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Los mundos separados que compartimos




“Paulo Kellerman nos asoma, a lo largo de los veinte cuentos que componen Los mundos separados que compartimos, al abismo más peligroso al que puede asomarse el ser humano, el interior. A través de una narrativa limpia y de una gran cadencia poética, desgrana la nostalgia de lo no vivido, la contundencia y significación de los silencios, las preguntas últimas sobre la latencia del desamor. Cada relato es una mirada a la duda y una puesta en jaque de la relación amorosa; los personajes parecen transitar de un cuento a otro con astutos movimientos y sólo cuando ellos quieren somos conscientes del trasvase. Hombres y mujeres se abren paso hacia sus paradojas y sus miedos, se retan a sí mismos, se condenan o se regalan nuevas oportunidades. Maestro del diálogo íntimo, Kellerman nos presenta en este catálogo de soledades todas las posibilidades de acercamiento a esos mundos separados que compartimos.”

Edição espanhola de "Os mundos separados que partilhamos", na Baile del Sol.

Gastar palavras / Fotografar palavras

A estória “Gastar Palavras” fotografada por Tina Azinheiro para o ebook “Fotografar Palavras”, a disponibilizar em breve.



07h45

Custa-me tanto acordar.
Antes, era um momento mágico: um mundo de possibilidades pela frente, caminhos a percorrer, aprendizagens, dores e obstáculos e incompreensões a superar, partilhas; cada acordar era um nascimento, a descoberta deslumbrada da imensidão da vida. Como olhar um mapa que incluísse todos, mas mesmo todos, os caminhos existentes no mundo, todas as pequenas estradas e atalhos e ruelas e avenidas e becos sem saída; olhá-los, sem pressa, saboreando a indecisão, e escolher: hoje, vou por aqui. E ir.
Agora, adormecer é que é o momento mágico. Adormecer significa adiar e esquecer. Durmo muito, preciso de dormir muito: são esses os únicos instantes em que não sofro. Tudo se mantém, nada muda enquanto durmo; mas dormindo, consigo não pensar nisso, consigo ignorar. É a única fuga que me resta e estou, em cada dia que passa, mais dependente dela. Durmo, vou fugindo. Fujo da dor de pensar. Então, acordo: e eis a minha vida, à espera. É (também) como nascer: e descobrir uma cortina intransponível (nem importa se transparente ou não; é indiferente se há algo para além da cortina porque a impossibilidade de a ultrapassar é uma certeza absoluta); nasce-se e não se está perante um princípio, nem sequer perante um fim; abro os olhos e tudo o que vislumbro é um impasse, uma impossibilidade, uma incongruência. Abro-os; e de imediato, volto a fechá-los. E a incapacidade de os manter assim, cerrados, causa uma dor nova, acrescenta o sofrimento.
Acordo, agora. E o meu primeiro pensamento é: quando poderei voltar a dormir?


08h13

Caminho pelo apartamento. O branco das paredes agride-me, fura-me os olhos. Apetecem-me quadros, cores, janelas para a salvação; distracções. Este assobio constante que é o ruído do silêncio causa-me dores de cabeça; e desejo barulho, agitação. Há momentos em que penso: um grito de alguém seria o suficiente para me salvar. E olho em redor, em busca de quem possa gritar. Procuro, sabendo o que encontrarei. Penso: sabemos sempre o que vamos encontrar e mesmo assim procuramos; porquê? Vou à casa de banho, porque aí as paredes são beges; sempre é um branco diferente. Depois, olho-me ao espelho. Frente a frente com alguém, que até poderei nem ser eu. E canso-me. O silêncio perseguiu-me, aí está: ruidoso. Desejo barulho; e ligo a televisão, automaticamente começo a trautear as músicas publicitárias que vou ouvindo. Sento-me a comer o pequeno-almoço, feito de cereais. Engulo com indiferença. Trauteio. Vejo como o sol vai avançando pela janela, agredindo-me com a luminosidade da sua existência. Agora, resta vestir-me e sair pelo mundo, por aí fora. Penso: tenho quase meia hora para escolher a gravata.


