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# 35: Funcionária da Zara (2006 Remix)

1.
Sim, ouves bem: por vezes, odeio o meu filho. Sei que não te surpreendo, sei que apenas te revelo uma verdade que já conhecias, que pelo menos já suspeitavas. Conheces-me bem, lês-me tão facilmente; por isso, sei que percebes: como poderia não o odiar? Sabes como me privou da minha vida, da minha verdadeira vida. Assististe à minha transformação, à minha metamorfose, à minha degradação; agora, já não sou mulher; sou, apenas, mãe. E isso significa ser escrava dele, e do seu bem-estar, ser escrava do choro, da vontade, da fragilidade, da necessidade, da dependência de um ser que não desejei, de um ser que é um acidente. Significa viver em função dele, viver para ele. Sou escrava do meu filho, e por isso odeio-o. Mas também o amo, amo-o muito. Se apenas o odiasse, seria simples, seria fácil. Mas sou incapaz de não o amar. E há tanto para amar: amo a serenidade do seu olhar, por exemplo; e gosto de sentir o seu amor incondicional quando me toca, quando me acaricia; gosto da segurança que me transmite, amo-o quando me faz sentir útil, quando me faz sentir desejada, quando me faz sentir poderosa; gosto do seu cheiro; gosto de o ver dormir, gosto do seu sorriso quando acorda e reconhece o meu rosto. Amo-o mesmo muito: porque, agora, sou mãe; amo-o enquanto mãe, amo-o quando consigo esquecer que já não sou mulher.
Percebeste isto, não percebes?

2.
Mas depois, sabes como é: há sempre algo que te faz regressar inapelavelmente ao passado. Coisas triviais, como o tom da voz de um desconhecido, a sombra de uma árvore ou a forma como uma folha se pega ao sapato, a configuração das nuvens em determinado momento, o movimento de pessoas anónimas numa rua onde passas todos os dias, uma frase num livro, um rosto triste na televisão, o sabor de um bolo, de um rissol, de um cigarro, o convite contido num sorriso inesperado. Algo indefinido e volátil, algo que não consegues caracterizar nem descrever, e que te remete para um qualquer momento do passado; uma espécie de máquina do tempo que te envia para outro instante da tua vida, talvez um instante em que gostasses de ter permanecido, talvez um instante em que foste feliz.
Por vezes imagino que o mundo está repleto de anjos maus, anjos que carregam consigo enormes álbuns de fotografias invisíveis. Estás tu muito bem, muito feliz, a cantarolar no banho, a fazer amor, a comer bolo de chocolate, a tentar adormecer, a cheirar uma flor, a pensar no pai natal, a experimentar roupa nova, a desenhar bonecos num guardanapo e eis-te surpreendida por um destes anjos, que te exibe mesmo à frente dos olhos uma fotografia do seu álbum. E a fotografia representa um qualquer instante banal do teu passado, um momento esquecido da tua vida; vês-te, reconheces-te. E percebes, és obrigada a perceber, como a tua vida é uma simples acumulação de momentos banais, momentos que logo esqueceste, momentos que não conseguiste saborear adequadamente; uma acumulação de fotografias. Agora, está-me sempre a acontecer: vejo as fotografias imaginárias e percebo que passei a vida ansiosa ou preocupada ou aborrecida ou nervosa, de tal modo distraída que não fui capaz de reparar no que é essencial, não compreendi o âmago de cada momento; e só agora, com a passagem do tempo, consigo surpreender em determinado momento do passado a importância e o potencial que fui incapaz de lhe reconhecer em tempo real. Vejo-me perante estas fotografias, estes farrapos fragmentados de felicidade, e percebo a imensidão do que não aproveitei. E a impossibilidade de voltar atrás, de repetir, de recomeçar, exaspera-me. Penso em tudo o que podia fazer e não fiz: e sofro. Amaldiçoo este anjo e as suas fotografias, amaldiçoo a memória. Desejo esquecer, ignorar os erros do passado e enfrentar o presente com serenidade e sabedoria, transformar o presente num passado inofensivo. Mas sinto-me incapaz. E em grande parte, por causa dele. Acho que o bebé é, na verdade, o meu anjo mau. Percebes isto? Sei que estou a ser injusta, que estou a ser estúpida, mas não consigo impedir-me de projectar nele as causas do meu insucesso, da minha infelicidade; e como se não bastasse, ainda o responsabilizo pela impossibilidade em refazer o passado, de regressar atrás e fazer novas escolhas, seguir novos caminhos, experimentar novas possibilidades. Porque foi ele que me condenou a ser mãe; é a ele que atribuo o meu fim enquanto mulher; foi ele que me forçou a mudar de etapa precocemente. E então, odeio-o.
Mas não só por isso. O bebé lembra-me o Marido. Sabes como foi, nunca falámos disto mas tu sabes tão bem como eu. O Marido amava Outra; e quando ela o afastou, ficou inconsolável. Fui eu que o amparei, que o confortei, que o acariciei. Sabes como estava confusa, como ansiava por encontrar o meu caminho; sabes como precisava de uma distracção, de uma motivação. E talvez estupidamente, decidi concentrar-me nele, decidi fazer dele o meu caminho. Focalizei nele a minha necessidade de independência, de rebeldia, de controlo sobre o futuro. Precisava de definir-me, perante mim própria mas também (ou principalmente) perante os meus pais, até perante ti. Precisava de definir o meu futuro académico e profissional, precisava de definir a minha sexualidade, precisava de definir a minha ambição. E nele, no Marido, encontrei uma possibilidade de futuro; também um pretexto para não ser forçada a fazer demasiadas escolhas, demasiadas roturas. De certo modo, assumi-o como um adiamento, transformei-o em pretexto para ir adiando. Uma desculpa. Foi preciso nascer o bebé para perceber; meteram-no nas minhas mãos, a berrar, vermelho e sujo, feio feio, e pensei: não é um bebé, é um despertador. Pensei: e resultou, estou a acordar. Enfermeiras a sorrir à minha volta, e eu a pensar, a antecipar: passaram poucos anos, posso até tentar recuperar este tempo que passou; mas a partir de hoje, sentir-me-ei presa; prisioneira de mim e do meu passado, prisioneira de todas as vidas que poderia ter tido; prisioneira das escolhas que fiz e das opções que desprezei; mas não só: também prisioneira das aparências, das convenções, das obrigações; prisioneira deles. Mãe e esposa: apenas.

