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# 65: Supositórios

(As duas mulheres estão sentadas na única mesa ocupada de uma pequena pastelaria.)
MULHER (irritada): Não vou voltar à psiquiatra.
AMIGA (desatenta): Porquê? Estás curada?
MULHER: Não gozes.
AMIGA (sem verdadeiro interesse): A sério, não voltas porquê?
MULHER (contrariada): Aconteceu uma coisa esquisita, não percebi bem. Mas senti-me desconfortável.
AMIGA (levemente curiosa): Mas que te disse ela?
MULHER: Não foi nada que ela disse.
AMIGA: Então?
MULHER (num tom embaraçado): Dei com ela a olhar para mim com uma expressão esquisita.
AMIGA (curiosa): Esquisita, como?
MULHER (num tom desagradado): A olhar-me para as pernas. Com interesse, sabes?
AMIGA (espantada): Com interesse?
MULHER (irritada): Não te faças de parva.
AMIGA (tom agastado): Bom, realmente não é hábito presenteares o mundo com esse espectáculo de pernas, sempre escondidinhas nas calças, guardadas não sei para quem. Se calhar, apanhaste-a de surpresa e ela pôs-se a olhar.
MULHER (irritada; tentando não rir): Vai-te lixar. (Empertiga-se e tenta puxar a saia para baixo, protegendo-se.)
AMIGA: Ou achas que é lésbica?
MULHER: Sei lá eu.
AMIGA (provocadora): Estará interessada?
MULHER (peremptória): Não sei nem quero saber. É por isso que não regresso lá.
AMIGA: Conta-me lá como é essa tua psiquiatra, afinal. É gira?
MULHER (distraída): Nem por isso. Deve ser uns dez anos mais velha que nós. Muito formal, sempre impecável. (Pega na chávena de café vazia e brinca com ela, com gestos ligeiramente ansiosos.)
AMIGA: Mas é daquelas armadas em homem, todas tesas e assim?
MULHER: Não. É uma mulher normal. Nem gira nem feia. Passas por ela na rua e não reparas.
AMIGA (encolhendo os ombros): Banal.
MULHER: Como a maioria.
AMIGA (séria, realmente interessada): É simpática? Ri-se?
MULHER: Para mim, é sempre uma psiquiatra a dar consulta. Não a consigo imaginar de outra forma.
AMIGA (insistente): Mas parece-te uma mulher feliz? Triste? Aborrecida? Frustrada? Estimulante? Mal fodida?
MULHER (desgostosa): Estou tão arrependida de te falar disto.
AMIGA (tom firme e irritado): A sério. A mulher também lá deve ter os problemas dela, não? Está para ali todo o dia a aturar as merdas dos outros mas não consegue esquecer-se das suas próprias merdas. Que as há-de ter, não?
MULHER (desinteressada): Isso é lá com ela.
AMIGA (incisiva): Mas tu pegas nos teus problemazinhos e vais lá ver se ela te arranja um supositório para a mente. Um aliviozinho. Mas e ela, onde pode ir? Onde vão os psiquiatras que têm problemas? Com quem falam?
MULHER (tentando não se irritar): Com outros psiquiatras.
AMIGA (irónica): Achas?
MULHER (conclusiva): Acho. Ou se calhar, não falam com ninguém. Não precisam.
AMIGA (contrariada): Não precisam?
MULHER (num tom fingidamente paciente): Se conseguem dar supositórios aos outros também podem arranjar alguns para si próprios. (Concentra-se na chávena que tem nas mãos.)
AMIGA (pensativa): Isso é verdade. Anda tudo à procura de supositórios, já reparaste? É esse o mal. Em vez de se porem a pensar um bocado e tentarem compor as coisas, em vez de se analisarem, de se colocarem em questão, as pessoas preferem que alguém lhes dê soluções padronizadas e instantâneas.
(A Mulher larga a chávena e olha a Amiga, surpreendida.)
MULHER (exasperada): Hoje estás impossível.
AMIGA (tom provocatório, exagerado; fugindo ao olhar da interlocutora): Ai que o meu marido já não me fode; toma, leva o comprimido azul. Ai que o meu marido só pensa em foder; toma, leva o comprimido amarelo. Ai que o meu marido fode muito depressa; toma, leva o comprimido lilás. Ai que o meu marido quer foder em cima da arca frigorífica e eu tenho medo de a estragar; toma, leva o comprimido vermelho.
