Statcounter

On the road #01

Experiências foto-literárias: fotografar e escrever sem pensar (muito). Com Sónia Silva.




Lá fora, chove um pouco; o cinzento da atmosfera contagia-me, invadindo-me e alastrando em mim, tornando-me mais melancólica do que habitual. O carro avança lentamente, percorrendo o cinzento da estrada, atravessando o cinzento da atmosfera, fugindo ao cinzento da vida. Permanecemos em silêncio há muito tempo, aparentemente já dissemos tudo o que havia a dizer; restará, portanto, concluir a viagem e chegar onde nada nos aguarda, abraçar o cinzento que fantasiámos abandonar (um daqueles abraços desconfortáveis, que nos arrepiam um pouco mas não conseguimos evitar; mas será um mau abraço melhor do que nenhum abraço?).
Observo distraidamente os carros que nos rodeiam, cada um deles um universo estanque, misterioso e fascinante, inatingível; e no seu interior, em cada um deles, estará alguém que nunca fará parte da minha vida, uma pessoa que talvez pudesse sorrir-me e pedir-me que a abraçasse, alguém que talvez pense e sinta e fantasie e sonhe e deseje e tema e sofra como eu. Alguém com quem nunca estarei mais próximo do que na partilha, anónima e momentânea, de uma auto-estrada; ou na imaginação.
Olho em redor, pensando na infinidade de possibilidades que não se concretizarão: gente que me poderia fazer feliz mas que nunca chegarei a conhecer; gente que talvez exista efectivamente mas cuja existência é, afinal, irrelevante. E é nisto que penso – gente fantasma; felicidade de assombração – quando, inesperadamente, sinto a tua mão procurar a minha, tocando-a cuidadosamente (como se temesse a sua fuga?), envolvendo-a, apertando-a. Continuo a olhar em frente, um pouco rígida, fixando o vermelho dos faróis dos universos inatingíveis que se movem lentamente. E pergunto-me: mas será que ainda há esperança? 

Sílaba Súbita

Um ano de colaboração com a Sílaba Súbita. Tudo reunido aqui.


O verde da relva


A partir de uma foto de Maria João Faísca.


Olhava o banco abandonado mas nunca parava.

Passava apressado, desejando estar noutro lado qualquer mas incapaz de sentir a importância do momento presente, do momento em que por ali passava. Pensava: caminhar é sempre um adiamento. Ainda não percebera que todos os momentos são, afinal, uma espera. O que acontece é que, por vezes, surgem momentos que consigo saborear e, por isso, nem reparo que são uma espera, sinto-os como uma passagem. No fundo, persigo sempre um absoluto qualquer, momentos e sensações que sejam avassaladoras e insuperáveis; desejo algo monumental e determinante, que me faça parar no tempo, que suspenda o avanço do mundo; e nem percebo que já estou parado; sempre estive, sempre estarei.

Caminhava apressado, olhando o banco abandonado. Caminhar com rapidez significa, afinal, pressa de viver e de sentir; significa urgência. Um desejo e uma necessidade de fugir às esperas que compõem a vida; ansiava continuamente por algo e nem reparava que viver significa estar, e não caminhar. Estar no momento. Mas a vida é conduzida pelo irreal: por desejos e fantasias, por ambições, por medos; e um desejo ou uma fantasia ou uma ambição ou um medo nunca é algo concreto e real, é apenas um pensamento ou uma sensação, algo impalpável e imaterial; na verdade, nada. Um vapor, ou nem isso; um sopro. Mas são esses nadas que me movem, que determinam acções e comportamentos concretos. O imaterial conduz-me, o sopro indica-me uma direcção e empurra-me nessa direcção. Em frente, sempre em frente. Por isso, passava pelo banco, conduzido por um desejo indefinido mas absoluto, e nunca me sentava; se o fizesse, estaria a sincronizar-me com o mundo: assumiria a espera. Porque o mundo está em permanente estado de espera e um banco vazio representa isso mesmo: espera. Mas também possibilidade; o vazio não significa ausência de tudo mas, pelo contrário, possibilidades infinitas. Se algo está vazio, há espaço para ser preenchido por qualquer coisa, por tudo. Seja um banco, seja uma vida.

Olhava e continuava o meu caminho, apressado. E assim teria continuado sempre, se não me tivesses chamado. Eu passava, apressado, e tu disseste:

- Desculpe.

