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Legenda # 04: A cadeira da cinderela

(Escrito a partir de uma fotografia de Julieta Domingos.)

Encontram-se na fila da caixa de pagamento do pingo doce. Ela está a encher um saco com fruta e cereais e iogurtes e bolachas e pensos e chás enquanto ele aguarda pacientemente a sua vez de pagar a lâmpada que fora comprar. A rapariga da caixa vai passando as compras e parece estremecer sempre que se ouve o apito (estará certamente a pensar em quem terá sido o filho da puta que se lembrou de inventar a necessidade das compras apitarem; não falaram disso na acção de formação de duas horas que tinha tido antes de começar no novo emprego e ela não quis perguntar, ainda não sabia que essa é a única questão que conta na vida de um operador de caixa); talvez estivesse triste e desamparada, talvez estivesse simplesmente cansada; não olha ninguém nos olhos nem sorri, como se fosse apenas um elemento do cenário; mas, de qualquer forma, a sua presença ali não conta para nada, naquele momento. Porque está a acontecer uma daquelas coisas absurdas que se vêem nos filmes palermas e que, por simples inveja, toda a gente jura que nunca acontecem na vida real: foi como se o mundo se imobilizasse momentaneamente e nada mais contasse, nada importasse; aqueles dois desconhecidos olharam-se uma vez, duas vezes, três vezes, enquanto as compras continuam a apitar; depois do quarto olhar, sorriem (primeiro ela e logo depois, com um segundo de atraso, ele); e antes da troca do décimo olhar já sabem que irão sair do pingo doce juntos. E saem, ela com os seus sacos de fruta e cereais e iogurtes e bolachas e pensos e chás e ele com a sua lâmpada na mão.
É sábado de manhã, há uma vida inteira pela frente. Ambos sabem que, na verdade, o mundo não se imobilizou; mas sabem, também, que dentro de pouco tempo estarão a foder; e é quase a mesma coisa.

Ela leva-o para sua casa; passam um bocado na varanda a fumar, falam sobre a moça do pingo doce e sobre os apitos das compras; depois, lembram-se que ainda não conhecem os respectivos nomes; sorriem bastante, como se fossem adolescentes nervosos ou assim. Mas ela (que é uma mulher assertiva e resoluta, dominadora, confiante; habituada a liderar as situações em que se envolve ou em que se deixa envolver) costuma preferir foder primeiro, conversar depois. E é o que acontece durante toda a tarde.
Depois do sexo, talvez venha o tempo de conversarem um pouco; de se conhecerem, de partilharem intimidades, de rirem juntos, de se acariciarem; de permanecerem em silêncio e isso parecer-lhes agradável. Ou não, talvez não aconteça nada disso, talvez subsista um leve desconforto, uma despedida apressada. Mas, pensa ela, existe sempre a possibilidade – existe mesmo, ela própria a criou – e isso é suficiente. Adormece tranquila, moderadamente expectante, moderadamente serena. O corpo apaziguado.

Quando acorda, vai encontrá-lo no seu quarto secreto. Certamente que andara a estudar a casa (tentando imaginar se poderia sentir-se feliz ali?, pergunta-se ela), tentando familiarizar-se, e acabou inevitavelmente por desembocar naquele sítio secreto e algo obscuro, disruptivo. A casa fora decorada por ela, num estilo sóbrio e minimalista, com ideias tiradas de revistas estrangeiras; há móveis do ikea e muitas reproduções de fotografias da vivian maier, estantes com livros, iluminação cuidada. Mas uma das divisões fora propositadamente ignorada e permanece completamente despojada, como se não pertencesse àquela mesma casa, como se fosse parte de um mundo diferente; é um quarto vazio e sem luz, degradado, sem decoração nem máscaras ou subterfúgios, sem sinais de vida ou de emoção, onde apenas existe um único móvel: uma cadeira velha.
Ele está a olhar para aquilo, silencioso e confuso; intimidado, talvez. Ela aproxima-se (sentindo-se um pouco ansiosa, o que a irrita e incomoda), observa-o, aguarda uma reacção, um sinal; sabe que o momento determinante chegou, afinal, mais cedo, que está a decorrer naquele preciso instante. E, em simultâneo, pressente que o momento determinante (odeia-se, por ser o tipo de mulher que ainda acredita em momentos determinantes) não está a decorrer como deveria, que mais uma vez não irá decorrer como deveria.

