordel que prendia o balão ao seu ramo começava a libertar-se muito devagarinho. E por mais que a árvore imaginasse ou sonhasse, por maior que fosse o seu desejo ou a sua aflição, o ramo não conseguiria transformar-se numa mão, em dedos que pudessem segurar e prender o fio. Imaginou e sonhou, desesperada; mas o fio soltou-se.

O balão subiu ao céu, lento. Parecia um bailarino envergonhado, pensou a árvore. A subida do balão no céu parecia uma dança, pensou a árvore.

Se lhe perguntassem:
«Gostavas de dançar?»
Responderia sem hesitação:
«Muito. Farto-me de dançar em sonhos. E na imaginação também.»

Mas as árvores não podem dançar, tal como não podem correr atrás dos balões que lhes fogem das mãos que não possuem. O balão fugia e a árvore olhava, dividida entre a vontade de apreciar a beleza daquele voo e a aflição que sentia por ter decepcionado a menina. Na verdade, foi um dos piores momentos da sua vida, nunca sentira o desespero de não poder agarrar algo que lhe escapava. Nunca pensara nisso mas, de repente, pareceu-lhe que talvez fosse essa a mais bonita capacidade dos humanos: a de agarrar. Agarrar-tocar-pegar-segurar-cuidar.

Ainda não tinham aparecido pássaros. Mas surgira uma nuvem, pequena e branca; lá estava ela, como se o céu fosse o seu quarto. E o balão vermelho ia subindo na sua direcção, como se tivesse sido convidado para ir brincar no quarto da nuvem. Apesar da aflição que sentia, a árvore não conseguia deixar de achar aquilo bonito. E quase se esqueceu que havia uma menina a andar de bicicleta, algures.

«Onde está o meu balão?»

Durante um instante, a árvore teve medo. Medo que a menina se chateasse, medo que a menina chorasse, medo que a menina lhe arrancasse ramos, medo que a menina ficasse triste para sempre. E quis fugir. Mas não fugiu, porque era uma árvore e as árvores estão presas à terra pelas suas raízes. (Sim, acreditava que o sonho era a sua verdadeira raiz; era o sonho que a sustentava, sólida e forte, e lhe permitia crescer centímetro a centímetro em direcção ao sol. Mas poderia o sonho ser, também, uma prisão?, perguntou-se um pouco desesperada.)

Depois de um momento vem sempre outro. E ninguém poderia adivinhar que o momento que estava quase a chegar seria um momento bom.

«Oh, foi brincar com aquela nuvem. Que giro.»

A menina olhava para o balão vermelho, que prosseguia o bailado no céu azul. A árvore viu que a menina sorria, apesar de ter perdido o seu balão. E sentiu-se feliz; apesar de saber que muitas vezes a felicidade se confundia com alívio, pareceu-lhe que naquele momento o que sentia era mesmo felicidade.

Ficaram a olhar o balão, a menina e a árvore. Durante muito tempo.

«Fizeste bem em deixá-lo voar.»

Disse a menina. E mais tarde, acrescentou numa voz baixinha:

«Às vezes, gostamos tanto das coisas que não conseguimos largá-las.»

E a árvore, que pouco antes percebera que a melhor coisa de ser pessoa era poder agarrar-tocar-pegar-segurar-cuidar, ficou a pensar se a melhor coisa de ser árvore não seria o poder largar. Largar folhas, largar frutos, largar sombras; por exemplo. Ou: largar balões.

De repente, a menina queixou-se que já lhe doía o pescoço. A árvore, que se distraíra a filosofar sobre as suas teorias do agarrar e do largar, ficou a ver a menina afastar-se. Talvez ela regressasse noutro dia, com um novo balão. E perguntasse:

«Queres largar este balão comigo?»

Ou talvez nunca mais voltasse. E os dias prosseguiriam como sempre. Veria como as nuvens passavam, veria como os pássaros passavam, veria como as crianças passavam. Tranquilas, as nuvens; ruidosos, os pássaros; alegres, as crianças.

E se lhe perguntassem:
«És uma árvore feliz?»
Responderia sem hesitação:
«Sou.»
Mas nunca ninguém perguntava.

O balão vermelho lá continuava no céu, a bailar atrás da nuvem. E a árvore olhava-o, via como deambulava livre, solto, leve; via como passava. Olhava-o e sorria, apesar de não ter boca nem músculos nem olhos que pudessem brilhar; apesar de não ter rosto. Mas sorria, porque para sorrir basta ter corpo.