08h53

Por vezes, julgo-me especial. Penso: sou especial. E acredito.
Nada de extraordinário, essa especialidade. É apenas uma consciência não muito racional que por vezes vem e se insinua, murmura junto ao ouvido: tens, em ti, lá dentro, lá fundo, algo para dar. Algo que até pode ser muito. Mas algo, para oferecer. Quero dar, sinto que posso dar. Nem sei o quê, na verdade não importa muito. Poderá ser apenas companhia ou compreensão ou carinho ou amor. Mas quero tanto dar. Provocar sorrisos. Ou até recolher lágrimas (as lágrimas são sempre pedaços de alma, provas de libertação, de entrega, de confiança; rastos de amor. Gostaria de andar pelo mundo e provocar choro; então, recolheria as lágrimas, e com elas formaria um oceano, um novo oceano. E esse oceano, constituído por pedacitos das almas de todos os homens, formaria uma alma gigantesca, que seria a alma do mundo; que seria, em simultâneo, de todos e todos.)
É isso que penso, que desejo: apetece-me dar; e sinto que posso. Depois, olho em redor, pergunto: mas quem receberá? (Novamente: uma cortina.) Muitas vezes, sinto-me pateta: como se fosse um daqueles loucos que percorrem as ruas das cidades com tabuletas penduradas ao peito, anunciando o fim do mundo; a minha tabuleta diria: dá-se amor. E andaria pelas cidades, exibindo-a, esfregando-a nos olhos de quem passasse. Para nada; porque ninguém diria: dá-me amor, que eu preciso.
E então, penso: não, não sou especial. E acredito.


10h37

O que mais me custa neste emprego de vendedor de automóveis é ter de sorrir tanto. Aquela velha conversa pateta do palhaço que tem de mostrar alegria estridente quando sente dor lancinante. Sorrio, muito sorrio eu. E esta gente cega deverá pensar: que alegre e feliz é este homem. Ouço os lamentos, detecto os sonhos. Tagarelices inconsequentes. E falo das cilindradas e das cores metalizadas e das jantes em liga leve. Digo: hoje em dia, os carros são feitos para durarem uma vida. E recebo a resposta em forma de acenos de cabeça. Passo horas a repetir cassetes, com indiferença, disfarçando o ódio com sorrisos. Por vezes, dizem-me: que gravata tão bonita. Sorrio e falo da minha colecção de gravatas. Faço-o com entusiasmo, invento entusiasmo. E tenho a certeza que toda esta gente pensa: que rapaz tão feliz. E eu grito-lhes, em silêncio: cegos dum caralho.


13h01

Almoço todos os dias no mesmo restaurante. Já me conhecem, aqui. Sorriem-me muito. E eu sei: para eles, é só trabalho, é um sorriso profissional; o sorriso que exibem quando me dão o prato com as batatas e a carne e o ovo e a alface é o mesmo, exactamente o mesmo, que eu exibo, quando falo de suspensões e consumos e alarmes. Penso: agora, sou eu o cego. Finjo não perceber. Todos aceitámos esta regra primária da civilização: fingir não perceber o sofrimento dos outros. Ignorar. E então, rio alto. Eles sorriem e eu rio. Falamos, somos joviais. Espirituosos. Eles dizem: és um tipo mesmo porreiro. E eu concordo. Mas sei o que eles pensam, na verdade: cego dum caralho. É o que eu também penso, deles, de mim. Somos sempre os mesmos, o mesmo, dia após dia. Sorrimo-nos tanto; e nada sabemos uns dos outros. Não sei porquê mas nem curiosidade sentimos. Representamos as nossas comédias, falamos de banalidades, sorrimos tanto. Mas não conhecemos nada, não partilhamos nada. Podemos estar a morrer de dor, de solidão, de desespero; mas enrolamos sempre as batatas fritas em sorrisos e engolimo-las com a nossa dor. Dor que amarga, sempre; mas que disfarçamos: com mais sorrisos. Tão estranho, isto. O que precisamos, todos nós, é de um simples abraço. Mas recusamos pedi-lo, dá-lo. Sentimos vergonha, embaraço. Não encontramos conforto no facto de partilharmos as mesmas dúvidas, as mesmas angústias. Somos incapazes de estender a mão, abrir a mão. Todos sentimos que temos algo para dar, queremos dar, queremos desesperadamente dar, qualquer coisa, a alguém. Mas temos medo, somos tolhidos por um estranho e dilacerante medo, que nos inibe, que nos controla. E então, tudo o que fazemos é sorrir. Sorrimos. Disfarçamos o medo. E aprendemos a odiar, odiar com todas as nossas forças, as pessoas que nos sorriem. É também uma maneira de nos odiarmos.


