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# 66: Bimby

1.
Quando chega a casa, ele senta-se no sofá e liga a televisão; vê o final do Portugal em Directo (por causa da meteorologia; mas, na verdade, que lhe importa que chova ou não?), o Preço Certo de princípio ao fim e o início do Telejornal, enquanto a ouve na cozinha a caminhar de um lado para o outro, pegando nisto e largando aquilo, ligando e desligando máquinas, suspirando uma e outra vez. Não gosta particularmente dos programas que vê, muitas vezes nem sequer está muito atento à televisão, mas uma apatia profunda e paralisante invade-o mal entra em casa e impede-o de se erguer do sofá para fazer seja o que for (apesar de ter consciência de que qualquer coisa que se lembre de fazer será sempre mais útil e recompensadora do que aquilo, do que aquela prostração), força-o a manter-se ali, silencioso e inconsciente, desligado, como se precisasse da televisão para se distrair momentaneamente da trivialidade da sua vida, do dia de trabalho que terminara e que se repetiria com exactidão no dia seguinte, e no próximo, indefinidamente.
Mas o que lhe custa mais, o que lhe corrói a consciência e perturba a lassidão habitual, é a permanência constante dela na cozinha, como se fosse prisioneira daquelas quatro paredes, escrava daqueles utensílios; não percebe nem vislumbra o que faz ela durante tanto tempo na cozinha (na verdade, nunca lhe perguntara; mas que poderá ela lá fazer, se não cozinhar?), não percebe por que motivo não lhe faz companhia na sala, partilhando a televisão consigo ou lendo uma revista ou simplesmente estando lá – a possibilidade de ser ele a fazer-lhe companhia na cozinha sempre lhe parecera imprudente e arriscada: e se ela reagisse com desagrado à sua presença, ou mesmo com indiferença?
Não sente propriamente ciúmes da cozinha, apesar de por vezes suspeitar (e sabe que este é um pensamento muito, muito palerma) que não tem grandes hipóteses de concorrer com a diversidade e versatilidade de ofertas de que ela pode usufruir naquele espaço (que tem ele, afinal, para oferecer à mulher que ama – ama? –, além da sua presença silenciosa e apática, do seu toque ocasional e displicente, do seu sorriso forçado? Até a Bimby, por exemplo, poderá oferecer muito mais do que isso, muito mais); mas intui que aquela presença ostensiva na cozinha, conciliada com a sua própria presença ostensiva no sofá, simboliza de modo incisivo e clarividente o crescente afastamento a que estão condenados, como se com a passagem dos anos deixassem de ter o que dizer ao outro (ou, pior: perdessem a vontade de dizer fosse o que fosse ao outro), restando apenas o silêncio e a solidão a uni-los.
Ela trouxe o jantar para a sala quando ia o telejornal na quarta notícia e agora jantam em silêncio, olhando com indiferença para a televisão; o noticiário não anuncia nada que mereça ser comentado ou discutido, não lhes proporciona nenhum pretexto para quebrarem o silêncio. Limitam-se a mastigar e pestanejar, mecanicamente, como se fossem duas Bimbys ocupadas na elaboração de um empadão, competindo para terminar em primeiro lugar. Nunca lhe ocorrera que ela pudesse detestar a sua cozinha e que todo o tempo que lá passa, fingindo-se ocupada, sirva apenas para não ser forçada – forçada? – a estar com ele (seria possível tamanha dissimulação?, perguntar-se-ia ele, sem perceber que o seu próprio interesse fingido na televisão representa igual grau de hipocrisia), sirva apenas para se proteger dele – porque, afinal, a cozinha não é uma prisão mas um refúgio; nunca lhe ocorrera que ela lá permanecesse, junto da sua ruidosa e multifuncional Bimby, apenas para evitar a sua companhia, para não o ver nem ouvir, para não ser constrangida a falar-lhe porque não tinha nada, absolutamente nada, para lhe dizer. Nunca lhe ocorrera; mas quando ocorresse (e iria certamente ocorrer, num qualquer fim de tarde, enquanto tentava adivinhar o valor da montra final do Preço Certo e o apito da Bimby inundasse subitamente a casa), era muito provável que continuasse sentado no seu sofá, a olhar para a televisão sem verdadeiramente ver ou ouvir e à espera que acontecesse o que tivesse de acontecer.

2.
Enquanto transporta a louça suja para a cozinha, ela questiona-se se, agora que chega o momento de cumprir uma vez mais a tradição de comemorar o aniversário do casamento – o décimo sétimo – com um jantar teoricamente romântico num qualquer restaurante absurdamente caro, não será a altura ideal para olhá-lo nos olhos e formular a única questão que precisa de ser formulada e que anda a mastigar há demasiado tempo: há quanto tempo terminou o nosso casamento?
Está ainda a pensar nisto, perguntando-se se alguma vez terá coragem de o fazer, quando o ouve levantar-se do sofá e caminhar com vagar pela sala, como se hesitasse na direcção a tomar; pensa que irá à casa de banho mas, afinal, entra na cozinha e dá uma voltinha por ali, confuso e embaraçado, parando finalmente em frente do armariozinho onde se encontra a Bimby; e, incapaz de a olhar directamente (há quanto tempo não se olham directamente?), pergunta: para que serve esta maquineta, afinal? Ela estranha a sua presença, a sua pergunta, o seu interesse; e não sabe como reagir. Apenas passados muitos segundos, quando o silêncio se tornara atroz (mais atroz do que o habitual), consegue responder: serve para tudo; e após uma ligeira hesitação, começa a concretizar a sua resposta, detalhando as utilidades da máquina com uma vaga irritação e contrariedade na voz mas, logo depois, com crescente entusiasmo e surpresa, ao perceber que ele a ouve com aparente interesse, com vontade, com atenção. Agradada por constatar que ele não só formulara uma pergunta como ouvia a resposta: fizera um esforço, tentara, tomara uma iniciativa, levantara-se do sofá; está ali, à sua frente, olhando-a e escutando-a, quem sabe se à beira de um sorriso.
E enquanto fala (enquanto se ouve falar), há uma ideia disparatada, de uma irracionalidade e absurdez sem limite mas de certo modo irresistível, que lhe baila na cabeça: talvez algum do sucesso comercial da Bimby resida na sua capacidade oculta de adiar o fim (salvar seria demasiado) de alguns casamentos. Sorri, surpreendida com a frivolidade da ideia – na verdade, surpreendida com a frivolidade do seu comportamento; e irritada com o facto de se contentar com tão pouco, com uma simples migalha de tempo, de atenção – e continua a tagarelar, sabendo que acabará por chegar o momento em que não haverá nada mais a dizer, o momento em que tudo voltará ao que foi, ao que sempre será.