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Ebook # 03


Um destes dias haverá novo ebook, composto por ilustrações originais criadas por Licínio Florêncio a partir de estórias publicadas no livro Silêncios Entre Nós. Este é um dos exemplos, inspirado nesta estória.

Dão-se livros # 05

Desafio encerrado e livro atribuído à Conceição.
Obrigado a todos pela participação.

Esboço # 78

Prazo de validade expirado.

Esboço # 77

(Estão há algum tempo a conversar entre si, quase esquecidos da minha presença. Vou comendo sem grande apetite, tentando disfarçar o enfado; por vezes, olho para as mesas em redor, em busca de algo que me distraia.)
EU (falando inesperadamente, surpreendendo-me mais a mim próprio do que a eles): Lembram-se quando eu era garoto e me levavam ao parque? (Olham-me, um pouco contrariados.) Andava por ali, nos balancés e escorregas, a imitar os outros garotos, perguntando-me quando é que começaria a sentir-me excitado e feliz. (Hesito e eles entreolham-se, curiosos.) E vocês sempre à minha volta, lembram-se? A fotografar, sempre a fotografar-me; mas cada um com a sua máquina, e isso espantava-me um pouco; no princípio até me sentia especial por causa disso. Mas depois comecei a estranhar, a perguntar para que serviriam tantas fotografias. Fotografias atrás de fotografias, centenas delas. (Escutam-me com apreensão, desagradados.) Nunca conversavam comigo, em vez disso tiravam-me fotografias e depois comparavam-nas e discutiam-nas, conversavam longamente sobre elas, enquanto eu continuava nos balancés, à espera que me chamassem. Como se as malditas fotografias falassem por mim, representando-me. Lembram-se? (O meu pai é o primeiro a desviar o olhar, o que me surpreende; e agrada.) Nunca me mostravam as fotos, nunca me pediam opinião; as minhas fotos eram um assunto exclusivamente vosso. (Sorrio, tentando que esse sorriso os magoe.) Lembram-se? Falavam sobre as minhas fotos e sobre mim, fartavam-se de falar sobre mim. Mas nunca falavam comigo. Nunca.
(Pego o garfo e levo um pedaço de batata à boca; mastigo devagarinho, reparando como o restaurante está silencioso.)

Esboço # 76

Prazo de validade expirado.

Dão-se livros # 05

E como estamos em época de oferecer presentes e tal, desta vez nem há desafio. A quem interessar receber um livro, basta enviar um email a dizer olá ou quero um livro ou o que calhar; entre todos os emails recebidos até 21 de Dezembro será sorteado o vencedor do livro.

Uma espécie de western: fascículo # 21

Estou, então, a metamorfosear-me em espírito; e tudo o que me apetece pensar é: não dói nada. Resta-me partir por aí, em busca de outras fantasmas; e distrair a solidão.
The end.

Uma espécie de western: fascículo # 20

Sinto o inesperado e estranho calor de uma expiração acariciar-me o rosto, adivinho a presença de alguém junto de mim, muito próxima, tão próxima quanto possível. Ainda me pergunto se deverei abrir os olhos uma última vez mas opto por não o fazer porque sei que não fará qualquer diferença, prefiro limitar-me a sentir a respiração que me acompanha, a saborear o conforto ilusório e inconsequente de não morrer só.
Talvez seja apenas um qualquer animal selvagem que se prepara para me devorar, aproximando-se porque talvez já me julgue morto; ou será que estou efectivamente morto há algum tempo e ainda não o percebi, aceitei? Afinal, quantos anos demora um homem a morrer? Poderá, por outro lado, ser o Xerife, que finalmente me alcançou, que se prepara para me pontapear suavemente (no ombro, numa perna?), até ter a certeza de que estou morto. (Ou, penso vagamente – sorrindo –, poderá ser o difuso e omnipresente encenador?)
Prefiro, contudo, acreditar que quem está junto de mim é o cavalo; sim, é possível que tenha regressado, para se despedir, para me acompanhar durante o último momento, num gesto fútil de solidariedade animal, de cumplicidade entre seres que pisaram o mesmo chão e respiraram o mesmo oxigénio, seres que compreendem e aceitam a irrelevância das suas existências. (Gostava de lhe ter dado um nome. Mas não faria diferença, afinal.)
Depois, deixo de sentir a respiração tocar-me o rosto; mas sei que está lá, ainda: eu é que não consigo, nem quero, continuar a senti-la. A sentir.

