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Loucura

Vou até à janela para ver o mundo passar. E ele passa, vagaroso e indiferente. Talvez já tenha tido a esperança que, um dia, me levasse consigo; mas para onde me levaria? E eu gostaria de ter ido? Não sei. Da minha janela vejo o céu azul e sinto o sol no rosto. Por mais longe que o mundo me levasse, não seria sempre o mesmo sol a aquecer-me a pele? Sorrio enquanto penso isto, e é bom quando uma pessoa consegue sorrir sozinha; apesar de haver quem chame a isso loucura. Talvez ainda possa ir pelo mundo fora, em busca de outros sóis; talvez baste acreditar e imaginar que é possível. Se existe o desejo, haverá sempre a possibilidade? Por agora não quero pensar em possibilidades, basta-me sentir a realidade concreta deste sol no rosto. Para onde irá toda esta luz que a minha pele absorve? Tanto sol que apanhei ao longo da vida, certamente que o interior do meu corpo será muito iluminado, resplandecente de luz; se tiver de ser operada ainda vou cegar os médicos. Sorrio de novo, enquanto olho a rua em busca de gente. Sempre gostei de observar pessoas, sempre gostei de lhes escutar as conversas e, através das suas vozes, conhecer-lhes os pensamentos e os sentimentos. Mas agora são raras as pessoas que passam por esta rua; e as que passam nunca conversam. Não entendo por que motivo não falam, não entendo por que motivo calam os seus pensamentos; se não são verbalizados, para onde irão todos esses pensamentos que as pessoas têm dentro de si? Permanecerão aprisionados nos corpos para sempre? Formando gases, talvez. Escuto o silêncio da rua, respiro o cheiro das árvores que estão lá mais à frente. Respirá-las é uma forma de as guardar, a verdade é que tenho florestas inteiras dentro de mim; mas ninguém sabe. Talvez seja por ter tanta luz no meu interior, as árvores dão-se bem com a claridade. Sorrio. Penso tanta tolice, são sucessões de pensamentos tolos que chegam não sei de onde e me fazem sorrir. Talvez por ser essa a única forma que os pensamentos têm de sair para o mundo: agora que a trombose me levou a capacidade de falar, resta-me sorrir. E por isso, sorrio; é como se fosse uma libertação. Mas continua a não passar ninguém na rua; o céu mantém-se azul, indiferente aos meus sorrisos. Se todas as pessoas do mundo fossem cegas, haveria quem sorrisse? Ou deixariam de o fazer, por não existir quem pudesse ver esses sorrisos? Não sei; as perguntas sempre me agradaram mas as respostas causam-me azia, são como portas que se fecham com estrondo. O que sei é que gosto de sorrir ao céu azul, apesar de ele nunca me sorrir de volta. Sinto-me livre quando o faço. Olhar e sorrir, é tudo o que me resta fazer. E esperar. Espero mas a rua permanece deserta. Desconfio que estar à janela é como olhar para o futuro; mas hoje o futuro não virá. Talvez esteja confusa e me tenha baralhado, talvez não seja domingo, talvez os netos afinal não venham. Talvez o futuro seja feito de esperas. E enquanto se espera, o mundo continua a passar; vagaroso e indiferente.

Crónica para o Jornal de Leiria.

Novembro


Calendário Improviso.
Doze textos para doze fotos de Sílvia Bernardino.

Outubro


Calendário Improviso.
Doze textos para doze fotos de Sílvia Bernardino.

A equipa


Libelinhas. 17/10/2018
Foto de Carla de Sousa

Plof

Imagina que caminhas pelo passeio, indiferente a quem te rodeia, focada nos teus pensamentos e fantasias; e de repente, cai-te um braço. Plof. Sai do sítio e cai com um som seco, daqueles sons que não fazem eco. Não sei se será plof, no fundo ninguém sabe bem qual será o som de um braço a cair no passeio, não é coisa que aconteça com frequência. Alguma vez pensaste nisso, qual será o som de um braço, ou de qualquer outra parte do corpo, a cair no chão? Não interessa, faz de conta que é plof. Caminhas distraidamente e cai-te o braço. Consegues imaginar? Perderes uma parte essencial de ti. Sim, és feita de muitas partes, de muitos pedaços (visíveis ou não), és um puzzle complexo e dinâmico, em permanente mutação, um puzzle que vais compondo e ordenando como se fosses a arquitecta do teu próprio corpo, projectando e construindo em simultâneo, errando, testando, melhorando. Claro que há partes essenciais, partes estruturais, partes sem as quais sentes que não sobreviverias; como os braços. Por exemplo: já pensaste como abraçarias alguém se não tivesses um braço? Pois, nunca pensaste; é uma coisa em que ninguém pensa. Porque a possibilidade de perder um braço é algo que jamais nos passa pela cabeça. Jamais imaginaste que poderias caminhar pelo passeio, indiferente a quem te rodeia, focada nos teus pensamentos, e de repente cair-te um braço. Não consegues imaginar tal hipótese, está para além da tua concepção do real e do possível. Portanto, não consegues imaginar o que senti quando foste embora. Porque o que senti quando foste embora foi parecido ao que teria sentido se me tivesse caísse um braço. Plof. E depois, um vazio indescritível; nada mais, apenas vazio. O mundo a rodar como se nada tivesse acontecido, indiferente e alheado; o braço caído no chão, também indiferente e alheado. E o plof a ecoar indefinidamente, apesar de ser um som sem eco. Mas na verdade estão sempre a acontecer coisas assim, não achas? As vidas são feitas de partidas, de ausências, de perdas. De plofs. Pessoas que vão, pessoas que deixam de estar com a mesma intensidade de antes, pessoas que chegam mas depois não ficam. Vazios que se acumulam e se sobrepõem, como se fossemos formados por diferentes camadas de vazio. Como se fossemos compostos por muitos vazios, um puzzle complexo e dinâmico, em permanente mutação, um puzzle que vamos compondo como se fossemos o arquitecto das nossas próprias vidas, projectando e construindo em simultâneo, errando, testando, melhorando. (Só não apagamos, não é possível apagar. E é isso que por vezes angustia: a impossibilidade de apagar o que fizemos e pensámos e desejámos e sonhámos e fracassámos; apagar o errado, o mau, o que nos dói, o que por nossa responsabilidade dói nos outros.) No fundo, somos uma espécie de gestores de vazio; vamos gerindo os nossos vazios o melhor que podemos. Mas agora esquece os vazios. Imagina simplesmente que caminhas pelo passeio, indiferente a quem te rodeia, focada nos teus pensamentos e fantasias; e de repente, cai-te um braço. E logo depois o outro. Plof, plof. Como abraçarias alguém se não tivesses braços?