Estranhei porque não é normal que o mundo repare em mim, chame por mim. Sorriste mas era um sorriso triste. Disseste:

- Desculpe. Mas para quê tanta pressa? Porque não se senta durante um minuto?

As perguntas são como janelas, fazem-me olhar para fora de mim próprio. Parei e olhei. E o teu sorriso triste, mais do que as tuas palavras, convidou-me a sentar-me ao teu lado, no mesmo banco que tantas vezes olhara sem ver. Que sempre me parecera vazio mas que, subitamente, transbordava de possibilidade. Deixei-me conduzir pela surpresa e pelo inesperado: sentei-me à tua beira, olhando em frente. E o mundo parou. Não, eu parei. Juntei-me ao mundo: sincronizámos velocidade e ritmo; e esperámos, juntos.

Havia o verde da relva, que subitamente me entrou pelos olhos dentro, como se fosse a primeira vez que compreendesse e sentisse o verdadeiro significado do conceito “verde”; e o amarelo do sol, iluminando a atmosfera e tornando-a perene e suspensa, perseguindo suavemente as sombras. Havia o cheiro das árvores, subitamente avassalador, como se as próprias árvores entrassem em mim e me povoassem. Havia o contacto das minhas mãos com a madeira sólida e antiga do banco (quantas mãos já teriam tocado aquela mesma madeira, deixando nela o toque da sua pele? Quantas pessoas estava a tocar naquele momento, tocando a madeira?). Havia o murmúrio de um qualquer bicho oculto, entrelaçado com o canto distante de um único pássaro. Havia o sabor – mais do que uma memória, o sabor quase concreto – das ameixas vermelhas que comera deitado numa relva assim verde nos verões da minha infância, ouvindo o mesmo pássaro, cheirando árvores idênticas. Havia um mundo a envolver-me, entrando em mim, apropriando-se de mim. Sentia-me entregue a um momento absoluto, simultaneamente espera e passagem. Não sentia nem sonho nem fantasia nem desejo nem ilusão nem ansiedade, apenas o poder dos sentidos prendendo-me ao mundo, à vida. A um banco. À eternidade do momento.

E tu, mesmo à minha beira, perguntaste:

- Há quantos milhões de anos é que o verde já é verde?

Sorri, perguntando-me quantos milhões de instantes e sensações comporão um único momento. Um sorriso concreto e real; como o verde da relva.

Horizons

Experiências em inglês. Estória inspirada numa foto de Maria João Dias, traduzida por Sónia Oliveira. Imenso obrigado.




She was standing by the window when I arrived. I looked at her for a while, in silence. Then I told her: “I love you.” And I smiled, admiring how elegantly she turned to me. But the look she gave me had no surprise or joy. She looked pensive, distant; displeased. She didn’t smile. She said: “When you say you love me, you imprison me a little more. Because by saying it, what you really mean is to state your desire that I remain indefinitely as I am, so that you can keep on loving me. You want me immutable, frozen in an eternal moment; that’s what you love, that moment. I always thought that saying you loved someone is to deny this person the possibility of change, don’t you agree? But I don’t want to look at someone and feel trapped, conditioned. I want to look at someone, to look at you, and feel free. I want you to be the mirror of my freedom, of my possibility of change. I want you to be a window: when I look at you, I want to see a universe of possibilities, infinite horizons, the wide limitless sky. Don’t tell me you love me, ok? Tell me you want to be my window.” She stared at me for a while, in silence. Still pensive, even more distant. Then she turned and contemplated the world through the window; she forgot about me. I could have told her she was wrong, that it was quite the opposite; explain to her that each moment I discovered her once again, I discovered her anew, and every time I’d be blown away; as if I was seeing her for the first time, and each first time was even more intense, more overwhelming; explain that on each of these moments I loved her as if for the first time. But she kept looking through the window, interested in the infinite universes, showing no interest in me. Why should I say anything? After all, I’d only uttered three words and everything fell apart; a longer sentence could prove deadly. But so could silence. There was nothing left but to escape; and that’s why I moved closer to the window.

Queres ser o meu guarda-chuva?



A partir de uma foto de Sonja Valentina.