Uma espécie de western: fascículo # 19

Mas mudo de ideias, por nenhum motivo; e abro-os, devagarinho. Vejo uma estrela a piscar, envolvida pelo cinzento-escuro do céu; uma única estrela, ocupando toda a imensidão do horizonte, suficiente para iluminar a vastidão do universo. E decido que será ela a guiar-me, que será o seu ténue brilho a conduzir-me e orientar-me entre o negrume que se abate lentamente sobre mim, que reclama o meu regresso.
Fecho os olhos porque sei que a estrela continuará lá, sei que a escuridão do universo se confundirá imperceptivelmente com a escuridão do meu olhar, da minha vida; sei que tudo é (foi) escuridão, e que estou apenas a regressar.
Penso em tudo o que fica para trás, em tudo o que me motivou e distraiu, em tudo o que me entreteve; revivo memórias e prazeres e sensações. Evoco os ingénuos mantras que pretendi que orientassem a minha existência, que me esforcei por cumprir: viver plenamente, com paixão e entrega, com fervor e voracidade, aproveitar e saborear e dissecar cada momento, cada segundo, cada oportunidade. E sorrio, incrédulo com a minha simplicidade, com a minha arrogância. Pergunto-me: para quê, afinal?
Desisto de procurar uma resposta pouco depois; sei, agora, que não existe; que se existir, não altera nada. Mas persisto em sorrir, não sei porquê, para quê; sorrio, simplesmente. E suponho que ficarei aqui para sempre, talvez à espera que o deserto se transforme novamente em floresta; assistindo à lenta imutabilidade da natureza. Tornando-me parte do cenário.
(Reparo que tenho sorrido algumas vezes nestas últimas horas; vários sorrisos, genuínos e pacificadores, serenos; felizes. Sim, suponho que – apesar de tudo – esteja a ser um dia bom.)

Uma espécie de western: fascículo # 18

Talvez a vida seja apenas o percurso que cada um tem de fazer em busca do lugar onde deve morrer. Fico a pensar nisto durante uns instantes (as dores desapareceram, restando apenas a incapacidade de as sentir; e, por isso, posso distrair-me assim, ingenuamente, pensando nisto e naquilo, em nada, em tudo); depois, digo a mim próprio (voz baixinha, envergonhada): mas que pensamento mais disparatado.
Soube-me bem, falar; e penso em mais qualquer coisa que possa dizer a mim próprio, ouvir de mim próprio. Penso porque é tudo o que me resta, agora: pensar. E olho o céu, assistindo à lenta transformação do azul em cinzento; não há nuvens, não há vento; nada que distraia ou adie, nada que denuncie vida, nada que ofereça esperança. Apenas o silêncio do mundo mesclando-se imperceptivelmente com o silêncio do meu próprio corpo, engolindo-o e dissolvendo-o.
Depois, surge uma pequena nuvem, minúscula – talvez imaginada; e enquanto a olho, enquanto a imagino, regressa o pensamento de há pouco, teimoso e persistente, insidioso: procurar o local adequado para morrer. E por um momento, gostava – o último desejo do condenado – que estivesse aqui alguém que me pudesse explicar (pacientemente, de preferência; sem pressa nem sobranceria) que não importa nada o local onde se morre, do mesmo modo que não importa nada o local onde se vive; aqui ou ali ou acolá: apenas um cenário. Alguém que me explicasse (que me recordasse): talvez a natureza seja apenas um cenário e os homens meros actores e figurantes, que correm e riem e sofrem e sonham e fodem e acreditam e adiam e morrem. Alguém que me sorrisse, quando eu perguntasse: mas, se assim for, quem é o dramaturgo, o encenador? Quem nos escreve, quem nos ensaia?
Tento erguer-me mas não consigo, o corpo deixou de obedecer; então, desisto e deixo-me simplesmente deslizar pela rocha, deito-me na terra rija, fecho os olhos; pergunto-me se os voltarei a abrir, se quero voltar a abri-los.
Acho que não.