Crónica n.º 68 para o Jornal de Leiria

A path to self knowledge


Caminhos percorridos, caminhos por percorrer: Carla de Sousa.

Libelinhas






Uma produção d' O Nariz.
27 de Outubro na Marinha Grande (Casa da Cultura Teatro Stephens).
Fotos de Carla de Sousa.

Libelinhas

Cabides

Quando chega a casa faz sempre o mesmo: segue directamente para o quarto e despe-se. É com um cuidado delicado, quase terno, que arruma o vestido que usara nesse dia num cabide; depois, olha-o durante um segundo, por vezes faz-lhe uma leve carícia. Tem consciência de que esse comportamento é um pouco estranho, talvez até um pouco louco, mas não se incomoda. Os seus vestidos são mais do que roupa, são mais do que parte da sua identidade, são mais do que uma extensão de si; são como uma parte do seu corpo, são uma segunda pele; ou primeira pele? Talvez seja por isso que os cuida com tanta dedicação, quase com uma pequena ponta de obsessão. No fundo, teme que se gastem; teme que percam vigor, beleza, energia, atractividade, deslumbre; que envelheçam. É por isso que os cuida de forma tão extrema: para os poupar. Pensa nisto, por vezes; e sente algum embaraço. Mas não existe mais ninguém na sua mente, aí é livre de pensar tudo o que desejar. E por isso continua a pensar embaraços, sentindo-se livre. (Possível definição de felicidade: sentir com outra pessoa o mesmo nível de liberdade que se tem na intimidade da própria mente, aquela liberdade total que apenas parece possível no interior de cada um.) Quando chega a casa faz sempre o mesmo: segue directamente para o quarto e despe-se. Mas depois de arrumar o vestido, pode optar por destinos diferentes. Um deles é deitar-se na cama, nua; e sentir na pele o ar fresco, o toque do lençol, a carícia dos seus dedos. E deixar o espírito deambular. Deixar o espírito sonhar. (Sonhar é melhor do que viver?) É isso que faz hoje. Despe-se, arruma o vestido, deita-se na sua cama, fecha os olhos e sonha. Dentro de momentos irá regressar à vida, ao seu quotidiano, às infinitas acções concretas que compõem os dias. Mas por enquanto, sonha. E enquanto sonha, sente a sua própria pele. (Sonhar e sentir: não é mais ou menos igual?) É então que um pensamento imprevisto surge em forma de pergunta e a inquieta, a surpreende, a desassossega: quais serão os sonhos da minha pele? É um pensamento desconcertante e que, de repente, alastra em direcções inesperadas. Se o espírito sonha, também a pele deverá ter os seus próprios sonhos. Todo o corpo deverá ter os seus próprios sonhos. Os dedos. A boca. Os olhos. Os seios. O coração. Todo o corpo a sonhar, infinitos sonhos a cruzarem-se por todo o lado. Como sangue. Um arrepio percorre o seu corpo, o seu espírito; estremece, agita-se. Abre os olhos como se algo dentro de si quisesse fugir desesperadamente por eles; e encara o tecto do quarto em busca de uma fuga. Uma pergunta que incomoda: será que tenho andado a impedir que o meu corpo sonhe? Levanta-se, a possibilidade de fuga não está no tecto mas na porta. Caminha, sabe que o movimento é sempre uma salvação. E é quando vai a passar pelo vestido que antes arrumara, cuidadosamente alinhado ao lado de dezenas de outros vestidos, que pensa: será que tenho andado a poupar o corpo, tal como poupo os vestidos para que não se gastem? Será que tenho andado a poupar o coração? Temendo que perca vigor, beleza, energia, atractividade, deslumbre? Que envelheça? Será que arrumei o meu coração num cabide para o poupar, para que não se gaste?

Crónica n.º 67 para o Jornal de Leiria

Setembro


Calendário Improviso.
Doze textos para doze fotos de Sílvia Bernardino.

Agosto


Calendário Improviso.
Doze textos para doze fotos de Sílvia Bernardino.

Espelhos sem luz

Como um conto pode ser o ponto de partida para uma análise surpreendente...
Obrigado, Ana Gilbert.

