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Ebook # 07: Fotografar Palavras

Gastar palavras foi publicado em Dezembro de 2005, tendo alguns meses depois sido distinguido com o Grande Prémio do Conto da Associação Portuguesa de Escritores.
O ebook Fotografar palavras representa a versão fotográfica desse livro, incluindo as fotografias originais concebidas por Tina Azinheiro para cada uma das estórias do livro, bem como quatro contos reproduzidos integralmente. Pode ser lido aqui, sendo também possível efectuar o download gratuito.

Virgílio

Uma das minhas estórias favoritas, mais ou menos infantil. É um pouco inspirada numa fotografia de Sara Peixoto e integra um livro da Associação Zoófila de Leiria para angariação de fundos, a favor da associação.

1.
Virgílio estava cansado de apenas ter amigos imaginários. Na verdade, não se lembrava de ter tido um único amigo verdadeiro em toda a sua vida, pelo que nem sabia muito bem como seria isso de ter um amigo a sério nem o que poderia fazer com ele. Mas olhava para os colegas da sua turma, que eram todos mais velhos, e notava que andavam sempre em grupos inseparáveis de três ou quatro rapazes ou raparigas, notava que se riam de coisas que só para eles tinham piada, notava que depois da escola faziam actividades juntos e iam a sítios e partilhavam boleias, notava que todos eles falavam com animação das brincadeiras e projectos de fim-de-semana que tinham partilhado com os vizinhos ou com os primos.
Mas Virgílio não tinha vizinhos nem primos, não tinha ninguém que o convidasse para nada; e nas poucas vezes que tivera coragem para convidar alguém, os convites foram sempre recusados com desculpas um bocado palermas (mas, pensou ele, que talvez fossem verdadeiras). Continuava, portanto, a passar os fins-de-semana sozinho, a ler banda desenhada ou a jogar wii ou sentado em frente da televisão ou a ver coisas no youtube ou a olhar pela janela (se esperasse tempo suficiente, havia sempre algum velho que tropeçava, um ciclista que era perseguido por um cão, uma mulher que aparecia a correr e mesmo assim perdia o autocarro). E como se aborrecia, pois gostaria de fazer todas essas coisas acompanhado por alguém (alguém com quem pudesse rir e discutir, alguém que lhe ensinasse truques e ouvisse com atenção as suas descobertas, alguém que ficasse triste quando fosse hora de ir embora), desde muito cedo que se habituara a imaginar-se acompanhado por amigos inventados.
Aliás, a invenção de amigos fora durante algum tempo uma das suas brincadeiras favoritas porque podia fazer o que quisesse, era ele que mandava e que decidia, como se fosse um deus todo-poderoso numa banda desenhada. Na realidade, achava divertido o processo de inventar amigos, de decidir como seriam e o que fariam, de lhes atribuir defeitos e atributos; mas depois dos amigos estarem prontos, aborrecia-se um bocado porque, afinal, não podia fazer grande coisa com eles. Apesar de tudo, sabia perfeitamente que brincar com amigos inventados não era tão divertido como brincar com amigos verdadeiros mas achava que era melhor do que nada e, por isso, começou a fingir que se divertia quando brincava com os seus amigos fictícios, para que eles não se aborrecessem consigo e o abandonassem; suspeitava, também, que se fingisse com muita força talvez começasse a acreditar que estava mesmo a divertir-se.
Assim, continuara a inventar amigos e a incluí-los nas suas brincadeiras; fazia-o por hábito mas sem grande vontade, apenas porque não tinha nada melhor para fazer. Mas depois, certo dia, começou a pensar seriamente no que diriam os seus colegas de turma se descobrissem que ele brincava com amigos imaginários (como se ainda fosse um garoto de quatro anos ou assim), começou a pensar como iriam rir dele e gozá-lo, começou a pensar como seria insuportável se todos o tratassem como um bebé que ainda deveria andar no jardim-de-infância e não no quinto ano (e havia ainda outro problema, pensou Virgílio; se nem conseguia arranjar um amigo como é que alguma vez seria capaz de arranjar uma namorada? Mas era melhor nem pensar nisso, por enquanto). Assustado, percebeu que ter imaginação em demasia poderia não ser muito bom.

