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Xuxus

Oito da noite num dia de Janeiro. A cidade está escura e fria, húmida, desconfortável; deserta. Atravesso a rua e entro na sala de ensaio; estão todos à beira da pequena lareira, a rir. Alguém diz: «Olha o escritor, agora portem-se bem.» Saudações, sorrisos, muitas piadolas. A Tânia conversa com o Bruno, a Sónia vai petiscando e oferecendo a toda a gente, a Ana e a Liliana trocam anedotas à desgarrada, o Pedro intromete-se no duelo e conta uma piada inventada no momento, a Laura assiste com um sorriso. O tempo passa sem pressa, a cidade escura e fria, húmida, ficou longe, esquecida. Está-se bem aqui, está-se em casa. Mas alguém precisa pôr ordem nas coisas e geralmente é a Liliana: «Oh xuxus, vamos lá a isto, pá.» “Xuxus” é uma expressão muito usada pela Liliana; faz-me sorrir sempre. Devagarinho, vão-se organizando, aproximam-se do palco onde as habituais cinco cadeiras vazias aguardam. E depois, tudo muda. A algazarra suspende-se, o ensaio começa; os xuxus trabalham. E a sua dedicação impressiona-me sempre. São pessoas com empregos (apenas o Pedro é profissional do teatro) e com famílias, com projectos de todos os géneros, pessoas que têm de fazer muita ginástica com o relógio e a agenda para conseguirem corresponder a todas as solicitações, pessoas que fazem sacrifícios para estarem ali à beira da lareira. Mas quando a Liliana põe ordem na casa, os xuxus transformam-se em profissionais do teatro. Nunca me canso de assistir aos ensaios, não me canso de assistir à magia que estas pessoas materializam à minha frente, semana após semana: pegam num texto que escrevi e dão-lhe vida, tornando-o seu; fazem-no crescer, completam-no dando-lhe um sentido e uma nova dimensão. Transformam palavras em acção, em movimento, em emoção. Conseguem que quase chore, que quase fique sem ar de tanto rir. Pegam no que escrevi e convertem simples palavras em fragmentos de vida, onde cabe tensão e riso, ternura e agressão, amor e desprezo, reflexão e doideira, confrontação e sublimação; fragmentos de vida que são como um espelho que podemos olhar e onde nos podemos reconhecer, se quisermos, se conseguirmos. Fazem realmente magia: na passagem do texto a peça de teatro, a forma como tensão e riso se misturam e conciliam, a subtileza das emoções e sentimentos que nascem no palco, impressiona-me sempre; e apenas há uma explicação para tal magia: a entrega e o talento, a cumplicidade, daquelas sete pessoas. Impressiona-me também a sua paciência. Porque a cada segmento de dez minutos que é ensaiado, o Pedro faz uns comentários e umas sugestões, diz: «Façam de novo.» E os actores repetem. E uma vez mais, o Pedro faz uns comentários e umas sugestões, diz: «Façam de novo.» E os actores repetem; várias vezes, as vezes que o Pedro quiser. Há momentos em que sinto que já não suportam o texto. Mas na semana seguinte, lá estão todos de novo; à beira da pequena lareira, a rir. À espera que a Liliana diga: «Vá lá, xuxus.» E eu lá estou também, agradecido e feliz por estas pessoas terem entrado na minha vida. (A peça chama-se Libelinhas, estreia n’O Nariz a 17 de Março.)

(Crónica 61 para o Jornal de Leiria.)

Almas Desligadas

Ana Gilbert seleccionou e fotografou vinte e sete excertos do livro Serviços Mínimos de Felicidade. A partir desse conjunto de fotos, escrevi o conto Almas Desligadas, que poderá ser lido como um capítulo escondido do romance Serviços Mínimos de Felicidade. O ebook que reúne as fotos e o conto pode ser visto, lido e descarregado aqui.

Fevereiro



Calendário Improviso.
Doze textos para doze fotos de Sílvia Bernardino.

Porque estás aqui?

Chamamento
Letra para uma música dos First Breath After Coma com Broto Verbo. Disponível no CD Leiria Calling. Letra aqui.

Ensaios





Libelinhas | Encenação de Pedro Oliveira para O Nariz.

Libelinhas



"Passamos pela beleza sem reparar, como se nos faltassem os óculos da beleza, e sem esses óculos apenas vemos a normalidade."

Libelinhas | Encenação de Pedro Oliveira para O Nariz.
Foto de Sílvia Bernardino.

Libelinhas



"As pessoas habituaram-se a pensar que a generosidade está relacionada com o dar. Não é? Mas o pedir também envolve generosidade. É preciso ser generoso para pedir algo; e para aceitar uma recusa."

Libelinhas | Encenação de Pedro Oliveira para O Nariz.
Foto de Inês Sarzedas.

Libelinhas



“Consigo olhar para mim e ver o que se passa cá dentro, não fujo."

Libelinhas | Encenação de Pedro Oliveira para O Nariz.
Foto de Luciana Esteves.