Um olhar

Por vezes, basta um olhar para viajar no tempo. Por exemplo: olho-te e instantaneamente regresso a 2013, àquele fim de tarde em que quiseste que o nosso passeio de bicicleta pelo campo seguisse um trajecto mais longo do que o habitual e escolhemos um caminho que, afinal, nunca mais acabava, ambos cansados e arrependidos porque cinco quilómetros é uma coisa e quinze é outra, forçados a pedalar furiosamente para fugir de um cão que veio atrás de nós com vontade de usar os dentes (lembras o cantar das cigarras, o cheiro doce de toda aquela verdura, o toque da brisa no rosto?). Mas logo depois já estou na manhã de natal de 2009, a mesa coberta com os legos acabadinhos de receber, os dois a construir casas com telhados amarelos e a conversar sobre os natais passados. No instante seguinte salto para 2014 e para as dez horas de espera à porta do estádio do Porto enquanto vivias o sonho de assistir ao primeiro grande concerto da vida. E como não ficar preso à manhã de Inverno de 2004 em que foste operada ao coração e durante algum tempo o mundo parou? Como não sorrir ao regressar àquele dia de 2017 em que tiveste vinte num exame nacional? O olhar ainda é o mesmo mas já me faz regressar ao dia de 2015 em que, pela primeira vez, pediste um livro meu para ler. Sorrio ao lembrar o sábado de 2007 em que aprendeste a cantar comigo a música do Tom Sawyer. Sorrio ainda mais ao recordar o dia de2011 em que criámos um blogue para publicar os teus desenhos e começaste a coleccionar elogios. Continuo a sorrir ao recordar aquela tarde de 2005 em que vimos juntos mais um filme da Barbie e a certeza que tive de que iria sentir umas saudades imensas daqueles filmes idiotas cheios de cantorias. E de repente já estou a recordar o dia de setembro de 2006 em que foste pela primeira vez à escola, revivo aquela sensação entusiasmante mas também melancólica de que algo muda para sempre que senti ao ouvir o click do portão a fechar. Lembro aquele dia de 2008 em que tive a ideia de te subornar porque gostaria de dar um passeio longo até à feira das velharias e tu não querias porque era mais de uma hora a pé; então, propus incluir no passeio uma ida ao McDonald's e lá fomos até às velharias procurar discos e livros antes de comer batatas fritas e recolher um par de brinquedos. Lembras? Para inevitavelmente regressar à manhã de um domingo de Agosto de 2000 em que nasceste e o mundo se transformou noutra coisa, em algo infinitamente melhor. Tudo isto num único olhar. És como uma máquina do tempo, que me mantém ligado ao passado, que me oferece uma perspectiva do futuro, que me dá sentido no presente; tudo em simultâneo. Basta um olhar porque tudo pode estar contido num simples olhar, porque também o olhar sente e pensa e toca e guarda as suas próprias memórias. Basta um olhar para perceber que cada momento é multidimensional, composto por uma infinidade de sensações, memórias, sonhos, afectos, ilusões, sentimentos, emoções, projectos, palavras, toques, possibilidades, medos, fantasias, prazeres, angústias. Porque é de tudo isso que são formados os momentos, cada momento. E é tudo isso que me tens proporcionado desde um domingo de Agosto de 2000, a cada olhar.

Crónica para o Jornal de Leiria.

Extensão


Projecto com Ana Gilbert. 
Textos e fotos disponíveis aqui.

O que pensa o teu nariz quando respira o meu cheiro? O que pensa o teu coração quando perscrutas o meu rosto? Percebo que estranhas as minhas perguntas. Talvez não saibas que cada pedaço do teu corpo tem pensamentos autónomos. O teu coração pensa, o teu sexo pensa, as tuas mãos pensam, a tua boca pensa. Infinitos pensamentos cruzam-se no teu interior, faíscam por um instante ou eternizam-se entre as células, arrastam-se, combatem-se, anulam-se, misturam-se, morrem e renascem. E tudo converge para o cérebro, onde toda essa imensidão de pensamentos antagónicos é recolhida, analisada, conjugada, resumida. E aquilo que julgas ser o teu pensamento – o teu pensamento oficial – é apenas uma breve e tosca súmula da infinidade de pensamentos que o teu corpo produz.
- Queres dizer que o cérebro aprisiona os pensamentos?

Julho


Calendário Improviso
Doze textos para doze fotos de Sílvia Bernardino.

