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# 74: La Redoute

Estávamos a fazer sexo quando o telemóvel dela tocou. Não sei bem como aconteceu tal coisa mas a verdade é que estávamos no sofá da sala e não no quarto, logo depois do almoço, com o sol a entrar pela janela e um murmúrio de vozes vindo do apartamento do lado, as roupas amarrotadas e apenas meio despidas. Não sei se está a imaginar, doutor. Como já lhe contei, agora raramente fazemos sexo, e nunca por iniciativa dela, sempre são uns doze anos de casamento ou assim, por isso pode perceber o inesperado da situação: estava eu estendido no sofá a ver as notícias quando ela vem da cozinha e se senta ao meu lado, os corpos a tocarem-se ligeiramente, só mesmo um pedacinho; e pronto, foi quanto bastou, tal como acontecia antes, e quando digo antes, doutor, quero dizer há muito, muito tempo, bastava estarmos juntos, bastava os corpos tocarem-se momentaneamente, e o desejo brotava logo, violento e arrebatador, desculpe lá falar assim, até pareço um totó. Ficámos quietos e caladinhos durante uns momentos, os dois a pensarmos na mesma coisa, e, logo depois, ela beija-me; eu reajo, claro que reajo, não é doutor?, e ficamos entusiasmados, tudo a correr naturalmente, como sempre deveria correr, duas pessoas que se amam fazem amor a meio da tarde e pronto. Mas é então que toca o telemóvel; continuo a fazer o que estava a fazer, se é que me entende, mas ela, logo ao primeiro toque do telemóvel, imobiliza-se, como se tentasse perceber o que estava a acontecer, não sei como explicar de outra forma, tipo alguém que acorda de repente sem fazer ideia de onde está, sem fazer ideia que tinha adormecido; dois toques mais tarde, salta de cima de mim e marcha em direcção à cozinha, apressada e desengonçada. Não disse nada, não me olhou, não sorriu, não acenou ou assim, não demonstrou qualquer contrariedade por estar a ser interrompida, por interromper; aliás, doutor, de repente até parecia que eu nem estava ali, percebe o que quero dizer?; fico a vê-la afastar-se, compondo a saia, agindo como se apenas quinze segundos atrás estivesse simplesmente sentada no sofá a ver televisão ou a espreitar uma revista e não a foder com o marido, desculpe lá falar assim, doutor, mas era o que estávamos a fazer. Não imagina como me senti, ali abandonado, excitação e frustração a misturarem-se, confundindo-se e enervando-me; consegue imaginar?, eu estendido no sofá com as calças pelos tornozelos, a olhar desconsolado para o meu pénis ainda rígido e brilhante, e a tipa das notícias a falar sobre um festival da sardinha não sei onde, um festival da sardinha, não sei se está a ver. Uma sensação do diabo, doutor. Mas piora, porque logo depois ouço-a atender a merda do telemóvel e a coisa tornou-se verdadeiramente surreal; ouvi-a lá da cozinha a dizer… sabe o quê, doutor?, disse “Olá, estava mesmo a pensar em ti…”; e a rir, doutor, a rir, como se lhe tivessem respondido algo verdadeiramente divertido; ouvi-a acrescentar “Olha, ainda bem que ligaste…”, depois baixou o tom, não sei se de propósito ou se inconscientemente. E eu a perguntar-me com quem estaria ela a falar, ainda surpreendido com a agilidade com que ela mudara de situação e de estado de espírito, a perguntar-me se poderia estar realmente a pensar noutra pessoa qualquer enquanto se balanceava em cima de mim, se estaria realmente satisfeita por ter sido interrompida. Uma sensação do raio, doutor. Acho que me senti meio estupidificado, como se fosse aquela a primeira vez em que percebesse que não fazia a mais pequena ideia do que se passava na mente da mulher que julgava amar, que acreditava que me amava; e talvez tenha sido realmente a primeira vez, doutor, em que consciencializei, de forma objectiva e desapaixonada, que não faço ideia o que pensa ela quando está comigo, o que pensa ela de mim. É natural, isto? Acontece com toda a gente, doutor? Será que as pessoas apenas fingem que entendem os outros, apenas fingem conhecer os outros para que a vida em sociedade seja viável? Enfim, adiante. Ouvia-a tagarelar, agora num tom mais baixo e comedido, e imaginava-a a ajeitar as cuecas, completamente esquecida e desinteressada de mim, enquanto ia olhando para a televisão, incapaz de me decidir a vestir-me, ainda com esperança que ela regressasse com um sorriso apologético e um piscar de olho cúmplice (um