3.
E aqui estou, agora. A conversar contigo, a confessar-me: a lastimar-me. Tenho vinte e oito anos e sinto-me uma mulher de quarenta e cinco; pior: receio que a minha vida de agora seja a minha vida quando tiver quarenta e cinco. Não consigo contrariar esta doentia fatalidade que se apoderou de mim e me corrói suavemente, este zumbido constante que me acompanha junto ao ouvido: a tua vida já te proporcionou tudo o que tinha reservado para ti. Ouço este mantra constantemente: e começo a acreditar. A suspeitar que agora terei perante mim apenas repetições, novas combinações, novas versões. A suspeitar que a minha vida futura poderá ser feita de nuances, de subtis variações; talvez surjam algumas novidades mas a estrutura está definida e permanecerá inalterada. É isto que penso. Olhar em frente: e ver monotonia, ver o conhecido. Penso muito nisto, vejo-me como uma simples repetição, ou como se cumprisse algo pré-definido; como se não vivesse: mas reciclasse. Penso: deram-me uma daquelas vidas mais comuns, mais banais, mais lineares; uma das mais baratas; sem extras. Percebes? Ou será que apenas eu sinto isto?
Olho para trás e tenho tão pouco para mostrar. Abandonei o curso, abandonei o atletismo, abandonei quase todos os amigos; já não saio à noite, já não vou a concertos, já não fumo daquelas coisas boas, já não acredito na bondade dos outros, já não sonho ser cantora, já não fodo platonicamente com estranhos, já não tenho vontade de viagens e aventuras, já não rio sem motivo. Agora, os meus dias são feitos de reciclagens, de adiamentos; adiamentos, por enquanto. Em breve, talvez sejam compostos de desistências, de rendições. Intuo que envelhecer é precisamente isso: ir desistindo do que julgávamos possível, do que julgávamos merecer; deixar de acreditar, deixar de sonhar, deixar de desejar. E como vês, estou a envelhecer: já não sou capaz de me julgar especial; antes pensava que era potencialmente melhor que os outros, agora sei que sou apenas banal, indistinguível, dispensável. Não consigo sentir-me bonita, raramente me sinto desejada ou invejada. Por vezes, sinto falta de ser tocada, abraçada, acariciada; outras vezes, cada vez mais, sinto repulsa dos outros, assusta-me a possibilidade de toque, de tocar. Até o sexo se tornou desconfortável, uma espécie de agressão consentida. E sem prazer, sem sonho, sem fé, sem utopia, sem desejo, sem partilha, que resta?

