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"«Serviços mínimos de felicidade», de Paulo Kellerman (Leiria, 1974) é um hino à angústia de uma mulher que sofre o acidente maior: o da própria filha que jaz inconsciente numa cama de hospital. Sentimos o seu monólogo interior com a força de um terramoto que conduz à ruína. Quando nos achamos sem abrigos o que resta, senão a honestidade que nos devemos. Eis o que mais me comoveu na obra, a autenticidade da voz desta mãe, agora sem a força de o ser, que não se poupa. Exaustiva, minuciosa e massacrante, mas também leve, distraída, errante e, por isso mesmo, redentora. A filha é sempre mencionada como P. . P de palavra impronunciável na dor indescritível de repetir o nome daquela que talvez não torne a abraçar. Lemos a noite mais longa. Não são as horas que custam a passar, até à certeza do que acontecerá ao seu amor maior. São os segundos. E enquanto os sente, de forma insuportável, numa dormência do corpo e dos sentimentos, entretém-se a «usar o pensamento para fugir» (pág. 31), projectando a sua vida numa tela privada, assistindo ao desenrolar da película da sua existência, na mais absoluta solidão. Conhecemos pormenores desde o momento decisivo da desgraça que estilhaçou as três vidas, passando pela construção da vida em comum com Afonso, o marido, pai de P., a quem mal conhece, até à trivialidade de um vestido bonito numa mulher sedutora, mais o encanto de algumas das paisagens que a habitam.

Qualquer momento é apropriado ao recomeço, inclusive, quando nos parecer que já morremos, muitas vezes, embora ainda não o tivéssemos constatado. Esta mulher fala-nos das suas várias mortes, consciencializando-se de cada uma delas, à medida que a atingem, implacáveis. Falta-nos o ar na maior parte das linhas.

É curioso que apenas Afonso, invisível nos afectos, seja identificado. Apenas o pai-condutor-responsável pode ser gritado, acusado, julgado. Identificar o desamor nos outros é mais fácil do que detectá-lo ao espelho. Eis que esta conversa, consigo mesma, a obrigará ao confronto com o que é, com o que julgava ser e lhe aparece agora desprovido de sentido, desfazendo, neste combate, todas as ilusões de poder ser alguma coisa através de terceiros.

Mais do que encontrar respostas para todas as questões que a narradora se coloca, importa repensar. Colocarmo-nos no seu lugar sem nome que é o de todos nós.

Se chegarmos àquele momento em que tudo muda, irremediavelmente, aquele que poderá ser o derradeiro, andámos a escolher o que desejávamos? O que podia ela ter feito diferente para não assassinar os sonhos da filha com pessimismo, realismo e afins? O que podia ela ter feito diferente para não ter desistido dos seus próprios sonhos? Sendo tarde para a filha, ainda o é para si?

Eis que o livro chega ao fim. Nos nossos olhos, silêncio, todavia, a sua música continua a tocar para nós, como nos auscultadores de P. logo após o desastre.

«Quem disse que terá de existir uma relação directa entre falar e amar?» (Pág. 62)

Talvez não haja. Sou parca em certezas. Tenho esta: este romance, que escava a esperança sob o desespero, é um acto de amor.

Obrigada, Paulo.

Felicidade














12.11.2016. Livraria Arquivo. 
Apresentação de Serviços Mínimos de Felicidade. Por VEIA – Vertente Exploratória em Intervenção Artística. 
Fotos de Gil Álvaro de Lemos.

Janelas

Oh menino, tenho mais que fazer do que andar a queixar-me. Desculpe lá chamar-lhe menino, mas é por causa do olhar. Tem um olhar de criança, e isso é raro. O mais comum é encontrar olhares de velho, sejam velhos ou não; aquele olhar de quem está desinteressado no que vê, um olhar virado para dentro. E vivo num lar, certo?, é natural que esteja rodeada de gente com olhar de velho. Quando encontro alguém com olhar de criança é uma festa porque é bom ser mesmo vista e não apenas olhada. Mas acabei de dizer que tenho mais que fazer do que queixar-me, e aqui estou eu a queixar-me. Enfim, não há mal nenhum em ser contraditória, antes isso que estar cheia de certezas. Aqui, as pessoas têm muitas certezas, é uma coisa que piora com a idade. E são todos velhos não só de corpo mas também de espírito. Alguns até já estão mortos mas ainda não o perceberam; é como se esperassem uma oficialização. No fundo, são pessoas respeitadoras de preceitos e burocracias, precisam de papéis para tudo; até para morrer. Mas não ligue, menino. Por vezes dá-me para a tolice. A tolice é como uma janela, não concorda? Se não a abrimos de vez em quando, é como se estivéssemos sempre fechados numa sala escura. O sonho também é uma janela, e essa devia estar sempre aberta. É verdade que tenho sessenta e oito anos mas não será isso que me impedirá de sonhar. Quer saber o que sonho? Tolices, claro; acho que são duas janelas que se comunicam, a do sonho e a da tolice. Olhe, sonho com rojões, nunca fazem disso aqui; ou com filhós de abóbora. Sabe aquilo que se diz sobre tratarem os velhos como crianças? Passa-se muito na alimentação, é triste uma pessoa não poder comer o que deseja. Que mal há em rojões e filhós? Mas se falo nisso, olham-me como se fosse doida, dizem: coma lá o iogurtinho, que lhe faz bem. Enfim. Sonho que alguns dos meus antigos alunos me venham visitar. Sonho com o meu filho, que está no estrangeiro, e com o meu marido, que morreu há três anos; sonho com eles quando durmo, e então acordo com um sorriso; ou sonho com eles quando estou acordada, e então sorrio na mesma. Sonho com excursões à Serra da Estrela ou ao Alentejo. Aqui, apenas fazem excursões a Fátima, não sei bem porquê. Sonho estar rodeada por gente que encare a velhice de forma menos dramática e egoísta, gente que não passe a vida a dar com as muletas na cabeça das auxiliares e a fazer escarcéus por causa da comida e dos remédios. Sonho não ter dores. E por vezes até sonho com um mundo melhorzito, mas estão a dar cabo disto tudo e uma pessoa vai perdendo esperança. Até deixei de ler jornais, davam-me azia. E de ver os telejornais. Aos domingos vêm aí as visitas e por vezes trazem garotos. Faz-me impressão, estão sempre agarrados aos telemóveis; e isso ainda é mais triste do que ver os telejornais. Houve aí uma assistente social que andou a criar facebooks para os velhos. Então certo dia um velho fez uma birra porque queria um telemóvel igual ao do neto para ir ao facebook e o filho não lho dava. Já viu? Este mundo está a ficar um bocado estrampalhado, menino. E nem a sonhar uma pessoa consegue sair da sala escura. Enfim. Mas fale-me de si, diga-me tolices. Não foi meu aluno, pois não?