Então ela explica:
- Conheces a história da cinderela, não conheces? Há aquela parte em que ela tem que fugir, à meia-noite, e perde o sapato; então, o príncipe pega no sapato e experimenta-o em todas as mulheres que lhe estendam o pé, sabendo que quando o sapato servir na perfeição estará perante a sua amada. E, naturalmente, pensa ele e deseja ela, quando isso acontecer, quando se descobrirem mutuamente, serão inevitavelmente felizes para sempre. Lembras-te? Gosto muito dessa ideia, apesar de toda a gente achar que é pirosa e estranha e mais não sei quê. Gosto. E acho que é por isso que esta sala está deste modo; digamos que não está bem abandonada, como parece, como pensaste; é mais uma espécie de instalação. Eu sei que é estranho, mas que queres? Não é que esteja à espera que me apareçam príncipes ou assim. Não estou, acredita. Mas acho que aquela cadeira que ali vês é como o sapato da cinderela, não sei se percebes onde quero chegar, representa mais ou menos o mesmo. Não, não é que deseje encontrar o homem que assente perfeitamente na cadeira e, assim, descobrir a felicidade instantânea. Não, nada de tão elementar. E de instantâneo, na nossa vida, apenas podemos contar com as decepções, não achas? Mas deixa ver se consigo explicar-te. É mais ou menos assim: há-de haver alguém neste mundo que entre nesta divisão e diga: olha, não sei qual é a tua ideia mas sabes que me faz lembrar isto? A história da cinderela. Por causa da cadeira e tal. Há-de haver alguém que perceba sem que eu tenha de explicar, que me perceba sem que eu tenha que me explicar. Intuitivamente, para além das palavras e dos olhares e do sexo; apenas porque pensamos parecido, em sintonia; não: em sincronia. Percebes. Acho que é isso.
Ele não sabe o que responder, pelo que fica calado. Ambos olham para a cadeira vazia e o tempo vai passando, vagaroso. Ouve-se o ruído distante de uma televisão (um vizinho solitário, certamente; apenas acompanhado pela televisão, o que é uma das formas mais perversas de solidão que existe). Ela não se sente propriamente triste ou decepcionada, na verdade não sente nada; houvera uma possibilidade – que ela própria criara – e agora já não há. Paciência: amanhã será domingo.
E diz, sem o olhar:
- Não te esqueças da tua lâmpada, quando saíres.

Kellerman remixed


Doze escritores, dois músicos e um ilustrador pegaram no que quiserem deste blogue e fizeram o que lhes apeteceu. A sua generosidade e disponibilidade comoveu-me, a criatividade e inventividade dos seus trabalhos deliciou-me. O resultado é o ebook “kellerman remixed”. Se fosse um livro normal custaria pelo menos €16,95 mas, como estamos entre amigos, pode ser lido de borla aqui. Enjoy :)

Legenda # 03: As pessoas com mais de quarenta anos ou a importância das torradas

(Escrito a partir de uma fotografia de Cátia Biscaia)

Geralmente, quando ele chaga à esplanada ela já está sentada a uma das mesas do canto; ele senta-se numa outra mesa, afastada, e abre o jornal, movendo as páginas ruidosamente (sinal inequívoco de que não está a ler nadinha). Por vezes, são as duas únicas pessoas sentadas na esplanada mas isso não significa que se estabeleça qualquer tipo de cumplicidade, na verdade nem se olham, talvez por considerarem os seus pensamentos tão importantes e recompensadores que não deixam espaço ou tempo para mais nada. São, portanto, apenas dois estranhos, aborrecidos e sem curiosidade, que se encontram quase diariamente no mesmo espaço; comem torradas e espreitam os telemóveis, nunca falam, nunca sorriem; contemplam muito o horizonte com um olhar melancólico (todos nós o fazemos, não é?) e pouco mais. Talvez sejam tímidos, talvez sejam desinteressados e desinteressantes, talvez se sintam miseráveis e não queiram contagiar ninguém com as suas insatisfações, talvez sejam daquelas pessoas que já desistiram de acreditar que a sua felicidade pode residir noutra pessoa, talvez estejam tão apaixonados por alguém que mais nada no universo interessa; ou talvez acreditem que contemplar o horizonte com atenção suficiente resolva alguma coisa (afinal, também tomam aspirinas com a convicção de que isso soluciona uma série de coisas).