Uma espécie de western: fascículo # 17

O cavalo já se refrescou, agora passeia nervosamente, mantendo-se afastado de mim, ignorando-me; em silêncio absoluto, como se desejasse que não desse por ele, que o esquecesse. E sei o que isto significa: mas não me revolto. Permito que fuja, que me abandone.
Quando, um pouco mais tarde, o procuro com o olhar e não encontro, sou incapaz de me sentir mais só que antes. E tento não ter pena de mim, não pensar – demasiado – em arrependimento. A noite cai, transmitindo-me tranquilidade; e talvez seja melhor assim: morrer devagarinho, sem medo nem ansiedade, sentindo o silêncio e escutando a solidão. Sem testemunhas.
Sim, encontrei um bom lugar para morrer; e pergunto-me se alguém terá escolhido este refúgio para morrer, antes; se alguém o escolherá no futuro. Ou se terei encontrado, finalmente, o meu lugar no mundo.

Uma espécie de western: fascículo # 16

Sim, talvez não seja um abutre; e anjo não será: que faria ele por aqui? Penso, então, em fantasmas, nos fantasmas das velhas lendas. Vou sentindo o sangue fugir de mim, irredutível, enquanto penso como a pradaria estará certamente repleta de fantasmas índios, vagueando sem objectivo nem destino, sem pressa, enclausurados na sua imortalidade; e quase me apetece ceder à tentação, ao desvario, de abrir bem os olhos e procurá-los por entre a cintilação da luz, por entre as palpitações do silêncio. Nem que fossem aqueles temidos espíritos que pertenceram, um dia, a homens cruéis e, agora, ocupam a sua eternidade percorrendo campos e planícies, ou montanhas e pradarias, em busca de pessoas que possam perseguir e amaldiçoar, tornando-as consequentemente homens cruéis e, após a morte, espíritos temidos, numa espécie de imparável contágio malévolo.
Pergunto-me quantas vezes já me terei cruzado com um destes espíritos; pergunto-me, também, quanto tempo faltará para me tornar um deles.

Uma espécie de western: fascículo # 15

Quando chegamos junto ao riacho, paramos; permaneço durante alguns instantes a olhar o pedaço de água cristalina que desliza preguiçosamente entre tufos de ervas selvagens e rochas de colorações misteriosas, como se esperasse autorização de alguém, como se já nem o privilégio de pisar terra firme me fosse concedido; por fim, quando admito que afinal estou apenas a ponderar se valerá a pena ou não, forço-me a descer do cavalo com lentidão; sento-me numa rocha, aperto a ferida com a mão. Olho o charco que as gotas de sangue vão formando lentamente, segundo após segundo, reparo como o vermelho é menos vívido do que algumas horas atrás.
Um abutre passa, lá por cima; o suave ruído provocado pelo seu voo parece-me sinistro, malévolo; felizmente, já não há nada a temer, esgotei o medo; e por isso não o olho, não me protejo. De qualquer modo, talvez nem seja um abutre. Não importa; até poderia ser um anjo: que se foda.

Banda sonora


Foi finalmente editado Concret Exploratoire, composto pelo meu amigo Nelson para outros fins mas que, digo eu, serve bem como banda sonora aqui da Gaveta.
Ouvir aqui, por favor. (Saudades das aventuras radiofónicas. Obrigado, Nelson.)

Uma espécie de western: fascículo # 14

Irei certamente morrer por aqui, caído ao chão e rodeado de nada – ou melhor: rodeado de vazio, o que sempre é preferível a nada; e permanecerei de boca aberta e olhos esbugalhados para sempre, assistindo à lenta dissolução do meu corpo, do meu espírito, da memória da minha existência; virá o vento e agitará indolentemente os meus cabelos, hora após hora após hora: até ao dia em que eles se comecem a desprender da minha cabeça e voem pela pradaria, acompanhados pelos ecos da noite, pelas sombras das nuvens. Será tudo o que restará de mim: os meus cabelos esvoaçando por aí.
Olho em redor, curioso e atento: quantos fragmentos de corpos mortos e esquecidos divagarão por aqui, à minha volta?