MULHER (sorrindo, contrariada): Pára com isso.
AMIGA (séria): Ninguém se põe a pensar porque raio o marido quer foder muito ou não quer foder nada. Tentar compreender. Perguntar. Não, vai-se logo pedir o comprimido.
MULHER (atenciosa): Mas que se passa contigo?
(Agora é a Amiga que pega na sua chávena vazia e a faz rodar entre os dedos, completamente abstraída.)
AMIGA: É como aquela tua colega mal cheirosa. Em vez de se lavar mais vezes, põe desodorizante; e é claro que assim não resolve nada, apenas disfarça, apenas adia. Mas é o mesmo por todo o lado, com toda a gente. (Pausa breve.) Andamos para aqui todos cheios de camadas de desodorizantes, a mamar supositórios de todas as cores, mas o cheiro a merda não desaparece.
MULHER (apreensiva): A sério. Que aconteceu? Conta.
AMIGA (irritada): Queres saber o que aconteceu?
MULHER (firme): Quero.
AMIGA (desgostosa): Pois olha que nem eu sei bem o que aconteceu.
MULHER: Contas-me ou não?
AMIGA (cansada): Não.
(A Amiga deixa que a chávena lhe escorregue dos dedos e rebole pela mesa, provocando um ruído inesperado; ambas olham a chávena, como se esperassem que caísse ao chão.)
MULHER: Regressaste da loja sem comprar nada e desististe de ir à cabeleireira, assim de repente. E pões-te para aí com essa palermice de comprimidos e desodorizantes. Só pode ter acontecido uma desgraça qualquer.
AMIGA (indiferente): Deixa lá. Fala-me da tua psiquiatra.
MULHER: Conta, porra.
(A Amiga levanta-se e desaparece; regressa muito tempo depois, com dois copos; pousa-os na mesa e bebe. A Mulher olha-a, atenta.)
AMIGA (num tom de voz algo apreensivo, quase assustado): Sabes quem encontrei quando ia a sair da cabeleireira?
MULHER (neutra): Não faço ideia.
AMIGA (contendo a revolta): O meu ex.
MULHER (surpreendida): Não.
AMIGA (abatida): É verdade.
MULHER: Então, voltou à cidade?
AMIGA (desgostosa): Parece que sim.
MULHER: Quem viu quem, primeiro?
AMIGA (contrariada): Foi ele. Pôs-se a chamar por mim, ali no meio do centro comercial. E eu toda confusa, a reconhecer a voz mas sem conseguir identificá-la.
MULHER (solidária): E depois?
AMIGA (tom triste, como se se sentisse miserável): Fico para ali meio aparvalhada, não sei bem porquê. Completamente apanhada de surpresa. E ele com sorrisinhos, a perguntar-me como tenho passado, a dizer que estou com bom aspecto e mais não sei quê.
MULHER (solidária): E tu?
AMIGA: Com vontade de fugir. Atrapalhada mas sem perceber por que motivo. Com medo não sei de quê.
(A Amiga pegou num guardanapo e está a dobrá-lo meticulosamente. A Mulher olha para as mãos dela, para o guardanapo que vai desaparecendo.)
MULHER: Mas não disseste nada?
AMIGA (forçando um sorriso, desgostosa): Nada. E então ele convida-me para tomar um café.
MULHER (incrédula): E tu aceitaste.
AMIGA (embaraçada): Lá vamos nós, de repente sem nada para dizer, meio embaraçados. Sentamo-nos na mesa mais afastada do primeiro cafezinho que encontramos. E ficamos ali a olhar para as mãos, à espera não sei de quê. Como o raio de um par de namorados.
MULHER: Mas porque não o despachaste logo?
(Agora é a Mulher que pega um guardanapo e o dobra, devagarinho.)
AMIGA (confusa): Sei lá. Porque não consegui. Porque não quis.
MULHER: E que queria ele? Chateou-te?
AMIGA: Não. (Pegando distraidamente num guardanapo e dobrando.) Foi muito civilizado. Falou do novo trabalho e das viagens e dos colegas e dos desafios. Depois, confessou que já se separou da minha substituta.
MULHER (surpreendida): A sério?