4.
Não, não exagero. Repara como são os meus dias: passo-os com mulheres bonitas que se julgam deslumbrantes ou mulheres feias que se julgam bonitas ou mulheres deslumbrantes que se julgam deusas ou mulheres nojentas que sabem que o são; mulheres que experimentam dezenas de coisas e depois não arrumam nada, mulheres que cheiram mal e nem suspeitam, mulheres que deixam a cortina do gabinete de provas entreaberta para que eu as espreite, as aprecie, as inveje, as deseje; mulheres que me tratam mal, mulheres que me perguntam a opinião e depois não a escutam; mulheres que me tratam com arrogância, mulheres que me apalpam, mulheres que me tentam enganar; mulheres que, temporariamente, deixaram de o ser: para se transformarem, apenas, em clientes da Zara. E eu, que devo fazer? Sorrir sempre. Ouvir, dizer que sim. Impingir conforto, sensualidade, vaidade, ilusão em forma de roupa. Ser a melhor assistente do mês, ser a melhor colaboradora da loja. Deixar de ser mulher, transformar-me em funcionária da Zara. Alguém em quem o Outro não repara realmente, alguém que não interessa nem é considerado enquanto pessoa, alguém de quem o Outro não conhece o nome e não têm desejo de perguntar, alguém em quem não se pensa porque afinal o Outro sente-se tão, tão superior, alguém a cujo sorriso se é indiferente ou se corresponde com displicência, alguém que pode ser substituível sem que o Outro repare na mudança, alguém que existe para ser útil e que se esgota enquanto instrumento dessa utilidade, alguém que pode ser dispensado, despedido, trocado. Uma funcionária da Zara: é o que sou, é aquilo em que me deixei transformar.
E depois: casa. Um marido que não me ama, um filho que nem sempre amo. Jantares acompanhados de noticiários ruidosos e extractos de prestações para analisar com preocupação. Silêncios partilhados. Dissimulação e rancor. Rotina. Auto-comiseração. Discussões de vizinhos, risos de vizinhos. Risos artificiais. Fodas consentidas. Olhares fugidios. Cigarros solitários. Ausência de objectivos comuns. Ausência de objectivos pessoais. Incapacidade de distinguir os dias, as semanas. Aos vinte e oito anos, é esta a minha vida.
Ainda há momentos em que luto, em que acredito; quando espero que o sono venha, por exemplo. Imagino que tinha concluído o curso: poderia ser uma daquelas jornalistas estagiárias que apresentam reportagens insignificantes no final dos noticiários; poderia ter investido no atletismo: provas internacionais, medalhas e hinos, superação de objectivos dia após dia; poderia até cantar numa banda: gravar discos medíocres, pular em palcos, ser assediada. Também poderia ter ignorado o Marido, poderia ter abortado: libertar-me deles. Poderia ter fugido, ter gritado, ter lutado. Foda-se. Ainda posso, ainda estou a tempo. Não achas? Mas tenho medo. E há a preguiça, a inércia, a passividade. Aconchego-me ao corpo indiferente do Marido: afinal, ainda o amo; habituei-me. Depois, quando estou quase a esquecer, a adormecer, o bebé chora; e todo o fingimento de serenidade se esvai, desaparece. Fico quase só: acompanha-me, apenas, o ódio visceral que nasce da certeza da minha incapacidade de ser feliz, de construir a minha felicidade. Busco fugas desesperadas, ilusórias, tento não enfrentar a realidade e aceitar que me transformei numa pessoa ridícula e incapaz, amarga e angustiada, cobarde e rancorosa, inarticulada e ilógica, cruel e injusta, uma pessoa que reconhece o fracasso da sua vida mas é incapaz de assumir a sua culpa, a sua responsabilidade. Busco; e é então que, por vezes, penso em ti. Penso muito em ti, na verdade: penso principalmente no que poderíamos ter tido.
E tu: ainda pensas em mim?

# 34: Sexo de substituição (Lado B)

1.
Sentia que iria ser como a primeira vez; ou melhor: pela segunda vez, teria uma primeira vez. Estava impaciente, tentando conter a ansiedade, tentando disfarçar a excitação. Combatendo o nervosismo, esforçando-me por me mostrar assertiva e tranquila. Tomando a iniciativa.
Despi-me, sem vergonha nem embaraço, e esperei que fizesses o que eu secretamente desejava, há muito, que alguém me fizesse.
E fizeste.