Para os comboios não há escolha

Os pássaros começam a cantar. E só depois o dia nasce. Só depois o sol aparece. Só depois o mundo começa a rodar, levando consigo as pessoas e as suas vidas. Mas no início de tudo está o cantar dos pássaros. Sente-os do lado de lá da janela do seu quarto, distribuídos pelos ramos das árvores do jardim (são três árvores, trinta e cinco ramos; por várias vezes pensou em contar também as folhas mas ainda não teve coragem); quietos e serenos, à espera do momento em que começarão a cantar. Ouve-os, e desse modo conhece-os. Sabe que a segunda melhor forma de conhecer alguém é escutar. E como os conhece já consegue antecipar o momento em que o silêncio se vai converter em canto. Gosta dessa rotina, e chamar-lhe rotina é uma forma de dizer que é algo que se tornou essencial para si (como respirar ou sorrir, duas rotinas fundamentais): abre os olhos, deambula ao acaso entre o mundo dos sonhos que acabou de abandonar e o mundo da realidade a que está a regressar, respira devagar, sente o cheiro da manhã que entra pela janela entreaberta. Depois, há sempre um momento em que sente no seu corpo: vão cantar; e nesse instante, os pássaros cantam. Serão eles que mantêm o mundo em movimento com o seu canto? Acredita que sim. Levanta-se da cama, caminha até à janela, espreita as árvores; e ouve. O canto dos pássaros é uma linguagem que desconhece mas, apesar disso, sente nela uma alegria que a contamina, que lhe transmite ânimo. O que pensarão os pássaros quando olham das suas árvores e a vêem à janela? Talvez pensem que ela esteja dentro de uma gaiola e, por isso, cantam para lhe trazer um pouco de alegria. E é com alegria que se entrega às primeiras tarefas da manhã, sentindo que a vida começa a arrancar; como se o mundo fosse um comboio a sair da estação, preparando-se para recolher passageiros e, depois, distribuí-los pelos locais onde querem estar ou precisam estar ou sonham estar. Quando entra na cozinha, o mundo está em pleno andamento. A luz do sol entra pela janela, há um cheiro a chá que demora a identificar, misturado com o cheiro a laranja. Os cheiros fazem-na sentir parte do universo; é como se a essência das coisas entrasse em si, e assim as coisas passassem a fazer parte do seu corpo. Distrai-se a tentar perceber qual será o chá do dia e, por isso, demora um instante a perceber que a mãe, sentada à mesa segurando uma laranja, está triste. Aproxima-se e toca-a na mão com suavidade (sabe que a melhor forma de conhecer alguém é tocar-lhe); a mãe olha-a, corresponde ao seu toque, tenta sorrir; quase consegue, mas depois há um momento em que o quase-sorriso se pode transformar em choro. Ficam em silêncio, unidas pelas mãos. É como se o comboio tivesse subitamente parado, indeciso sobre que caminho seguir; mas para os comboios não há escolha, o único caminho possível é apenas um: em frente. Levanta-se e aproxima-se da janela, puxando a mãe consigo; olham as árvores, o céu, as nuvens; e escutam o canto dos pássaros. O tempo passa devagar, o chá arrefece. O comboio arranca, ganha velocidade. A mãe diz: «Sabes o que devíamos fazer, um dia destes? Contar quantas folhas existem nestas árvores. Sempre quis fazer isso, tu não?»

Crónica para o Jornal de Leiria.

Junho


Calendário Improviso
Doze textos para doze fotos de Sílvia Bernardino.

Rastos invisíveis

"Gosto de me sentir fora do tempo, fora do mundo, fora de mim. Noutro tempo, noutro mundo, noutro mim; mas continuando eu."



Texto escrito em parceria com Teresa Bret Afonso, para ler e ver na janela.

Vuuuuum, vuuuuum

“Olhe, desculpe. Pode dar-me uma ajuda?” Avançava pelo corredor do supermercado a pensar sei lá em quê, com pressa, sempre com pressa; demorei alguns segundos a perceber que a conversa era comigo. Uma senhora, que no primeiro instante me lembrou a minha avó, estendia-me um frasco. “É que já não vejo grande coisa. Pode dizer-me se este é o champô de França?” Peguei no frasco e dei uma olhadela. “Estive na França muitos anos mas agora voltei e tenho saudades, gostava daquilo. É lá que está a minha gente, eu tive de regressar. Coisas da vida, todos temos as nossas chatices. Este champô era o que usava e assim dá para matar um pouco as saudades. Por causa do cheiro, sabe? Faz-me lembrar quando estava lá.” Devolvi-lhe o frasco, confirmando que era francês. “Obrigada. Mas desculpe, estava aqui a olhar para si e a pensar. Você é o filho da Amélia, não é?” Olhámo-nos durante um segundo. “És pois. Na altura tinhas cabelo, mas és mesmo tu.” E riu. “Lembro-me de ir a casa da tua mãe e estares por lá, sempre agarrado aos carrinhos de brincar. Olha que coisa, encontrar aqui o filho da Amélia. Ficavas no chão com os carritos, a andar com eles de um lado para o outro, fazias vuuuuum, vuuuuum. Estavas lá no teu mundo, feliz da vida. Sempre foste caladito.” Voltou a rir, depois ficou séria. “Gostava da tua mãe, às vezes ainda penso nela. Bons tempos, esses. Mas depois fui para a França e pronto. Tudo mudou.” Calou-se. As pessoas passavam à nossa beira; com pressa. “Cheguei a escrever-lhe cartas.” Sorriu. “Ficávamos lá em casa, naquele vosso terraço onde se ouvia a passarada, e íamos falando disto e daquilo. Ainda há pássaros por lá? Às vezes, penso que o mais difícil não é esquecer as memórias que doem, o pior é esquecer as memórias boas, que por serem boas nos prendem ao passado. Não queremos largá-las, e vamos ficando presos. Mas não ligues, isto são disparates de velha.” Tocou-me no braço, como se pedisse desculpa. “Gostava muito do vosso terraço. E das nossas conversas. Um dia, estava lá com a tua mãe e não se ouviam os pássaros porque o vento estava forte e eles tinham fugido; sabes o que disse a tua mãe? Perguntou assim: será que os pássaros acordam de manhã e planeiam os voos que darão ao longo do dia ou simplesmente acordam e voam para onde calha, ao sabor da vontade, da liberdade, do vento?” Deu-me um novo toque no braço, sorriu. “Vai lá à tua vida, que vejo que estás com pressa. Cumprimentos à tua mãe. Pode ser que um dia destes a vá visitar.” Correspondi ao sorriso, afastei-me. Não disse que sou filho da Céu, e não da Amélia. Não era necessário dizê-lo, ela sabia. Caminhei pelo corredor enquanto algumas das coisas que ouvira ainda me bailavam na cabeça e, logo depois, retomei a pressa habitual. É como se houvesse sempre um vento a empurrar-me nalguma direcção. Apenas voltei a lembrar-me da senhora hoje. Passo pelo corredor do mesmo supermercado a pensar sei lá em quê, com pressa, sempre com pressa; e vejo-a. Tem o frasco de champô na mão e fala com alguém mais ou menos da minha idade. Quando passo perto, ouço-a dizer: “Ficavas no chão com os carritos, a andar com eles de um lado para o outro, fazias vuuuuum, vuuuuum.” 