AMIGA (tom desdenhoso): Parece que sim. Explicou detalhadamente o que correu mal; tudo culpa dela, como é óbvio. (Pausa breve.) E então, muito tempo depois, percebeu que tinha estado todo o tempo a falar de si próprio. E quis saber de mim.
MULHER: E tu, que disseste?
AMIGA (irritada): Disse-lhe que me despedi e que tenho andado por aí a viajar que nem uma doida. Que me farto de comprar roupa e foder com homens mais novos. Que tenho a maior colecção de sapatos desta parte do país e que por causa disso tive que mudar de casa, que já não tinha espaço para os arrumar.
MULHER (indiferente): Não acredito.
AMIGA (tentando sorrir): Pelo menos, foi o que me apeteceu dizer. Mas limitei-me a encolher os ombros e emborcar meio litro de chá verde.
MULHER (solidária): Este tempo todo depois e ainda não o consegues enfrentar. (Pega num segundo guardanapo e dobra-o meticulosamente.)
AMIGA (tom frio e distante): Estamos divorciados há um ano. Já não há nada a enfrentar.
MULHER: Então porque não reages?
AMIGA (sorrindo): Aí é que te enganas. Reagi.
MULHER (correspondendo ao sorriso): Conta.
(Ambas as mulheres pousam os guardanapos dobrados na mesa; olham o pequeno monte e depois olham-se.)
AMIGA (tom falsamente bem-disposto, irónico): De repente, comecei a perceber as insinuações. Que tinha saudades minhas, que podíamos aproveitar os dias que ele vai ter de passar por cá, que somos os dois jovens e livres.
MULHER (perplexa): Filho da puta.
AMIGA (desgostosa): Convencido que depois da merda que fez, basta chegar aí com o sorrisinho especial e aqui a estúpida vai logo atrás.
MULHER: Mas que disseste?
AMIGA (sorrindo): Disse que também tinha saudades dele.
MULHER (perplexa): O quê?
AMIGA: Disse que precisava de ir tratar de uns assuntos, era só um instantinho. Ele que esperasse ali por mim, que comesse um gelado para ganhar energia. E fugi para aqui. Ainda lá deve estar, à espera.
(A Amiga pego um novo guardanapo; a Mulher olha-a e pouco depois imita-a.)
MULHER (cuidadosa): Mas não te sentiste tentada, pois não?
AMIGA (confusa): Tentada?
MULHER: A regressar ao café.
AMIGA (tom irritado, brutal): Achas que sou como tu?
MULHER (defensiva): Como eu, o quê?
AMIGA (acusatória): Como tu. A ganhar coragem para te divorciares há dois anos. Ou mais.
MULHER (atónita): Cala-te.
(A Mulher atira o guardanapo para cima da mesa, irritada; olha em redor, confusa; como se procurasse uma fuga; tenta acalmar-se.)
AMIGA (tom subitamente indiferente): Eu já sofri tudo o que tinha a sofrer. Posso não saber o que quero mas sei muito bem o que não quero. E uma coisa que não quero é ser o supositório dos outros. Um aliviozinho temporário. Uma distracção. (Sorri, triste; pousa o guardanapo cuidadosamente dobrado e pega de imediato num novo.)
MULHER (magoada): Estás a querer dizer que eu sou um supositório?
AMIGA (neutra): Não. Estou a dizer que andas há dois anos, ou mais, à procura de supositórios.
MULHER (irritada): Não me lixes. Que ganhaste tu com o divórcio? És mais feliz, agora?
AMIGA (após uma hesitação): Incomparavelmente.
MULHER (acusatória): Então porquê esse descontrolo todo, só porque de repente o encontras numa esquina?
AMIGA (fingindo indiferença e desinteresse): Não estou descontrolada.
MULHER (impaciente): Então estás o quê?
AMIGA (subitamente irritada): Danada.
MULHER (espantada): Danada? Porquê?
AMIGA (exasperada): Porquê? Não vês porquê? Por causa da presunção dele. Da arrogância. Da desconsideração. Da sobranceria. Percebes? Porque ele parte do princípio que está tudo bem, que o sofrimento que me causou já não conta para nada; que se pode começar tudo de novo, como se não tivesse havido um casamento que acabou miseravelmente. (Pausa breve. Atira o guardanapo que tinha nas mãos e cruza os braços, como se se quisesse impedir de pegar noutro.) Como se bastasse fazer um sinal e aqui a parvalhona vai logo a correr.