piscar de olho, doutor; ela, que nunca me piscou o olho, nem uma única vez: por que raio haveria de o fazer agora?). Desejando simplesmente foder, desculpe lá outra vez, doutor, como se isso afinal pudesse significar alguma coisa ou salvar alguma coisa ou valer alguma coisa. E suponho que foi por essa altura que comecei a pensar em divórcio pela primeira vez; sei que isto parece um bocado pateta, já imaginou?, eu ali meio despido, flácido e ridículo e vulnerável, sentindo pena de mim, acho que foi isso que senti, mais do que revolta ou ódio ou decepção ou sei lá o quê, apenas uma grande pena de mim; e ao mesmo tempo, doutor, e esta foi a parte mais esquisita, senti também uma inesperada vontade de acabar com tudo aquilo, de seguir em frente, de mudar de capítulo, ou melhor, de capítulo não, de livro, doutor. Mudar de livro. Já lhe contei que estamos juntos desde a faculdade? Juntámos as bolsas e alugámos o nosso primeiro apartamento, onde passávamos as noites a planear o futuro e com pressa que o tempo passasse. Parece que foi noutra vida, não parece? Afinal, de quantas vidas é feita uma vida? Quantas vidas vivemos durante a nossa vida? Deixe lá, doutor, às vezes dá-me para devanear; voltando ao que interessa. O que aconteceu foi isto: ela continuava a tagarelar na cozinha e eu com aquela palavra, aquela ideia, a bailar-me na cabeça, algo em que nunca pensara antes, juro-lhe, doutor, nunca, algo que jamais julgara possível aplicar-se a mim. Divórcio, doutor. Uma palavra com um poder tremendo, que representa uma espécie de potencialidade libertadora ou algo do género, não acha? E eu que nunca tinha pensado nisso, nessa perspectiva, mesmo nunca, quando se pensa em divórcio, pensa-se sempre numa espécie de apocalipse ou assim. Pois pensei nessa tarde, enquanto voltava a arrumar o pénis no sítio dele; depois, levantei-me do sofá e olhei durante um momento para a televisão e, seguindo um impulso irresistível, saí para a rua. Foi o que fiz, doutor; abandonei-a. Puxei a porta sem nenhum cuidado especial, chamei o elevador e esperei que chegasse, evitei olhar-me ao espelho e decidi que não fazia mal que o meu corpo cheirasse ligeiramente a sexo, segui pelo passeio repleto de gente sem olhar para ninguém, entrei no carro, dei umas voltas sem destino, fui perguntando a mim próprio quanto tempo demoraria ela a telefonar-me e só quando já era noite percebi que ela não ligaria. E não me importei, doutor, percebi que não me importava nada; limitei-me a dar mais umas voltas e pronto. Fugira, certo que isso dificilmente significaria alguma coisa ou salvaria alguma coisa ou valeria alguma coisa; Nem sei se se pode dizer que fugi, limitei-me a mudar de sítio, para descobrir que essa simples mudança de cenário implicava mudanças inesperadas. Ok, fugi: e soube-me bem, doutor, soube-me tão bem. Foi espantoso perceber como o amor (ou melhor: aquilo que eu achara ser amor, e agora não faço ideia o que seria) se dissipou num momento, assim, com um estalar de dedos, deixou simplesmente de existir, transformou-se em nada; olhe, de certa forma, limitei-me a imitá-la: tal como ela perdera subitamente o interesse pelo sexo, naquela tarde, e me trocara por uma conversa telefónica, também eu perdi o interesse por ela, como por magia, troquei-a por não sei bem o quê. Por nada, talvez. Na verdade, esvaziei-me dela, por assim dizer; e caraças, doutor, soube-me tão bem sentir-me vazio, nem imagina. Olhe lá bem para mim, doutor; não se nota que estou diferente? Que estou oco? Acho que é esse o termo adequado, oco. Prontinho para ser enchido de novo, por assim dizer; e ainda é melhor do que nascer de novo ou assim. Mas só lhe queria perguntar uma coisa, doutor: onde se vai buscar uma vida nova, como se faz para se começar tudo de novo? É que esta está definitivamente gasta e preciso de outra. Não haverá algures uma espécie de pronto-a-vestir de vidas, um sítio onde uma pessoa possa ir buscar uma vida nova, percebe?, como se vai a uma loja buscar um casaco ou uma camisa ou umas cuecas? Ou, melhor ainda, um catálogo, sim, é isso, um catálogo de possibilidades, conhece algo do género? Tipo La Redoute, uma pessoa escolhe o que quer e manda vir e pronto, é só começar a usar. É só começar a usar, doutor. Diga-me lá a verdade: há ou não por aí uma La Redoute de vidas e tal? E onde é que me inscrevo para a receber? Onde, doutor?