Uma espécie de western: fascículo # 13

O eco dos tiros acabou de se dissipar no deserto quando o cavalo, finalmente, ergue a cabeça e começa a caminhar na minha direcção; fico a aguardar, sem impaciência nem pressa, apreciando a sua elegância. Depois, ergo-me e subo para o seu dorso, cobrindo o seu pêlo com o meu sangue; aguarda com paciência o meu sinal, perfeitamente imóvel, silencioso; solidário. Por fim, avança. Avançamos: pelo deserto, entre árvores imaginadas.
Há uma palavra que, recorrentemente, volta a preencher-me os pensamentos, parasitando-os; e vou pensando nela, obsessivamente, enquanto perco sangue, gota após gota: arrependimento. Por vezes, espreito por cima do ombro e vejo como o meu sangue se tem espalhado pelo deserto; reparo, com surpresa – e também com orgulho, talvez –, como é vermelho e brilhante, vívido. Depois, volto a olhar em frente: avançando, passo após passo. E pensando, por vezes, em arrependimento.

Uma espécie de western: fascículo # 12

O sangue continua a cair, molhando a areia acastanhada, cobrindo a poeira; toco-o e sinto-me desconfortável. Movo-me, ligeiramente. E então, no mesmo instante, ouço o segundo tiro; como antes, não sinto nenhum impacto no corpo; mas, agora, já não consigo ter a certeza de não ter sido atingido: talvez uma nova bala tenha efectivamente violado o meu corpo; talvez a minha carne tenha perdido a capacidade de perceber quando é trespassada – ou simplesmente tocada; ou pior: talvez já esteja morto. E a morte seja, apenas, isto: a incapacidade de sentir.
Mas suspeito que não. Porque quando dou por mim, tenho a pistola na mão e estou a disparar, tentando simplesmente acertar no horizonte, no vazio, no desconhecido; ou em nada. Faço-o involuntariamente, sem que tenha havido uma decisão consciente, uma vontade, um objectivo. E sabe bem, esta acção espontânea e involuntária, independente da reflexão, da decisão; como um animal.

Uma espécie de western: fascículo # 11

Sei que deveria erguer-me e proteger-me, lutar, adiar a morte; ou, pelo menos, gritar, de dor e fúria, de medo. Mas não me movo, continuo a olhar o cavalo, que agora se imobilizou e espreita na minha direcção, perscrutador; suponho que se sente mal, por me ter abandonado. E apetece-me chamar por ele; mas lembro-me, uma vez mais, que nunca lhe dei um nome.
Volto a distrair-me, divagar. Penso, ingenuamente, que poderei não ter sido atingido por um tiro mas por um raio; e olho o céu, confiante de que talvez aí encontre uma explicação, um qualquer esclarecimento pacificador. Depois, sinto-me ridículo.
Muito tempo depois (uma hora, cinco minutos, meio segundo?), pergunto-me – sem verdadeiro interesse, quase com displicência – se estarei a morrer. Se a morte será isto; assim.

Uma espécie de western: fascículo # 10

Não sinto a bala perfurar-me a pele, a carne, o sangue. E isso surpreende-me um pouco; não é a primeira vez que uma bala me atinge, que entra por mim adentro, furando a carne, atravessando-a; e de todas as outras vezes, houve sempre uma dor instantânea e fulgurante, que logo se transformou em fúria e revolta, em reacção; um choque violento e intenso, incontrolável, como se o próprio corpo – e não apenas a consciência, a sensibilidade; a alma – se indignasse com a agressão.
Mas não desta vez. Não posso ter a certeza; mas penso que o cavalo se assustou com o inesperado som da detonação e me surpreendeu com os seus movimentos bruscos e defensivos, que me atiram ao chão; e apenas no momento seguinte, quando já estou a contorcer-me na terra poeirenta é que percebo que algo anormal se passa, algo além da queda; então, vejo o sangue: e compreendo. Simultaneamente, sinto a dor já conhecida de outros tiros, já antes suportada. Mas com atraso: apenas quando consciencializo que deveria estar a senti-la.
Fico, então, a ver o cavalo afastar-se, ouvindo ainda a sua respiração ofegante e descontrolada, tentando discernir o que está a acontecer, ultrapassar a perplexidade, compreender. Concentrando-me em não sentir a dor. Ignorá-la. Fazê-la desaparecer.