MULHER (tentando aparentar calma): Talvez estejas a interpretar mal. Talvez ele queira apenas.
AMIGA (interrompendo, furiosa): O quê? Foder? Mas se for isso, ainda é pior. Não percebes? É uma instrumentalização completa da relação entre duas pessoas. De mim.
MULHER (correspondendo à irritação; tom arrogante): Qual instrumentalização, qual quê. Chama-se casamento. Tu fazes coisas por mim e eu faço coisas por ti. Tu aturas-me e eu aturo-te. Claro que há momentos maus, momentos em que as vontades e os interesses não coincidem. Claro que há dificuldades em perceber o outro, principalmente quando se deixa de falar, quando se parte do princípio que já se conhece tudo o que há a saber sobre o outro, de tal modo que já não é necessário perguntar. É isso, um casamento. Mas qual é alternativa? Mudar de relação a cada seis meses, mal surja o primeiro indício de monotonia? Ir coleccionando?
AMIGA (agastada): Não sabes o que estás dizer.
MULHER (afrontada): Não sei? Sei é demasiado bem. Não imaginas como sei. Sei que não estou bem, isso pelo menos sei. E não é há dois anos, como dizes. É há mais.
AMIGA (impertinente): Então estás à espera de quê?
MULHER (subitamente cansada): Estou à espera de perceber como funciona isto dos casamentos, da vida. A tentar perceber se viver é como participar numa peça de teatro em que vais seguindo o teu papel, repetindo-o noite após noite, tentando atinar, tentando melhorar, obedecendo ao texto que alguém escreveu, às arbitrariedades de um encenador invisível. Será isso, a vida? (Subitamente desconsolada.) Ou é como aquela coisa que agora toda a gente faz, como se chama? Quando está um tipo sozinho no palco, a dizer graçolas.
AMIGA: Stand up.
MULHER: Isso. Está-se ali sozinho, a improvisar; tem-se umas ideias do que se quer dizer mas o discurso vai variando de acordo com os estímulos do público, de acordo com a própria vontade de se estar ali naquele momento. Não há encenador a mandar isto ou aquilo, não há determinismos nem instrumentalizações. Está-se livre.
AMIGA: Livre para quê?
MULHER: Sei lá. Livre, simplesmente. Não é o que toda a gente quer? Ser livre?
(A Mulher começa distraidamente a recolher todos os guardanapos dobrados que estão em cima da mesa, reunindo-os num montinho.)
AMIGA (tentando aligeirar o diálogo): É disso que falas lá com a tua psiquiatra?
MULHER (indiferente à provocação): Não. É o que penso quando não consigo dormir. Se viver é integrar uma equipa onde cada um sabe o que tem de fazer, sabe quem manda, sabe o que é esperado de si; ou se é estar sozinho em cima do palco e ir improvisando, tentando que os outros não se aborreçam.
AMIGA (sem qualquer provocação): E já chegaste a alguma conclusão?
MULHER (contrariada): Ide chegar, um dia destes.
AMIGA (sorrindo): E depois, que fazes com a tua conclusão?
(A Mulher encolhe os ombros, deixando claro que não irá responder; olha em redor, espreguiçando-se ligeiramente.)
MULHER (forçando um tom aligeirado, bem-disposto): Já reparaste que agora isto está sempre vazio? Vamos mas é dar uma volta. (Começa a levantar-se, perante o olhar indiferente da Amiga.) Onde vamos almoçar? (Arruma a cadeira e olha a Amiga, subitamente impaciente.) Anda lá.
(A Amiga começa a levantar-se, contrariada. Arruma a cadeira sem grande cuidado, embatendo com ela na mesa; ouve-se um ruído metálico, intenso e irritante; alguns dos guardanapos dobrados caem ao chão, esvoaçando ligeiramente, e são distraidamente pisados pelas duas mulheres, que se afastam em silêncio.)

