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#textos-que-valem-livros

"Desequilibra-me o caminho por onde insistes em me levar. Desconheço a melhor maneira de o percorrer ou se chegará a ter um fim. Perseguem-me os olhos que sempre foram calor, libertando-me na esperança de nunca me verem partir. Onde já tudo foi pressa, agora, reside a lentidão. Calma que prossegue numa réstia de vontade de avançar.
Talvez desconheças, mais do que eu, esta viagem. Talvez me tenhas arrastado sem dares conta que o fizeste. Movimentos em sentidos opostos deixam-me entre paragens que me fazem despertar. Olho à volta e desconheço onde estou, ou qual parte de mim aqui se encontrará. Existirá um lugar onde permanecemos inteiros? Algum lugar de onde nunca almejamos sair? Onde estás quando te chamo? Onde estás quando me abandonas ao frio, sem uma mão para segurar, petrificada no receio de ignorar se vais voltar? A espera numa bipolaridade de emoções que arrasam o que neste instante se ergueu.
Chegará o instante em que a alma abandona o corpo, em que regressarei sozinha de ti mas mais comigo do que nunca. Coração que acredita é impossível de abismar. Outros serão o abismo de si mesmo, arruinados na luxúria da própria contemplação. Corações que batem para se sentirem respirar desconhecendo que existir é aumentar respirações.
Há dimensões que só na humildade seremos capazes de alcançar. O meu mundo tão maior do que o teu. Como se vive numa loucura impossível de controlar? Perdes-te numa não semelhança que persistes em perscrutar criando a ilusão que a perdida sou eu. Imperfeições revestidas na perversidade de não se conseguirem inverter. Sentidos, que ferem pela mágoa de não conceberem o sentir, anestesiam cada uma das partes que mais faziam viver.
Fica. Fica no limite que não te cansas de dilatar. Não se retorna ao que está cada vez mais longe…"

Texto de Catarina Vale

Libelinhas


«Neste sábado amanhecido não me perco em "lirismos e divagações", nem sequer caindo nas memórias dos glutões do Tide, ou na leitura rida da "Maria"... ecoam-me no pensamento algumas frases lidas e riscadas no livro há uns tempos e ouvidas esta semana na correspondente peça de teatro. Escrita e representada de forma espectacular, devo dizer...
Sendo a sua décima apresentação, "Libelinhas" levou-me na passada quinta-feira àquele que é o ninho que a aconchega, o fantástico espaço "O Nariz", em Leiria. Como foram as sessões anteriores? Não sei muito bem e sabê-lo não fará mudar o que senti, aquele era o momento em que eu estava presente...
A foto que partilho, ainda as cadeiras vazias, mostra pouco do lugar em si... cadeiras que depois foram sendo ocupadas por luz, pensamentos, risadas, silêncios... cada qual preenchia o seu espaço de acordo consigo e com o que absorvia da envolvência. Eu estava em lugar privilegiado, abarcava tudo e sentia as vibrações das emoções, minhas e dos outros.
Estas libelinhas são qualquer coisa fora de série, fartei-me de rir, logo a seguir a ter o pensamento embargado, flutuei entre os palavrões que ali ficam tão bem, as personagens que vão entrando e saindo, envolvi-me nos seus diálogos, nos seus mundos de medos, ambições, egocentrismo velado, sentido de humor... São irritações, são afectos, são verdades e evidências. Presentes... 
Se no livro podia parar e reler e porque o encanto da leitura está em cada um descobrir os caminhos por si, aqui os sentidos eram necessários para que as sonoridades, os cheiros, as vibrações, os olhares, prendessem o pensamento. Os actores são incríveis, vivem, sentem e expressam... Vale a pena estar por cada frase, cada palavra, cada carácter representado...
Independentemente do que cada um é (eu e os outros), esta peça consegue espicaçar, faz rir logo a seguir a ter as lágrimas quase a cair, não há vidas cor-de-rosinha e mais, somos todos solidários até ao momento em que a tal de solidariedade não colide com o nosso umbigo... pois é.

Já vai longa a minha escrita e poucos haverá com vontade de ler, no entanto destaco as frases que assinalei quando li a peça e que mantenho:
"Pedir... uma forma de submissão. Perder liberdade?"
"Som da respiração... banda sonora da vida..."
"o poder da comunicação através da respiração..."
"silêncio partilhado..."
"em que pensará uma pessoa que tem a vida adiada..."
"o que seria de nós se não fossem as coisas tontas...."
"... óculos da beleza"
"Sorrir é uma das três melhores coisas..."
"...laços invisíveis..."

Por último, agradeço a quem tornou este momento possível: Paulo Kellerman (escritor), Pedro Oliveira (encenador), Ana Moderno, Bruno Jerónimo, Liliana Gonçalves, Sónia Pedrosa, Tânia Chavinha, Vânia Jordão (actores). E um obrigado especial à Anabela Gonçalves.»

Foto e texto: Cristina Vicente

Pensamentos de avião



Instalação com Sílvia Bernardino.
Festival A Porta 2019

A casa

Chegava todos os sábados de manhã pouco depois da livraria abrir. Deambulava entre os móveis num caminhar lento, pegava num livro ao acaso e abria-o, lia algumas frases, pousava, pegava noutro. Fazia coisas peculiares como passear o dedo pelas capas ou cheirar as páginas; como se namorasse os livros e para os conhecer verdadeiramente precisasses de os tocar com todos os sentidos. Por fim, optava por um e levava-o consigo. Sentava-se na cafetaria, pedia um café e começava a ler. E era como se o livro se apoderasse dela, controlando-a. O seu corpo transformava-se num reflexo do que lia, as suas expressões revelavam o que as palavras lhe transmitiam. Vivia o que lia, convertendo as palavras em expressão, em gesto, em respiração. Havia pessoas por ali que a espreitavam, talvez curiosas, talvez fascinadas; tentavam ler no seu rosto o que poderia estar escondido no livro, como se esse rosto fosse uma janela para um mundo misterioso. (Ou um espelho?) Quem a olhava percebia que, para aquela mulher, ler era uma forma de viver. Como se cada livro fosse um catálogo de possibilidades, um arquivo de emoções e pensamentos onde mergulhava para, momentaneamente, ser e sentir e pensar e sonhar diferente; não para fugir ao mundo mas para se reencontrar a si própria de modos alternativos, para descobrir em si novos caminhos, novos sonhos, novas liberdades. Como se cada livro fosse uma casa: simultaneamente um refúgio e um espaço potenciador de novas possibilidades, de novos encontros, de novos voos. Uma casa-aeroporto. Vivia os livros, e o seu rosto espelhava essa vivência; era por isso que a observavam. Porque ela não excluía ninguém da sua casa. Prosseguia a leitura até meio da manhã, altura em pousava o livro e pedia um pastel de nata. Trocava sorrisos com quem calhasse, conversava com algum conhecido que por ali estivesse, ria alto. Depois, pagava o livro que estivera a ler e levava-o consigo; como se já fosse parte de si. Saía. E o lugar que ocupara permanecia vago durante algum tempo, ninguém saberia explicar porquê. Talvez porque quem ficava sentia que, com a sua presença, ela deixara um pouco de si na livraria. Como se ainda ali estivesse. 

(Texto oferecido aos leitores da Livraria Arquivo no dia 23 de Abril de 2019, assinalando o Dia Mundial do Livro. Crónica para o Jornal de Leiria.)