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Comme d’habitude IV

1.
Por vezes, acordávamos a meio da noite sobressaltados pelo choro estridente e desesperado do bebé que vivia algures no andar de baixo. Resmungávamos sem convicção e enfiávamos a cabeça nas almofadas, à espera que o silêncio regressasse; dizíamos: malditas cólicas. Esperávamos mais um pouco, resmungávamos de novo. E, geralmente, voltávamos a adormecer antes do bebé acalmar, imunes à sua aflição e, também, indiferentes aos murmúrios dos pais, à subtil – por vezes inexistente, apenas intuída – agitação que perturbava o prédio, a noite, o sono.
Até que, um dia, disseste: reparaste que o bebé lá de baixo já não chora há umas semanas? Não reparara. As cólicas finalmente passaram, pensámos; ou mudaram de casa. Na verdade, não os conhecemos (porque haveríamos de conhecer?), nunca os vimos, nem sequer nos cruzámos no elevador ou à porta da garagem ou nas reuniões de condomínio; das suas vidas fomos conhecendo apenas alguns sons, nada mais. Por isso, limitámo-nos a apreciar o regresso do silêncio; achámo-lo natural (um direito nosso, de certa forma): e deixámos de reparar nele.

2.
Depois, passaram mais umas semanas; e tu disseste, um pouco agitada (só um pouco): sabes que, afinal, o bebé morreu? Senti um súbito baque, que logo se foi dissolvendo e dissipando, deixando atrás de si apenas um amargo desconforto; não respondi, tu também não acrescentaste mais nada; olhámo-nos e logo desviámos o olhar (envergonhados? Suponho que sim). Fomos aguardando (em silêncio) que o tempo passasse, lento e inexorável, levando consigo a sensação desagradável, o pensamento incómodo, a memória dolorosa (um bebé que chora na escuridão da noite, aflito: lutando pela vida). Esperamos; talvez amanhã já não nos lembremos dele; ou para a semana que vem, o mais tardar.
(A vida prosseguirá: comme d’habitude. E, claro, não deixaremos de apreciar o silêncio vindo lá de baixo.)

Comme d’habitude III

Prazo de validade expirou...

Comme d’habitude II

1.
Estamos estendidos no sofá a olhar para o vazio da televisão; não falamos, não pensamos, não sentimos: esperamos, simplesmente. E o som da publicidade acompanha-nos, os olhos reagem lentamente aos caleidoscópios de cor que invadem a sala fria, estática. Os dois no sofá, sem nos tocarmos, distantes e isolados. Comme d'habitude.

2.
Mas, então, estendes a mão, sinto os teus dedos pousarem no meu braço; o corpo não reage mas o espírito sobressalta-se um pouco: porque sei o que vais dizer dentro de três, quatro minutos.
E passam, os três, quatro minutos; explosões de cor (e os nossos olhos: abrem e fecham, abrem e fecham), música e vozes disfarçando (preenchendo) o nosso silêncio; e os corpos ainda distantes, excepto a tua mão no meu braço: incomodando. Dizes, como previsto (tom hesitante, indeciso): apetece-me fazer amor.

3.
Não reajo. Pergunto-me se a reacção que aí vem poderia ser diferente caso tivesses perguntado: apetece-te fazer amor? Suponho que não; poderá, afinal, a vontade estar dependente de simples e vulgares nuances gramaticais? Quase sorrio, sozinha.
Tudo como antes, portanto. Distância, silêncio, toque; e o convite, pairando desagradavelmente entre nós como uma subtil intromissão (ou agressão?). Talvez permaneçamos assim durante mais alguns minutos (a duração de uns quinze, dezoito anúncios publicitários, não mais que isso); ou poderá acontecer que te impacientes: e desistas.
Afinal, decides retirar a mão e, sem delicadeza, pousá-la no meu peito; apertas um pouco, os dedos envolvendo o seio, a palma pressionando o mamilo; logo depois, ouço a tua respiração alterar subtilmente, revelando o princípio da excitação (traduzindo: já estás com o caralho teso; pronto), e apetece-me fechar os olhos; fugir. Mas, inesperadamente, ouço-me falar: já reparaste como a expressão “fazer amor” é profundamente ridícula? Parece-me detectar uma breve hesitação no teu ritmo respiratório mas a firmeza dos dedos não diminui; e persistimos em não nos olharmos, aguardando, adiando (para quê olhar, afinal? Há tanto tempo que não vimos no outro nada de relevante, de surpreendente, de recompensador. Há quanto tempo? Dez mil anúncios atrás, talvez; ou mais). Digo (surpreendendo-me a mim própria): não achas? Fazer? Porquê fazer? (Hesito; e logo depois, só um pouquinho desafiadora): Nunca se fala em sentir nem proporcionar nem trocar nem saborear. Não. Fazer.
A tua mão solta-se, sem pressa. Ainda penso que talvez te levantes do sofá e caminhes pesadamente pela sala, fugindo; mas não: permaneces. E os anúncios vão-se sucedendo, desfilando perante nós; unindo-nos no afastamento.

Comme d’habitude I

1.
Quando entro, olhas-me e sorris; aproximo-me devagar, antecipando o conforto do teu beijo, a familiaridade do teu cheiro, a carícia do teu toque. Cumprimos este ritual (desde quando? Como começou, afinal? Não me lembro) conscientes de que o abraço representa, talvez, o momento de maior intimidade, de maior partilha, de maior comunicação entre nós: o momento diário que simultaneamente redefine e rejuvenesce a nossa relação. Mas esta carga simbólica (poética?) não nos inibe, não nos constrange: precisamos do abraço, do que significa; e a cada dia, saboreamo-lo como se fosse a primeira vez, a última vez; a única vez.
Estamos juntos, finalmente: e os nossos corpos aconchegam-se, unem-se. Respiro o teu cheiro enquanto sinto a força dos teus braços, a tensão dos teus músculos; o teu rosto acomoda-se ao meu pescoço e encaixa com perfeição enquanto a minha mão acaricia o teu cabelo com delicadeza. E as nossas respirações serenam em sincronia enquanto o conforto que sentimos e partilhamos atrasa momentaneamente a voraz passagem do tempo. Ou, pelo menos, parece que assim é.
Pergunto-me, como sempre, se ainda sorrirás; que expressão terá o teu rosto? E os olhos: estarão abertos ou fechados? Não sei, talvez não queira verdadeiramente saber; afinal, é irrelevante.

2.
Cumpro, então, o meu hábito secreto. Os teus cabelos estão, como sempre, junto ao meu rosto, magicamente próximos; e concentro-me neles: olho-os, exploro-os, estudo-os; até encontrar o que procuro.
Nunca te contei, nunca falámos disto; mas a verdade é que durante o nosso abraço diário vou estudando e realizando uma espécie de inventário mental do teu cabelo. A verdade (suspeito que não gostarias de a conhecer ou, pelo menos, de a consciencializar, de a verbalizar; mas é, efectivamente, a realidade concreta e palpável, definitiva) é que todos os dias descubro um novo cabelo branco na tua cabeça.
Sim, todos os dias: um novo abraço, um novo cabelo branco; todos os dias: menos um dia.