2.
Por isso, numa bela manhã de sábado em que apetecia mesmo ir para a rua correr e saltar, decidiu acabar com os amigos imaginários. Decidiu e foi o que fez: mandou-os embora; e eles, sempre obedientes, foram. Pela primeira vez na sua vida, sentiu-se verdadeiramente sozinho no mundo (sabia que antes, apesar de todos os amigos imaginários que o rodeavam, já estava sozinho no mundo; mas agora parecia diferente, parecia pior, parecia mais assustador); e ao longo desse sábado, em que não correu nem saltou porque correr e saltar sozinho é uma coisa parva de se fazer, percebeu que teria de fazer qualquer coisa para mudar a sua situação e descobrir uma solução para o seu problema; percebeu que teria de encontrar um amigo de verdade.
Nessa noite, Virgílio reflectiu seriamente em como poderia encontrar um amigo a sério; não sabia o que fazer mas acreditava que se pensasse com força e durante muito tempo, alguma coisa acabaria por ocorrer. Infelizmente, nem por um momento pensou no que aconteceria aos seus ex-amigos, agora que os dispensara de uma forma algo bruta e indelicada. Para onde vão os amigos imaginários quando quem os imaginou deixa de precisar deles? Estarão algures num sítio escuro e frio – uma gruta, por exemplo –, à espera que alguém se lembre deles e os chame? Ou talvez fiquem tão tristes e revoltados por terem sido dispensados e esquecidos que se transformem em monstros ou fantasmas, regressando à vida de quem os abandonou através de pesadelos? Evidentemente que poderão, simplesmente, arranjar emprego como actores – haverá grande diferença entre um amigo imaginado e uma personagem de telenovela? – e ocupar assim o seu tempo, entretidos a fingir isto e a representar aquilo; se for assim, menos mal: pelo menos não estão desempregados. Mas claro que Virgílio não pensou em nada disto, estava demasiado ocupado a ressonar.
E o problema persistira, noite fora: afinal, onde vai um rapaz à procura quando precisa de amigos? Nalgum sítio devem eles estar à espera; ou não?

3.
Virgílio fartou-se de pensar, pois passava horas a olhar para uma das paredes do seu quarto com os olhos muito abertos (porque achava que era assim que se fazia para ter as melhores ideias, como se as ideias precisassem de entrar pelos olhos – mas se precisavam de entrar, por que não o faziam pelo nariz, por exemplo? Havia mais espaço; de qualquer forma, parecia-lhe uma discussão interessante: as ideias já estão na cabeça de uma pessoa ou vêm de fora?).
Pensou que uma maneira fácil de conseguir um amigo seria pedir aos pais que lhe arranjassem um irmãozinho; iria demorar algum tempo mas sem dúvida que quando o rapaz chegasse e crescesse, Virgílio poderia obrigá-lo a ser seu amigo, já que quem nasce primeiro é que manda. Mas a verdade é que, apesar de não perceber muito de amizade e assim, calculou que um amigo forçado não deveria ser o melhor tipo de amigo (apesar de lhe parecer que poderia ser um bocadinho melhor do que um amigo imaginado). E havia ainda outro problema: e se os pais, por algum motivo estranho, se lembrassem de arranjar uma menina?
Achou, portanto, que seria melhor continuar a olhar para a parede e pensar mais, achou que se pensasse com força suficiente haveria mesmo de ter uma ideia das boas. Foi então, um bocado de repente (será que as melhores ideias aparecem quando não se está a tentar ter boas ideias, quando não se está a fazer muita força?), que teve uma ideia relacionada com uns colegas mais preguiçosos que tinha lá na turma: podia tentar ajudá-los com as suas tarefas escolares. Poderia, por exemplo, fazer os seus tpc’s e os trabalhos de grupo e as tarefas que os professores estavam sempre a inventar; em troca e como agradecimento, talvez os miúdos o deixassem integrar o seu grupo. Não seria uma forma de amizade especialmente excitante mas, pelo menos, pertenceria a um grupo, deixaria de andar sozinho. E apesar da ideia inicialmente parecer boa, logo começou a despertar-lhe algumas dúvidas; por exemplo: seriam os amigos comprados com favores ou presentes melhores que os amigos imaginários que já tinha? Talvez, pensou, fossem apenas uma outra forma de amigos imaginários, já que afinal apenas seriam verdadeiramente amigos na sua imaginação.