2.
Foi tão bom. E tão decepcionante. Porque tudo o que é muito desejado, ou ansiado ou fantasiado ou aguardado, quando finalmente se concretiza revela-se, afinal, um desapontamento: a concretização prática jamais poderá alcançar a perfeição da ideia, do conceito, da utopia, do sonho. Não achas?
Sim, foi bom. Mas tão distante do que imaginara e antecipara, do que desejara, do que julgara merecer. Tão distante da fantasia, do assombro da fantasia. E talvez resida aqui o segredo do insucesso das relações: a impossibilidade de conciliação ou nivelamento entre a capacidade, infinita, de fantasiar e a possibilidade, limitada, de concretizar.
Gostaria de te falar disto. Mas não consigo, claro que não. Como dizer a alguém: sonhei que eras o sol e descobri que és, apenas, a lua?

3.
Mantemo-nos em silêncio, incapazes de nos olharmos. O cheiro a sexo é tão intenso e arrebatador que quase imagino que ainda me apetece mais; mas não, na verdade não apetece. Gostaria, apenas, de falar. Falar-te de mim. Falar-te-me.
Por exemplo: dizer-te que és apenas o meu segundo parceiro sexual, que é por isso que senti, há pouco, quando me lambias e penetravas e ejaculavas, que te estava a entregar a minha virgindade; como se o passado não contasse, não existisse, ou pudesse ser ignorado. Poderia contar-te que, há muito tempo, numa tarde de chuva, algures num sofá que já não existe, fiz sexo com um rapaz; depois casámos; passaram dez anos; divorciámo-nos. E então chegou a tua vez: um novo recomeço, num novo sofá. Uma possibilidade de concretização de fantasias recalcadas e de fuga à omnipresença da banalidade e da inconsequência, uma possibilidade de partilha de desesperos e risos, de descobertas e deslumbramentos, de prazeres e dores, de dádivas e apropriações. Uma nova tentativa.
Sim, poderia confessar-te tudo isto; mas se o fizesse, teria que ir até ao fim. E confessar o resto: que apesar de seres, pelo menos nesta primeira tentativa, um amante tão bom, foste, misteriosa e incongruentemente, banal. Confessar que apesar de tudo, quase tudo, ser novo e diferente, tudo, quase tudo, me pareceu igual e repetido.
Teria que te dizer isso: e tu não compreenderias.

4.
Movo-me, tentando transmitir-te o meu silencioso desejo: abraça-me. Mas tu não percebes, e afastas-te. Sinto-me desolada, pergunto-me o que poderei fazer para evitar que as lágrimas cheguem e te assustem, te afastem.
É então que me atiro a ti e te devoro. Na verdade, o teu sexo não me apetece muito; mas não me repugna, e isso surpreende-me. Por isso, chupo-te, sentindo-te crescer dentro de mim; que mais poderia fazer, se me sinto incapaz de dizer seja o que for, de te pedir que me abraces, que me acaricies, que me fales, que me ames? Incapaz de te confessar que a volúpia da novidade se dissipou – tão, tão depressa – e já não consigo distinguir-te do que passou, do que pretendia esquecer e superar quando me despi para ti?
Vou chupando: Carne contra carne, carne dentro de carne. Apenas.
Espero que te saiba melhor do que me está a saber a mim; e prossigo, um pouco indiferente, alimentada por essa esperança, enquanto me acaricio a mim própria para que a ilusão de que não estou sozinha, de que há alguém comigo, seja mais fácil de manter. Claro que preferia conversar, confessar. Gostava de puder dizer: na verdade, a maior parte das vezes, o sexo aborrece-me. E sorrir, receber uma resposta em forma de sorriso. Seria agradável passar algumas horas a conversar sobre sexo, em vez de fazer sexo. Conversar, simplesmente. Fugir desta pressão em que se tornou a necessidade de fazer sexo, ignorar momentaneamente a nova regra suprema da vida moderna, aquela que estipula que o sexo é a mais importante forma de intimidade, que o sexo é, de certa forma, um substituto inofensivo e preferencial da intimidade.
Gostava, sim: construir em vez de foder. Mas não sei como.
Por isso, continuo a foder-te, suponho que é preferível a não fazer nada, a deixar-te ir embora. E não é bom nem mau; é igual, simplesmente. Igual ao que sempre foi, ao que sempre será.