Crónica para o Jornal de Leiria.

Subtilmente

Um sítio onde a fotografia se encontra com a literatura e a delicadeza com o desassossego. Subtilmente.

Maio


Calendário Improviso
Doze textos para doze fotos de Sílvia Bernardino.

Como amigos

janelas que nos fazem crescer, que nos fazem sonhar, que nos fazem sorrir. Janelas que nos fazem ver para além daquilo que conhecemos, daquilo que sentimos, daquilo que esperamos. Janelas que nos interpelam e desafiam, que nos desassossegam ou confortam. Janelas que nos fazem mexer. Janelas que são como amigos.

Leiria

- Vamos ver os barcos? 

Avança pela pequena rua, decidido. E eu sigo-o, algo intrigado: o mar fica a vinte quilómetros de distância, naturalmente que não existirão barcos em Leiria; então, que barcos quererá ele mostrar-me? Caminhamos em silêncio durante alguns instantes, depois viramos uma esquina, entramos no Terreiro. De manhã já visitara este largo, impressionando-me com a beleza e imponência dos velhos palacetes, deambulara ao acaso por aqui descobrindo pormenores, espreitando e imaginando, saboreando a tranquilidade; não me cruzara com uma única pessoa. Olhara para aqueles palacetes como se fossem livros: daqueles que nos dão algumas indicações e depois permitem que, a partir dessas pistas, construamos mundos, ficções, fantasias, desvarios, inquietações. 

Os palacetes mantêm-se exactamente como os recordava mas, agora, a rua está repleta de pessoas; e todas caminham na mesma direcção, a direcção que eu e o meu amigo também seguimos. Rua Direita. É então que percebo. O início desta mítica rua leiriense quase parece um túnel citadino, uma estreita e sombria passagem ladeada por duas enormes construções seculares. Avançamos alguns passos no interior deste túnel e o que vejo faz-me sorrir: uma rede de pesca foi suspensa das janelas e varandas do primeiro andar, formando uma cobertura sobre a rua; e a rede está repleta de barcos de papel, de vários tamanhos e cores diversas, balanceando suavemente ao vento. É impossível não sorrir perante esta visão inesperada e onírica. Tal como eu faço, as pessoas param e olham, depois tentam passar entre os barcos suspensos que oscilam suavemente para trás e para a frente; e sorriem; há quem tire fotos, crianças perguntam aos pais se podem levar um barquinho para casa. Um rapaz deita-se no meio da rua para ver bem os barcos, como se estivesse deitado num campo e olhasse as nuvens no céu. Um velhote diz, para ninguém em particular: «Fazia barcos destes quando era garoto, iguaizinhos.»; e sorri. Uma menina diz: «Parece um bailado de barcos.» Gostaria de ficar aqui horas, a ver as reacções das pessoas, a testemunhar os sorrisos; mas o meu amigo puxa-me pelo braço. 

- Ideia engraçada, não é? 

Explica-me que os barcos de papel a balancear no ar (e não nas ondas, que não existem em Leiria) são uma das muitas iniciativas englobadas num festival chamado A Porta. Toda a Rua Direita foi tomada de assalto por gente com vontade de agitar e transformou-se num viveiro de actividade e vida. Há concertos em locais inesperados, vendas de artesanato e de comida, artistas de rua em acção, um palacete ocupado por artistas e transformado numa galeria de arte labiríntica e mutante, teatro e exposições; tudo em simultâneo. Vamos deambulando entre o fervilhar de pessoas sorridentes que se acotovelam e caminham ao acaso, espreitando por todas as portas abertas que encontram, procurando algo que não sabem o que é, surpreendendo-se a cada instante. Aqui canta-se, ali dança-se, acolá bebe-se uma cerveja. Compra-se um livro, tira-se uma fotografia a uma janela bonita. Encontra-se uma pessoa conhecida, dá-se um abraço. Anda-se em frente, volta-se para trás. Não se dá pela passagem do tempo. 