16h42

Isto é o que sinto, ultimamente: que a minha alma diminui. Que vai encolhendo e encolhendo e encolhendo. Tenho medo que, assim, desapareça. E pergunto-me o que será de mim, sem alma. Depois, há alturas em que me revolto. E penso: mas se eu já sou um simples pedaço de carne... e sou incapaz de completar o pensamento. Sim, admito: a minha vida é pouco diferente da existência de um poste de electricidade. Ergo os meus braços, segurando os fios que conduzem a electricidade que alimenta o mundo; momentos de arrogância, em que me julgo útil. Mas, na verdade, sei, admito: que a electricidade existe sem mim, para além de mim; que sou apenas um instrumento, facilmente substituível. Há acontecimentos que passam através de mim, pequenas banalidades angustiosamente irrelevantes (acuso-me: sou um instrumento da banalidade; ou nem isso, menos que instrumento, menos que veículo.); mas, se eu não estivesse lá, estaria outro poste, o que mais existe são postes.
Mas preocupa-me, isto. Ainda me preocupa. Há camadas de alma que vou perdendo, isso sinto. Devagarinho, suavemente. Sem dor (e isto, espanta-me um pouco). Como se a alma fosse feita de translúcidas camadas de água; e por vezes, uma camada desaparecesse, assim, simplesmente. Evaporou. Transformou-se noutra coisa. Era substância, agora é... não sei: vapor. Ou fantasma. Sim, talvez isso: aos poucos, a minha alma morre, transforma-se em espírito de alma, fantasma de alma. Sinto isso: e perturbo-me. Custa-me, ser assim habitado por fantasmas. Custa-me, estar assim a evaporar, aos poucos.
E se alguém perguntasse: quem és? Responderia: um poste de electricidade com um fantasma de alma dentro?


21h17

O pior é não apetecer.
Não ter vontade nem desejo, não querer nada. Acontece-me muito, agora. Não apetece. Nada apetece. Não sinto vontade de nada. Espero, apenas. Ou nem isso: por vezes, não espero nada. Basta a passagem do tempo. No máximo, espero nada; e esperar nada é estar morto, vegetando. Como morto: é assim que me sinto, tanta vez. Prisioneiro da indiferença; pior: apreciando a indiferença. Sinto-me doente, sei que é uma doença; mas sou incapaz de me contrariar. Pergunto-me, sempre, tanta e tanta vez: para quê?
Forço-me. Tento pensar em coisas boas. Pedaços de felicidade. Nada de especial, porque a felicidade não é nada de especial; a felicidade é, muitas vezes, simplesmente conseguir sentir, derrotar por momentos a indiferença, a anestesia, o torpor. A felicidade pode ser, tantas vezes, apenas conseguir sentir. E então, evoco recordações. Momentos em que consegui sentir qualquer coisa. Banalidades: o sabor de um gelado, o brilho do sol num fim de tarde de Verão, uma carícia na perna, o som de um riso, um passeio na beira de um rio, o ladrar de um cão, a sensualidade de uma palavra escrita à mão numa folha de papel, o toque ansiado de um telemóvel, um passeio de carro sem destino nem objectivo nem fim, um olhar que não se desvia, crianças a brincar, ter um jornal na mão. Coisitas que me encheram, preencheram o vazio. Penso nelas, tento recuperar a sua consistência. Faço força. Mas não resulta, já não resulta. Apenas memórias indefinidas, voláteis. Perdidas. Tento tocar-lhes, mas elas passam-me através dos dedos; fantasmas.
E volta a não apetecer. Nada, nem sequer tentar.


23h37

Acabei de fazer amor. Comecei por despir-lhe a lingerie, aquela azul e semi-transparente, depois fui percorrendo-lhe o corpo com a língua, acariciando, molhando, provando. Movimentos frenéticos, gestos desastrados. Passou muito tempo; e agora há cheiros insinuados e nuances de escuridão, movimentos tímidos, simulacros de partilha. Dantes, dava importância a isto: a minha vida dependia disto. Agora, há apenas cansaço. Ou nem isso: resignação. Ela adormeceu, enroscada em mim. De repente, ressona. E acho isto bonito. É bom descobrir imperfeições nos outros: lembramo-nos assim que também somos imperfeitos. E partilhar os defeitos é uma forma superior de amor. Imagino-me a dizer, não sei a quem, não importa a quem: amo-te porque ressonas, porque tens manchas na pele, porque és egoísta.
De qualquer modo, penso que ainda a amo. Muito. Ou o suficiente.
Penso nisto, durante muito tempo; depois, adormeço.