# 33: Sexo de substituição (Lado A)

1.
Vejo-a nua, perante mim: oferecendo-se. Olha-me: e no seu olhar não descubro nervosismo nem embaraço; apenas expectativa. Percorro o seu corpo com o olhar e surpreendo-me: uma mulher de trinta e tal anos com o corpo de uma rapariga de quinze. Não é um corpo sensual, que transmita voluptuosidade, que provoque desejo instantâneo; apenas um corpo normal, simultaneamente feio e belo, banal e excitante. Como o meu.
Olho a sua roupa, caída no chão: calças e camisola, nada mais; nada de roupa interior. Por um momento, interrogo-me, procuro uma explicação; e logo a encontro: ela está tão ansiosa como eu; ela está mais ansiosa do que eu. E sinto medo: incomoda-me esta necessidade comum, que afinal partilhamos, que afinal partilhámos secretamente durante todo este tempo; incomoda-me surpreender nela a minha sofreguidão por sexo, a minha necessidade urgente de saciedade, de satisfação, de orgasmo. Incomoda-me descobrir nela a carência que também eu sinto. E pergunto-me: se também ela sente este vazio, como poderá preencher-me?

2.
Aproximo-me, toco-lhe o seio, acaricio o mamilo. Pergunto-me se nos dias de trabalho que partilhámos, na poeira dos gabinetes, durante a inconsequência das conversas que fomos alimentando, ela terá desejado o meu contacto, o meu toque; pergunto-me se terá desejado isto. Ou se esta entrega, este convite, terá nascido de um impulso momentâneo, de uma rendição fugaz, de uma necessidade inadiável; de um certo desespero que apenas pode conduzir à cegueira ou à loucura. Pergunto-me: mas não quero conhecer a resposta. Substituo a mão pela boca, envolvo o seio com os lábios, acaricio o mamilo com a língua. Sinto o seu corpo vibrar muito subtilmente; ou talvez esteja apenas a imaginar. Agarra-me o pénis, acaricia-o através da roupa. Suspira, ou finge que suspira. Caminhamos alguns passos, cambaleando. Deito-a sobre o sofá, afasto-lhe as pernas, ergo-as; ajoelho-me. Beijo-lhe a vagina, penetro-a com a língua, mordo-a, chupo o clítoris. Descontrolo-me: muito mais do que a penetração, ou até mais do que o próprio orgasmo, é disto que sinto falta, é isto que mais me excita. Esqueço tudo, desisto da vida, suspendo-me; durante uma infinidade de tempo, tudo o que conta é esta sofreguidão, esta tentativa desespera de saborear a intimidade, de provar a carne, de sentir o cheiro; de beber. Esqueço quem sou e com quem estou. Esqueço tudo: alimento-me, apenas, deste sabor. Ela contorce-se, aperta-me a cabeça com as coxas, puxa-me contra si; escuto gemidos, vindos de muito longe. Continuo: tento entrar. Sinto o pénis pulsar dentro das cuecas; doendo. Apresso-me a libertá-lo e penetro-a: apressadamente, desajeitadamente. Ejaculo pouco depois. E surpreendo-me a gemer, surpreendo em mim um desejo insuportável de chorar. Percebo que fui eu que gemi todo este tempo.

3.
Enquanto sinto o pénis murchar, invade-me a vergonha: acabei de me masturbar; não pensei nela (esqueci, até, quem era), não pensei nos seus desejos ou necessidades; usei-a para me satisfazer. Desprendo-me e deito-me sobre ela, para não ter que a olhar. Sinto o seu sabor na boca, sinto o seu cheiro dentro de mim. Penso: roubei-a, apropriei-me dela. Não sou capaz de me mover, de falar; de a enfrentar. O mamilo, ainda rígido, excitado, acaricia-me a face; e o coração bate-me junto ao ouvido, monótono e cansativo. Desejo adormecer. Fugir. Esquecer. De repente, penso: teria sido mais decente estar com uma prostituta; pelo menos, haveria uma troca, daria algo, pagaria; mas, com ela, não dei nada, absolutamente nada, roubei-a. E agora, sinto-me incapaz de reagir; limito-me a esperar, a pensar no melhor meio de fugir.
Penso: se conseguisse falar, se conseguíssemos comunicar, talvez ainda houvesse uma possibilidade, uma esperança. Poderíamos partilhar sensações, partilhar intimidades. Mas sei que não o faremos, sei que seremos incapazes de transpor a fronteira do sexo. Sei: estamos condenados a foder; e nada mais. E ficaremos aqui, imóveis, ainda ofegantes, talvez para sempre; ou até o desejo nos dominar de novo, e nos impelir um contra o outro.