Uma espécie de western: fascículo # 09

O sol queima. E a imensidão do deserto, o permanente zumbido feito de silêncio que as suas entranhas libertam, começa a oprimir-me um pouco. Por um momento, desejo companhia; alguém que ouça e reaja; ou que ouça, apenas. (Mas que diria eu, afinal? Que tenho para dizer?)
Penso, de novo (inesperadamente), em árvores; uma floresta, aqui: terá mesmo existido, voltará a existir? Talvez seja esse o fascínio dos desertos: surpreender no âmago da sua desolação e imutabilidade, uma fugaz memória de um passado diferente, um momentâneo indício de um futuro alternativo; possibilidades de mudança.
Avançamos, passo após passo, juntos, partilhando o silêncio, o cansaço. Tento esquecer as árvores e recordo histórias, que por vezes se ouvem, sobre um ou outro cavaleiro solitário que deambula pelo deserto, afastado do mundo, tentando perder-se ou tentando encontrar-se, e é atingido por um raio, caindo fulminado ao chão, envolto numa nuvem de fumo; diz-se que os cavalos sobrevivem sempre; e regressam aos locais de partida, sozinhos.
Vou pensando nisto, não sei porquê. E é quando, por fim, algo acontece.

Dão-se livros # 04

O passatempo está encerrado e o livro atribuído (ao Paulo). Obrigado a todos pelos adjectivos.

Uma espécie de western: fascículo # 08

Começa a amanhecer, por fim. O cavalo já revela algum cansaço, ou talvez apenas fome; e aborrece-me esta acusação silenciosa, esta responsabilidade implícita. Sinto que devo fazer algo, agir; que devo tomar uma decisão, definir um objectivo.
Penso nisso, tentando distrair-me, esforçando-me para me manter vigilante e atento; ou, pelo menos, acordado. Objectivos. Poderia ser algo simples e pragmático; por exemplo: sobreviver até ao fim do dia. Ou algo mais ambicioso e indefinido, mais empírico: ter um dia bom. E mal me ocorre essa ideia, esse conceito – dia bom –, desvio de imediato o rumo dos pensamentos: o que poderia ser um dia bom?
Prosseguimos a caminhada, cansados e tristes. Há uma neblina algo fantasmagórica que se desprende do chão, agora que a noite se dissipa; daqui pouco, nascerá o sol; e as minúsculas gotículas de água que agora pairam indolentemente no ar brilharão durante um instante, quando forem trespassadas pelos raios de luz, e implodirão; será bonito, suponho.
Sim, preciso de definir um objectivo; definir uma distracção. Adiar.

Uma espécie de western: fascículo # 07

Não tenho para onde ir: não sei se por o mundo ser demasiado grande, se demasiado pequeno. Deixo-me conduzir pelo cavalo, o que não será muito diferente de me deixar conduzir pelo destino; ou por um qualquer desejo, objectivo, medo. Em qualquer dos casos, estarei a ser conduzido. Empurrado.
Mas talvez nada exista para além das fronteiras deste deserto; que diferença faz se o mundo for, afinal, tão vasto como dizem? Nunca percorrerei essa vastidão; do mesmo modo que nunca percorrerei o tempo, enclausurado neste momento sem passado nem futuro. Prefiro, então, acreditar que o mundo é isto: esta solidão e este momento, este silêncio, este céu e estes arbustos, este cheiro; e, também, estes fantasmas de árvores há muito esquecidas. Nada mais que isto.
E, assim, não tenho para onde fugir.

Uma espécie de western: fascículo # 06

No instante seguinte, a questão inevitável: livre para quê? Tento afastar o assunto da mente; tento, também, ignorar a recorrente suspeita de que liberdade total significa, afinal, nenhuma liberdade.
Recordo o rosto obstinado do Xerife. Certamente que me persegue, certamente que me alcançará; sempre foi mais forte que eu; mais persistente; mais desesperado. Também ria mais alto, quando éramos amigos. Sorrio, não consigo evitar fazê-lo, quando recordo esses dias longínquos, improváveis. Eu e o meu amigo; salvou-me a vida, uma vez; tirar-ma-á, daqui um pouco, um destes dias; a qualquer momento.
Estará aí, algures; olhando a mesma lua que eu agora olho, respirando o mesmo ar. E alcançar-me-á; quando erguer a arma, não hesitará.
Liberdade total: nenhuma liberdade.