Pois certa tarde algo acontece (talvez se tenham simplesmente fartado do silêncio do horizonte): olham-se. Primeiro, de forma algo tímida e desajeitada, alternativamente; espreitam-se, estudam-se, imaginam e fantasiam, interessam-se; como adolescentes envergonhados (o que é um pouco triste porque ambos têm mais de quarenta anos). Talvez se tentem distrair, passar o tempo; talvez tentem causar ciúmes ao horizonte, irritados por ele nada lhes ter oferecido apesar de tanto olhar. Talvez queiram apenas despertar a atenção do outro, provocar o seu olhar; serem olhados, e desse modo terem a certeza de que existem, terem a certeza de que estão ali e contam (talvez sejam daqueles românticos que acreditam que apenas vale a pena existir quando nos conseguimos ver reflectidos no olhar brilhante de alguém; as pessoas com mais de quarenta anos costumam pensar coisas assim).

Mas passam alguns dias e nova alteração ocorre: os olhares passam a ser assumidos, conscientes, desafiadores; simultâneos. De certa forma, começam a dialogar através do olhar (outra coisa que apenas as pessoas com mais de quarenta anos conseguem fazer de forma competente). Fazem-no, simplesmente, sem saberem bem porquê, para quê. Antes, olhavam para o telemóvel ou para o jornal, para o horizonte; agora, olham para os olhos de quem está mais perto. Afinal, é preciso olhar para algum lado, não olhar nada – não desejar olhar, desistir de olhar – é apenas uma forma de se estar morto, uma desistência definitiva, um pré-suicídio (não pensemos agora nos cegos, por favor). Não estivéssemos a lidar com pessoas com mais de quarenta anos e as consequências desta troca de olhares seria mais ou menos óbvia, mais ou menos previsível, mais ou menos inevitável. Mas neste caso, por culpa de ambos ou de ninguém (coisas do destino e assim; ou talvez seja o horizonte a conspirar, ciumento), nada acontece. As torradas continuam a marchar pelas goelas, os telemóveis nunca tocam, o jornal está cada vez mais ruidoso; o horizonte mantém-se por ali, quietinho; por vezes, outras pessoas sentam-se na esplanada e riem demasiado (rir é uma distracção tão boa como qualquer outra), chega alguém que pede uma moeda ou oferece um jornal de uma religião mais esquisita que todas as outras, um cãozito passa por ali a correr. Olham-se, é verdade; mas mais nada acontece.

Talvez um dia se aproximem e partilhem a mesma mesa; e sorriam, apenas à distância de uns quinze centímetros um do outro; talvez se toquem, daquelas carícias sem conotação sexual (que são as melhores: deixam espaço para tudo); talvez se aconcheguem, se abracem (que iria pensar a moça que todos os dias lhes traz as torradas? Nunca ninguém se preocupa com o que pensam as moças que trazem as torradas, e isso é muito triste). Talvez. Agora, que trocaram olhares (que dialogaram), tudo isso são possibilidades reais e concretas, escolhas possíveis; mas talvez lhes baste a existência da possibilidade, talvez isso seja suficiente. Afinal, se realmente partilhassem uma mesa (o que em si seria um gesto muito significativo, quase um caderno de encargos), que fariam depois? Conversariam, inevitavelmente; mas sobre o quê? Sobre as respectivas famílias e trabalho e livro e, claro, o tempo? Para quê? Talvez para se conhecerem melhor. Muito bem; mas e depois, que viria depois? Sexo? Ok, as pessoas com mais de quarenta anos também gostam bastante de sexo. Mas e depois? Mais conversa, mais sexo? (Na verdade, ambos tinham bastante disso lá em casa; e, ainda assim, fugiam para a esplanada. Para quê? Para procurar variações do mesmo? Talvez não.) E depois? Haveria sempre um depois.

Talvez não fosse absurdo de todo, pensaram (os dois, em simultâneo? Como se tivessem comunicado tal conclusão através do olhar ou assim? Strange…), se simplesmente mantivessem a possibilidade em aberto mas nada fizessem para a concretizar; ambos continuariam nas suas mesas, pensando o que quisessem, retirando do outro tudo aquilo de que precisassem; servindo-se. Não é que conversar – e, já agora, foder – não fosse agradável; seria, certamente. Mas tudo isso acabaria por se esgotar – palavras e orgasmos –, deixando apenas um novo vazio por preencher. Assim, pelo menos, permanecia sempre a possibilidade em aberto (claro que uma pessoa não vive de possibilidades mas, pronto, talvez as pessoas com mais de quarenta anos saibam algo mais sobre a vida, algo que todas as outras pessoas ainda desconhecem), uma possibilidade disponível para quando fosse mesmo, mesmo necessária (e como saberiam que chegara o momento? Strange, indeed…).

