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Gonçalo M. Tavares apresenta “Os mundos separados que partilhamos” (Deriva), de Paulo Kellerman.
Paulo Kellerman apresenta “Breves notas sobre medo” (Relógio d’ Água), de Gonçalo M. Tavares.
Dia 28 de Junho, às 18h30, na Livraria Bulhosa (Entrecampos), em Lisboa.
Obrigado a todos os que quiserem e puderem aparecer.

# 49: Óculos, relógios, perfumes

1.
Vou passando as páginas da revista. Textos inconsequentes que não consigo ler até ao fim; fotografias agressivas que me assustam um pouco; e publicidade: óculos, relógios, perfumes. Uma psiquiatra (lindíssima, um sorriso tão, tão sereno: terapêutico) que diz: parece que já não importa o que somos, só interessa o que parecemos; e na página seguinte: publicidade a óculos de sol, mulheres sensuais e petulantes; gente que parece feliz.
Pouso a revista e recosto-me no sofá, tentada a fechar os olhos.
Mas ouço a chave na porta. Entras, sorris; sorrio, em resposta. Pousas a pasta, beijas-me a face. Perguntas se estou bem, respondo que sim. E depois: nada. Absolutamente assustador este momento em que temos de nos confrontar, em que não podemos fugir ao outro; temos de nos olhar nos olhos e inventar algo para dizer, confirmar a nossa intimidade; adiar um fim que não desejamos. Ainda nos olhamos; mas por vezes, como hoje, não sai nada. Ficou a intenção, o esforço, a tentativa: e já não é pouco.
Separamo-nos em silêncio. Pouco depois, ouço o silvo do computador; o teclar frenético; um suspiro inconsciente, tão revelador. Sento-me no sofá, pego na revista. Óculos, relógios, perfumes.

2.
Comes devagar, com ponderação. Elegante, um pouco afectado; penso que ainda me comovo com a tua vaidade ingénua, inofensiva. E vais falando, tanto. Escuto-te, por vezes sorrio; abano a cabeça ou encolho os ombros. Não te calas, gostas tanto de falar. Gastar palavras: uma outra forma de não dizer nada; de silêncio. Recordo o quanto gostava de te ouvir, o quanto me seduzia a tua verborreia exibicionista; e sorrio, incrédula: mudei tanto.
Pegamos na louça e arrumamos a cozinha, em conjunto. Tal como um casal recém-casado, que não suporta um momento de separação, ou de individualidade. Vais falando, sem que te escute verdadeiramente. Impressiona-me um pouco a quantidade de coisas inconsequentes e irrelevantes que consegues dizer; pior: não consigo recordar a última vez em que me disseste algo importante. Pergunto-me: o que poderia ter sido?
Depois, de repente: o silêncio. Cansas-te de me entreter. E logo depois (sempre latente): o embaraço, que jamais confessaríamos, de ter de estar juntos, dias após dia; para sempre. Insistimos em partilhar as vidas: porque todas as alternativas possíveis são piores, mais difíceis. Não: menos fáceis.
Pouco depois: o silvo distante do computador, o teclar frenético. E o sofá, a revista; óculos, relógios, perfumes.
Vida familiar.

3.
Sinto a carícia do lençol na coxa e, inesperadamente, apetece-me. Cedo ao desejo, à ânsia; desisto de qualquer tentativa de adormecer e preparo-me para esperar, não demasiado ansiosa. Imóvel, em silêncio, respirando devagar; antecipando a possibilidade. O corpo tenso, expectante.
Espero por ti. Com esperança que venhas em breve, com a cabeça cheia de imagens dos corpos de pobres adolescentes envelhecidas que persegues, por vezes, nos sites pornográficos. Que venhas, excitado: e te alivies em mim.

4.
Acho que estou a gritar, não sei se palavras ou sons e gemidos, grunhidos; não sei o que digo nem o que sinto. Não importa, nada importa neste momento. Apenas interessa o prazer que sinto, este prazer fugaz mas totalitário que é afinal uma forma de alienação total, de esquecimento do mundo, de suspensão da vida, de imortalidade do corpo. Nada importa, agora: apenas este descontrolo momentâneo, total e irreversível, talvez irrepetível. Porque cada vez é como a primeira, cada vez poderá ser a última.