4.
Noite após noite, continuou a pensar, fixando os olhos esbugalhados na parede branca (já aborrecido porque tudo isto lhe parecia demasiado complicado; como farão os adultos para resolver estes problemas?, perguntou a si próprio), em busca de uma alternativa melhor, mais segura, mais eficaz. E de repente – outra vez de repente –, ocorreu-lhe uma: procurar a companhia de outros rapazes solitários, de outros rapazes sem amigos. Com certeza que haveria na escola miúdos que passavam os fins-de-semana sem companhia, que não tinham quem ouvisse as suas histórias e partilhasse as suas brincadeiras; miúdos a precisarem de um amigo.
Entusiasmou-se com este novo plano, imaginando como seria excitante reunir toda essa multidão de rapazes solitários (seria mesmo uma multidão?) e formar um clube; um clube a sério, que até poderia ter juras de fidelidade e rituais secretos e outras coisas engraçadas como as que vira em filmes do Canal Disney; um clube onde todos os membros teriam a certeza de que haveria sempre alguém disponível para fazer companhia ou brincar, para ouvir e aconselhar, para ser amigo. Contudo, logo percebeu que existia um problema grave neste seu plano. Sabia muito bem que nome se dava aos miúdos que andam sempre sozinhos, aos miúdos que têm boas notas e não sabem jogar futebol, aos miúdos que são humilhados e por vezes até levam porrada, aos miúdos que não saberiam o que fazer se de repente uma rapariga os quisesse beijar; Virgílio sabia porque era o nome que, às vezes, lhe chamavam: cromo. E a realidade é que ninguém gosta de ser considerado cromo. Porque haveriam, então, os cromos de querer assumir publicamente o seu estado de cromisse e formar um clube de cromos? Percebeu que seria difícil convencer os outros miúdos solitários a exporem-se, seria difícil convencê-los de que a partir do momento em que tivessem amigos deixariam de ser vistos como cromos e passariam a ser os miúdos normais que, na realidade, nunca tinham deixado de ser.
Uma coisa era certa: Virgílio andava a pensar demasiado (e as ideias boas que não vinham, apesar de continuar a olhar para a parede com uma intensidade que pareceria assustadora caso houvesse alguém ali para a testemunhar; ou talvez o problema fosse da parede e não dele, da cor da parede, por exemplo; afinal, sabe-se lá se as ideias de génio não estão escondidas na tinta; e se pedisse ao pai para lhe pintar o quarto com outra cor qualquer?). E, simultaneamente, andava cansado de pensar tanto, cansado de inventar planos e não ter com quem os discutir. Tão cansado que quase caiu na tentação de regressar aos seus amigos imaginários e esquecer os amigos verdadeiros; quase desistiu. E, antes de adormecer, ia imaginando como seria mais fácil se os amigos nascessem nas árvores ou se estivessem à venda nos supermercados ou se viessem nas caixas de cereais (uma pessoa podia enchê-los, como se enchem as bolas de praia) ou se pudessem ser alugados como os adultos alugam carros.

5.
E então, sem aviso prévio nem aparente razão, aconteceu que os pais lhe ofereceram um cão. Um cãozinho pequenino e envergonhado que ficou parado no meio da sala a olhar, sem se mexer, sem se importar com nada; se fosse uma menina, Virgílio talvez dissesse: ai, que fofinho. Mas Virgílio não era uma menina e, talvez apenas por isso, não disse nada; decidiu não se interessar pelo cão, pois pareceu-lhe que de pouco lhe serviria a sua companhia. Poderiam jogar wii juntos? Claro que não. Poderiam partilhar segredos sobre miúdas? Também não. Na verdade, até ficou um pouquinho irritado com os pais: precisava de um amigo, não de um cão. Seria preciso fazer-lhes um desenho?
Nessa noite, adormeceu chateado com os pais e com a injustiça da vida; e certamente por isso, teve um pesadelo bastante assustador. Nesse pesadelo, havia uma família de cães que vivia numa casa de cães que ficava numa cidade de cães; certo dia, o cão pai decidiu oferecer ao seu cachorrinho mais novo um animal de estimação, para ele se distrair. Acontece que naquele mundo estranho, os animais de estimação preferidos dos cães eram meninos. E foi assim que Virgílio se viu transformado no animal de estimação de um cachorrinho não muito simpático. O cachorrinho, pouco impressionado com o seu presente, disse aos pais, lá na sua linguagem de cão: mas que faço eu com este miúdo, para que serve ele? Será que irá desenterrar ossos comigo? Não me parece. E foi à sua vida, deixando Virgílio por ali, sozinho e abandonado, como se a sua presença naquela casa de cães fosse um estorvo, um incómodo, um embaraço.