3.
Por vezes (como agora), sinto a tentação de te perguntar se não terás já reparado nesta evidência da passagem do tempo, da diminuição dos dias disponíveis; terás notado que envelheces? E por que motivo nunca falámos sobre isso? Gostava de te confessar, também, o meu receio mais aflitivo; confidenciar-te que temo um pouco o dia em que todos os teus cabelos estejam brancos; porque, quando isso acontecer, como poderei continuar a ter a percepção da passagem do tempo? (Suponho que sorrirás, se te falar disto.) Quando for impossível descobrir um novo cabelo branco, como poderei ter a certeza de que o tempo ainda está efectivamente a passar, dia após dia, comme d’habitude? O que poderá testemunhar a mudança, provar-me que o tempo não parou, pelo menos para nós?
Sim, gostaria de te falar sobre tudo isto; e escutar o teu riso irónico e displicente, enquanto me escutarias, atenta, surpreendida; mas ainda não será hoje, agora. Porque sinto o teu corpo desprender-se do meu, afastando-me com suavidade. E logo desaparecem as reflexões, substituídas pela dúvida habitual, irrelevante e inócua, insistente: quanto tempo estivemos abraçados? (Por vezes, faço breves e ingénuos cálculos, estimativas, projecções: tentando adivinhar.) Quase em simultâneo, outra questão (menos irrelevante, menos inócua; mais insistente): por que motivo és sempre tu a decretar o fim do abraço?

4.
Olhas-me durante um instante, sorris (ou será ainda o mesmo sorriso?); depois, afastas-te, lânguida e preguiçosa (rejuvenescida?). Perguntas, lá de longe: o que te apetece para o jantar?

# 60: Enfado

1.
Aproxima-se, silenciosa; toca-me no braço e sorri; pouso o livro e tento disfarçar a contrariedade que sinto por estar a ser interrompido correspondendo ao seu sorriso. Diz que tem fome; respondo que já vou preparar o almoço; ela volta a sorrir e afasta-se, silenciosa. Eu pego no livro: e leio.

2.
Pouso o livro e espreguiço-me ligeiramente, tentando não reflectir demasiado no que acabei de ler; tiro os óculos e fecho os olhos, com força, proporcionando-lhes um breve intervalo. Sinto um prenúncio de dor de cabeça, aproximando-se; e fome, também.
Levanto-me e caminho em passos lentos até à cozinha; abro o frigorífico e tiro de lá uns bagos de uvas, que vou comendo enquanto espreito distraidamente pela janela; carros a passarem, indo e vindo: como sempre; mas continuo a olhar, na esperança que um destes dias aconteça algo diferente.
Apanho os caroços de uva que distraidamente cuspira para o chão e atiro-os para o balde do lixo; lavo as mãos cuidadosamente, enquanto me repreendo por não ter lavado as uvas. Procuro no congelador a caixa das mini-pizzas e ponho três no microondas. Um minuto e quarenta e cinco segundos, passando lentamente; a campainha que toca e um cheiro desagradável, artificial, a inundar a cozinha. Arrumo as pizzas no prato, lavo uma folha de alface, descasco uma pêra.
E chamo-a. Ela chega a correr e olha para o prato, sorri. Pergunta: outra vez pizza? E acrescenta, baixinho, só para si: estou mesmo com sorte. Abraça-me, apressadamente; depois, procura o comando e liga a televisão. Feliz.

3.
Caminho pela casa, entediado. Paro em frente de todas as janelas: e olho, à espera de qualquer coisa. Acabo por me sentar em frente do computador, ligá-lo: leio jornais durante três ou quatro minutos, visito um blogue onde leio umas cinco palavras antes de me aborrecer, actualizo o acrobat reader, visito o email; apetece-me música (ou melhor: apetece-me um silêncio menos intenso, menos ostensivo, menos incomodativo) mas não me consigo decidir por nada e acabo por desistir. Desligo o computador. Dou mais uns passos, sem sentido nem objectivo; pergunto-me se a dor de cabeça se concretizará ou não (sempre será uma distracção). Regresso à poltrona, sento-me, pego no livro. E é então, quando estou a ler a primeira palavra, que ela me chama.

4.
ELA (um pouco receosa): Prometeste que hoje íamos ao parque.
EU (contrariado): Está bem. (Suspiro, sem o disfarçar. Pausa muito breve.) Vamos daqui um bocado, antes do lanche.
ELA (feliz): Ok.
(Vira-se para a televisão, esquecendo de imediato a minha presença. E eu afasto-me, tentando decidir se me sinto contrariado ou não.)

5.
Sento-me num dos bancos e abro o livro preguiçosamente, começo a ler. Ela já trepou para um dos balancés e ri alto, muito alto. Esquecida de mim: outra vez.
Vou lendo, sentindo-me desconfortável: sol demasiado quente; banco muito rijo (mas não são todos?); uma vaga sensação de sede, ainda incipiente; uma mosca que por vezes aparece, zumbindo; e pressa, a constante pressa de partir, de estar noutro lado. Terão passado quatro minutos, seis no máximo: e trinta minutos de permanência é o mínimo aceitável pela minha filha. Por vezes, procuro-a com o olhar e fico a vê-la correr daqui para ali, dali para aqui; risos e gritinhos, felicidade. Mas regresso sempre ao livro; refugiando-me nele; leio alguns parágrafos, paro, mudo de posição; aborreço-me. Recomeço.
De repetente, destaca-se no murmúrio geral a voz de uma mãe a incentivar o filho, num tom presunçoso e condescendente; o miúdo olha-a, embaraçado, sem vontade de fazer o que a mãe deseja; mas ela não se cala, insistente e maçadora. Ele hesita e acaba por começar a trepar, impulsionado pela vergonha de sentir em si os olhares de todo o parque. Olho-a, curioso, distraído, e à distância parece-me uma mulher desagradável, com uma postura excessivamente (infundadamente) vaidosa; vou assinalando os pormenores que me desagradam (como se isso fosse relevante para ela, para alguém): óculos de sol enfiados no cabelo, horríveis e desmesurados, brilhantes; vestido demasiado curto revelando umas pernas muito longas, muito bronzeadas, muito desinteressantes; braços fortes e musculados, pouco femininos, denunciando presença frequente no ginásio; telemóvel na mão; anéis em muitos dedos, pulseiras; unhas pintadas, ostensivamente provocantes. Tento adivinhar onde estará a inevitável tatuagem enquanto vou observando os esforços do garoto, que de repente se desequilibra e grita, assustado; a mãe levanta-se e corre, decepcionada e furiosa (sim, parece-me que está mesmo furiosa); temo que bata no garoto mas não o faz, limita-se a pegar nele e pousá-lo no chão (os pés embatem com violência na terra, provocando uma pequena nuvem de pó); depois, agarra-o pelo braço e arrasta-o para a saída do parque, em silêncio. Fico a vê-la afastar-se: as nádegas bamboleando sob o tecido leve do vestido, uma pulseira balanceando no tornozelo; e o miúdo: cabisbaixo, talvez aliviado.
Regresso ao livro mas sou incapaz de me concentrar. Olho em redor mas nada me capta a atenção, nada me entusiasma a curiosidade; a miúda continua a correr de um lado para o outro, juntamente com outros miúdos. Há mais mães espalhadas pelos bancos (óculos escuros no cimo da cabeça e telemóveis nas mãos, olhares absortos), alguns casais de avós com máquinas fotográficas nas mãos e tristeza (ou será apenas indiferença?) nos olhares; gritos distantes da gente que joga futebol na outra ponta do parque misturados com os ruídos do tráfego da cidade, dissolvendo-se no sussurro dos pássaros escondidos pelas árvores.
E inevitavelmente: alguém conhecido que se aproxima com um sorriso.