4.
E tanto que eu gostava de conversar, de confessar. Gostava de puder dizer: na verdade, a maior parte das vezes, o sexo aborrece-me. E sorrir, receber uma resposta em forma de sorriso. Seria agradável passar algumas horas a conversar sobre sexo, em vez de fazer sexo. Conversar, simplesmente. Fugir desta pressão em que se tornou a necessidade de fazer sexo, ignorar momentaneamente a nova regra suprema da vida moderna, aquela que estipula que o sexo é a mais importante forma de intimidade, que o sexo é, de certa forma, um substituto inofensivo e preferencial da intimidade.
Gostava, sim: construir em vez de foder. Mas não sei como.

5.
Sinto-a mover, debaixo de mim; percebo a mensagem: levanta-te. Levanto-me, saio. Ficamos os dois sentados no sofá, lado a lado; ela, nua; eu, com as calças pelos joelhos. Ridículos. Em silêncio, sempre em silêncio. E quando este embaraço que nos une se torna insuportável, ela aproxima-se e baixa-se sobre mim. Acaricia-me o pénis com a ponta da língua, envolve-o com os lábios. Chupa. Muito lentamente, sinto-o endurecer, crescer. Olho-a: e vejo como se agita; vejo com leva a mão à vagina e se acaricia. Penso: agora, é ela que se masturba, usando-me. Penso: como somos patéticos, cada um de nós buscando no outro a satisfação dos seus desejos; não fazemos amor, somos incapazes de trocar afecto, somos incapazes de comunicar através dos corpos; limitamo-nos a esfregar, a friccionar partes de nós. Agora, o pénis está completamente erecto. Ainda é bom, ainda sinto prazer; mas dentro de alguns momentos, começará a ser incómodo; e depois, logo depois: desagradável. Mas ela continuará, indiferente, até se saciar. Como eu continuei.
Carne contra carne, carne dentro de carne. Apenas.

6.
Tento fugir, distrair-me. Recordo como me surpreendeu o seu convite para jantar (e até eu, que sou ingénuo, percebi: janta comigo significa fode-me); como me surpreendeu a expressão ansiosa com que abriu a porta; como me surpreendeu o tom artificial da conversa que tentámos manter durante o jantar; como me surpreendeu o modo deselegante e repentino como se expôs perante mim. E antecipo: o desconforto da separação. Antecipo: amanhã, os dois no gabinete, em silêncio.
Não temos nada para dizer. Nunca tivemos, nunca teremos.
Ela continua a chupar. E eu penso em como me sinto desesperadamente só, penso como ela se deverá sentir desesperadamente só. Penso que, pelo menos, temos isto a unir-nos; temos, afinal, algo em comum; um ponto de partida. E quase consigo ter esperança, quase consigo acreditar. Quase.

Parêntesis

É altura de agradecer a todos os amigos, potenciais amigos, misteriosos desconhecidos e anónimos em geral que tiveram a generosa amabilidade de por aqui passar e deixar uma opinião.
Muito obrigado:
Ana; Ana Lacerda; Azimute; Bruno Diónis; Carolina; Catatau; Cláudio; Darlan Cunha; Dng; Dorab; Fábio; Fernando José Rodrigues; Fernando Venâncio; Gato Escaldado; George Cassiel; Guidite; Hmbf; Inês Leitão; Isabelnurse; Jlm; José Lopes; Kraak / Peixinho; Margarida Celeiro; Mc; Melena; Mitro; Parole; Pastor Peregrino; Paula; Paulo; Pé; Pedro Chagas Freitas; Pegada; Pilantra; Pipoka; Renato C; Ricardo & Carla; Sabine; Salsolakali; Semcantigas; Sherazade; Sissi; Vando; Violeta13; What am I.
Vamos a ver se há ânimo para manter a gaveta aberta por mais uns tempos.