01h13

Custa-me falar. Custa-me dizer palavras que não conduzam a lado nenhum, que não originem intimidade, que não toquem; E por vezes, penso: vou gastando as minhas palavras, assim, desapaixonadamente, desinteressadamente; e quando precisar mesmo delas – ainda acredito que esse dia chegará –, descobrirei que se me acabaram; procurarei dentro de mim e não encontrarei; apenas o vazio estará lá: maior que hoje. E preocupo-me: porque não sei onde se podem ir buscar palavras, não sei se é possível obter e usar mais palavras que aquelas que nos dão à nascença (nascemos apenas com dois olhos, e assim temos de sobreviver; nunca ninguém pensou partir pelo mundo, em busca de mais olhos, por achar que dois são insuficientes).
Por vezes, gosto de imaginar que as palavras nascem nos ramos de uma árvore misteriosa, uma árvore milenar que existe desde o início dos tempos, que nunca morre (árvores que são, também colunas: que de algum modo sustentam o mundo); gosto de imaginar que há planícies imensas serpenteadas destas árvores e que, por vezes, algumas pessoas podem passear-se entre elas e colher as palavras que desejam. Como meninos, brincando num laranjal, num fim de tarde de Primavera.
Também já houve alturas em que pensei: as palavras vêm do mar. Existiriam entre as ondas, envolvidas pela água. Como bebés, nas placentas das mães. Nascendo, a todo o momento: formas invisíveis soltando-se com ternura da água, sacudindo a espuma, e flutuando nas costas do vento, por aí. A atmosfera estaria repleta delas, infinidades de palavras virgens, ansiosas por serem ditas, gritadas, segredadas; ou adiando o propósito da sua existência, o momento em que alguém as pega e, envolvendo-as na humidade da garganta (outra placenta), extrai o som que é a sua essência, esvaziando-as.
Penso (pensar não consome as palavras) muitas coisas, assim. E tenho pena de não poder falar disto a ninguém, não ter as palavras necessárias em mim. Sinto-me deficiente: nasci com défice de palavras.
Não percebo para que estou a gastá-las contigo.

Fotografar Palavras


Está quase pronto um novo ebook. Desta vez, a fotógrafa Tina Azinheiro pegou no livro “Gastar Palavras” e transformou-o em “Fotografar Palavras”. Foram seleccionados excertos de cada um dos contos do livro e, depois, criadas imagens específicas. O ebook incluirá as fotografias e os excertos seleccionados, bem como alguns contos integrais. Será gratuito, como sempre. 




“Em cada uma das imagens insuflarei um pedaço de alma. Construirei fantasias, imaginarei existências, inventarei vidas. E depois, um dia, poderei vivê-las.”
Costela

Anyone wants dessert?

Um pequeno divertimento: apeteceu-me recriar uma estória minha em inglês. Cá aguardo os inevitáveis protestos. Mas valeu a pena, que foi uma experiência curiosa. (Agradecimentos à Cláudia Mamede, que pacientemente reviu e sugeriu.)



They have been talking to each other since we arrived at the restaurant, totally oblivious of my presence. I'm eating without appetite or pleasure, trying to disguise the weariness, the enormous boredom, I feel since I laid my eyes on their faces two hours ago. Sometimes I look at the tables around, just for a second, searching for something to distract me; someone equally alone and miserable (an ally of some sort: a distant and silent one but, nevertheless, an ally); in search of a sympathetic look or a supportive sign, a reminder that I’m not alone. Meanwhile: they’re talking, I’m forgotten.

But then, the most surprising thing happens: I start to talk, interrupting my mother at the middle of a sentence. She is complaining about some neighbor she caught on the elevator doing something inadequate or strange or repulsive and, suddenly, completely overwhelmed and confused, she stops herself, looking at me almost in shock, probably asking what the hell is happening, since when can she be cut off by me. Could it be an emergency?, she probably wonders, fearing some unexpected and unpredictable news. 

Do you remember when I was a kid and you used to took me to the park?”