Uma espécie de western: fascículo # 05

Paramos durante uns minutos. Salto ao chão e dou uns passos, com gosto, sentindo a terra estremecer debaixo das botas; massajo as pernas, desajeitadamente; respiro fundo. Lembro-me que deixei um maço de cigarros preso na sela do cavalo, junto com a arma; gostava de ter um espelho e contemplar o meu sorriso, enquanto acendo o cigarro; mas depois decido que não preciso de ver: basta sentir.
Vou fumando, invadido por uma sensação de tranquilidade; ou de indiferença, de desinteresse? Olho em redor, perscrutando o horizonte monótono e repetitivo; e tento imaginar-me longe daqui, algures (mas onde, para quê?). Examino a paisagem desolada, sem verdadeira curiosidade ou interesse, sabendo que o meu olhar não encontrará nada de surpreendente, nada de novo; e enquanto sopro o fumo do cigarro, ficando a vê-lo dissipar-se lentamente, recordo uma história que ouvi sobre este deserto, não sei onde nem quando: já foi uma floresta. Olho, tentando imaginar árvores, a densidade e o fulgor do verde, a imponência da vegetação; tentando acreditar.
O cavalo começa a mexer-se, impaciente. Olho-o, com atenção; pensando num nome apropriado, caso alguma vez conseguisse dar-lhe um nome. Ele sente-se observado e intensifica o movimento, transmitindo-me o seu nervosismo.
Atiro o cigarro pelo ar e fico a vê-lo voar, cair, apagar-se. Sopro o último fumo, trepo para a sela; e partimos. Sinto-me livre, completamente livre.

Uma espécie de western: fascículo # 04

Penso em parar; ou regressar: porque não? Mas o cavalo prossegue a sua marcha, num movimento rítmico que me embala e serena; e decido não me opor à sua vontade, submeto-me pacificamente.
Penso, subitamente, em arrependimento. Sim, julgo que poderia arrepender-me de algumas atitudes, de alguns gestos, de algumas omissões, de alguns pensamentos; talvez o faça, um dia. Mas para quê? O que mudaria?
Acaricio o cavalo, sinto-o corresponder ao meu toque. A humidade da noite começa a ser incomodativa, a distrair; mas insisto no pensamento. Arrepender-me de quê, em concreto? Como escolher, qual o critério? Arrepender-me duma morte que causei, que apressei? Ou arrepender-me de um sorriso que não tive, que deveria ter tido? Por onde começar, quando terminar? E porque não arrepender-me de tudo? Renegar a vida que tive, que ainda vou tendo, que terei. Mas o que mudaria, efectivamente? Para que serviria o arrependimento, afinal?
E por que motivo estou a pensar nisso, agora? (Como se estivesse à beira da morte, despedindo-me do mundo; estarei?)

Uma espécie de western: fascículo # 03

Agora, é o cavalo que corre. Avançamos na escuridão da noite, sem destino; contudo: quando chegarmos, saberemos; saberei. Agrada-me o contacto com o cavalo, a regularidade quase mecânica do silvo da sua respiração, da sua passada. Mas, inesperadamente, ocorre-me que jamais suportaria viver uma existência semelhante à sua, brutalmente subordinada à vontade e aos caprichos de alguém; um instrumento, apenas. Estranho esta inesperada reflexão mas não a consigo afastar e esquecer, desprezar; e insisto no pensamento, contrariado: como reagiria este mesmo cavalo, se suspeitasse que a sua vida pudesse ser diferente?
Infantilmente, temo que ele perceba os meus pensamentos, os intercepte e assimile, reaja; desperte. E tento concentra-me no caminho, busco orientação nas estrelas, distraio-me com o cheiro do deserto. Mas, insidiosa e destabilizadora, surge uma ideia, mais uma ideia, bailando-se livremente entre os pensamentos, corroendo; e se, numa escala diferente, também os homens são instrumentos de alguém?
Como os cavalos.