# 32: Um deus

1.
Ligo o rádio e faço uma passagem rápida pelas estações habituais, em busca de uma distracção convincente. Ela olha pela janela, ignora-me; há luzes ocasionais que chegam da rua e iluminam o interior do carro: espreito o seu rosto e confirmo que o desdém, o desconforto, o incómodo, o desagrado ainda persistem. Sinto-me culpado, sinto-me também arrependido; sinto-me impotente: como sempre. Sinto-me a mais, como se a minha simples presença fosse uma agressão desmesurada e intolerável. Encolho-me, dividido entre o desejo corrosivo de acariciar o seu joelho e o medo paralisante de ter destruído a minha última oportunidade. Desejo falar, sei que tenho de falar; mas não encontro palavras, sei que não conheço palavras suficientes. Entretanto: os meus pés pisam pedais, as minhas mãos rodam o volante; o carro avança, o mundo gira.
Um semáforo laranja, lá à frente. A estrada está deserta, escura: poderia acelerar, ignorar a ordem de paragem, continuar. Mas um impulso súbito ordena-me que pare; invade-me uma vontade violenta e tumultuosa de agir, de contrariar o destino, de lutar por mim e por ela e por nós. Aproveitar esta pausa e falar, dizer uma palavra, salvar-me.
Paro e olho-a. Estendo a mão, que talvez esteja a tremer um pouco, e pouso-a sobre o seu joelho; sinto a pele, fria e eriçada, arrepiar-se, insurgir-se contra o meu toque, a minha agressão, a minha tentativa. Agita-se muito ligeiramente mas não me olha. Mantenho a mão, tentando convencer-me que disso depende a minha sobrevivência; pensando: este toque é o único contacto que ainda nos une. E aguardo, à espera que me ocorram as palavras oportunas, ou simplesmente quaisquer palavras.
Mas já não há palavras.

2.
É então que o rapaz vindo do escuro abre a porta e aponta-me uma arma à cabeça. Diz: salta cá para fora. Ouço mas não compreendo, sinto-me incapaz de me mover, de pensar, de compreender. Em silêncio e com aparente indiferença, ele agarra-me pela camisola, junto ao pescoço, e puxa-me, com violência mas sem fúria; quase contrariado. Caio na estrada, sentindo uma dor tão insuportável que talvez seja apenas desamparo ou abandono ou incompreensão. Ele já está sentado no meu lugar; aponta-lhe a arma e diz: daqui para fora. Ela move-se devagarinho, com gestos contrariados, cansados, indiferentes. Talvez ainda não tenha compreendido o que está a acontecer: o medo ainda não chegou.
E é a vulnerabilidade do seu rosto que me desperta e impele a agir; sinto-me sufocado por uma amálgama de medo e ódio e desespero e indiferença e raiva e indignação. Levanto-me, tento levantar-me: disposto a lutar, certo de que a força da minha indignação me tornará invencível. O rapaz olha-me, lê o meu rosto. Aponta a arma e dispara. Depois, fecha a porta e arranca, devagar, com calma, com tanta, tanta calma.
Estou de novo caído na estrada. A surpresa esvai-se rapidamente e a dor surge, intolerável. Dor verdadeira, dor física, dor da carne: dor. O sangue, quente e pegajoso, envolve-me a coxa, transborda de mim e cai no alcatrão; sinto-me deslizar para um estado apático de indiferença e cansaço, à medida que o corpo enfraquece, tentado a desistir. Mas esforço-me por reagir, por lutar. Grito silenciosos foda-se, convoco ódios apocalípticos; esforço-me por não sentir pena de mim. E, de repente, lembro-me dela; procuro-a com o olhar, sôfrego. Vejo-a: no meio da estrada, a olhar-me. Como uma criança que não compreende, que pressente um perigo mas ainda não conseguiu assimilá-lo, senti-lo, demonstrá-lo.
Deito-me no alcatrão, à espera. As dores são insuportáveis e a tentação de desistir ronda-me, sedutora. Mas, uma certeza inexplicável, transcendental, assegura-me que não morrerei; sei que o tiro não foi disparado com intenção de matar.
E recordo o rosto do rapaz. Recordo a indiferença, o desprezo, a supremacia. Intuo que não lhe teria sido particularmente penoso apontar à cabeça ou ao coração; intuo que a escolha da perna foi, afinal, uma generosidade. Compreendo que devo estar agradecido: poderia assassinar-me e não o fez. Devo agradecer a sua bondade. E penso: não voltarei a estar tão próximo de um deus.
Fecho os olhos. Distante e vago, ouço um grito; o grito dela. Finalmente.