Havia, contudo, outra questão a atormentá-los (que talvez se esclarecesse se, simplesmente, falassem – falar a sério, com palavras e tal – um bocado sobre o assunto; mas com gente desta já se vê que nem tudo é óbvio e linear), a prendê-los às respectivas cadeiras. Apesar de tanta comunicação visual, a verdade é que não sabiam (como poderiam saber?) se as suas necessidades seriam coincidentes. Afinal, qual a possibilidade de ambos procurarem precisamente a mesma coisa e logo por coincidência estar logo ali o outro, mesmo a jeito, para a proporcionar? Uma espécie de conjugação cósmica, um alinhamento de astros, que os colocasse um perante o outro em estado de potencial simbiose perfeita (tipo almas gémeas, ou tolice do género: eu preciso “disto” e tenho “aquilo” para dar; e tu tens o “disto” que eu quero e precisas do “aquilo” que eu posso dar… Pessoas com mais de quarenta anos não acreditam neste género coisa – o que não significa que não gostassem de acreditar ou não precisem de acreditar –, são uma espécie de ateus em questões de amor). Pouco provável, portanto. Mas poderia ainda ser mais complicado se, afinal, cada um deles nem soubesse verdadeiramente o que quer, de que precisa (e pode muito bem ser o caso); se nenhum deles souber o que está em causa quando se fala “disto” e “aquilo”.

O pior, pensarão eles, é que até pode acontecer que a felicidade esteja mesmo ali, a rondar pela esplanada, à disposição de ambos (sim, seria esquisito; mas as pessoas esquisitas tendem a atrair esquisitices). E se fosse esse o caso? Como se atreveriam a deixá-la fugir (levada pelo horizonte)? A realidade é que tinham medo, e o medo é muito condicionante; não sabiam o que queriam, e isso ainda é mais condicionante (até parece que, afinal, as pessoas com mais de quarenta anos são iguaizinhas a todas as outras). E o preço a pagar era permanecerem sozinhos, sabendo que isso talvez não fosse inevitável. Sozinhos, com as suas torradas (e, verdade seja dita, ninguém está verdadeiramente sozinho enquanto tiver uma torrada por perto).

Quantas vezes já se teriam cruzado pelas ruas da cidade, antes? Sem sequer se olharem. Porque haveriam de se olhar, afinal? Porque o fariam? E se olhassem, que aconteceria? Como reconhecer a felicidade, quando ela passa mesmo à nossa frente? Como, foda-se, como? (Perguntam-se eles, subitamente irritados. E a verdade é que é um bocado idiota alguém formular a si próprio uma questão para a qual desconhece a resposta; um desperdício de tempo e recursos e expectativas, digamos.) Como se reconhece a felicidade? Talvez o encontro com a felicidade seja apenas uma questão de adivinhação, um acaso total que os poetas tentam disfarçar há séculos apesar de até eles saberem que não passa de casualidade (ok, esta ideia é algo sombria, até para pessoas com mais de quarenta anos). Ou não, poderá não ser acaso, poderá até ter uma qualquer base científica. Mas a realidade é que lá porque um homem e uma mulher se cruzam numa esplanada e se olham com curiosidade e desejo, com interesse, isso não significa forçosamente que estoure logo ali uma história de amor. Ambos o sabem (e a irritação de há pouco esvai-se; é para isso, talvez, que serve o artifício de nos questionar-mos; sempre se tem a ilusão de que se está a fazer algo e, de repente, tudo parece um pouco melhor.).

Tem sido, portanto, assim. Geralmente, quando ele chaga à esplanada ela já está sentada a uma das mesas do canto; ele senta-se numa outra mesa, afastada, e abre o jornal, movendo as páginas ruidosamente (sinal inequívoco de que não está a ler nadinha). E etc. Até que hoje, quando ele pede a habitual torrada, a moça responde: acabou-se o pão para as torradas. E nem sorri, a desgraçada. Nem sorri.