6.
ELE (curioso): Qual é a tua?
EU (apontando): A que tem o boné cor de laranja.
ELE (surpreendido): Está tão grande. (Pausa breve.) Já tem o quê, seis?
EU (indiferente): Oito.
ELE (espantado): Oito? Fogo. Já anda para aí no segundo ano, não?
EU (indiferente): No terceiro.
(Ficamos os dois a olhar a miúda, em silêncio. O cão dele está sentado junto aos seus pés, imóvel e indiferente.)
ELE (quebrando o silêncio, que se torna algo desconfortável): Pois é, costumo passar por aqui com alguma frequência. (Apontando o cão.) Ele gosta de olhar para os miúdos. Correr atrás deles.
EU (olhando para o cão): E filhos? Continuas a pensar não ter?
ELE (após um longo silêncio, num tom pesaroso, quase envergonhado): Sabes, não sou eu que não quero. (Estende a mão e acaricia a cabeça do cão, com ternura; desvio o olhar, um pouco embaraçado.)

7.
Fico a vê-lo afastar-se, caminhando lentamente; o cão vai farejando o chão, um pouco mais atrás, indiferente ao dono. Há crianças que param durante uns instantes a olhar o cão mas nenhuma se aproxima, talvez receosas, talvez envergonhadas.
Um homem que passeia o cão. Como eu: que passeio a minha filha.

8.
Gelados na esplanada. Ela demora muito a escolher, indecisa; eu impaciento-me um pouco mas tento não o revelar; ela, como sempre, impacienta-se com a minha impaciência. Acaba por escolher, apressada; e mal a funcionária da esplanada lhe coloca o gelado na mão, por certo que se arrepende da sua escolha.
Sentamo-nos, evitando que os olhares se cruzem. Ela vai mordendo o gelado cuidadosamente, com aquela expressão estranha que as crianças – apenas as crianças – possuem: uma mescla perfeita de excitação e enfado; por vezes, tagarela um pouco; eu aceno com a cabeça, fingindo que escuto.
Ao nosso lado, a mãe estridente e o filho envergonhado partilham uma torrada, em silêncio, (também) sem se olharem. O miúdo parece indiferente e alheado, tal como a mãe. Recosto-me na cadeira e olho-a, sem pudor nem embaraço, percorrendo de novo os pormenores – superficiais mas marcantes – que me captaram a atenção, no parque; óculos de sol ainda enfiados no cabelo, horríveis e desmesurados, brilhantes (para que servirão, afinal?); vestido demasiado curto revelando as pernas muito longas, muito bronzeadas, muito desinteressantes (contudo: custa-me um pouco não as olhar); braços fortes e musculados, pouco femininos, denunciando presença frequente no ginásio (de certa forma, excitantes); telemóvel na mão (mas não há forma de tocar, pensará ela); anéis em muitos dedos, pulseiras (que entrechocam e tilintam, de forma desagradável); unhas pintadas, ostensivamente provocantes (mas e a tatuagem, onde estará? Ao fundo das costas, talvez).
Mas além do aspecto físico (que me exaspera um pouco mas, em simultâneo, me cativa de forma inesperada, intensa), sinto um breve fulgor de empatia com esta mulher. Porque, afinal, há algo profundo e inconfessável que nos une, silenciosa e secretamente: a obrigação de entreter os filhos; e o enfado que essa obrigação nos causa.
Claro que me sinto terrível, ao pensar isto; de mesma forma que me senti terrível no parque, quando pensei em homens que passeiam cães como se fossem seus filhos e homens que passeiam os seus filhos como se fossem cães (sinto de novo um incómodo no estômago, ao consciencializar este pensamento repugnante; e contraio-me ligeiramente, talvez até tenha feito uma careta de repulsa; a miúda, atenta e preocupada, pergunta: estás doente, papá?). Mas é precisamente por isso que não consigo deixar de a olhar, tentando talvez captar a sua atenção, o seu interesse; porque, na verdade, suponho que gostaria de discutir este assunto com alguém, conversar sem correr o risco de ser recriminado, confessar-me a alguém com pecados semelhantes; perceber que não sou o único.
Mas o gelado está quase no fim; na outra mesa, o miúdo brinca com um pedaço de torrada, aborrecido e desinteressado. E os adultos: olham-se, finalmente. Apenas um breve olhar, fugaz e perscrutador; uma avaliação de possibilidades, calculista e despudorada. Sim, suponho que poderia sentar-me na sua mesa; e enquanto os miúdos correriam juntos para o parque, conversaríamos preguiçosamente sobre responsabilidades parentais; partilharíamos experiências e histórias, embaraços e culpas. Principalmente isso: atenuaríamos e relativizaríamos e desculparíamos as culpas do outro.
Mas o telemóvel dela toca, inesperadamente; e ela atende, sorrindo.

9.
Estamos no carro, parados no trânsito. De repente, apetece-me conversar: e pergunto-lhe sobre a escola; ela encolhe os ombros, desinteressada; recosta-se na cadeirinha, para que eu perceba que está cansada. Não insisto.
Penso momentaneamente na mulher do parque, da esplanada; recordo o seu riso excessivo, enquanto conversava ao telemóvel; e o olhar do filho, (ainda; sempre) embaraçado e aborrecido. Depois, lembro-me do amigo do cão (o incómodo no estômago, de novo). Espreito a miúda pelo espelho, apreciando a serenidade do seu rosto. Alguém que buzina, acordando-me do devaneio, distraindo-me da culpa.
Avanço lentamente, recordando-me de súbito que esqueci o livro no banco do parque. Um breve fulgor de contrariedade, uma imperceptível hesitação; logo depois, um pensamento súbito e imprevisto, libertador: que se foda o livro.
Conduzo alheadamente, confundindo-me no trânsito, na multidão, no anonimato. Sim: que se foda. Tudo.