Há dezenas de pequenas ruelas que embocam na rua principal e cada uma delas é um convite à descoberta, à deambulação. Pergunto-me como será toda esta zona num período mais tranquilo; num domingo de manhã, por exemplo: imagino ruas quase silenciosas e desertas, o som difuso de música vindo de uma janela ou outra, um gato a dormir ao sol, um pai a mostrar ao filho as pinturas de rua que foram sendo feitas como se as paredes fossem telas gigantes; lojas antiquadas e edifícios abandonados que remetem para o passado; intervenções arquitectónicas e espaços comerciais com um toque cultural que remetem para o futuro; um velho que se arrasta agarrado a uma bengala, talvez assobiando; o cheiro de um bolo de laranja colocado numa janela a arrefecer; um turista japonês que tira fotografias a cada cinco passos; o castelo sempre a espreitar, lá em cima; o som distante de um sino. A memória de outros tempos, omnipresente em cada esquina, em cada fachada, em cada momento; uma memória melancólica mas não opressiva. 

- As pessoas queixam-se muito que esta zona da cidade está um bocado morta. E talvez tenham razão, basta reparar no estado de degradação de muitos destes prédios. Mas por outro lado, olha em volta. Neste momento, estão aqui centenas de pessoas. As ruas são as mesmas, os prédios são os mesmos. Mas sente-se um fervilhar de vida que impressiona e que contagia. Neste momento, esta rua não tem nada que lembre abandono, é um exemplo de dinamismo e de vida, de intervenção social e cultural, de arte, de alegria. Caminhas entre toda esta gente e sentes-te vivo, sentes-te feliz. Sentes que fazes parte de algo dinâmico e cosmopolita. Claro que amanhã regressa tudo ao normal, e o normal não é tão entusiasmante. Mas a rua é a mesma, o espaço é exactamente o mesmo. Percebes? Por vezes, penso que é tudo uma questão de ângulo, de forma de olhar. Não achas? Podemos olhar e ver abandono; ou podemos olhar e ver potencialidade, oportunidade, desafio. E depois, se virmos por esse ângulo, podemos intervir, podemos fazer com que as coisas aconteçam. 

Percorremos toda a Rua Direita e desembocámos em frente da Sé. Uma rapariga desenha um insecto gigante numa parede branca, perante o olhar invejoso de algumas crianças. Ouvem-se risos e conversas, pessoas caminham em grupos; várias músicas diferentes misturam-se e formam uma banda sonora confusa mas cativante, como se cada uma das músicas lutasse pela atenção de cada uma das pessoas. Cheira a comida, cheira a plantas. Escuto o desabafo do meu amigo e, silenciosamente, concordo com ele; estou-lhe agradecido por me ter trazido a este túnel disfarçado de porta, a esta entrada para uma cidade que as pessoas tornam viva e vibrante com a sua presença, com as suas vozes e risos, com o seu entusiasmo. Mas percebo a tristeza das suas palavras, a tristeza que se sente quando vivemos euforicamente um dia muito especial e, de repente, recordamos que o amanhã voltará a ser normal. 

Sentamo-nos num banco e observamos as pessoas que passam, saindo ou entrando na Rua Direita, n’A Porta. Alguém diz: «É giro quando as pessoas se unem para tornarem a cidade feliz.» Há quem faça planos sobre o que deseja experienciar, há quem comente o que viu, há quem elogie, há quem critique, há quem simplesmente sorria, há quem caminhe ao acaso. Observo o fluxo imparável e, de súbito, percebo que é isso que une a maioria das pessoas que passam: caminham ao acaso e sem rumo certo, expectantes e curiosas, em busca de algo indefinido, prontas para serem surpreendidas. Ao acaso, como barcos deambulando nas ondas de um oceano sereno; como barquinhos de papel balanceando ao sabor do vento. Livres.

Olá

Chamo-me Paulo e por vezes escrevo uns textos. Isso não me torna especial, é apenas algo que faço como (por exemplo) outras pessoas correm maratonas; porque é um desafio, porque é possível. Há alturas em que é necessário, como se uma força interior incontrolável me empurrasse nalguma direcção e nada pudesse impedir o avanço. Tem de ser, e não se questiona, faz-se; tal como não se questiona a importância de respirar ou olhar o céu ou ouvir o riso daqueles que amamos. Por vezes, escreve-se ou corre-se a maratona pela mais simples e pura das razões: porque sim. Não é para ganhar medalhas nem para alimentar vaidades, não é para salvar o mundo; não é para viver para sempre ou deixar uma memória que não desapareça; não é porque alguém disse que faz bem. É porque sim. Já achei que a escrita me poderia salvar, que me poderia dar um sentido, que me poderia redimir; já pensei muito disparate, e irei continuar a pensar novos disparates porque isso é tão natural como respirar ou olhar o céu ou querer ouvir o riso daqueles que amamos. Uma coisa que sempre pensei, que continuo a pensar, e ainda não sei se será disparate ou não, é que apesar da escrita ser na sua génese um acto egocêntrico, o seu sentido último está na procura do outro, na partilha com o outro. Um texto existe realmente se não for lido? Existe, mas é um pouco como falar para o espelho no elevador. Escrever não será necessariamente uma busca de compreensão ou validação ou justificação; será antes como entrar numa sala cheia de gente e dizer olá, a ver se alguém responde e o que nasce daí. E a maior parte das vezes não nasce nada mas o que importa é que existiu a possibilidade, foi criada uma oportunidade. Talvez a relação entre quem escreve e quem lê seja um pouco como aquilo que alguns de nós fazíamos quando éramos crianças: unir dois copos de iogurte vazios com um fio e fingir que era um telefone. É uma relação feita de ingenuidade e fantasia e equívoco e adivinhação e confiança; apenas faz sentido se do lado de lá estiver alguém a pegar o iogurte vazio, a encostá-lo ao ouvido; só faz sentido quando há dois copos de iogurte e um fio a uni-los. Se na fase egocêntrica sinto a escrita como uma forma de tentar pensar e questionar, de tentar lidar com incertezas e angústias e medos e deslumbramentos, quando se passa à fase do iogurte e do cordel há a expectativa de que aquilo que começou como reflexão permita causar algures, em alguém, um sorriso ou um pensamento ou uma emoção ou um desassossego ou um arrepio. Acreditar que isso possa acontecer talvez seja pretensiosismo e vaidade, talvez seja arrogância, talvez seja ingenuidade; talvez seja coisa de pessoa boba, no sentido que Clarice Lispector lhe dá no seu texto Das vantagens de ser bobo (“…Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.”). Afinal, nada disto é especial: juntam-se palavras para ver onde isso conduz, tal como um maratonista dá um passo e depois outro e mais outro e, de repente, já está lá à frente. Mais uma vez, juntei uma palavra e a seguir outra e, agora, chegámos aqui; é tudo. Não se questiona, faz-se; tal como não se questiona a importância de respirar ou olhar o céu ou ouvir o riso daqueles que amamos.