(Crónica para o Jornal de Leiria.)

Calou-se. Saiu. Saltei.

O filme "Calou-se. Saiu. Saltei" (2014), de Bruno Carnide, e cujo argumento escrevi, pode ser visto integral e gratuitamente.



Bom dia

Gosta quando lhe desejam “bom dia” mas a maioria das pessoas diz simplesmente “Um café” ou “Era um café”. Gosta que a olhem quando falam consigo mas parece que toda a gente está demasiado ocupada ou demasiado desinteressada ou demasiado entretida com o telemóvel. Gosta quando a tratam por você – de igual para igual – mas a maioria aborda-a como se fosse uma criança, tratando-a por tu. Gosta quando usam o seu nome, que está bem visível na placa que tem de trazer ao peito, mas isso só aconteceu três ou quatro vezes desde que começou a trabalhar no café; e não gosta nada que lhe chamem “coisinha” ou “jeitosa”. Gosta que lhe perguntem se está tudo bem mas, das poucas vezes em que isso aconteceu, percebeu que a pessoa não estava realmente à espera de resposta. Gosta quando as pessoas sorriem. De um modo geral, não gosta nem desgosta de trabalhar no café. Tem dezoito anos e é o seu primeiro emprego. A escola podia ter corrido melhor. Se lhe perguntarem quais os seus sonhos, não sabe bem o que responder; e tem noção de que isso – não ter sonhos – é triste e um pouco assustador; mas acha que seria ainda pior se fingisse que tinha sonhos ou se adoptasse os sonhos de outras pessoas. A vida é o que é, agora é isto e depois logo se vê: podia ser pior, podia ser melhor. Por enquanto, passa o dia a tirar cafés e a fazer torradas. «Isto das torradas até é engraçado, no outro dia estava a pensar: se cada fatia de pão tiver dois centímetros, e considerando que devo fazer umas cinquenta por dia, sabe que distância dava se encostasse todas as fatias lado a lado, em fila? Trezentos metros. Já viu, trezentos metros de pão? Mais três meses e chego ao meio quilómetro.» À noite, conversa no facebook com as amigas; riem das senhoras que pedem abatanados porque a palavra é engraçada e dá para fazer trocadilhos parvos; queixa-se das pessoas que dizem “Um nata”, em vez de “Um pastel de nata”, o que a irrita por nenhum motivo que consiga entender; fala com tristeza dos velhos que passam o dia sentados nas mesas do canto, a olhar para o vazio ou a dormitar, porque não têm para onde ir, não têm quem os espere (e não entende por que motivo não se juntam e falam uns com os outros); lamenta-se dos engravatados e das madames que a olham com uma expressão de pena ou de arrogância, como se fazer torradas e tirar cafés fosse um trabalho inferior aos outros; segue com orgulho as aventuras académicas das amigas que andam a tirar cursos de esteticista e de professora de educação física e de enfermeira. Por vezes, essas amigas aparecem no café perto da hora de saída e pedem em coro “Oh coisinha, traz um nata e um abatanado”; e riem todas, bem alto; juntas. Pela manhã, de regresso às torradas e aos cariocas, olha o tráfego matinal enquanto aguarda o autocarro e pensa que gostaria de tirar a carta. Pensa, também, que gostaria de fazer um workshop de desenho e pintura; que gostaria de viajar um bocado; que gostaria de ter um namorado melhor que o último; que gostaria de ajudar mais os pais; que gostaria de voltar a estudar. «Olhe, afinal parece que até tenho sonhos. Agora é só lutar para os concretizar, não?» 

(Crónica para o Jornal de Leiria)

Caixões separados


O conto Caixões Separados foi lido por Filipa Leal e ilustrado por André Caetano para o programa Literatura Aqui (episódio 38), da RTP 2. Pode ser visto e ouvido aqui.