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# 79: Por vezes, acontece


Por vezes, acontece. Um olhar fulminante – um simples e banal olhar, talvez ocasional e fortuito, inconsciente; acidental – e o mundo suspende momentaneamente o seu avanço, desinteressa-se do futuro e do passado, do presente também. Ou talvez o mundo continue, afinal, a avançar: e esse avanço não importe nada, absolutamente nada. Porque tudo o que interessa é olhar e continuar a olhar.
Assim se passara com eles, na sala de espera do dentista. Olharam-se pela primeira vez e o mundo, juntamente com o tempo, parou. Tudo permaneceu suspenso, enquanto se observaram, perscrutando o olhar do outro, descobrindo-se no olhar do outro. Não falaram, nem sequer sorriram (porque fariam tal disparate?). Olharam, simplesmente: e tudo fez sentido, tudo se conjugou e acomodou, tudo se justificou. Perceberam: ah, afinal é isto que significa estar vivo.
Encontraram-se dois dias depois, na recepção de um hotel (ou talvez tenha sido logo de imediato, após o dentista; é difícil perceber a lógica sequencial dos acontecimentos, quando o tempo está suspenso) e compreenderam que estavam enganados: afinal, o mundo não se tinha imobilizado quando se viram pela primeira vez; estava a parar naquele momento, naquele preciso momento (ou será que algo que está parado pode parar ainda mais?); no momento em que se tocaram, em que os dedos de ambos se aproximaram e se reconheceram, em que as peles se complementaram: foi aí que o mundo efectivamente parou.
E ainda estava parado e silencioso quando, mais tarde, acabaram de fazer amor e regressaram à vida. Tinha sido mágico, absolutamente mágico; porque não podia ser de outro modo, não havia alternativa possível. Seria sempre mágico. Mas depois, logo depois (e tão depressa que tudo passa, quando o tempo está suspenso), deixara de o ser; a magia desvaneceu-se lentamente, dissipara-se, deixando no seu lugar um vazio e uma ausência, uma privação e um incómodo, uma angústia, uma dor; duas solidões. Foi então, que ele perguntou, numa voz quase desconsolada: que se faz após se ter sido completamente feliz? E acrescentou: sim, como se sobrevive à felicidade absoluta?
Ela poderia ter respondido: toma-se banho. Mas, na verdade, não havia resposta possível. Mesmo que houvesse, ele não conseguiria escutá-la: imperceptivelmente, o mundo (indiferente e capcioso) retomara o seu monótono avanço, recuperando o tempo perdido; e o avanço do mundo, já se sabe, é ruidoso, tão ruidoso.