5.
Sais suavemente de dentro de mim, sem pressa. Suspiras longamente e afastas-te com cuidado, quase com delicadeza, de modo que os nossos corpos não se toquem verdadeiramente; no momento imediato, esqueces-me.
E eu: agradecida. Ainda me sinto anestesiada, o corpo lânguido e confortável, regressando preguiçosamente do torpor. Agrada-me que não arrisques uma tentativa de conversa, que não forces uma intimidade inconsequente e desnecessária, que não procures prolongar artificialmente este momento de partilha. Entendemo-nos bem, finalmente; mesmo sem necessidade de o confessar, percebemos que o amor já terminou; e, silenciosamente, concordamos nisto: não precisamos dele. Basta-nos a previsibilidade da presença do outro, o conforto de nos sabermos acompanhados, compreendidos, desculpados. Silenciosamente: porque se concretizássemos estes sentimentos em palavras sentiríamos indignação e repugnância.
Aprendemos a dispensar as rotinas dos amantes exaltados, as inábeis e comoventes tentativas de adivinhar os desejos do outro, de agradar e surpreender, de encantar; concordamos, finalmente, que o que prevalece é o que cada um retira do outro e não tanto o que proporciona; porque o que proporciona é tudo o que o outro quiser retirar. Sem subterfúgios nem encenações, sem sentimentalismos nem vergonhas. Fodemos simplesmente, com maturidade e abnegação, confortavelmente; e nunca foi tão bom, tão recompensador, tão pleno. Para ambos.

6.
Estou quase a adormecer, serenada pelo conforto que ainda sinto disseminado por todo o corpo, quando começas inesperadamente a contorcer-te, primeiro com preguiça e contrariedade e, logo depois, com algum frenesim. Quando te olho, identifico algo inesperado no teu rosto: dor; e logo depois: medo.
Assusto-me. Ou talvez seja apenas contrariedade, o que sinto.
Fecho os olhos, durante uns instantes; aguardo, refugiando-me na escuridão, no silêncio, na inércia: sem esperança. Não precisamos de falar, há anos que lemos artigos de revistas, vemos programas de televisão, ouvimos discursos de técnicos de saúde; há anos que esperamos que aconteça algo assim. Abro os olhos, procuro os teus: e encontro-os fechados. Já.

7.
Levanto-me e cambaleio pelo quarto, sentindo o chão áspero nos pés descalços; procuro o telemóvel e explico a uma senhora muito calma e sorumbática que estás a morrer. Depois, pouso o telemóvel e refugio-me na janela, que abro um pouco. Vento, escuridão. Um gemido quase envergonhado, tímido: e admiro-te, contrariada. Estás a morrer com dignidade.
Que disparate: não estás nada a morrer. A ambulância está a caminho; salvar-te-ão.
Talvez seja melhor começar a pensar em vestir-me.

8.
Apareceram três bombeiros. Dois pegam em ti e carregam-te até ao elevador, em silêncio; depois, mudam de ideias e avançam para a escada, sem excessiva pressa. Não voltaste a abrir os olhos, paraste de te contorcer há muito; não gemes. Não incomodas.
O outro bombeiro olha-me: como se estivesse com vontade de me falar, de me perguntar por que motivo não estou a chorar; ou talvez tenha gostado de um qualquer pormenor de mim, do meu corpo (o cabelo, a elegância dos dedos?). Pergunto-me, um pouco envergonhada, se terá reparado no cheiro a sexo que ainda paira pelo quarto. E quase sinto embaraço.
Descemos os dois no elevador, desconfortáveis. Conto os segundos que passam. No espelho, o reflexo das nossas costas. Um suave zumbido descendente. Talvez alguém ainda acordado no prédio, a ver o AXN. Apetecia-me dizer qualquer coisa, falar um pouco; ser escutada. E chorar? Não, acho que não.
A porta abre, saio. Não era o quarto que cheirava a sexo, afinal: é o meu corpo. E o bombeiro, mais tarde, lá no sítio onde os bombeiros guardam as ambulâncias, dirá aos colegas: estavam a foder.
Pois estávamos.

9.
A ambulância avança com rapidez nas estradas desertas. Cá de dentro, o ruído da sirene parece particularmente lúgubre, um grito estridente que não diminui, não se afasta, empenhado em perseguir-me impiedosamente. Mas se as estradas estão desertas, para que serve a sirene?
Estás praticamente inconsciente, não te moves; os olhos não voltaram a abrir, o que me assusta, o que me alivia (e era tão confortável, se conseguisse ficar desesperada); observo, com inesperada apatia, quase com resignação, como o senhor da ambulância anda de volta de ti, um pouco frenético, um pouco indiferente. Há solavancos repentinos, violentos. Penso: foi uma sorte que tenham mandado a ambulância e não aqueles médicos de emergência; assim, não morrerás na nossa cama; não: morrerás longe. E eu poderei voltar.
Fecho os olhos, tento escapar à perseguição da sirene. Sinto uma desconfortável viscosidade, embrulhada numa ténue cócega: um pouco do teu esperma que ainda andava por dentro de mim, acariciando, e escorrega, agora; uma mancha nas cuecas: o que resta de ti.