6.
Quando acordou, Virgílio ficou a olhar para a sua parede, primeiro assustado e depois pensativo. Talvez aquilo não fosse um pesadelo mas uma mensagem qualquer; ou um aviso. E foi pensando ao longo da noite (Virgílio, já percebemos, é um rapaz que pensa demasiado mas isso apenas acontece porque tem muito tempo livre; afinal, pensar é uma maneira de conversarmos connosco próprios; e, se estamos sozinhos, não podemos conversar com mais ninguém, não é verdade?). Até que começou a ter algumas ideias curiosas, relacionadas com a sua solidão, com a sua necessidade de ter amigos. E como toda a gente sabe, as melhores ideias chegam na forma de perguntas; o que significa que, para afastar a confusão e chamar o sono, começou a fazer perguntas a si próprio. Por exemplo: o que é, na verdade, um amigo?
Foi pensando e perguntando e respondendo e bocejando e voltando a perguntar, até que adormeceu de novo. Mas quando isso aconteceu já tinha chegado a uma espécie de conclusão; apesar de não perceber muito do assunto, começava a desconfiar que a amizade era algo que, talvez por ser tão especial e importante, tão fundamental, poderia afinal ter muitas e diversas formas; e tantas poderiam ser as formas de amizade existentes que coisas que ele tanto desejava (como, simplesmente, pertencer a um grupo de rapazes ou ter alguém com quem jogar wii e comer gomas) talvez nem fossem as manifestações mais importantes e recompensadoras de amizade.
Ou seja: poderia acontecer que o seu melhor amigo, quando o encontrasse, nem fosse um rapaz.

7.
De manhã, acordou um pouco confuso, por causa do sonho e das conclusões a que chegara. Era sábado e os pais estavam a tomar o pequeno-almoço; conversavam e sorriam, olhavam pela enorme janela por onde entrava um sol magnífico, voltavam a sorrir; pareciam felizes, e se há coisa que um menino goste de ver é os seus pais felizes. E ali mesmo ao lado da mesa, estava o cachorrinho. Virgílio olhou-o com algum receio, até decidir que o cão que se encontrava ali à sua frente nada tinha a ver com o do seu pesadelo; aproximou-se, pensando no que poderia acontecer se lhe tocasse (seria mesmo fofinho?). Então, de repente, perguntou à mãe como se chamava; e a mãe respondeu, com um sorriso meio tolo: chama-se Amigo.
Virgílio achou que era um nome bastante parvo; apesar disso (e porque pensou que aquilo poderia ser tipo um sinal ou assim), chegou-se mesmo junto do cão, olhou-o de muito perto, quase o tocou; depois, disfarçando a vergonha, perguntou-lhe: olha lá, gostas de correr no parque? E logo de seguida, acrescentou numa vozinha mais baixa, mais hesitante: amigo.

8.
Nessa mesma manhã, Virgílio e Amigo foram ao parque; correram, deram pinotes, fizeram disparates. Depois, como por magia, apareceu ali um rapazinho que também tinha um cão e duas miúdas que passeavam com os telemóveis na mão e um rapaz com aspecto de gótico e dois irmãos com outro cão. O parque era tão grande e, apesar disso, estavam ali, mesmo perto de Virgílio, olhando e sorrindo, à espera de qualquer coisa. De repente, estavam todos a conversar e a rir alto, os cães andavam doidos de alegria e ladravam muito, e até parecia que todos aqueles miúdos e cães se conheciam há montes de anos e que aquela manhã de sábado nunca mais iria terminar (e se terminasse não fazia mal porque logo de seguida viria outra igualzinha); Virgílio, olhando para os seus amigos, sentiu-se espantado com a normalidade de tudo aquilo, com a felicidade de tudo aquilo. Afinal, era tão, tão fácil; e disse a si próprio, de maneira que nem ele ouvisse muito bem: oh Virgílio, o teu mal é pensares demasiado. (Talvez à noite repetisse o mesmo pensamento ao cachorrinho Amigo, seu primeiro amigo, seu melhor amigo; e depois, antes de adormecer, talvez também lhe dissesse: que importa a cor das paredes quanto temos um Amigo?)
Riu muito alto, enquanto gritava o nome de todos os amigos que andavam em seu redor, apenas porque não há nada melhor no mundo – acabara de o descobrir – do que chamar um amigo e ele olhar para nós com um sorriso.