(Comentários escritos pelo psiquiatra no seu caderninho, durante a consulta:
“Primeiro comentário: tenho que descobrir a que festival da sardinha se refere o homem, pode ser que ainda esteja a decorrer e possa lá dar um salto. Segundo comentário: Oh pá, vai às putas que isso passa logo.”)

Ebook # 05: Consultório



O ebook “Consultório”, que reúne seis contos originais e seis pinturas de Joana Lucas, está finalmente disponível. É só seguir o link.

# 73: Eu e a minha namorada

Eis mais uma estória da série de contos escritos a partir da pintura de Joana Lucas (desta vez, o conto escrito a partir do quadro “Eu e a minha namorada”). Dentro de dias, estará disponível um ebook gratuito com as seis estórias e os respectivos quadros inspiradores.


Hoje queria falar-lhe de um vizinho lá do prédio; pode ser, doutor? Deixe-me contar a história, que depois já percebe onde quero chegar. Está bem? É uma pessoa normalíssima, este vizinho; diz boa tarde ou boa noite conforme a hora, como todos os outros, quase sempre sem olhar para a pessoa a quem se está a dirigir, mas isso também é normal; sossegado e silencioso, muito vagaroso, sempre muito vagaroso, como se não tivesse pressa de nada, como se nunca fosse esperado por ninguém, algures; o que é um pouco estranho, num homem assim novo, mas enfim, até sabe bem uma pessoa cruzar-se com alguém que não age permanentemente como se o mundo estivesse para acabar, alguém que parece dizer-nos, assim com um sorriso e tal, eh pá, tem lá calma que ainda há morte que chegue para todos. Sempre sozinho, o que também não é lá muito normal, mas paciência. Lá anda ele metido na sua vida, que não deve ser muito diferente da vida dos outros todos, entra no elevador e sai do elevador, abre as portas quando há uma senhora por perto, queixa-se da merda que os cães de alguns vizinhos deixam plantada nos passeios do condomínio, enfim, distrai-se com a vida, que é o melhor que temos a fazer; e isto é o que vemos, porque do resto da vida do homem nada sabemos, como é óbvio. Até aqui, tudo normal. Certo? O que tem piada, doutor, é o saco que ele usa. Não sei se está a ver, aqueles sacos que agora as pessoas usam para tudo, em substituição dos velhinhos sacos de plástico, para transportar as compras do supermercado e assim. Ele anda sempre com o mesmo, não falha. E nem é um saco que dê muito nas vistas, reproduz o rosto de uma mulher e nada mais, uma mulher normal, percebe?, e não uma actriz ou assim, apenas o grande plano do rosto de uma mulher normal, igual às mulheres que todos conhecemos, e pronto, é apenas isso. Mas que tem então o saco de especial?, pergunta o doutor. Bom, o que acontece é que o homem usa o diabo do saco desde que veio viver para o prédio, portanto para aí há uns dois anos; sempre o mesmo, nunca ninguém lhe viu outra coisa nas mãos; mas há mais: é que o saco está sempre impecável, como se nunca tivesse sido usado; até parece que ele tem lá um stock infindável de sacos iguais em casa e vai renovando. Admita lá, doutor, é uma coisa uma bocado esquisita, não? Quero dizer, não daquele esquisito assustador e perigoso mas do esquisito engraçado. E sabe como é, as pessoas não têm nada melhor para fazer do que comentar a vida alheia, é sempre melhor rir dos outros do que lamentarmo-nos de nós próprios; resumindo: a malta topou aquilo dos sacos e começou a falar, tornou-se uma espécie de pretexto para especulações variadas e geralmente maldosas; mas coisas inofensivas, claro. E é isto que se tem passado nos últimos dois anos. Até que, esta semana, o mistério se resolve. Ou melhor: não se resolveu, na verdade até complicou um bocado, mas lá se deu um passo em frente, e por isso é que estou aqui a contar-lhe a história. Descobrimos o significado dos sacos, doutor. E garanto-lhe que vai achar piada a isto. Então é assim: a foto que ele pôs nos sacos é o retrato da namorada. Parece que, certo dia, a mulher desapareceu, sem despedidas nem explicações; evaporou-se, doutor. Não se sabe se o abandonou, se foi raptada, se morreu algures, se foi levada por extraterrestres. Desapareceu e o homem nunca mais foi o mesmo, ia dando cabo da vida mas lá