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Apenas de Passagem: Exposição + Ebook

A exposição de fotografia de Tina Azinheiro “Apenas de Passagem” será inaugurada no dia 3 de Julho, na Livraria Arquivo (Leiria); no mesmo dia, será apresentado um ebook contendo reproduções das fotografias expostas e vinte contos originais que escrevi a partir de cada uma das fotos.
Por agora, fica mais um exemplo.



(O homem está sentado num dos troncos, numa postura descontraída. Como se assim estivesse desde sempre, como se assim pretendesse continuar indefinidamente.)
DEUS (desinteressado): Que tem de especial?
EU (sem retirar os olhos do homem): Repara no que faz, sempre que se aproxima alguém.
(Ambos o espiamos; uma mulher aproxima-se e passa, apática e distante.)
EU (entusiasmado): Viste?
DEUS (algo agastado): Não. O quê? De que falas?
EU (paciente, talvez um pouco sobranceiro): O sorriso.
DEUS (após uma breve hesitação): Sim, sorri sempre que alguém se aproxima.
EU (excitado): Pois sorri. Mas ninguém repara nele; ninguém vê os sorrisos.
DEUS (olhando o homem com mais atenção, mais interesse): E apesar disso, sorri.
(Mais alguém que se aproxima; ambos nos preparamos para apreciar o novo sorriso do homem, expectantes.)
EU (pensativo): Porque sorrirá?
DEUS (num tom sonhador, que me surpreende): Talvez porque não consiga evitar fazê-lo.
EU (após uma longa pausa): Mas não faz sentido.
DEUS (sorrindo, com tristeza): Sentido? (Olha-me, com curiosidade; penso que irá dizer algo mas percebo a sua hesitação, a sua desistência. Mantém-se em silêncio durante muito tempo, contemplando o horizonte. Depois acrescenta, num tom displicente; ou provocatório?) Talvez seja essa a sua função.
EU (admirado): Sorrir?
DEUS (num tom introspectivo, como se falasse consigo próprio): Sim, sorrir sempre. (Hesita. Embaraçado?) Até que alguém precise desse sorriso.
EU (curioso): Mas que faria esse alguém com o sorriso?
DEUS (olhando-me): Que faria? Corresponder-lhe-ia. (Sorri.) É para isso que servem os sorrisos, para que alguém sorria de volta.
EU (incapaz de sorrir, de inventar um sorriso, de fingi-lo): Ou talvez a motivação seja outra.
(Permanecemos em silêncio; gostaria de corresponder ao seu sorriso mas não consigo fazê-lo.)
DEUS (perscrutador, ignorando o meu momentâneo e despropositado agastamento): Qual?
EU (num tom fantasista): Talvez sorria simplesmente à espera que alguém lhe pergunte por que motivo está a sorrir.
DEUS (surpreendido; verdadeiramente curioso na minha resposta): E que responderia, se alguém perguntasse?
EU (olhando o homem e reparando como a sua expressão é apática e impassível quando não está a sorrir): Não faço ideia. Talvez algo banal, talvez algo genial. Talvez nada.
(Ambos olhamos o homem, estranhando que ninguém se aproxime há algum tempo, que ninguém venha e lhe proporcione uma oportunidade de sorriso.)
DEUS (surpreendendo-me): E se experimentássemos perguntar-lhe?
(Muito tempo depois, sou eu o primeiro a levantar-me.)

Obrigado, Gato

Chega de Fado, interpretado pelo Gato – Grupo de Teatro, com encenação de Pedro Wilson. Leiria, 17 de Abril de 2010.
(Fotos de Sílvia Alves)







Apenas de Passagem: Exposição + Ebook

A exposição de fotografia de Tina Azinheiro “Apenas de Passagem” será inaugurada no dia 3 de Julho, na Livraria Arquivo (Leiria); no mesmo dia, será apresentado um ebook contendo reproduções das fotografias expostas e vinte contos originais que escrevi a partir de cada uma das fotos.
Por agora, fica um exemplo.


DEUS (apontando a mulher que caminha lentamente na rua, à nossa frente): Que transporta ela naquele saco, sabes?
EU (olhando-o com curiosidade, perguntando-me se estará mesmo interessado em saber): Os seus sonhos.
(Continuamos a avançar, em silêncio. A mulher parece ter alguma dificuldade em sustentar o peso do saco que transporta às costas; mas ninguém se aproxima para a ajudar, ninguém a olha sequer.)
DEUS (olhando o saco): Não percebo. Que queres dizer com isso?
(Apetece-me sorrir; mas não o faço.)
EU (num tom sério, pedagógico; talvez um pouco condescendente): É uma tradição antiga que existe nalgumas aldeias desta parte do país; quando aprendem a escrever, as crianças são encorajadas a registar em pedaços de papel aquilo que mais desejam, aquilo com que sonham. (Pausa breve.) Aquilo que esperam do futuro.
DEUS (interrompendo, ligeiramente agastado): Para quê?
EU (encolhendo os ombros, num tom algo displicente): Quem sabe, talvez apenas para exercitarem a escrita. Mas há crianças que vão crescendo e mantêm o hábito. (Incapaz de contrariar o tom provocatório.) Talvez apenas para que com a passagem do tempo e a dureza da vida não esqueçam aquilo que é importante. O que as motiva a viver.
DEUS (agastado): As pessoas não vivem apenas para concretizar os seus sonhos, as suas fantasias.
EU (num tom desinteressado): Talvez não. Por isso é que para muitas pessoas vai bastando sonhar; vão simplesmente acumulando sonhos, esquecendo-se ou desinteressando-se de os concretizar. (Pausa breve.) Basta a possibilidade.
DEUS (após uma hesitação, apontando a mulher que se afasta lentamente): Como ela?
EU (encolhendo os ombros): Há pessoas que acreditam que aquilo que possuem de mais precioso nas suas vidas são os sonhos que foram acumulando, tudo aquilo que ambicionaram e desejaram para si mas não alcançaram. (Observando a marcha da mulher.) E ainda persiste a tradição de oferecer os sonhos de toda uma vida, simbolicamente guardados em pedaços de papel, ao primeiro neto que nasce na família.
DEUS (ligeiramente comovido): Uma espécie de herança, de passagem de testemunho.
EU (num tom sério, quase solene): Aquilo que de mais precioso possuem. A possibilidade de uma vida melhor.
(Ficamos a ver a mulher afastar-se, arrastando-se com esforço. Quando acaba de cruzar a praça, imobiliza-se durante um momento, talvez para se orientar.)
DEUS (impressionado): E acumulou todos estes sonhos? (Abanando a cabeça, ligeiramente triste.) Quilos e quilos de sonhos.
(Observamos a mulher, atentos e respeitosos, certos de que em breve seguirá pela travessa que conduz à maternidade, onde o recém-nascido a aguardará. Mas quando finalmente retoma a caminhada, a mulher avança na direcção do mercado, onde entra sem hesitação. Deus olha-me, confuso e interrogador; e quase se indigna, quando depara com o meu sorriso e percebe a sua ironia. Quando se descobre enganado.)

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