9.
O dia seguinte era domingo. Apesar de cansado (nunca correra tanto como no dia anterior), Virgílio acordou cedo; o sol brilhava lá fora e havia um magnífico cheiro de torradas fresquinhas a passear pela casa; parecia que o tempo tinha parado, como sempre acontece nas manhãs de domingo. E a primeira coisa que Virgílio fez quando acordou foi perguntar ao cachorrinho que o olhava do fundo da cama, ansioso mas paciente: então, Amigo? Que queres fazer hoje?

Legendas anteriores:
#08: A partir de uma fotografia Maria João Dias
#07: A partir de uma fotografia de Rute Violante
#06: A partir de uma fotografia de Sofia Mota
#05: A partir de um desenho de João Concha
#04: A partir de uma fotografia de Julieta Domingos
#03: A partir de uma fotografia de Cátia Biscaia
#02: A partir de uma fotografia de Francisca Moreira
#01: A partir de uma fotografia de Lara Jacinto

Los mundos separados que compartimos




“Paulo Kellerman nos asoma, a lo largo de los veinte cuentos que componen Los mundos separados que compartimos, al abismo más peligroso al que puede asomarse el ser humano, el interior. A través de una narrativa limpia y de una gran cadencia poética, desgrana la nostalgia de lo no vivido, la contundencia y significación de los silencios, las preguntas últimas sobre la latencia del desamor. Cada relato es una mirada a la duda y una puesta en jaque de la relación amorosa; los personajes parecen transitar de un cuento a otro con astutos movimientos y sólo cuando ellos quieren somos conscientes del trasvase. Hombres y mujeres se abren paso hacia sus paradojas y sus miedos, se retan a sí mismos, se condenan o se regalan nuevas oportunidades. Maestro del diálogo íntimo, Kellerman nos presenta en este catálogo de soledades todas las posibilidades de acercamiento a esos mundos separados que compartimos.”

Edição espanhola de "Os mundos separados que partilhamos", na Baile del Sol.

Gastar palavras / Fotografar palavras

A estória “Gastar Palavras” fotografada por Tina Azinheiro para o ebook “Fotografar Palavras”, a disponibilizar em breve.



07h45

Custa-me tanto acordar.
Antes, era um momento mágico: um mundo de possibilidades pela frente, caminhos a percorrer, aprendizagens, dores e obstáculos e incompreensões a superar, partilhas; cada acordar era um nascimento, a descoberta deslumbrada da imensidão da vida. Como olhar um mapa que incluísse todos, mas mesmo todos, os caminhos existentes no mundo, todas as pequenas estradas e atalhos e ruelas e avenidas e becos sem saída; olhá-los, sem pressa, saboreando a indecisão, e escolher: hoje, vou por aqui. E ir.
Agora, adormecer é que é o momento mágico. Adormecer significa adiar e esquecer. Durmo muito, preciso de dormir muito: são esses os únicos instantes em que não sofro. Tudo se mantém, nada muda enquanto durmo; mas dormindo, consigo não pensar nisso, consigo ignorar. É a única fuga que me resta e estou, em cada dia que passa, mais dependente dela. Durmo, vou fugindo. Fujo da dor de pensar. Então, acordo: e eis a minha vida, à espera. É (também) como nascer: e descobrir uma cortina intransponível (nem importa se transparente ou não; é indiferente se há algo para além da cortina porque a impossibilidade de a ultrapassar é uma certeza absoluta); nasce-se e não se está perante um princípio, nem sequer perante um fim; abro os olhos e tudo o que vislumbro é um impasse, uma impossibilidade, uma incongruência. Abro-os; e de imediato, volto a fechá-los. E a incapacidade de os manter assim, cerrados, causa uma dor nova, acrescenta o sofrimento.
Acordo, agora. E o meu primeiro pensamento é: quando poderei voltar a dormir?