# 59: Altura

EU (quase distraído): E então refugio-me na varanda. Fumo e olho para o horizonte; sento-me no meu cadeirão e fico por aqui, à espera não sei de quê. (Pausa breve. Encolhendo os ombros, num tom displicente.) Sabes como é.
ELE (um pouco vacilante, como se falando apenas para si): A passar o tempo. (Pausa breve.) A adiar.
EU (num tom melancólico, ignorando o comentário): Geralmente, pego num livro e leio meia dúzia de linhas, sem fazer ideia do que estou realmente a ler. Mas insisto, vou fingindo que estou mesmo a ler, linha após linha; por vezes esqueço-me de mudar a página. (Pausa breve.) Uma desculpa, percebes? Uma forma de ter as mãos ocupadas. (Sorrio, muito brevemente.) Para o caso de alguém se preocupar com o que poderei estar a fazer, ter curiosidade. Lembrar-se de mim.
ELE (pensativo): É curioso, isso. Também já reparei. O modo como as pessoas receiam alguém que não esteja permanentemente ocupado, alguém que se atreva a estar simplesmente em stand by, à espera, em contemplação ou distraído ou assim. (Pausa breve.) Como se a imobilidade representasse um perigo, algo contagioso. Não é?
(Encolho os ombros.)
EU (após uma pausa, ignorando o comentário, a pergunta): Por vezes mudo de livro, agarro no primeiro que me atrai a atenção; ou passo por uma livraria e compro qualquer coisa, quase ao acaso. Mas já nem me lembro do último que li até ao fim. (Pausa breve.) Acessórios, nada mais.
(Ele sorri mas não correspondo; o seu sorriso vai-se apagando, lentamente; evitamos que os nossos olhares se cruzem, como se houvesse algum motivo de embaraço entre nós, algum constrangimento silencioso mas palpável.)
EU (tom distante e rígido, vacilante): E é nessas ocasiões que, por vezes, penso nisso. Sinto que não quero estar aqui, que não consigo estar aqui nem mais um instante; mas não há nenhum outro sítio onde queira estar, para onde me apeteça fugir. Sinto-me preso e condenado, completamente impotente, vulnerável. E então penso nisso.
ELE (após um longo silêncio): Saltar.
EU (um pouco chocado pela violência da palavra): Não é que pense obsessivamente ou metodicamente em saltar. Não, é uma ideia que vem e fica por aí um bocadinho, a pairar. Só isso. Uma espécie de possibilidade académica. Acho que nunca chegou a ser uma verdadeira tentação.
(Pausa breve. Acendo mais um cigarro, com gestos arrastados e mecânicos.)
ELE (olhando-me a acender o cigarro): Apenas uma vontade insistente de fazer algo, de agir. Não é? (Pausa breve.) Provocar o destino, precipitar a mudança. Saborear a ilusão de que, afinal, talvez se controle algo, talvez se tenha algum poder.
(Olho-o, um pouco impressionado com a sua análise; aceno com a cabeça e fumo, tranquilamente. Mantemo-nos em silêncio durante muito tempo, pensativos e distantes, esquecidos da presença do outro.)
EU (quebrando o silêncio e contrariando o leve desconforto que se foi instalando entre nós com um tom falsamente bem-disposto e prosaico): Mas sabes no que penso, por vezes? (Rio, forço-me a rir.) Que nunca saltarei porque serei sempre incapaz de me decidir se a altura é a adequada.
ELE (confuso, curioso; agradecido pela quebra do silêncio, pela regressão da tensão que momentaneamente surgiu entre nós e que, agora, se começa a dissipar): Não percebo.
EU (num tom novo e inesperado, genuinamente bem-disposto): O problema é decidir qual a altura certa. Se saltas de um sítio demasiado baixo corres o risco de não conseguir. Só te aleijas ou assim, e ficas pior do que estavas. (Pausa breve.) Mas se a altura é excessiva, demoras demasiado tempo até chegar lá ao fundo; e esse tempo pode ser suficiente para te arrependeres de ter saltado, percebes? E isso seria terrível, insuportável.
(Pausa longa. Ele levanta-se e dá uns alguns passos, hesitantes, pela varanda; olha lá para baixo, demoradamente. Volta a sentar-se e acende um cigarro, com gestos lentos e preguiçosos.)
ELE (num tom desprendido, sem me olhar): Vives num quinto andar. Parece-me perfeito.
(Rimos em simultâneo, com gosto e sinceridade mas também com desespero, com medo; depois o riso desvanece, muito lentamente. Continuamos a fumar, calados, ouvindo os risos estridentes de crianças que brincam algures.)

