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Esboço # 96

- Sabes, tive uma tarde de merda.

- Então?

- Passei horas ligada ao facebook, a ver as actualizações dos amigos e assim; a pôr likes em tudo o que aparecia.

- E depois, qual é o problema? Toda a gente faz isso.

- Mas sabes porque o fiz? Olha, foi para que alguém reparasse em mim. Percebes? Para que alguém notasse que eu existo, que estava ali. Disponível.

- E resultou?

- Nem por isso. Não. Nada.

- Deixa lá. Toda a gente sabe que o facebook é uma treta.

- Talvez seja. Mas qual é a alternativa?

- Não digas isso. Há montes e montes de alternativas.

- Sabes de que me lembrei? Alterar a foto do perfil.

- Oh, vais tirar aquele desenho fofinho? Porquê?

- Acho que vou mudar para uma foto mesmo minha, em vez de bonecadas. Qualquer coisa que dê nas vistas.

- Como assim?

- Uma foto em lingerie ou assim.

- Sério? Não acredito. Não és capaz.

- Mas tenho medo que, mesmo assim, não resulte. Que ninguém repare, sabes? Já pensaste? Se nem isso resultar, que me resta?

- Pois. A solidão é uma coisa bem fodida.

- Solidão? Mas tu pensas que é disso que estou a falar? De solidão? Chiça, parece que tens treze anos.

Esboço # 95

Foi uma tarde muito agradável, tão agradável que ambos gostariam que não terminasse; mas, inevitavelmente, chegou o momento da despedida, da separação. Então, ele disse (sem a olhar, sem se aproximar): “Se isto fosse um filme, daríamos agora o nosso primeiro beijo.” Ela olhou-o um pouco surpreendida, um pouco confusa; aproximou-se dele muito devagarinho e deu-lhe um estalo, violento e ruidoso. Levantou-se e saiu, sem se despedir, sem olhar para trás.

Ele encolheu os ombros e acendeu um cigarro, perguntou-se quanto tempo demoraria a desaparecer a mancha vermelha que certamente teria na face; olhou para a porta por onde acabara de sair a sua quase-amante e convenceu-se de que nunca mais a veria; pensou: “Foda-se, três semanas de trabalho para nada.” Depois, quando o cigarro terminou, pegou no telemóvel e ligou para casa; foi o menino que atendeu. “Avisa a mamã que, afinal, posso ir jantar a casa, está bem?”, disse ele. “Fixe.”, respondeu o garoto.

Kellerman Remixed

O projecto “Kellerman remixed” está quase completo. A segunda e última música a incluir no ebook está pronta e pode ser (repetidamente) ouvida aqui. Nelson Brites (Mikroben Krieg) pegou numa estória que escrevi a partir de uma canção dos Depeche Mode e transformou-a numa música extraordinária. Enjoy.

Esboço # 94

Dois velhos amigos encontram-se num quarto de hotel e fazem amor pela primeira vez. Corre assim-assim, até chegar o inevitável momento em que alguém tem que dizer qualquer coisa.

ELA: Então e agora, como fazemos?

ELE: Como fazemos? Eh pá, parece impossível. Só porque um gajo dá uma foda, começa-se logo a falar de futuros e relações e compromissos e o carago. Nunca pensei que fosses uma dessas tipas para quem foder implica logo casar ou assim.

ELA: Estás a falar de quê? Queria só saber quem toma duche primeiro. Se não te importas, queria despachar-me que tenho cabeleireiro marcado. Pode ser?

Esboço # 93


Prazo expirado.