Dão-se livros # 11

Desta vez, os livros seguem para a Marisa, para a Lina e para a Ângela. Obrigado a todos pela participação.

20 de Dezembro de 2005

A 20 de Dezembro de 2005 nasceu a Gaveta; poucos dias antes, o primeiro livro (Gastar Palavras) tinha sido apresentado pelo Pedro Rolo Duarte e pelo Jorge Listopad, ali à beirinha da lareira do Alinhavar; o nascimento do blogue foi planeado nessa mesma noite.
A primeira estória a surgir na Gaveta foi “O Perguntador”, um conto inspirado num quadro de Munch e que mais tarde seria integrado no segundo livro (Os Mundos Separados que Partilhamos). Recoloco-o agora na Gaveta, em nome da nostalgia (só um pouquinho, que já chega de fado) e como agradecimento aos fiéis que ainda se mantêm por perto, desde esse longínquo Dezembro. Obrigado.


O Perguntador

1.
Escondo-me por trás do jornal: como se estivesse perante uma ameaça, como se necessitasse de protecção. Mas não consigo deixar de olhar, de assistir ao seu desfile; caminha entre as mesas com indiferença, senta-se, pousa a enorme pasta; não olha para ninguém, para nada; um rapaz aproxima-se e ela faz o seu pedido sem o olhar; desdobra um jornal, começa a ler. Por vezes, passa a mão pelo cabelo. Lê com atenção, sorri, abana a cabeça, muda a página. Não repara que há um mundo à sua volta; não quer saber do mundo que está à sua volta.
É ela: a mulher por quem estou apaixonado há dez anos. Que não via há dez anos.

2.
Escurece.
O mar está tranquilo, empurrando as ondas com suavidade; ei-las, perante nós: chegam envergonhadas, hesitam durante um momento e deslizam de regresso ao oceano, deixando-nos apenas a memória do seu rumor, do seu suspiro. Mais ninguém na esplanada: só nós. Conversamos devagarinho; tu falas, com entusiasmo; eu tento concentrar-me no que dizes, tento acompanhar-te; tento parecer mais interessante do que realmente sou, cativar-te; invento-me, finjo um pouco; mas a nossa relação é desequilibrada: eu esforço-me para te seduzir, tu já me seduziste completamente. Vais falando e eu permito-me uma distracção: pergunto-me se perceberás o meu entusiasmo, preferindo ignorá-lo. Talvez. Por vezes, parece-me que brincas comigo, que me provocas, que insinuas. E depois recuas, rindo. Enfurecendo-me.
Vais falando mas não te ouço; vou imaginando qual será o sabor da tua pele.

