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Galeria


















Algumas das pinturas que pairam pelas estórias de
Silêncios entre nós:

Andare dove? L’uomo nel paesaggio – Alberto Sughi
April in Paris – Eric Fischl
Artistin (Marcella) – Ernst Ludwig Kirchner
Automat – Edward Hopper
Compartment C, Car 293 – Edward Hopper
Due donne, Notturno – Alberto Sughi
Femme qui tire son bas – Henri de Toulouse-Lautrec
Holiday Inn afternoon – Andrew Valko
Il banco del bar – Alberto Sughi
Krefeld Project, bedroom scene 5 – Eric Fischl
Krefeld Project, living room scene 5 – Eric Fischl
La famiglia, l’amore – Alberto Sughi
Naufragio – Alberto Sughi
Sunlight in a cafeteria – Edward Hopper
Tell a marketer – Kenney Mencher
The raft – Eric Fischl
Underground fantasy – Mark Rothko

# 54: Quando não se sabe o que dizer

Prazo expirou.

O terceiro (brevemente)


Esboço # 17

Após tantos anos de casamento, partilhavam a sensação de que não havia nada mais a dizer, a escutar; conheciam-se intuitivamente, sem surpresas nem decepções: em silêncio. E a comunicação que pudesse existir restringia-se a questões práticas, relativas à manutenção da rotina, à subsistência do casamento. Consideravam, com alguma razão, que a surpresa se esgotara (demasiado depressa?) e que tudo o que agora fosse dito dificilmente surpreenderia o outro, dificilmente justificaria a sua atenção, dificilmente acrescentaria algo; aliás: cada frase inconsequente que fosse proferida poderia até acentuar e reforçar o desinteresse do outro, proporcionar-lhe um pretexto para desistir (desistir de quê?), recordar-lhe que – afinal – estava ali a perder tempo (a gastar tempo), recordar-lhe que o casamento esgotara-se há muito. (É verdade que nunca tinham propriamente conversado sobre tudo isto, sobre esta sensação: mas para quê? Como poderia não ser assim?)
Só pode, então, ter sido por absoluta distracção que naquela monótona tarde de domingo começaram a falar (a chuva batia nos vidros com um ruído agressivo enquanto a televisão disfarçava a cinzentude da sala – das vidas – com explosões de cor regulares; e havia um cheiro peculiar e insidioso, estranho, que ambos – em separado – tentavam identificar). Sim, começaram a falar, palavra após palavra, dizendo e escutando, olhando; e depois: o diálogo foi crescendo lentamente, sereno e agradável.
Foi a primeira vez que falaram em divórcio.

# 53: Seis horas, quase sete


Fotografia de José Luís P. Jorge


1.
Sim, suponho que continuo (ainda) à espera que chegues. Que venhas: e sorrias. Dirás (talvez) que tiveste saudades e olharás para mim em silêncio, durante um instante; e depois? Um beijo, breve, na face ou na testa ou no cabelo; e pegarás no meu copo de água, beberás um pouco. Depois, ficaremos em silêncio, olhando-nos sem pressa nem embaraço, confortáveis. Sem nada para dizer, para acrescentar.

2.
Enquanto fixo o olhar no vazio, por momentos incapaz de controlar (de perceber) os pensamentos que me distraem e alienam, lembro abruptamente o que me explicaram: o carro permaneceu durante horas debaixo das árvores (pinheiros, eucaliptos, ciprestes?), imóvel e silencioso, invisível, enquanto outros carros passavam pela auto-estrada, fulgurantes ou lentos, ruidosos (a noite avançava, escura e sombria, húmida); e tu: morto; eu: desmaiada; é o que contam (vozes sussurradas e pesarosas, comovidas), por isso talvez seja mesmo verdade. Estivemos ali todo aquele tempo (seis horas, quase sete), juntos; ambos mortos. Mas eu (dizem) decidi acordar (não sei bem porquê, para quê); e tu: não quiseste.
Olho em frente, refugiada nos óculos escuros (ofereceste-mos no meu último aniversário, lembras-te?) e envolvida pelo ruído matinal do café, enquanto vou pensando – uma vez mais – no que me contaram e explicaram, no que sou incapaz de recordar (pergunto-me como teria reagido se realmente tivesse acordado e te visse a meu lado, morto; talvez gritasse; talvez me deixasse morrer; talvez fugisse). E o cigarro vai-se esfumando, lentamente; talvez beba um pouco de água, daqui pouco. Passam pessoas perto de mim mas ninguém me olha. O chá deve ter arrefecido: esqueci-me de bebê-lo.
Continuo a olhar em frente, é tudo o que consigo fazer.