Uma espécie de western: fascículo # 02

Corro, ainda. Já não me lembro bem por que motivo o faço; ou melhor: lembro-me; mas de certo modo deixou de fazer sentido, de importar. Corro porque posso, porque decidi que o iria fazer. Porque sim. Antes, houve um propósito, um objectivo; acho que houve. Fugir, talvez apenas para provar que o podia fazer, que havia essa possibilidade, que era uma opção disponível e exequível. Que dependia apenas de mim, da minha vontade.
Corro, em silêncio, tentando ignorar o cansaço do corpo, o seu inútil protesto. E reconheço, sem surpresa, como esta necessidade de concretizar possibilidades, de testar limites, sempre me acompanhou, sempre determinou os meus comportamentos, sempre justificou loucuras e imprudências e temeridades. Reconheço como sempre me deixei subordinar a esta inexplicável urgência de materializar, em acções práticas e concretas, visíveis, todos os pensamentos e impulsos e ímpetos e desejos e devaneios e fantasias que, por algum fugaz instante, cruzassem a minha mente, excitassem o meu espírito, conduzissem os meus pensamentos. Penso nisto, pela primeira vez, talvez pela última vez: consciencializando-o; depois, deixa de importar.
As botas continuam a pisar a terra, que estala suavemente (ou estarei a imaginar?). As sombras movem-se, acompanhando-me, e a lua espreita, sobranceira; as estrelas também. Talvez haja animais, dormindo entre as arbustos, no cimo das árvores; pergunto-me se os animais também terão insónias; se sonharão. E lá à frente, sob a luz do luar, vejo a barraca onde o cavalo talvez ainda permaneça, à espera; diminuo a velocidade de forma quase imperceptível, respiro com menos sofreguidão.

Uma espécie de western: fascículo # 01

Corro em silêncio, com vigor mas sem desespero, sem aflição; sei que a minha vida talvez dependa do sucesso desta corrida mas tento esquecê-lo, tento não pensar nisso, tento efectivamente acreditar que não importa, que nunca importou. A qualquer momento poderá chegar o tiro que me perfurará a carne e atirará ao chão, fazendo-me deslizar pela mesma terra que agora piso, fazendo-me engolir a poeira provocada pela minha queda. E, nesse caso, estes serão os meus últimos instantes de vida: suponho que me agrada que passem assim, frenéticos e tensos, ansiosos, plenos; livres.
Também pode acontecer que o tiro não chegue a tempo de me derrubar; e então continuarei simplesmente a correr, sentindo o frio da noite arranhando-me o rosto, os músculos das pernas doridos, a garganta seca, o riso a crescer e crescer e crescer dentro de mim, a querer explodir, libertar-se. Serão, então, segundos frenéticos e tensos, ansiosos, plenos; livres. Mas também consequentes.
Continuo a correr, talvez continue para sempre.

Dão-se livros # 04

Novo desafio: referir o adjectivo que melhor caracterize ou defina as estórias do blogue. Entre os emails recebidos até 22 de Novembro será sorteado o vencedor do livro.

Esboço # 75

Prazo de validade expirado.

Galeria # 12




Fernando Botero - Couple in bath


(Ele corta a barba, olhando-se cuidadosamente ao espelho, alheado e pensativo, esquecido que ela está ali mesmo ao lado, na banheira; ela espreita-o sem interesse ou afecto, talvez com enfado.)
ELA (num tom algo brusco, provocatório): Não tens medo que, um dia, eu descubra que já não te amo?
ELE (depois de recuperar da surpresa de a ouvir, de se descobrir acompanhado; num tom falsamente jocoso): Acho que tenho mais medo que, um dia, descubra que tenho cancro. (Gostava que ela lhe perguntasse qual o cancro que mais teme mas suspeita que não o fará; e continua a barbear-se, pensando em cancros da próstata e do intestino.)