08h13

Caminho pelo apartamento. O branco das paredes agride-me, fura-me os olhos. Apetecem-me quadros, cores, janelas para a salvação; distracções. Este assobio constante que é o ruído do silêncio causa-me dores de cabeça; e desejo barulho, agitação. Há momentos em que penso: um grito de alguém seria o suficiente para me salvar. E olho em redor, em busca de quem possa gritar. Procuro, sabendo o que encontrarei. Penso: sabemos sempre o que vamos encontrar e mesmo assim procuramos; porquê? Vou à casa de banho, porque aí as paredes são beges; sempre é um branco diferente. Depois, olho-me ao espelho. Frente a frente com alguém, que até poderei nem ser eu. E canso-me. O silêncio perseguiu-me, aí está: ruidoso. Desejo barulho; e ligo a televisão, automaticamente começo a trautear as músicas publicitárias que vou ouvindo. Sento-me a comer o pequeno-almoço, feito de cereais. Engulo com indiferença. Trauteio. Vejo como o sol vai avançando pela janela, agredindo-me com a luminosidade da sua existência. Agora, resta vestir-me e sair pelo mundo, por aí fora. Penso: tenho quase meia hora para escolher a gravata.


08h53

Por vezes, julgo-me especial. Penso: sou especial. E acredito.
Nada de extraordinário, essa especialidade. É apenas uma consciência não muito racional que por vezes vem e se insinua, murmura junto ao ouvido: tens, em ti, lá dentro, lá fundo, algo para dar. Algo que até pode ser muito. Mas algo, para oferecer. Quero dar, sinto que posso dar. Nem sei o quê, na verdade não importa muito. Poderá ser apenas companhia ou compreensão ou carinho ou amor. Mas quero tanto dar. Provocar sorrisos. Ou até recolher lágrimas (as lágrimas são sempre pedaços de alma, provas de libertação, de entrega, de confiança; rastos de amor. Gostaria de andar pelo mundo e provocar choro; então, recolheria as lágrimas, e com elas formaria um oceano, um novo oceano. E esse oceano, constituído por pedacitos das almas de todos os homens, formaria uma alma gigantesca, que seria a alma do mundo; que seria, em simultâneo, de todos e todos.)
É isso que penso, que desejo: apetece-me dar; e sinto que posso. Depois, olho em redor, pergunto: mas quem receberá? (Novamente: uma cortina.) Muitas vezes, sinto-me pateta: como se fosse um daqueles loucos que percorrem as ruas das cidades com tabuletas penduradas ao peito, anunciando o fim do mundo; a minha tabuleta diria: dá-se amor. E andaria pelas cidades, exibindo-a, esfregando-a nos olhos de quem passasse. Para nada; porque ninguém diria: dá-me amor, que eu preciso.
E então, penso: não, não sou especial. E acredito.


10h37

O que mais me custa neste emprego de vendedor de automóveis é ter de sorrir tanto. Aquela velha conversa pateta do palhaço que tem de mostrar alegria estridente quando sente dor lancinante. Sorrio, muito sorrio eu. E esta gente cega deverá pensar: que alegre e feliz é este homem. Ouço os lamentos, detecto os sonhos. Tagarelices inconsequentes. E falo das cilindradas e das cores metalizadas e das jantes em liga leve. Digo: hoje em dia, os carros são feitos para durarem uma vida. E recebo a resposta em forma de acenos de cabeça. Passo horas a repetir cassetes, com indiferença, disfarçando o ódio com sorrisos. Por vezes, dizem-me: que gravata tão bonita. Sorrio e falo da minha colecção de gravatas. Faço-o com entusiasmo, invento entusiasmo. E tenho a certeza que toda esta gente pensa: que rapaz tão feliz. E eu grito-lhes, em silêncio: cegos dum caralho.