Crónica para o Jornal de Leiria.

Ponte Escrita

Porquê participar em encontros literários? Quando o encontro em questão se chama Ponte Escrita, a resposta é mais ou menos óbvia. Participa-se para construir pontes com leitores e outros escritores; mas também comigo próprio. Para ouvir e observar, para descobrir, para ficar desassossego, para rir, para pensar, para sentir. E assim descobrir novos caminhos interiores, olhar para fora e permitir que novas ligações e novas pontes se formem cá dentro. Pontes que até podem nem ser atravessadas, por vezes basta saber que existem; basta saber que são uma possibilidade. Tal como as pontes que se estabelecem com os outros. E talvez seja isso o fundamental, criar uma rede de possibilidades, de caminhos abertos, de rotas imagináveis; porque cada pessoa com quem nos cruzamos pode ser simultaneamente um destino e uma ponte.

Parabéns à Sílvia, ao Altino e a todos os que ano após ano constroem esta ponte escrita. Obrigado por me convidarem a atravessá-la.




Viajar sem ter ido

Texto escrito em parceria com Teresa Bret Afonso, a coleccionadora de sorrisos.

Se lhe perguntassem

Via como as nuvens passavam, via como os pássaros passavam, via como as crianças passavam. Tranquilas, as nuvens; ruidosos, os pássaros; alegres, as crianças. 

Se lhe perguntassem:
«És uma árvore feliz?»
Responderia sem hesitação:
«Sou.»

Porque sentia-se genuinamente feliz. Mas, apesar da felicidade, via como as nuvens passavam, via como os pássaros passavam, via como as crianças passavam; e invejava um pouco a liberdade de nuvens e pássaros e crianças. Invejava a possibilidade de passar, que era algo que nunca poderia fazer. O destino das árvores é estar, e não passar. E ela estava, imaginando como seria passar. Sonhando.

Se lhe perguntassem:
«És uma árvore sonhadora?»
Responderia sem hesitação:
«Sou.»

Se não fosse envergonhada, explicaria que o sonho era a sua verdadeira raiz; era o sonho que a sustentava, sólida e forte, e lhe permitia crescer centímetro a centímetro em direcção ao sol. Mas falar de sonhos não é conversa que uma árvore tenha, suspeitava que não seria realmente compreendida se confidenciasse os seus segredos a alguém. E a sensação de incompreensão era um tipo de solidão que sentia de forma particularmente incisiva, mas inconfessável (porque falar de solidão também não é conversa que uma árvore tenha). E por isso, distraía-se: via como as nuvens passavam, via como os pássaros passavam, via como as crianças passavam.

Tranquilas, as nuvens; ruidosos, os pássaros; alegres, as crianças. Mas as nuvens nunca paravam, os pássaros nunca pousavam, as crianças nunca se aproximavam.

Até que um dia, estava a árvore a pensar nos seus sonhos quando se aproximou uma criança; dia sem nuvens e em que ainda não se tinham visto pássaros por ali mas a criança aproximou-se mesmo. E ali ficou a olhar a árvore com os seus olhos brilhantes e curiosos; rodeou-a e andou à sua volta, tocou-a com os seus dedos pequeninos.

«Falas português?» 

Perguntou a menina. A árvore sorriu, apesar de não ter boca nem músculos nem olhos que pudessem brilhar; apesar de não ter rosto. Mas sorriu, porque para sorrir basta ter corpo.

«Olha, podes fazer-me um favor?»

E sem esperar uma resposta, começou a prender o balão que trazia consigo num dos ramos da árvore.

«Tomas conta do meu balão, enquanto vou andar de bicicleta?»

Era um balão vermelho. E a árvore imaginou que o seu ramo era uma mão, imaginou que o seu tronco era o corpo de uma menina; imaginou-se criança a passear um balão vermelho, pés descalços na relva verde, cabeça erguida em direcção ao céu azul; e a brisa a fazer cócegas na sua pele. Imaginou ou sonhou?

Se lhe perguntassem:
«Preferes sonhar ou imaginar?»
Responderia sem hesitação:
«Prefiro quando não consigo distinguir uma coisa da outra, quando se misturam.»