# 58: Mecanismos

PACIENTE (um pouco contrariada): Foi um pouco estranho, sabe? Mas pareceu-me, pareceu-nos, tudo muito natural, muito intuitivo e prosaico. Não é que estivéssemos a pensar naquilo, percebe? A analisar o nosso comportamento, a tentar justificá-lo. Não, nada disso. (Pausa breve.) Demos por nós a fazer aquilo, simplesmente; e pareceu-nos natural.
PSIQUIATRA (num tom inquiridor mas um pouco ambivalente): Confortáveis, um com o outro. Juntos, partilhando algo privado, algo íntimo.
(A Paciente acena com a cabeça mas permanece em silêncio. Pausa longa.)
PSIQUIATRA (forçando-se a interromper o silêncio): Mas o que aconteceu? Conte-me.
PACIENTE (após uma hesitação): No início, não soube bem o que pensar daquilo. (Sorri.) Cheguei mais cedo a casa, nem sei porquê, e ouço barulhos na sala; estranhei que ele já tivesse chegado e acho que me assustei um pouco. (O sorriso desaparece.) Sabe como é, pensei logo no pior. Pensei. (Pausa breve. Num tom envergonhado.) A doutora sabe o que eu pensei.
PSIQUIATRA (num tom suave, falsamente vacilante): Uma amante?
(A Paciente acena com a cabeça, sem olhar a Psiquiatra.)
PSIQUIATRA: Mas há algum fundamento para pensar nisso? Algum indício?
PACIENTE (encolhendo os ombros): Não, acho que não.
PSIQUIATRA: Apenas insegurança da sua parte.
PACIENTE (após um silêncio): Talvez. (Sorriso triste.) Porque não?
(Pausa breve.)
PSIQUIATRA (decidida, quase enérgica): Mas continue.
PACIENTE: Entro na sala, silenciosamente. Com medo de o surpreender em algo desagradável mas forçando-me a fazê-lo, incapaz de não o fazer. E no princípio nem percebo bem o que se está a passar. (Sorri.) Está no meio da sala, estendido no chão, a brincar com os carrinhos que o miúdo por ali deixou abandonados. Ali prostrado, a amarrotar a camisa e a gravata, a pasta pousada no sofá; completamente absorvido, distante. A imitar os barulhos, sabe? (Volta a sorrir.) Parece-me um pouco assustador mas, ao mesmo tempo, também enternecedor, percebe? (Pausa breve.) E fico ali a olhar, sem saber o que fazer. Embaraçada, suponho. Por mim, por o estar a interromper, a invadir a sua privacidade; mas também por ele, pelo seu comportamento, pela sua vulnerabilidade.
PSIQUIATRA (após uma pausa, incentivado a Paciente a prosseguir): E quando ele percebe que está lá, a observá-lo, que acontece?
PACIENTE: Há um momento terrível, em que ele me olha com medo e com fúria e sei lá que mais; um olhar muito breve mas tão incisivo, tão doloroso. (Pausa breve.) Assusto-me, devo ter recuado um passo ou dois, com vontade de fugir. Não sei bem. (Pausa breve.) Mas logo depois, aquele olhar dissipa-se; a acusação, o desagrado, o embaraço: desaparece tudo. E sorri.
(Pausa breve.)
PSIQUIATRA (um pouco surpreendida): Sorri?
PACIENTE: Sim, sorri. Um sorriso um pouco envergonhado, um pouco tímido, hesitante, receoso; perscrutador. Mas convidativo, sabe? Um sorriso de quem quer partilhar. De quem quer incluir o outro no sorriso, percebe?
PSIQUIATRA: E como reagiu? Que fez?
PACIENTE: Aproximei-me, simplesmente. E fiz aquilo que talvez fosse menos óbvio, menos natural. (Pausa breve.) Não fiz perguntas; não perguntei o que era aquilo, que significava, que raio se estava a passar. Não perguntei porquê.
PSIQUIATRA: Decidiu aceitar o comportamento dele como algo normal.
PACIENTE: Precisamente. Mas não sei explicar por que o fiz; não foi nada consciente. (Pausa breve.) Não foi nada do género (num tom de voz diferente, dramático): olha para este, ficou maluquinho mas vamos é fingir que está tudo bem. (Pausa breve. Sorriso. Tom normal.) Não, foi algo intuitivo, perfeitamente sincero, autêntico.
PSIQUIATRA (num tom pedagógico, como se recitasse algum de um manual): De certo modo, num plano inconsciente, aceitou o comportamento dele como explicável, como justificável. (Pausa muito breve.) Talvez porque tenha sentido algum grau de empatia com ele, naquele momento.
PACIENTE (receosa): Talvez. (Pausa breve.) Mas suponho que a verdadeira empatia apenas chegou mais tarde. Quando ele, sem que eu fizesse qualquer pergunta, me explicou porque estava a fazer aquilo.
PSIQUIATRA (num tom atento e preocupado, quase subserviente): Descreva-me como foi.
PACIENTE (suspirando de um modo dissimulado, como se estivesse cansada): Sentei-me ali no sofá e fiquei a olhar para ele. Não sei que viu ele no meu rosto mas penso que não encontrou lá nada de mau; embaraço ou sobranceria ou desprezo ou receio, nada disso. Pelo menos, tenho a certeza que não senti nada disso. Nada negativo. E se não o senti, não o poderia mostrar, não é?
PSIQUIATRA (forçando-se a ser paciente): Mas que sentiu, então?
PACIENTE (pensativa e distante): Suponho que apenas curiosidade. Não só de perceber, de compreender. Mas, principalmente, curiosidade de saber o que se iria passar de seguida, de saber o que estava para acontecer.
(Pausa breve.)
PACIENTE (num tom cuidado, quase reverente): Explicou que gostava de regressar à sua infância. Reviver a infância.
(Pausa longa.)
PSIQUIATRA: Por nostalgia? Porque se sentia seguro? (Após uma hesitação.) Para fugir?
PACIENTE: Por tudo isso, suponho. Para fugir, sim. Estava ali a brincar, como uma criancinha, e sentia-se livre, num mundo só seu, que ele próprio controlava. Onde não apareciam surpresas desagradáveis; ou, pelo menos, surpresas desagradáveis que ele não pudesse contornar. (Pausa breve.) Esquecia o mundo real e durante um bocado vivia num mundo imaginário, só seu.
PSIQUIATRA (inconsequente): Como uma criança.
PACIENTE (ignorando a Psiquiatra): O que ele explicou é que não tinha só a ver com controlo. Aliás, a motivação principal nem era a de fugir para um mundo que ele controlava, que dominava. (Pausa breve.) Era, mais, a de fugir para um mundo em que se sentisse relevante. Percebe? (Pausa breve.) Apreciado. Único. De certa forma, indispensável.
PSIQUIATRA (após um momento de silêncio): E quando ouviu isso, sentiu-se identificada.
PACIENTE (um pouco surpreendida): Muito.
PSIQUIATRA (recuperando o controlo da conversa): Fale-me disso. Dessa empatia que sentiu.
PACIENTE (hesitante): Sabe como é. Já falámos disso. (Sorri.) Falamos disso todas as vezes que aqui venho. (Pausa breve.) A monotonia da vida, dos dias. Das relações. A repetição, a banalidade, o aborrecimento, a arbitrariedade. Tudo isso. A sensação de que nada importa muito, que a nossa existência é acidental e inconsequente e irrelevante. Que a nossa presença não é verdadeiramente determinante para nada, para ninguém. (Pausa breve.) Sabe, tantas vezes que me sinto assim. Dispensável. Descartável. Acessória. Sei lá.
(Pausa breve.)
PSIQUIATRA: Mas nunca tinham falado disso? Desse sentimento comum.
PACIENTE (um pouco surpreendida): Nunca. Por isso é que tudo aquilo foi uma espécie de revelação, um inesperado e intuitivo acto de convergência. Surpreendi-o naquele momento vulnerável e ele, simplesmente, falou, confidenciou-se; e eu compreendi-o. Apenas isso. Comunicação básica. Sincronismo. (Pausa breve.) E ele percebeu que o entendia; porque eu sentia algo muito semelhante.
(Pausa longa.)
PSIQUIATRA: Mas, em simultâneo, não se sentiu excluída?
PACIENTE (um pouco surpreendida): Excluída?
PSIQUIATRA (no tom pedagógico de antes): A atitude dele representava, na prática, uma fuga ao mundo real. Ao mundo real que, como é óbvio, a inclui a si. Era uma fuga também em relação a si, à vossa relação.
PACIENTE (pensativa): Mas havia reciprocidade. Porque também eu fugia; também eu queria fugir à nossa relação.
PSIQUIATRA (incisiva): Queria?
PACIENTE (hesitante): Quero.
PSIQUIATRA (após um silêncio): Continuamos, então, a pensar em separação? (Pausa breve.) Em divórcio?
PACIENTE (após um longo silêncio; rindo, nervosamente): É curioso que finalmente tenhamos encontrado um ponto comum, algo que nos une, algo em que estejamos de acordo; e que esse elo comum seja, afinal, a vontade que cada um de nós sente de fugir ao outro. É irónico, não é?
PSIQUIATRA (incisiva): Não respondeu à minha pergunta.
PACIENTE (de novo séria, melancólica; num tom tímido, embaraçado): Não sei.
PSIQUIATRA (surpreendida, um pouco agressiva): Não sabe?
(A Paciente, magoada, abana a cabeça. A Psiquiatra olha-a em silêncio.)
PSIQUIATRA (pesarosa, talvez envergonhada): Desculpe. (Pausa breve.) Mas regressemos àquilo que me estava a contar. Que aconteceu de seguida?
PACIENTE (após uma hesitação): Conversámos. Ele falou-me de como era em criança, das suas longas tardes de brincadeira com os carrinhos; contou-me dos mundos fantasiosos que construía, dos sonhos que tentava concretizar através das brincadeiras que encenava. E eu ouvia, deliciada; compreendia aquilo tudo, porque fora exactamente o mesmo comigo; identificava-me.
PSIQUIATRA: Falou de si? Das suas próprias fantasias, quando era criança?
PACIENTE (sorrindo): Sim. Das barbies.
PSIQUIATRA (correspondendo ao sorriso): Barbies?
PACIENTE (nostálgica): Com ele, foram os carrinhos; comigo, eram as barbies. Contei-lhe como passava horas a fantasiar mundos felizes e ingénuos, perfeitos, seguros, com barbies e kens. E ele ouvia-me, com gosto; surpreendido por se rever em mim, de um modo tão inesperado.
(Pausa breve.)
PSIQUIATRA (num tom profissional e conclusivo): Quando o surpreendeu, ele decidiu não continuar a fugir; deixou-a entrar no seu mundo secreto, partilhou-o consigo. Foi algo instintivo, algo muito revelador. Uma prova de confiança. (Pausa breve.) E você correspondeu, acedendo ao convite. Entrando no mundo secreto; e respeitando-o.
PACIENTE (sorrindo): É mesmo isso. Entrei no mundo dele. Literalmente.
PSIQUIATRA (curiosa): Literalmente? (Sorriso.) Conte-me.
PACIENTE (num tom quase sonhador): Estávamos ali em silêncio, confortáveis; em perfeita sintonia, como já não acontecia há tanto tempo. E não queríamos que o momento terminasse, que tudo regressasse ao que era antes; à normalidade. Queríamos continuar a sentir aquele conforto, aquela empatia. (Pausa breve. Num tom diferente, mais hesitante.) E deve ter sido por isso que ele falou das barbies. Perguntou se eu não me lembrava que tinha uma caixa delas no sótão.
PSIQUIATRA (após uma pausa breve, num tom cuidado e hesitante): E foi buscá-las?
PACIENTE: Fui. (Pausa breve.) E foi então que tudo se tornou um pouco irreal, um pouco pateta. Mas pareceu tão natural, sabe? Pareceu a atitude correcta. (Pausa breve.) Ele a brincar com os carros dele, eu com as minhas bonecas. Consegue imaginar? Os dois esparramados no chão da sala, entretidos como duas crianças. Exactamente como nos teríamos comportado se nos tivéssemos conhecido quando éramos crianças. Felizes e confiantes, arrebatados; indiferentes ao mundo, às conveniências, à normalidade, a tudo. Juntos. (Pausa breve.) Consegue imaginar? Juntos.
PSIQUIATRA (num tom inesperadamente rude e veemente): Sabe, acho que todos os mecanismos que possam salvar a intimidade do casal e reforçar a relação, por mais peculiares que sejam, são válidos. Legítimos. Vale tudo, sabe? Desde que resulte, vale tudo. (Pausa breve.) Mas falamos melhor disto para a semana, está bem?