13h01

Almoço todos os dias no mesmo restaurante. Já me conhecem, aqui. Sorriem-me muito. E eu sei: para eles, é só trabalho, é um sorriso profissional; o sorriso que exibem quando me dão o prato com as batatas e a carne e o ovo e a alface é o mesmo, exactamente o mesmo, que eu exibo, quando falo de suspensões e consumos e alarmes. Penso: agora, sou eu o cego. Finjo não perceber. Todos aceitámos esta regra primária da civilização: fingir não perceber o sofrimento dos outros. Ignorar. E então, rio alto. Eles sorriem e eu rio. Falamos, somos joviais. Espirituosos. Eles dizem: és um tipo mesmo porreiro. E eu concordo. Mas sei o que eles pensam, na verdade: cego dum caralho. É o que eu também penso, deles, de mim. Somos sempre os mesmos, o mesmo, dia após dia. Sorrimo-nos tanto; e nada sabemos uns dos outros. Não sei porquê mas nem curiosidade sentimos. Representamos as nossas comédias, falamos de banalidades, sorrimos tanto. Mas não conhecemos nada, não partilhamos nada. Podemos estar a morrer de dor, de solidão, de desespero; mas enrolamos sempre as batatas fritas em sorrisos e engolimo-las com a nossa dor. Dor que amarga, sempre; mas que disfarçamos: com mais sorrisos. Tão estranho, isto. O que precisamos, todos nós, é de um simples abraço. Mas recusamos pedi-lo, dá-lo. Sentimos vergonha, embaraço. Não encontramos conforto no facto de partilharmos as mesmas dúvidas, as mesmas angústias. Somos incapazes de estender a mão, abrir a mão. Todos sentimos que temos algo para dar, queremos dar, queremos desesperadamente dar, qualquer coisa, a alguém. Mas temos medo, somos tolhidos por um estranho e dilacerante medo, que nos inibe, que nos controla. E então, tudo o que fazemos é sorrir. Sorrimos. Disfarçamos o medo. E aprendemos a odiar, odiar com todas as nossas forças, as pessoas que nos sorriem. É também uma maneira de nos odiarmos.


16h42

Isto é o que sinto, ultimamente: que a minha alma diminui. Que vai encolhendo e encolhendo e encolhendo. Tenho medo que, assim, desapareça. E pergunto-me o que será de mim, sem alma. Depois, há alturas em que me revolto. E penso: mas se eu já sou um simples pedaço de carne... e sou incapaz de completar o pensamento. Sim, admito: a minha vida é pouco diferente da existência de um poste de electricidade. Ergo os meus braços, segurando os fios que conduzem a electricidade que alimenta o mundo; momentos de arrogância, em que me julgo útil. Mas, na verdade, sei, admito: que a electricidade existe sem mim, para além de mim; que sou apenas um instrumento, facilmente substituível. Há acontecimentos que passam através de mim, pequenas banalidades angustiosamente irrelevantes (acuso-me: sou um instrumento da banalidade; ou nem isso, menos que instrumento, menos que veículo.); mas, se eu não estivesse lá, estaria outro poste, o que mais existe são postes.
Mas preocupa-me, isto. Ainda me preocupa. Há camadas de alma que vou perdendo, isso sinto. Devagarinho, suavemente. Sem dor (e isto, espanta-me um pouco). Como se a alma fosse feita de translúcidas camadas de água; e por vezes, uma camada desaparecesse, assim, simplesmente. Evaporou. Transformou-se noutra coisa. Era substância, agora é... não sei: vapor. Ou fantasma. Sim, talvez isso: aos poucos, a minha alma morre, transforma-se em espírito de alma, fantasma de alma. Sinto isso: e perturbo-me. Custa-me, ser assim habitado por fantasmas. Custa-me, estar assim a evaporar, aos poucos.
E se alguém perguntasse: quem és? Responderia: um poste de electricidade com um fantasma de alma dentro?