They look at me, confused and bewildered; just as confused and bewildered as I am: this is, in some way, also a surprise to me. Why am I talking to them, for what purpose? Why don´t I just shut up, like I have been doing all my life? Why isn’t my mouth filled with food? What will I say next?

“I ran all over the place, wandering around in the swings and slides, or by the little lake, playing by myself, looking and searching and learning, imitating all the other boys, always wondering when would I start to feel excited and delighted and happy, just as I was supposed to.” 

They’re still looking at me, astonished (at least, I think they’re astonished); looking for some clue, expecting some sort of explanation, trying to remain calm, to act reasonably. Maybe realizing, for the first time, that they don’t know anything (anything that matters) about their own son?

And you were always spinning around me, remember? Always shooting at me with your cameras, both of you with your big and expensive and shinning and precious cameras; not just one of you, like the parents of the other children, but both of you had cameras pointing at me, pursuing me all the time, recording my shyness, my awkwardness, my loneliness. And I felt… Well, I suppose I felt ashamed and embarrassed but, most of all, I felt puzzled. Because I couldn’t understand the purpose of so many pictures, the reason of such commitment and intensity and obsession, as if you were in some kind of mission.”

Now, they’re listening, really listening; and remembering. So, I keep talking; I can’t stop myself; I can’t and I won’t. I’m talking to my parents, finally; and liking it: because they´re silent, they don’t know what to say, how to react; they’re just listening to me. And it feels good to taste the power of my own words.  

“You never talked to me, never smiled at me, never asked me if I was tired or thirsty or bored, if I needed something. Instead, you just took pictures of me: hundreds and hundreds of photos. And then, when you were done with photographing, or maybe when your memory cards were full, I don’t know, you… Do you remember what you did?”

The restaurant is (seems to be) very quiet, very peaceful; nobody argues, nobody laughs, nobody moves, nobody cares. But, after all, what are all these families doing here, eating in silence and looking at the walls? Why they insist in remaining together, if there’s nothing more to say, to ask, to listen? What are they trying to prove? Well, I think to myself, maybe restaurants are some kind of public Prozac for family relationships: everybody’s watching so try to stay calm, to behave, to be reasonable; just take it easy, darling, we can (we will) argue at home, where nobody will listen or judge, where we can hurt each other in so many ways, for so many times. Now, please enjoy this small break and don’t make a scene. Ok, darling?  

Well, you just forgot about me. You went to some quiet place and talked about the pictures you took, comparing and discussing them. Do you remember? I do, I surely do. I remember how you stood there, laughing and talking, completely forgotten about me, showing each other all those photos, probably choosing your favorites, deleting the worst ones. You never showed them to me, you never showed me my own pictures. Ironic, isn´t it? Never, not once. And you never asked my opinion about them, either; they were your own business, just your own business, not mine. Those pictures represented me, they replaced me; they were, they seemed to be, a little, just a little, more important to you than me. In a way, you loved the photos, not the model.” 

I look at them (first at my father then at my mother and then at my father again): and I smile. Can a smile hurt? I expect so.

You talked about my pictures and about me, over and over, endlessly. Yes, I know you never got tired of talking about me. But you never talked to me. Never.”

I shut up, finally; there´s nothing more to say. I look at them as I remember those sunny Sunday mornings at the park; and I see myself running (sometimes falling: but never crying), I see my parents with their cameras, shooting at me (as if they were in some kind of hunt; hunting me down); I see them holding their cameras with care and almost tenderness, deleting all those failed pictures of me: pretending (fantasizing, believing, wishing?) that they were really deleting me from their lives and not just some photos from their cameras.

So: here we are, after all these years, at this silent restaurant. And now, what happens? As I wait for some reaction (no matter what, just some kind of reaction; anything), I pick up my fork and resume eating; yes, eating: putting food in my mouth and swallowing it; just that, nothing more; repeating mechanic gestures, like a robot; repeating animal gestures, like a puppy or a little cat; wondering, as always: am I just some insignificant part of the scenery? Will I always be? 

“Anyone wants dessert?”

I look at my father, asking myself if he heard a single word I just said. And then, not a second later, I decide that it doesn’t matter, nothing really matters anymore (never did?), and I try to relax, I impose myself the obligation to relax, to let it go, to forget everything, to enjoy this little public Prozac. Then I look at my mother, who’s certainly wondering about dessert, and I start to think, to think very very hard, as if my life depends on my decision, which dessert to choose. What will it be?