# 56: Sopa

Prazo de validade expirou...

# 55: Visita

Prazo de validade expirou...

Esboço # 20

Apaga a luz; depois, aconchega-se nos lençóis: e a cama range ligeiramente, o que me incomoda um pouco. Os nossos corpos tocam-se, acidentalmente. Suspira, depois boceja; volta a mover-se, os corpos deixam de se tocar. Silêncio pesado e escuro, espesso; apenas ouço o murmúrio das nossas respirações lentas e dessincronizadas: infinitamente distantes. Então, ela ergue-se; aproxima-se de mim, procurando o meu rosto na escuridão; dá-me um beijo nos lábios, breve e fugaz; um beijo de rotina. Não me movo, não reajo. Diz boa noite; respondo com uma vaga resmungadela. Ajeita-se, uma vez mais, preparada para adormecer. Suspira, de novo; e diz – como sempre, como todas, todas as noites: amo-te; voz cansada, tom desinteressado e distante.
Fico a pensar no seu amo-te; pergunto-me: mas que quer ela, afinal, dizer com isso, que significa amo-te? Para que serve dizê-lo? Penso um pouco nisso, de forma inconsequente e alheada, enquanto ela adormece. Uma ideia inesperada surge: talvez um dia lhe pergunte; e sorrio, no escuro. Sim, poderia perguntar-lhe: que queres dizer com isso?
Movo-me um pouco (timidamente?), ajeitando-me para adormecer; e a cama range, o que me desagrada.

Esboço # 19

Foi boa, a foda. Mas gostei especialmente da forma como me acariciaste o cabelo e me olhaste, depois dos orgasmos. Foi um gesto algo peculiar, inesperado: como se estivesses agradecido? Talvez.
Pouco depois, adormeceste. Respiração tranquila, lenta. O teu corpo a tocar o meu, impondo-se um bocadinho; mas sem ser desagradável. Vou pensando nisto – sentindo isto – enquanto ouço a chuva que vai caindo monotonamente, lá fora; e tão forte que está o vento, esta noite. Virá tempestade?
Agrada-me a tua presença, a companhia (e pergunto-me, um pouco envergonhada: será que também me agradaria, se não estivesses a dormir?). Vou fechando os olhos, lentamente; tão bom que é não ter pressa.
Se ainda aqui estiveres, quando eu acordar, talvez te pergunte como te chamas.

Esboço # 18

ELE (num tom nostálgico, quase triste): Antes, havia manhãs em que acordava leve, vazio: pronto a deixar-me preencher com o que o mundo tivesse para oferecer. (Pausa breve.) Optimista.
EU (um pouco – só um pouco – incrédulo): Optimista, tu?
ELE (pensativo): Sim, optimista; com fé e vontade, com desejo de vida. (Pausa breve.) E a primeira coisa que gostava de fazer era espreitar o céu; ver aquele azul imaculado e sem fim, iluminado pela luz mágica e misteriosa do sol da manhã; descobrir uma nuvem branca aqui, outra ali. E pensar: que dia tão bonito. (Sorri, para si mesmo. Pausa breve.) Deixava a mente vaguear, entretendo-me com pedaços de sonhos ainda não totalmente desvanecidos, misturados com intenções vagas, fantasias indefinidas; sempre sem desviar os olhos do céu, da imensidão libertadora. Não sei. Acho que o céu, para mim, sempre representou uma espécie de catálogo de oportunidades; como se todas as possibilidades, todas as escolhas, estivessem ali, à distância de um olhar. À minha espera. (Pausa breve.) E o tempo a passar; de longe, acabava sempre por chegar um qualquer ruído do mundo, um vestígio de vida, de outra vida: os inevitáveis indícios de que sob o azul do céu, o mundo continuava a rodar, lento, monótono, triste; recusando-se a parar, a desistir; mas caminhando sempre na mesma direcção, sempre com o mesmo objectivo: atingir o ponto de partida; recomeçar; repetir. (Pausa breve.) E lentamente, sentia-me desanimar; sentia o optimismo dissipar-se; de repente, o céu começava a parecer-me opressivo; as escolhas mesclavam-se e confundiam-se. Perguntava-me, acabava sempre por me perguntar: para que servem os dias bonitos, afinal?
EU (num murmúrio): Para nada?
ELE: Alguma vez sentiste o desgosto de acordar com um belíssimo dia pela tua frente e não saberes que lhe fazer, como o aproveitar? Perceberes que, irremediavelmente, o vais deixar fugir, como sempre fizeste antes? Perceberes que irás perder mais uma oportunidade e que, na verdade, não sabes se terás outra, se haverá outro dia bonito na tua vida?
(Sorrio, com tristeza; e essa é a minha única resposta. Lá fora, vai anoitecendo muito lentamente; pergunto-me se aparecerá a lua. Penso, quase distraidamente: talvez amanhã volte a ser um dia bonito.)
ELE (displicente, quase arrogante): E então, um dia, deixei de olhar para o céu. (Pausa breve.) Que se foda o céu.

Feliz


O meu pintor preferido reparou em mim. E concedeu-me um imerecido destaque no seu site. Estou comovido.
(Obrigado.)

Galeria


















Algumas das pinturas que pairam pelas estórias de
Silêncios entre nós:

Andare dove? L’uomo nel paesaggio – Alberto Sughi
April in Paris – Eric Fischl
Artistin (Marcella) – Ernst Ludwig Kirchner
Automat – Edward Hopper
Compartment C, Car 293 – Edward Hopper
Due donne, Notturno – Alberto Sughi
Femme qui tire son bas – Henri de Toulouse-Lautrec
Holiday Inn afternoon – Andrew Valko
Il banco del bar – Alberto Sughi
Krefeld Project, bedroom scene 5 – Eric Fischl
Krefeld Project, living room scene 5 – Eric Fischl
La famiglia, l’amore – Alberto Sughi
Naufragio – Alberto Sughi
Sunlight in a cafeteria – Edward Hopper
Tell a marketer – Kenney Mencher
The raft – Eric Fischl
Underground fantasy – Mark Rothko

# 54: Quando não se sabe o que dizer

Prazo expirou.

O terceiro (brevemente)


Esboço # 17

Após tantos anos de casamento, partilhavam a sensação de que não havia nada mais a dizer, a escutar; conheciam-se intuitivamente, sem surpresas nem decepções: em silêncio. E a comunicação que pudesse existir restringia-se a questões práticas, relativas à manutenção da rotina, à subsistência do casamento. Consideravam, com alguma razão, que a surpresa se esgotara (demasiado depressa?) e que tudo o que agora fosse dito dificilmente surpreenderia o outro, dificilmente justificaria a sua atenção, dificilmente acrescentaria algo; aliás: cada frase inconsequente que fosse proferida poderia até acentuar e reforçar o desinteresse do outro, proporcionar-lhe um pretexto para desistir (desistir de quê?), recordar-lhe que – afinal – estava ali a perder tempo (a gastar tempo), recordar-lhe que o casamento esgotara-se há muito. (É verdade que nunca tinham propriamente conversado sobre tudo isto, sobre esta sensação: mas para quê? Como poderia não ser assim?)
Só pode, então, ter sido por absoluta distracção que naquela monótona tarde de domingo começaram a falar (a chuva batia nos vidros com um ruído agressivo enquanto a televisão disfarçava a cinzentude da sala – das vidas – com explosões de cor regulares; e havia um cheiro peculiar e insidioso, estranho, que ambos – em separado – tentavam identificar). Sim, começaram a falar, palavra após palavra, dizendo e escutando, olhando; e depois: o diálogo foi crescendo lentamente, sereno e agradável.
Foi a primeira vez que falaram em divórcio.