3.
Houve uma ambulância, disso lembro-me; depois, os corredores iluminados do hospital – paredes brancas manchadas pela humidade, cartazes de farmacêuticas; o rosto sorridente de uma enfermeira. E eu de olhos abertos mas sem ver nada, incapaz de perceber; gritos distantes, um riso dissimulado; o toque de um telefone, insistente. A enfermeira: sorrindo (dentes pouco cuidados, desagradáveis; e eu a perguntar-me: haverá algures um homem capaz de beijar esta boca, dia após dia?); e o sorriso a tornar-se vagamente desagradável, asfixiante.
Reparo, depois, que tenho a roupa rasgada; mas não me assusto (o que é estranho), tento simplesmente pensar no que poderá ter acontecido, recordar; apetece-me perguntar mas um pressentimento malévolo impede-me de fazê-lo, retrai-me; e, na verdade, não saberia o que perguntar. A enfermeira afastou-se e está, agora, a conversar com outra enfermeira; ainda sorri. Passa um médico, sem pressa, que não me olha. Ouço o ruído de uma sirene, muito distante, aproximando-se. Um ressonar longínquo, o apito regular de um qualquer aparelho hospitalar. Não sei quanto tempo terá de passar até alguém, finalmente, me explicar o que estou a fazer num hospital, estendida numa maca.

4.
A uma mesa do canto do café está sentado um rapaz de cabelos longos e brilhantes – reparo numa borbulha, desagradável, na testa; e há uma cicatriz quase imperceptível no lado esquerdo do nariz; tem um portátil à frente e bebe chá, em goles muito espaçados. Olho as suas mãos, os dedos finos e compridos, muito brancos: suponho que gostava de senti-los a percorrer a minha pele (acariciando), a minha carne (excitando); mas depois, logo depois, o pensamento desfaz-se, o desejo dissipa-se (na verdade, não chegou a existir). Poderia continuar a olhá-lo indefinidamente, com curiosidade, quase com interesse – aprendendo, até, a apreciar as suas imperfeições (a borbulha, a cicatriz, todas as outras); perguntando-me o que pensaria de mim, se por acaso me olhasse; talvez lhe sorrisse, se os nossos olhares se cruzassem; mas: e depois?
(Ou talvez pudesse pegar no telemóvel e ir percorrendo os nomes que guardo na agenda de contactos, tentando lembrar-me de todas as pessoas que fazem parte da minha vida: e perguntando-me se alguma delas estará a pensar em mim, interessada em ouvir-me.)
Há menos gente no café, agora. Lá fora, o sol brilha com excessivo fulgor. Acho que vou acender outro cigarro; e talvez o fume.