Se passasse ali um pintor talvez gostasse de fixar numa tela aquele quadro inesperado: uma árvore a fingir-se criança. Mas não passou nenhum pintor e a árvore deixou-se estar quieta, completamente quieta (na sua imaginação, mexia-se muito; e nos sonhos também); a saborear aquela novidade, a sentir aquele momento. A viajar com o seu balão.

Mas depois de um momento vem sempre outro. E ninguém poderia adivinhar que o momento que estava quase a chegar seria um momento mau. Começou quando a árvore sentiu que o cordel que prendia o balão ao seu ramo começava a libertar-se muito devagarinho. E por mais que a árvore imaginasse ou sonhasse, por maior que fosse o seu desejo ou a sua aflição, o ramo não conseguiria transformar-se numa mão, em dedos que pudessem segurar e prender o fio. Imaginou e sonhou, desesperada; mas o fio soltou-se.

O balão subiu ao céu, lento. Parecia um bailarino envergonhado, pensou a árvore. A subida do balão no céu parecia uma dança, pensou a árvore.

Se lhe perguntassem:
«Gostavas de dançar?»
Responderia sem hesitação:
«Muito. Farto-me de dançar em sonhos. E na imaginação também.»

Mas as árvores não podem dançar, tal como não podem correr atrás dos balões que lhes fogem das mãos que não possuem. O balão fugia e a árvore olhava, dividida entre a vontade de apreciar a beleza daquele voo e a aflição que sentia por ter decepcionado a menina. Na verdade, foi um dos piores momentos da sua vida, nunca sentira o desespero de não poder agarrar algo que lhe escapava. Nunca pensara nisso mas, de repente, pareceu-lhe que talvez fosse essa a mais bonita capacidade dos humanos: a de agarrar. Agarrar-tocar-pegar-segurar-cuidar.

Ainda não tinham aparecido pássaros. Mas surgira uma nuvem, pequena e branca; lá estava ela, como se o céu fosse o seu quarto. E o balão vermelho ia subindo na sua direcção, como se tivesse sido convidado para ir brincar no quarto da nuvem. Apesar da aflição que sentia, a árvore não conseguia deixar de achar aquilo bonito. E quase se esqueceu que havia uma menina a andar de bicicleta, algures.

«Onde está o meu balão?»

Durante um instante, a árvore teve medo. Medo que a menina se chateasse, medo que a menina chorasse, medo que a menina lhe arrancasse ramos, medo que a menina ficasse triste para sempre. E quis fugir. Mas não fugiu, porque era uma árvore e as árvores estão presas à terra pelas suas raízes. (Sim, acreditava que o sonho era a sua verdadeira raiz; era o sonho que a sustentava, sólida e forte, e lhe permitia crescer centímetro a centímetro em direcção ao sol. Mas poderia o sonho ser, também, uma prisão?, perguntou-se um pouco desesperada.)

Depois de um momento vem sempre outro. E ninguém poderia adivinhar que o momento que estava quase a chegar seria um momento bom.

«Oh, foi brincar com aquela nuvem. Que giro.»

A menina olhava para o balão vermelho, que prosseguia o bailado no céu azul. A árvore viu que a menina sorria, apesar de ter perdido o seu balão. E sentiu-se feliz; apesar de saber que muitas vezes a felicidade se confundia com alívio, pareceu-lhe que naquele momento o que sentia era mesmo felicidade.

Ficaram a olhar o balão, a menina e a árvore. Durante muito tempo.

«Fizeste bem em deixá-lo voar.»

Disse a menina. E mais tarde, acrescentou numa voz baixinha:

«Às vezes, gostamos tanto das coisas que não conseguimos largá-las.»

E a árvore, que pouco antes percebera que a melhor coisa de ser pessoa era poder agarrar-tocar-pegar-segurar-cuidar, ficou a pensar se a melhor coisa de ser árvore não seria o poder largar. Largar folhas, largar frutos, largar sombras; por exemplo. Ou: largar balões.

De repente, a menina queixou-se que já lhe doía o pescoço. A árvore, que se distraíra a filosofar sobre as suas teorias do agarrar e do largar, ficou a ver a menina afastar-se. Talvez ela regressasse noutro dia, com um novo balão. E perguntasse:

«Queres largar este balão comigo?»

Ou talvez nunca mais voltasse. E os dias prosseguiriam como sempre. Veria como as nuvens passavam, veria como os pássaros passavam, veria como as crianças passavam. Tranquilas, as nuvens; ruidosos, os pássaros; alegres, as crianças.

E se lhe perguntassem:
«És uma árvore feliz?»
Responderia sem hesitação:
«Sou.»
Mas nunca ninguém perguntava.

O balão vermelho lá continuava no céu, a bailar atrás da nuvem. E a árvore olhava-o, via como deambulava livre, solto, leve; via como passava. Olhava-o e sorria, apesar de não ter boca nem músculos nem olhos que pudessem brilhar; apesar de não ter rosto. Mas sorria, porque para sorrir basta ter corpo.

Abril


Calendário Improviso
Doze textos para doze fotos de Sílvia Bernardino.

Março


Calendário Improviso.
Doze textos para doze fotos de Sílvia Bernardino.

Libelinhas








Liliana Gonçalves, Sónia Pedrosa, Laura Perdomo Bouza Mayor, Tânia Chavinha, Bruno Jerónimo, Ana Moderno. 

Encenação de Pedro Oliveira para O Nariz.
Fotos de Carla de Sousa.