# 53: Seis horas, quase sete


Fotografia de José Luís P. Jorge


1.
Sim, suponho que continuo (ainda) à espera que chegues. Que venhas: e sorrias. Dirás (talvez) que tiveste saudades e olharás para mim em silêncio, durante um instante; e depois? Um beijo, breve, na face ou na testa ou no cabelo; e pegarás no meu copo de água, beberás um pouco. Depois, ficaremos em silêncio, olhando-nos sem pressa nem embaraço, confortáveis. Sem nada para dizer, para acrescentar.

2.
Enquanto fixo o olhar no vazio, por momentos incapaz de controlar (de perceber) os pensamentos que me distraem e alienam, lembro abruptamente o que me explicaram: o carro permaneceu durante horas debaixo das árvores (pinheiros, eucaliptos, ciprestes?), imóvel e silencioso, invisível, enquanto outros carros passavam pela auto-estrada, fulgurantes ou lentos, ruidosos (a noite avançava, escura e sombria, húmida); e tu: morto; eu: desmaiada; é o que contam (vozes sussurradas e pesarosas, comovidas), por isso talvez seja mesmo verdade. Estivemos ali todo aquele tempo (seis horas, quase sete), juntos; ambos mortos. Mas eu (dizem) decidi acordar (não sei bem porquê, para quê); e tu: não quiseste.
Olho em frente, refugiada nos óculos escuros (ofereceste-mos no meu último aniversário, lembras-te?) e envolvida pelo ruído matinal do café, enquanto vou pensando – uma vez mais – no que me contaram e explicaram, no que sou incapaz de recordar (pergunto-me como teria reagido se realmente tivesse acordado e te visse a meu lado, morto; talvez gritasse; talvez me deixasse morrer; talvez fugisse). E o cigarro vai-se esfumando, lentamente; talvez beba um pouco de água, daqui pouco. Passam pessoas perto de mim mas ninguém me olha. O chá deve ter arrefecido: esqueci-me de bebê-lo.
Continuo a olhar em frente, é tudo o que consigo fazer.

3.
Houve uma ambulância, disso lembro-me; depois, os corredores iluminados do hospital – paredes brancas manchadas pela humidade, cartazes de farmacêuticas; o rosto sorridente de uma enfermeira. E eu de olhos abertos mas sem ver nada, incapaz de perceber; gritos distantes, um riso dissimulado; o toque de um telefone, insistente. A enfermeira: sorrindo (dentes pouco cuidados, desagradáveis; e eu a perguntar-me: haverá algures um homem capaz de beijar esta boca, dia após dia?); e o sorriso a tornar-se vagamente desagradável, asfixiante.
Reparo, depois, que tenho a roupa rasgada; mas não me assusto (o que é estranho), tento simplesmente pensar no que poderá ter acontecido, recordar; apetece-me perguntar mas um pressentimento malévolo impede-me de fazê-lo, retrai-me; e, na verdade, não saberia o que perguntar. A enfermeira afastou-se e está, agora, a conversar com outra enfermeira; ainda sorri. Passa um médico, sem pressa, que não me olha. Ouço o ruído de uma sirene, muito distante, aproximando-se. Um ressonar longínquo, o apito regular de um qualquer aparelho hospitalar. Não sei quanto tempo terá de passar até alguém, finalmente, me explicar o que estou a fazer num hospital, estendida numa maca.

4.
A uma mesa do canto do café está sentado um rapaz de cabelos longos e brilhantes – reparo numa borbulha, desagradável, na testa; e há uma cicatriz quase imperceptível no lado esquerdo do nariz; tem um portátil à frente e bebe chá, em goles muito espaçados. Olho as suas mãos, os dedos finos e compridos, muito brancos: suponho que gostava de senti-los a percorrer a minha pele (acariciando), a minha carne (excitando); mas depois, logo depois, o pensamento desfaz-se, o desejo dissipa-se (na verdade, não chegou a existir). Poderia continuar a olhá-lo indefinidamente, com curiosidade, quase com interesse – aprendendo, até, a apreciar as suas imperfeições (a borbulha, a cicatriz, todas as outras); perguntando-me o que pensaria de mim, se por acaso me olhasse; talvez lhe sorrisse, se os nossos olhares se cruzassem; mas: e depois?
(Ou talvez pudesse pegar no telemóvel e ir percorrendo os nomes que guardo na agenda de contactos, tentando lembrar-me de todas as pessoas que fazem parte da minha vida: e perguntando-me se alguma delas estará a pensar em mim, interessada em ouvir-me.)
Há menos gente no café, agora. Lá fora, o sol brilha com excessivo fulgor. Acho que vou acender outro cigarro; e talvez o fume.

5.
Há, então, uma médica que se aproxima; sorri, penso que contrariada, triste. É muito nova, com um aspecto quase adolescente; mas, apesar disso, o seu olhar parece-me estranhamente tranquilo e maturo; permanecemos em silêncio durante um instante, à espera de algo indefinido (sinto o seu perfume discreto e enigmático; tão agradável); percebo que ela aguarda uma pergunta minha, a que certamente responderá com serenidade e afecto; mas (ainda) não sei que pergunta deva fazer. E os segundos vão passando, inconsequentes (perdidos); a fragrância do seu perfume a aproximar-nos. Então, sinto uma ponta de incómodo e apetece-me desviar o olhar, afastar-me e afastá-la; mas não chego a fazê-lo. Porque antes ela estendeu a mão e pousou-a no meu rosto, acariciando-me a face.
É ela que me fala do acidente, pela primeira vez; que me explica como fiquei uma eternidade (seis horas, quase sete) nos destroços do automóvel, talvez desmaiada, talvez em choque; que me conta (voz terna e pausada, embaladora; e a mão, pressionando) que morreste. Depois: um silêncio longo e desconfortável, tenso. Apenas então retira a mão da minha face, interrompendo a carícia; olha-me durante um momento e depois afasta-se, com passos lentos mas firmes, deslizando pelo corredor iluminado; fico a olhar para as suas costas, para o ritmo e simetria do movimento dos seus braços (ainda sentindo o seu toque suave), até que desaparece numa porta que, após a sua passagem, se fecha sozinha, ficando a balançar durante alguns segundos; e a presença do seu perfume dissipando-se no corredor, na minha memória.

6.
Vou esperando, sem impaciência. Alguma gente espalhada pelo café, indiferente e desinteressada; o tempo a passar, lento e regular, compassado, sem destino nem objectivo. O riso abafado (envergonhado?) de alguém; murmúrios de pessoas que falam baixinho, como se o que têm a dizer fosse um precioso e frágil segredo.
Reparo que, agora, há um homem de aspecto sorumbático e nervoso sentado junto ao rapaz do portátil; reparo, também, que os dedos finos e compridos, muito brancos, estão pousados na mão do homem. Tão patético que é o amor, a agressividade da sua ostentação; mas sinto inveja. Depois, logo depois, ignoro quem me envolve (as personagens que compõem este meu cenário) e volto a retirar-me do mundo; refugio-me em mim, nos pensamentos e nas memórias, nas dúvidas.
Olho a entrada, para além da entrada; sim: ainda espero que chegues. E então, quando chegares, depois de me sorrires e de me beijares e de me sorrires de novo, após o silêncio se instalar confortavelmente – há muito que, entre nós, se acabaram os murmúrios e os segredos –, talvez consiga olhar-te, sem desafio nem acusação, e perguntar-te (finalmente) há quanto tempo deixámos de nos amar.