10.
Imagino uma sala de espera deserta. Revistas abandonadas em cima de uma mesa; e eu a perguntar-me: qual devo pegar? Um segurança que passa por vezes, imitando o porte marcial que aprendeu em filmes idiotas, e me olha com alguma curiosidade, não muita; e que depois, logo depois, deixa de aparecer: desinteressado. Silêncio, que num hospital é sempre assustador. Luz fortíssima. Cartazes publicitários de farmacêuticas: famílias felizes, idosos sorridentes, bebés fotogénicos; e conselhos, tantos conselhos. Um médico de bata desalinhada que passa a rir para o telemóvel. Um grito abafado, vindo de longe, talvez imaginado. E a indecisão, persistente: em que revista devo pegar?
Muito tempos depois: alguém que entra (talvez uma mulher um pouco mais nova que eu, não muito bonita), passos decididos e seguros, bata imaculadamente branca (talvez uns óculos Gant, um relógio Lacoste; ou óculos Lacoste e relógio Gant?), um sorriso inexistente (mas haverá sempre a possibilidade de um sorriso, desde que haja vontade); parará junto de mim, não demasiado próximo; e não me tocará, em circunstância alguma. Dirá: lamento. Ou então: lamento muito. E ficarei a olhá-la, ali tão próxima, nem intimidada nem seduzida, tentando adivinhar qual o perfume que usa (talvez Light Blue de Dolce & Gabbana) e incapaz de perceber se sinto alívio, se sinto desespero. Depois, logo depois, afastar-se-á (passos decididos e seguros) e eu ficarei a pensar que talvez o desespero seja, afinal, uma forma de alívio. Jamais saberei o seu nome; dela, recordarei apenas: óculos, relógio, perfume.
A sala de espera: ainda deserta. Revistas abandonadas. E silêncio, que num hospital é sempre assustador.

11.
O ruído da sirene já faz parte de mim, serei incapaz de lhe fugir nas próximas horas. Acho que a desligaram: mas continuo a ouvi-la. Para sempre, talvez.
Todos imobilizados: tu, eu, o senhor da ambulância; à espera. Lá fora, a noite cerrada protegendo o sono dos homens, das mulheres. Também para mim é esse, por vezes, tantas vezes, o melhor momento de cada dia: a inconsciência do sono, o adiamento, a possibilidade de suspensão. Protegida pela escuridão, de volta ao silêncio primordial de que devia ser feito a vida. Segura; inofensiva.
Resisto à tentação de te olhar, enquanto me pergunto se irás mesmo morrer. E, logo depois, macabramente, penso no funeral. Visualizo-o: não sei onde. Muita gente que virá, certamente. Abraços, pessoas que não conheço apertar-me-ão contra os seus corpos; e de certa forma, será bom; erótico, até. Quanto custará? Talvez o preço de uma boa viagem. E o choro insuportável da tua mãe, lamuriando-se, culpando-se. Murmúrios de padre, rezas. Ainda há quem saiba rezar? E eu a ver-te desaparecer, envolvido pela terra castanha, imunda. Sentirei dor: amei-te tanto, um destes dias. E desânimo: agora, recomeçar tudo, algures, com alguém tão diferente de ti mas, afinal, tão parecido, quase igual; repetir tudo. Alívio, também: uma pausa para respirar. Espero que não chova. E o coveiro, talvez um ex-toxicodependente, algures num canto, apoiado numa enxada, a espreitar os traseiros das mulheres, ou dos homens: à espera. E a roupa? Negra, claro. Deveria comprar uns óculos escuros; Dior, talvez.
Mais um solavanco, uma travagem repentina. E a sirene: cá dentro.
Sim, é possível que já estejas morto.

12.
O bombeiro despede-se com alguma brusquidão, talvez irritado com a minha indiferença, talvez aborrecido por não estar a dormir ou a foder uma namorada escanzelada, talvez apenas mal-educado por natureza ou feitio. Fico a vê-lo afastar-se, passos pouco elegantes, costas arqueadas; ainda não desapareceu da minha vida e já não consigo lembrar-me do seu rosto.
A senhora do guichet de atendimento não disse boa noite, quando cheguei; agradeci-lhe a atenção, a obrigação de reagir a qualquer espécie de civilidade ou cortesia ser-me-ia dolorosa. Agora espreita-me, analisando-me a postura, avaliando-me o comportamento; retribuo o olhar, apenas por distracção, e logo me aborreço. Pergunto-me: qual a percentagem de vezes em que olhamos alguém sem que esse olhar contenha uma qualquer componente de cariz sexual? Uma inconsciente avaliação de possibilidades, talvez; ou mesmo uma cedência temporária e inconsequente à fantasia. Sim: qual a percentagem?
Sento-me na cadeira mais afastada que encontro e olho o monte de revistas abandonadas numa mesa, mesmo à minha frente. Talvez pegue numa, daqui um pouco; passar o tempo; distrair a mente; invejar os outros; ou, simplesmente, procurar os óculos de sol ideais.

13.
Uma mulher com bata de médica entra de repente na sala de espera e procura-me com o olhar; depois, avança com firmeza na minha direcção. É baixa e um pouco atarracada, mais de quarenta anos; pele morena, cabelos muito curtos; e uma expressão cansada, dolorosamente cansada. Fico a vê-la aproximar-se, espero-a sem medo nem entusiasmo, evitando pensar no que me vai dizer, preparada para ouvir; reparo que não usa óculos; nem relógio. E perfume, usará? Dentro de momentos, saberei.