21h17

O pior é não apetecer.
Não ter vontade nem desejo, não querer nada. Acontece-me muito, agora. Não apetece. Nada apetece. Não sinto vontade de nada. Espero, apenas. Ou nem isso: por vezes, não espero nada. Basta a passagem do tempo. No máximo, espero nada; e esperar nada é estar morto, vegetando. Como morto: é assim que me sinto, tanta vez. Prisioneiro da indiferença; pior: apreciando a indiferença. Sinto-me doente, sei que é uma doença; mas sou incapaz de me contrariar. Pergunto-me, sempre, tanta e tanta vez: para quê?
Forço-me. Tento pensar em coisas boas. Pedaços de felicidade. Nada de especial, porque a felicidade não é nada de especial; a felicidade é, muitas vezes, simplesmente conseguir sentir, derrotar por momentos a indiferença, a anestesia, o torpor. A felicidade pode ser, tantas vezes, apenas conseguir sentir. E então, evoco recordações. Momentos em que consegui sentir qualquer coisa. Banalidades: o sabor de um gelado, o brilho do sol num fim de tarde de Verão, uma carícia na perna, o som de um riso, um passeio na beira de um rio, o ladrar de um cão, a sensualidade de uma palavra escrita à mão numa folha de papel, o toque ansiado de um telemóvel, um passeio de carro sem destino nem objectivo nem fim, um olhar que não se desvia, crianças a brincar, ter um jornal na mão. Coisitas que me encheram, preencheram o vazio. Penso nelas, tento recuperar a sua consistência. Faço força. Mas não resulta, já não resulta. Apenas memórias indefinidas, voláteis. Perdidas. Tento tocar-lhes, mas elas passam-me através dos dedos; fantasmas.
E volta a não apetecer. Nada, nem sequer tentar.


23h37

Acabei de fazer amor. Comecei por despir-lhe a lingerie, aquela azul e semi-transparente, depois fui percorrendo-lhe o corpo com a língua, acariciando, molhando, provando. Movimentos frenéticos, gestos desastrados. Passou muito tempo; e agora há cheiros insinuados e nuances de escuridão, movimentos tímidos, simulacros de partilha. Dantes, dava importância a isto: a minha vida dependia disto. Agora, há apenas cansaço. Ou nem isso: resignação. Ela adormeceu, enroscada em mim. De repente, ressona. E acho isto bonito. É bom descobrir imperfeições nos outros: lembramo-nos assim que também somos imperfeitos. E partilhar os defeitos é uma forma superior de amor. Imagino-me a dizer, não sei a quem, não importa a quem: amo-te porque ressonas, porque tens manchas na pele, porque és egoísta.
De qualquer modo, penso que ainda a amo. Muito. Ou o suficiente.
Penso nisto, durante muito tempo; depois, adormeço.


01h13

Custa-me falar. Custa-me dizer palavras que não conduzam a lado nenhum, que não originem intimidade, que não toquem; E por vezes, penso: vou gastando as minhas palavras, assim, desapaixonadamente, desinteressadamente; e quando precisar mesmo delas – ainda acredito que esse dia chegará –, descobrirei que se me acabaram; procurarei dentro de mim e não encontrarei; apenas o vazio estará lá: maior que hoje. E preocupo-me: porque não sei onde se podem ir buscar palavras, não sei se é possível obter e usar mais palavras que aquelas que nos dão à nascença (nascemos apenas com dois olhos, e assim temos de sobreviver; nunca ninguém pensou partir pelo mundo, em busca de mais olhos, por achar que dois são insuficientes).
Por vezes, gosto de imaginar que as palavras nascem nos ramos de uma árvore misteriosa, uma árvore milenar que existe desde o início dos tempos, que nunca morre (árvores que são, também colunas: que de algum modo sustentam o mundo); gosto de imaginar que há planícies imensas serpenteadas destas árvores e que, por vezes, algumas pessoas podem passear-se entre elas e colher as palavras que desejam. Como meninos, brincando num laranjal, num fim de tarde de Primavera.
Também já houve alturas em que pensei: as palavras vêm do mar. Existiriam entre as ondas, envolvidas pela água. Como bebés, nas placentas das mães. Nascendo, a todo o momento: formas invisíveis soltando-se com ternura da água, sacudindo a espuma, e flutuando nas costas do vento, por aí. A atmosfera estaria repleta delas, infinidades de palavras virgens, ansiosas por serem ditas, gritadas, segredadas; ou adiando o propósito da sua existência, o momento em que alguém as pega e, envolvendo-as na humidade da garganta (outra placenta), extrai o som que é a sua essência, esvaziando-as.
Penso (pensar não consome as palavras) muitas coisas, assim. E tenho pena de não poder falar disto a ninguém, não ter as palavras necessárias em mim. Sinto-me deficiente: nasci com défice de palavras.
Não percebo para que estou a gastá-las contigo.