acabou por se recompor, à força dos remédios que o doutor bem conhece; mudou de emprego e de cidade, foi então que lá apareceu no prédio. Sempre com os sacos da mulher atrás, como se aquilo fosse um pedido de ajuda ambulante, um pedido de ajuda não muito ostensivo mas, ainda assim, um pedido de ajuda. Tipo anúncio de pessoa desaparecida, percebe?, como os americanos põem fotos de meninos desaparecidos nas caixas de cereais e nos pacotes de leite, não tanto para os encontrarem mas, isto é o que eu penso, mais para arruinar os pequenos-almoços das outras pessoas todas, do género já que eu estou miserável, tu também não hás-de estar feliz, olha lá para o pacote e vê o que te pode acontecer. Ou então é uma despedida ou uma forma de mostrar ao mundo que foi feliz com aquela mulher ou um estratagema para ela perceber, caso o veja na rua, que ele não a esqueceu. Sabe-se lá o que vai pela cabeça do homem; porque, motivações, não deu nenhuma; limitou-se a clarificar o significado do saco mas não avançou justificações, confessou apenas que era a namorada que estava nos sacos e acrescentou alguns dos pormenores que acabei de lhe contar. Está a ver, doutor? Que lhe parece uma coisa destas? Parece coisa de filme. Bom, a verdade é que estou aqui a falar disto com jovialidade e tal mas aquilo mexeu um bocado comigo, tirou-me uns minutos de sono. E, doutor, a verdade completa é que tenho andado a pensar na história do homem, a pensar nele e na sua namorada de plástico. A extrapolar, por assim dizer. É que, e veja lá se me percebe, comecei a pensar que ele talvez quisesse andar com o saco para se sentir acompanhado. Acompanhado pela namorada, para não desfilar pela rua sozinho, para sentir de alguma forma a sua presença, a sua companhia; para andar de mão dada com ela, pelo menos metaforicamente. Isto parece-lhe muito estapafúrdio, doutor? Talvez seja, mas se todos pensássemos apenas coisas inteligentes, estava o mundo cheio de Einsteins, ou não era? Sabe o que mais pensei? Eu digo-lhe. Pensei assim: se calhar, o homem não é assim tão diferente de todos os outros. Ele vive com uma fotografia emplastrada num saco de plástico; mas, e os outros? Nós? Por vezes, vivemos com a memória de alguém que amámos, com o fantasma da pessoa que amámos. Ou não é verdade? Quantos casamentos não subsistem apenas à custa da recordação de momentos passados de felicidade absoluta, e da ingénua crença na possibilidade de repetição dessas recordações? Como já adivinhou, estou a referir-me ao meu caso pessoal. Ali estava ao lado da minha mulher, ouvindo-a ressonar muito ligeiramente, encolhidinha no seu canto da cama para não haver o risco dos nossos corpos se tocarem, tão misteriosa para mim com uma das luas de Júpiter, é esse que tem as luas, não é?, e ia pensando assim: há relações em que as pessoas apenas se mantêm porque tem que ser, porque um dos elementos agarra-se ao outro e não larga, um dos elementos arrasta o outro para o casamento, ou, de certa forma, arrasta o casamento às costas, tal e qual o meu vizinho arrasta o seu saco e uma relação que já não o é. Foi o que pensei, a noite passada, enquanto ouvia a minha mulher respirar alto, é deselegante afirmar que uma mulher ressona, e a pensar qual dos dois arrasta mais o casamento às costas, qual dos dois é o Júpiter que atrai a lua e não a deixa partir pelo espaço fora em busca de melhor órbita, livre. E depois, lá adormeci; tive um pesadelo do caraças, acordei tarde, atrasei-me; e de manhã, lá desço no elevador com o vizinho mais o seu saco, há coincidências que até arrepiam, e eu a pensar porra, que isto só pode ser um sinal. Será um sinal, doutor? Dê-me lá a sua opinião.

(Comentário escrito pelo psiquiatra no seu caderninho, no final da consulta:
Talvez o apego do homem ao seu saco represente, afinal, uma forma simultaneamente subliminar mas incisiva de desprezo, uma forma cruel de anunciar ao mundo a mensagem de ódio e despeito que dirige à ex-companheira, algo do género
antes servias para cozinhar e foder, agora serves para transportar arroz e papel higiénico. Uma forma algo ingénua, pouco sincera, de publicitar que está só e feliz com isso?)