5.
Há, então, uma médica que se aproxima; sorri, penso que contrariada, triste. É muito nova, com um aspecto quase adolescente; mas, apesar disso, o seu olhar parece-me estranhamente tranquilo e maturo; permanecemos em silêncio durante um instante, à espera de algo indefinido (sinto o seu perfume discreto e enigmático; tão agradável); percebo que ela aguarda uma pergunta minha, a que certamente responderá com serenidade e afecto; mas (ainda) não sei que pergunta deva fazer. E os segundos vão passando, inconsequentes (perdidos); a fragrância do seu perfume a aproximar-nos. Então, sinto uma ponta de incómodo e apetece-me desviar o olhar, afastar-me e afastá-la; mas não chego a fazê-lo. Porque antes ela estendeu a mão e pousou-a no meu rosto, acariciando-me a face.
É ela que me fala do acidente, pela primeira vez; que me explica como fiquei uma eternidade (seis horas, quase sete) nos destroços do automóvel, talvez desmaiada, talvez em choque; que me conta (voz terna e pausada, embaladora; e a mão, pressionando) que morreste. Depois: um silêncio longo e desconfortável, tenso. Apenas então retira a mão da minha face, interrompendo a carícia; olha-me durante um momento e depois afasta-se, com passos lentos mas firmes, deslizando pelo corredor iluminado; fico a olhar para as suas costas, para o ritmo e simetria do movimento dos seus braços (ainda sentindo o seu toque suave), até que desaparece numa porta que, após a sua passagem, se fecha sozinha, ficando a balançar durante alguns segundos; e a presença do seu perfume dissipando-se no corredor, na minha memória.

6.
Vou esperando, sem impaciência. Alguma gente espalhada pelo café, indiferente e desinteressada; o tempo a passar, lento e regular, compassado, sem destino nem objectivo. O riso abafado (envergonhado?) de alguém; murmúrios de pessoas que falam baixinho, como se o que têm a dizer fosse um precioso e frágil segredo.
Reparo que, agora, há um homem de aspecto sorumbático e nervoso sentado junto ao rapaz do portátil; reparo, também, que os dedos finos e compridos, muito brancos, estão pousados na mão do homem. Tão patético que é o amor, a agressividade da sua ostentação; mas sinto inveja. Depois, logo depois, ignoro quem me envolve (as personagens que compõem este meu cenário) e volto a retirar-me do mundo; refugio-me em mim, nos pensamentos e nas memórias, nas dúvidas.
Olho a entrada, para além da entrada; sim: ainda espero que chegues. E então, quando chegares, depois de me sorrires e de me beijares e de me sorrires de novo, após o silêncio se instalar confortavelmente – há muito que, entre nós, se acabaram os murmúrios e os segredos –, talvez consiga olhar-te, sem desafio nem acusação, e perguntar-te (finalmente) há quanto tempo deixámos de nos amar.

7.
A enfermeira regressa. Pergunta (voz terna e atenciosa: profissional) se preciso de alguma coisa, sabendo que nada responderei. Sorri. Temo que me vá acariciar o rosto ou a mão, imitando a médica, mas não o faz, o que me alivia profundamente. Olha-me, apenas: sem desconforto nem pressa, paciente. Continua a sorrir. Talvez se pergunte de que estou à espera para começar a chorar.
Olho-a, sem animosidade. Talvez devesse explicar-lhe por que não estou a chorar. E penso nisso: há quanto tempo não choro? Olho o seu rosto simpático e curioso, interessado (sim, suponho que interessado), e tento recordar a última vez em que chorei; os segundos vão passando, monótonos: e não consigo.
Suponho que poderia explicar-lhe que, afinal, um marido é apenas uma pessoa com quem se vive, que nos sorri e nos ouve e nos fode e nos aborrece e nos ignora e nos diz – por vezes, é verdade – que nos ama; talvez ela entendesse.

8.
Continuo, então, à espera (não chegámos a despedirmo-nos: e gostava de o fazer). À espera que venhas: e sorrias. Dirás (certamente) que tiveste saudades e olharás para mim em silêncio, durante um instante; e depois? Um beijo, breve, na face ou na testa ou no cabelo; e pegarás no meu copo de água, beberás um pouco – é uma forma dos nossos lábios se tocarem. Depois, ficaremos em silêncio, olhando-nos sem pressa nem embaraço, confortáveis. Sem nada para dizer, para acrescentar.