7.
A enfermeira regressa. Pergunta (voz terna e atenciosa: profissional) se preciso de alguma coisa, sabendo que nada responderei. Sorri. Temo que me vá acariciar o rosto ou a mão, imitando a médica, mas não o faz, o que me alivia profundamente. Olha-me, apenas: sem desconforto nem pressa, paciente. Continua a sorrir. Talvez se pergunte de que estou à espera para começar a chorar.
Olho-a, sem animosidade. Talvez devesse explicar-lhe por que não estou a chorar. E penso nisso: há quanto tempo não choro? Olho o seu rosto simpático e curioso, interessado (sim, suponho que interessado), e tento recordar a última vez em que chorei; os segundos vão passando, monótonos: e não consigo.
Suponho que poderia explicar-lhe que, afinal, um marido é apenas uma pessoa com quem se vive, que nos sorri e nos ouve e nos fode e nos aborrece e nos ignora e nos diz – por vezes, é verdade – que nos ama; talvez ela entendesse.

8.
Continuo, então, à espera (não chegámos a despedirmo-nos: e gostava de o fazer). À espera que venhas: e sorrias. Dirás (certamente) que tiveste saudades e olharás para mim em silêncio, durante um instante; e depois? Um beijo, breve, na face ou na testa ou no cabelo; e pegarás no meu copo de água, beberás um pouco – é uma forma dos nossos lábios se tocarem. Depois, ficaremos em silêncio, olhando-nos sem pressa nem embaraço, confortáveis. Sem nada para dizer, para acrescentar.

# 52: Um vestido vermelho


Edward Hopper - Room in New York
1.
Continua sentada ao piano, passando os dedos pelas teclas, sem me olhar. Talvez se pergunte por que razão não reagi à sua entrada na sala, à sua escolha de roupa; optou por um vestido vermelho, longo e sem mangas, que há muito tempo não lhe via; talvez já esteja arrependida da escolha, talvez até se sinta ligeiramente desconfortável – é verdade que o seu corpo já não possui a elegância (a elasticidade) de outros tempos; e ela sabe-o, claro que sabe. Seria possível (aceitável) regressar ao quarto e mudar para algo completamente diferente, algo mais convencional – talvez aquele fato preto que comprámos na última viagem, por sugestão minha – mas é provável que não sinta qualquer motivação para o fazer; ou, pelo menos, que não sinta motivação suficiente; que diferença faria, afinal? Quem se importaria?
Toca uma qualquer melodia monótona e indefinida, que aprendeu algures durante a infância e que certamente não conseguirá identificar, reproduzindo-a mecanicamente, sem paixão nem virtuosismo, talvez sem gosto; depois pára, abruptamente; e o silêncio súbito é agradável, tranquilizador. Pensa (imagino eu que pense) na última vez em que usou o vestido vermelho – aquele baile de gala, quando o pai dela se reformou; lembro-me de repente, não sei como nem porquê; mas lembro-me: tão bem; e consigo, durante um fugaz momento, evocar a serenidade do seu rosto feliz, o cheiro do seu cabelo; a sua mão, pousada na minha. Recordará: tentando contabilizar quantos anos passaram. Quatro, suponho; ou cinco? Não: quatro. E (perguntará a si própria, distraidamente) o que mudou em todo este tempo, para que serviu – para que serve – a lenta passagem dos dias, dos meses, dos anos?
Respira fundo – o ar fresco entra no seu corpo com suavidade, o peito sobe com elegância – e volta a dedilhar as teclas do piano, sem intenção nem vontade. Pouco mudou, quase nada; ou tudo mudou. Haverá (pergunta-se ela; pergunto-me eu) realmente mudança ou apenas uma sugestão – um desejo (persistente e ingénuo, utópico) – de mudança?

2.
Viro a página do jornal, atento aos ruídos da rua, à aproximação de passos – a que horas chegará ele, afinal? Durante um breve instante apetece-me quebrar o silêncio e falar, talvez dizer algo que nos aproxime um pouco, momentaneamente; mais: provocar-lhe um sorriso – tão ambicioso que me sinto hoje –, mesmo que breve e quase (quase) imperceptível, mesmo que secreto (ou até inexistente: desde que o consiga imaginar); contudo, não me movo, suspeito que durante uns instantes nem me atrevi a respirar (temendo o quê?). Mas para que serviria, afinal, o sorriso? Que faria ela com ele? E depois, que viria depois do sorriso? Aperto o jornal nos dedos, com desnecessária violência, enquanto uma inesperada interrogação me percorre a mente, provocatória e insidiosa: para que servem os sorrisos? Viro mais uma página do jornal, devagarinho. A gravata aperta-me. Sinto fome. E pressa: de que este momento passe e venha outro.
Ela volta a insistir com o piano, repetindo a melodia de há pouco (e de repente, sem motivo nenhum – absolutamente nenhum –, a escolha do vestido vermelho parece-me acertada; excitante). Na verdade, não faço ideia do que estará a pensar (alguma vez fiz?), do que estará a sentir. Distraio-me com o cheiro do seu perfume, que me parece um pouco agressivo, pergunto-me se lho terei oferecido; talvez. Volto a concentrar-me no jornal, diligentemente: um político que se suicidou, não se sabe porquê; leio umas linhas, olho a fotografia de um homem sorridente (sim: para que servem os sorrisos?). Continuo a ler; volto a olhar a fotografia do político – penteado impecável, invejo-o. O que me apetecia realmente era ir dormir; aconchegar-me a mim próprio, fechar os olhos; e adormecer, sem me preocupar se ressonarei demasiado ou não. Sozinho? Sim, penso que sim: adormecer sozinho.
Mas arrependo-me do pensamento (arrependo-me? Não; envergonho-me, apenas.); e quase ergo a cabeça, para a olhar. Poderia – fantasio, sem convicção; sabendo que não o farei – esticar a mão e tocar-lhe o braço nu, sentir a sua pele na ponta dos dedos (outra vez, mais uma vez), talvez sentir o arrepio do seu corpo (mas: e depois?). Mais uma pergunta repentina e inesperada, desconfortável, flutuando-me pela mente: para que servem, afinal, as carícias? Fecho os olhos durante um instante, aborrecido com a monotonia dos meus pensamentos; depois, abro-os: e nada mudou.

3.
Inesperadamente, ela fala (e o som repentino da sua voz parece-me belo); pergunta, sem me olhar: lembras-te que, uma vez, fizemos amor contra este piano, de pé? Ergo a cabeça, muito devagarinho, sem a olhar, um pouco curioso, um pouco assustado. E ela prossegue, melancólica (sim, tão bela que me soa a sua voz): numa noite de Verão, quando regressámos de uma festa qualquer, lembras-te? Foi assim um bocado à bruta e acabaste muito depressa, mas foi tão bom. Mesmo bom. E depois rimos muito alto, juntos. E fomos para a cama, continuámos a fazer amor, mais devagar, menos sôfregos. Lembras-te?
Não, não me lembro.