3.
Pousou o jornal e concentra-se no chá. Pergunto-me se esperará alguém. Observo-a e percebo, com alguma surpresa, que apesar de não pensar nela há muito tempo, ainda a desejo, sempre a desejei. Vou reconhecendo os seus gestos, vou permitindo que as recordações cheguem e se instalem, perturbando-me. Vou fantasiando: o que poderia ter acontecido se a nossa amizade tivesse evoluído, se tivesse inventado a coragem necessária para lhe confessar que estava apaixonado, que a amava. Desvio o olhar, envergonhado, e passeio-o pelos rostos dos desconhecidos que me rodeiam, que me ignoram, que me desprezam (que talvez me amem, em silêncio; sabe-se lá); mas não resisto a regressar, permito que o meu olhar explore vagarosamente, com deleite, os seus cabelos, os seus ombros. E dou mais um passo: pergunto-me se me teria encorajado caso tivesse tido a coragem de lhe tocar o seio, numa daquelas noites escuras que passávamos na esplanada da praia.
O telemóvel toca, atende. Não sorri, fala pouco, abana a cabeça.
Espio os seus movimentos, as suas reacções; intrometo-me na sua existência, violo-a. E pergunto-me: o que teria sido diferente, se tivéssemos feito amor? Teríamos casado, construindo uma vida em conjunto que ainda hoje perduraria? Ou poderia ter sido um momento inconsequente e facilmente esquecível, apenas sexo, um acontecimento embaraçante, talvez constrangedor, algo que acabaria por nos afastar um do outro?
Pousa o telemóvel, pega no jornal. Lê. Muito tempo depois, sorri.
E eu insisto em sofrer, em aprofundar o delírio; o que teria sido preferível: deixar a amizade perecer lentamente, transformando-se em nada, ou ter feito amor – o que eu desejava e ela também, talvez – e, após saciarmos os corpos, afastarmo-nos, e esquecermo-nos? Pergunto-me: se tivéssemos feito amor, uma única vez que fosse, a sua recordação deixaria de me assombrar, poupando-me à perplexidade desta fantasia persistente e um pouco embaraçante, que durante anos me forçou a exorbitar nostalgias e destilar arrependimentos?
Pergunto-me. Sempre fui exímio a perguntar. Sempre fui dos que perguntam, nunca serei dos que agem.

4.
Agora, há mais gente na esplanada; pares de namorados, que segredam e riem, que se olham com fúria e ansiedade, com volúpia. Falas e eu escuto; olho em volta, distraio-me um pouco, regresso a ti. Por vezes, quando consigo reunir a coragem ou o atrevimento suficiente, permito que o meu olhar divague pelo teu corpo e espreite, durante um fragmento de instante, o teu peito; sob o tecido da camisola que vestes, noto o contorno dos mamilos, ligeiramente erectos, expostos e insinuantes, convidativos; culpa do vento fresco que chega do mar, certamente. Olho e sorvo, engulo; depois fujo, embaraçado. Pergunto-me como seria acariciar os teus seios, beijar os teus mamilos; pergunto-me como seria fazer amor contigo. E cerro os dentes, odiando a minha hesitação, o meu medo. Penso como seria fácil: bastaria prolongar o olhar o tempo suficiente até perceberes o brilho dos meus olhos; nem seria necessário falar, verbalizar o meu desejo; bastaria um certo olhar: e tu perceberias. Mas insisto em hesitar, em temer, em adiar.
Continuas a falar; sorrio, aceno com a cabeça. Sinto-me ligeiramente ausente, um pouco alheado, desligado do mundo, de mim mesmo: como aquela estranha amálgama de pânico e indiferença que se sente quando se adivinha um desmaio, quando se sabe que já nada o poderá suspender, quando se percebe a irreversibilidade. Admito que talvez não seja capaz, que não depende de mim. E, de certo modo, intuo que estou perante a minha última oportunidade: se não te falar esta noite, talvez não haja outra ocasião. Talvez desapareças para sempre da minha vida, deixando-me apenas a tua memória; e a dúvida: consigo imaginar-me daqui dez anos, arrependido e amargo, a perguntar-me como teria sido, se ao menos tivesse arriscado.
Felizmente, a noite será longa. Haverá tempo.