Pela manhã, olho pela janela e percebo como o dia está magnífico; tão magnífico que, ao sair à rua, não resisto a levar o guarda-chuva comigo. Desço pelo passeio quase deserto sentindo a brisa no rosto e o sol brilhante na pele, sentindo-me livre, sentindo-me liberto. É difícil resistir a olhar o céu, difícil resistir a procurar entre o esplendor do azul um farrapo de nuvem branca, uma minúscula falha no azul que me deixe sem respirar, anestesiado pela imperfeição da beleza perfeita. Mas resisto, importa focar-me nas pessoas com quem me cruzo; não tanto nos rostos, nos olhares; isso ficará para mais tarde. Por enquanto, interessam-me as mãos; e é o que faço: olho as mãos das mulheres com quem me cruzo, na esperança de encontrar numa delas um guarda-chuva. Foi por isso que saí de casa. Porque o dia está magnífico, tão magnífico que apetece apaixonar-me.


Vou caminhando sem pressa, balançando ligeiramente o guarda-chuva na mão. Há quem olhe e estranhe, uns miúdos riem com gosto e abanam a cabeça; nem os velhinhos são compreensivos. Homem jovem e impecavelmente vestido mas agarrado a um guarda-chuva escuro e imponente no mais deslumbrante dos dias de Verão? Só pode ser doido. Serei?
Pouca gente na rua. E claro que é prematuro falar em paixão; prematuro e absurdo. Primeiro há que, obviamente, encontrar alguém com um guarda-chuva na mão e que, por isso, me perceba, intua de imediato os meus motivos. Alguém a quem não seja necessário explicar o que sinto, como sinto. Alguém que perceba o que simboliza andar com um guarda-chuva num dia em que não existe a mais pequena possibilidade de chover. Alguém que, por exemplo, não banalize uma relação como se banaliza o uso do guarda-chuva, que logo se esquece, abandona ou perde mal o sol chega. Alguém que não coleccione relacionamentos por acreditar que a quantidade é uma protecção, como as pessoas que acumulam vários guarda-chuvas para nunca serem surpreendidos quando a intempérie surge inesperadamente mas, depois, nem os distinguem uns dos outros, quase sendo preciso colocar-lhes um papelinho com um número para os individualizar e hierarquizar. Alguém que não procure um relacionamento a pensar nos momentos infelizes ou solitários e guarde a felicidade apenas para si, como aquelas pessoas que ignoram os guarda-chuvas quando não precisam deles, abandonando-os à porta de casa, e que no fundo acreditam que até podem passar sem eles. Alguém que não queira ter um guarda-chuva e prefira ser guarda-chuva.
Caminho pelo passeio respirando o cheiro inebriante das árvores que me rodeiam e penso como seria bom encontrar alguém que sentisse e pensasse assim: igual. Alguém que eu já conhecesse profundamente antes de saber, sequer, que existe; antes de conhecer o seu rosto e perscrutar o seu olhar, antes de ouvir a sua voz e inspirar o seu cheiro, antes de tocar a sua pele.
Mas a manhã ainda mal começou, é demasiado cedo para paixões. Caminho sem pressa nem ansiedade, olhando em frente; à espera do que possa acontecer. E talvez não seja ainda hoje que me cruze com alguém que sorria e pergunte: queres ser o meu guarda-chuva? Na verdade, há sempre algo a acontecer: basta estar atento, basta saber reconhecer; ser activo mas também (principalmente?) receptivo. Aquilo que se designa por viver deve ser pouco mais do que uma forma de ordenar e agregar acontecimentos. Muito raramente se consegue originar algo, provocar algo, conduzir algo, construir algo; limitamo-nos a reconhecer e aproveitar algumas das coisas que nos aparecem pela frente (depois, por vezes, agarramo-nos a elas e fazemo-las nossas). Como uma criança que vai ao centro comercial acompanhado pela mãe: encontra lá tudo o que possa desejar, deambula pelos corredores e ambiciona, pedincha, fantasia, implora, desdenha; tudo está disponível e é alcançável, tudo está à distância de um toque; mas a mãe – já se sabe como são as mães – apenas oferece um chupa de morango e a criança – já se sabe como são as crianças – coloca-o na boca e saboreia; talvez até acabe por agradecer, logo esquecida de todas as possibilidades perdidas. E é isso, afinal, a vida: um chupa de morango.