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Esboço # 84

(Jantam os três em silêncio, olhando a televisão com apatia, desinteressados em reagir perante o que vêem, o que ouvem, o que sentem. Alguns minutos após todos terem arrumado os talheres, desistindo da refeição, a mulher levanta-se e recolhe os pratos ainda repletos de comida com gestos cansados, conformados; depois, afasta-se, levando consigo a louça.)
CRIANÇA (espreitando a porta, assegurando-se que a mãe não se aproxima; sussurrando, num tom ansioso, quase tenso): Há quanto tempo não dizes à mãe que gostas dela?
HOMEM (alguns segundos mais tarde, sem desviar o olhar da televisão; num tom áspero): Foi ela que te pediu para me perguntares isso?
(A criança não responde, surpreendida com a frieza da reacção, o antagonismo do pai; olha para a televisão com uma expressão triste e desconsolada, talvez com vontade de estar noutro lado qualquer. Pouco depois, a mulher regressa, com passos lentos e indiferentes; coloca uma taça de gelado em frente da criança, surpreendendo-se por ela não sorrir, não agradecer. Senta-se no seu lugar e olha para a televisão, expectante: como se aguardasse que ela lhe transmitisse uma instrução, uma explicação, uma solução; qualquer coisa.)

Esboço # 83

Prazo de validade expirado.

Dão-se livros # 08

Deve valer a pena porque as respostas foram aparecendo; obrigado a todos. Desta vez, o livro segue para a Bárbara.

Esboço # 82

(Estão dentro do carro, tensos e em silêncio, olhando rigidamente pelas janelas.)
PAI (esforçando-se por parecer conciliador): Mas tens que perceber que…
FILHA (interrompendo, num tom rude e irritado): Tu é que tens de perceber que já não sou nenhuma criancinha. Tenho dezanove anos, sou uma mulher. Percebes, dezanove? (Hesita ligeiramente.) Não sou a menina que levavas a passear ao parque e a quem davas gelados, como se isso fosse o gesto supremo de generosidade. (Encolhe os ombros, exasperada.) Cresci, tenho estado sempre a crescer. Como é que não vês isso? Há dezanove anos que cresço, que me afasto dessa imagem idílica e estática que ainda tens de mim. Há muito que não sou a menina do papá ou a adolescente silenciosa. Agora, sou uma mulher, livre e independente e…
PAI (resignado): Eu percebo que…
FILHA (ignorando o pai): Não me apetece ir ao cinema contigo, pai; não me apetece fazer-te companhia, aturar-te, fingir que ainda és o meu melhor amigo. (Respirando fundo, como se tentasse ganhar coragem.) Apetece-me estar com os meus amigos, divertir-me. Apetece-me dançar e rir e beber, perder a cabeça e esquecer-me dos problemas, conhecer gente. Apetece-me ouvir anedotas, fumar gansas; fazer sexo. (Num tom mais baixo, simultaneamente desesperado e provocatório.) Não me interessam parques mas discotecas e praias e bares. Agora, gosto de broches e não de gelados. Percebes?
(Abre a porta e sai, afastando-se apressadamente. O pai olha-a, incrédulo e triste, incapaz de perceber, de assimilar, de reagir. Tentando decidir qual a palavra que doeu mais; broches? Aturar-te? Livre? Ou talvez dezanove?)

Esboço # 81

Prazo de validade expirado.

Esboço # 80

(As duas adolescentes estão sentadas num banco, com os telemóveis na mão; o parque da escola está deserto, como se não houvesse outros alunos por perto.)
ADOLESCENTE 1 (interrompendo o prolongado silêncio num tom apático, olhando fixamente o telemóvel que tem na mão): Sabes qual foi a última coisa que o meu pai me disse?
ADOLESCENTE 2 (depois de abanar a cabeça e percebendo repentinamente que a amiga não a olha; forçando-se a falar): Não.
ADOLESCENTE 1 (incapaz de deixar de olhar o telemóvel): Disse-me para ter paciência mas que só voltava a carregar-me o telemóvel no fim do mês.
(Toca a campainha e ambas estremecem ligeiramente, como se esquecidas de onde se encontravam.)
ADOLESCENTE 1 (tom mais baixo e hesitante que antes): O funeral foi há quatro dias e ainda não tive coragem para pedir à minha mãe para o carregar. (Tom quase lamuriento.) Acreditas que tenho estado este tempo todo sem telemóvel?
(Começam a surgir miúdos de todos os lados, ruidosos e enérgicos, rindo em grupo, correndo; as duas adolescentes permanecem imóveis e silenciosas, talvez com esperança de não serem vistas. Muito tempo depois, a campainha volta a tocar; mas os miúdos levam uma eternidade a abandonar o pátio.)

Esboço # 79



(O carro acabou de parar num semáforo; pessoas atravessam a passadeira, apressadas e rígidas, robóticas. No interior do carro, ambas as mulheres permanecem em silêncio, olhando em frente, apáticas e indiferentes, distantes; sós.)
FILHA (tom mecânico, frio): Estava aqui a pensar, a tentar lembrar-me. (Hesita; baixa um pouco a voz.) Quando foi a última vez em que me disseste algo importante? Algo verdadeiramente definitivo e relevante? Algo decisivo para mim, para a minha vida, para o meu futuro? Algo que fizesse a diferença. (Após uma pausa, tentando controlar-se.) Quando?
MÃE (olhando o vermelho do semáforo; tom ligeiramente abstraído, quase indiferente, quase desinteressado, quase displicente): Não me lembro.
FILHA (pensativa): Eu também não.
(O semáforo muda para verde mas a Filha, que está ao volante, não se mexe; ouve-se uma buzina e depois outra e depois outra.)

Dão-se livros # 08

Desta vez não há desafio, apenas uma provocação; responder à seguinte pergunta: Vale a pena dar-me ao trabalho de enviar um email quando a compensação é apenas um livro? Basta dizer sim ou não. Entre quem se der ao trabalho (até 21 de Março), será sorteado um livro.