5.
Levanto-me e caminho. Passaram todos estes anos: o tempo necessário para reunir alguma coragem, alguma confiança, alguma indiferença. Passo mesmo à sua frente, com esperança que olhe, que me reconheça. Permitindo que seja ela, uma vez mais, a decidir, a tomar a iniciativa. Não tenho tempo para pensar no que faria no caso de ela não me olhar, não me reconhecer, não me chamar: porque ela olha-me, reconhece-me, chama-me.

6.
De repente, dizes: estou farta disto, vamos passear na praia.
Pergunto-me o que significará este convite, pergunto-me se estarás a tomar a iniciativa. Sigo-te, quase entusiasmado. Com medo.

7.
Afinal, é tão fácil. Conversamos freneticamente, com medo que o tempo passe, sem notarmos a sua passagem; rimos, nervosos e felizes; trocamos olhares, partilhamos saudades; quase sentimos o tempo regredir, o passado regressar. Falamos exclusivamente do que foi, não sentimos qualquer curiosidade em conhecer as nossas vidas actuais, em actualizar os nossos currículos pessoais; por enquanto. Fugimos para o passado e lá permanecemos, irredutíveis: como se ainda estivéssemos naquela praia, onde nos vimos pela última vez.
Retomando.

8.
Caminhámos, em silêncio, até às ondas e sentámo-nos na areia húmida e áspera. Pensei: agora, vais beijar-me.
Mas começas a chorar. Falas de desespero e vazio, de cansaço e medo, de morte; falas de ódio e raiva e fúria, de angústia e dúvida, de solidão. Falas muito e preciso de algum tempo até perceber o significado do que dizes, do que choras; não respondo porque não sei que dizer, porque sei que não te apetece ouvir. Pego a tua mão, que está gelada, e aperto-a. Calas-te e soluças, em silêncio. Um pensamento medonho ocorre-me: precisas apenas de alguém que te escute o choro, que te pegue a mão; não importa quem, calhou ser eu. Aperto com mais força e tu correspondes. Permanecemos assim muito tempo; sou incapaz de adivinhar os teus pensamentos, de sentir a tua dor. Não partilhaste nada comigo, não me revelaste a tua alma; confessaste apenas um desânimo profundo e virulento mas passageiro, um desânimo comum a todos os Homens, o desânimo de viver e não perceber para quê. Sinto frio e desconforto, cansaço. Aguardo. Já respiras com mais calma.
Levantas-te e aguardas que me erga, olhando-me com afeição e ternura; depois, abraças-me, aconchegando o teu corpo no meu. Sinto os teus seios comprimirem-se contra o meu peito e fecho os olhos, espero, sinto; sabendo que nunca voltarei a estar tão próximo. Penso: agora, sou eu que tenho vontade de chorar.
Regressamos, apressados. Em silêncio.
Lembras-te?

9.
Inesperadamente, diz: vem comigo, a minha casa.
Saímos à rua, rindo alto; e logo regressamos, envergonhados: esquecemo-nos de pagar a conta; como um par de adolescentes, tolos.
Separamo-nos com um sorriso, continuamos em carros separados; tudo isto me parece tão estranho e apressado que nem tenho tempo para analisar o que está a acontecer, para antever o que se seguirá; não tenho tempo, nem vontade, para fantasiar, para antecipar; ou para temer. Porque já estamos no elevador do seu prédio; sinto o seu cheiro, recordo-o. Apetece-me abraçá-la; mas aguardo.
Abre a porta, entramos. Um garoto aparece a correr, saído das entranhas do apartamento; depois, uma menina muito pequenina, sorridente, tímida; finalmente, o marido. Apresenta-me a todos, com um sorriso inocente e sincero, com um sorriso feliz.
Desvio o olhar do seu rosto, estendo a mão ao marido. E sorrio.

Dão-se livros # 11

Para compensar a escassez de actualizações, oferecem-se livros. Para quem estiver interessado, basta enviar um email (até 19 de Dezembro) dizendo a quem gostaria de oferecer um dos livros que aparecem aqui ao lado; entre os autores dos email recebidos, serão sorteados livros.