Abril


Calendário Improviso
Doze textos para doze fotos de Sílvia Bernardino.

Março


Calendário Improviso.
Doze textos para doze fotos de Sílvia Bernardino.

Libelinhas








Liliana Gonçalves, Sónia Pedrosa, Laura Perdomo Bouza Mayor, Tânia Chavinha, Bruno Jerónimo, Ana Moderno. 

Encenação de Pedro Oliveira para O Nariz.
Fotos de Carla de Sousa.

Xuxus

Oito da noite num dia de Janeiro. A cidade está escura e fria, húmida, desconfortável; deserta. Atravesso a rua e entro na sala de ensaio; estão todos à beira da pequena lareira, a rir. Alguém diz: «Olha o escritor, agora portem-se bem.» Saudações, sorrisos, muitas piadolas. A Tânia conversa com o Bruno, a Sónia vai petiscando e oferecendo a toda a gente, a Ana e a Liliana trocam anedotas à desgarrada, o Pedro intromete-se no duelo e conta uma piada inventada no momento, a Laura assiste com um sorriso. O tempo passa sem pressa, a cidade escura e fria, húmida, ficou longe, esquecida. Está-se bem aqui, está-se em casa. Mas alguém precisa pôr ordem nas coisas e geralmente é a Liliana: «Oh xuxus, vamos lá a isto, pá.» “Xuxus” é uma expressão muito usada pela Liliana; faz-me sorrir sempre. Devagarinho, vão-se organizando, aproximam-se do palco onde as habituais cinco cadeiras vazias aguardam. E depois, tudo muda. A algazarra suspende-se, o ensaio começa; os xuxus trabalham. E a sua dedicação impressiona-me sempre. São pessoas com empregos (apenas o Pedro é profissional do teatro) e com famílias, com projectos de todos os géneros, pessoas que têm de fazer muita ginástica com o relógio e a agenda para conseguirem corresponder a todas as solicitações, pessoas que fazem sacrifícios para estarem ali à beira da lareira. Mas quando a Liliana põe ordem na casa, os xuxus transformam-se em profissionais do teatro. Nunca me canso de assistir aos ensaios, não me canso de assistir à magia que estas pessoas materializam à minha frente, semana após semana: pegam num texto que escrevi e dão-lhe vida, tornando-o seu; fazem-no crescer, completam-no dando-lhe um sentido e uma nova dimensão. Transformam palavras em acção, em movimento, em emoção. Conseguem que quase chore, que quase fique sem ar de tanto rir. Pegam no que escrevi e convertem simples palavras em fragmentos de vida, onde cabe tensão e riso, ternura e agressão, amor e desprezo, reflexão e doideira, confrontação e sublimação; fragmentos de vida que são como um espelho que podemos olhar e onde nos podemos reconhecer, se quisermos, se conseguirmos. Fazem realmente magia: na passagem do texto a peça de teatro, a forma como tensão e riso se misturam e conciliam, a subtileza das emoções e sentimentos que nascem no palco, impressiona-me sempre; e apenas há uma explicação para tal magia: a entrega e o talento, a cumplicidade, daquelas sete pessoas. Impressiona-me também a sua paciência. Porque a cada segmento de dez minutos que é ensaiado, o Pedro faz uns comentários e umas sugestões, diz: «Façam de novo.» E os actores repetem. E uma vez mais, o Pedro faz uns comentários e umas sugestões, diz: «Façam de novo.» E os actores repetem; várias vezes, as vezes que o Pedro quiser. Há momentos em que sinto que já não suportam o texto. Mas na semana seguinte, lá estão todos de novo; à beira da pequena lareira, a rir. À espera que a Liliana diga: «Vá lá, xuxus.» E eu lá estou também, agradecido e feliz por estas pessoas terem entrado na minha vida. (A peça chama-se Libelinhas, estreia n’O Nariz a 17 de Março.)

(Crónica 61 para o Jornal de Leiria.)

Almas Desligadas

Ana Gilbert seleccionou e fotografou vinte e sete excertos do livro Serviços Mínimos de Felicidade. A partir desse conjunto de fotos, escrevi o conto Almas Desligadas, que poderá ser lido como um capítulo escondido do romance Serviços Mínimos de Felicidade. O ebook que reúne as fotos e o conto pode ser visto, lido e descarregado aqui.