Esboço # 74

(Estão sentados na varanda há horas, apenas iluminados pela lua; por vezes passa um carro algures, apressado e ruidoso, recordando que o mundo continua a girar. Conversam preguiçosamente e riem bastante; ou permanecem longos períodos em silêncio, confortáveis e serenos; levantam-se ocasionalmente para renovar as bebidas, para petiscar qualquer coisa, para passar pela casa de banho; mas regressam sempre, como se tivessem decidido permanecer na varanda até amanhecer. Nos primeiros meses do casamento era frequente ficarem juntos pela madrugada dentro, decididos a impedir que o sono os separasse momentaneamente, incapazes de se saciarem da companhia do outro; depois, quando tudo se tornou normal e previsível e rotineiro, os hábitos foram sendo alterados, devagarinho.)
ELE (após um longo período de silêncio): Conta-me um segredo. (Sorri, talvez nervoso ou arrependido.) Alguma coisa que nunca me tenhas contado, algo intímo e secreto e estranho.
(Ela olha-o, um pouco espantada. Estuda o seu perfil, escuta a sua respiração tranquila; pondera o que fazer, quase cede à tentação de mentir.)
ELA (numa voz arrastada e hesitante, apologética): Sabes, daquelas vezes em que te apetece fazer amor e finges não perceber os meus sinais, insistes apesar de saberes que eu não quero, apesar de saberes que não me apetece? (Ele move-se, desconfortável; ambos olham a escuridão.) Quando estás a fazer amor e eu à espera que termines, sabes o que sinto? (Hesita apenas um momento; num tom triste e desencantado.) É como se estivesse a ser violada. Sinto que estou a ser violada por um estranho. E nem posso gritar.
(Ele estremece, chocado; mas não fala, não se aproxima dela. Mantém-se em silêncio, agarrando os respectivos copos e olhando a lua; ambos com vontade de fugir mas incapazes de se moverem.)

Esboço # 73

Prazo de validade expirado.

Esboço # 72

Prazo de validade expirado.

Dão-se livros # 03

O inquérito está encerrado e o livro atribuído (à Isabel.)
O resultado da votação foi equilibrado, com ligeira vantagem para os esboços. Obrigado a todos os participantes.

Esboço # 71

Prazo de validade expirado.

Esboço # 70

(As duas mulheres estão sentadas na paragem do autocarro conversando sobre trivialidades e sorrindo, espreitando sem grande interesse as pessoas que passam, apressadas e rígidas, silenciosas, escondidas nos óculos de sol.)
MULHER UM (após um silêncio, olhando a amiga com ternura): Acho tão extraordinário que continues assim, depois de saberes que tens a doença.
MULHER DOIS (um pouco distante, como se estivesse distraída, mas sorrindo): Assim, como?
MULHER UM (encolhendo os ombros): A sorrir.
MULHER DOIS (num tom desencantado, depois do sorriso desvanecer): Sabes, quando vejo alguém sorrir, pergunto-me se esse sorriso não servirá apenas para esconderá algo; algum medo, algum desespero, alguma angústia. Sei lá. (Hesita; parece momentaneamente confusa.) Pergunto-me se cada uma dessas pessoas não estará apenas a disfarçar o pânico que a corrói com os seus sorrisos. Como eu. (E sorri.)
(Depois, chega o autocarro. As duas mulheres entram, em silêncio; não correspondem ao sorriso profissional do motorista.)

Esboço # 69

Prazo de validade expirado.

Esboço # 68

(A mulher ainda não se moveu, desde que o médico anunciou o veredicto; ele vai falando, num tom paciente e sereno – quase interessado –, sobre possibilidades e desenvolvimentos, sobre prazos e perigos e limitações, sobre esperança, enquanto ela escuta, apática e pensativa, estranhamente serena.)
MÉDICO (desconfortável e incomodado, genuinamente triste; num tom assertivo): Temos que ter fé. Acreditar. Nunca, nunca desistir. (A mulher mantém-se indiferente, como se não tivesse ainda compreendido as implicações do que ouviu; como se não tivesse entendido que acabara de ser condenada.) Entretanto, é preciso aproveitar. (Sorri, nervoso.) Aproveitar todos os momentos. Todos.
MULHER (num tom frio e distante; olhando ainda pela janela, incapaz – ou desinteressada? – de enfrentar o médico): Aproveitar? Aproveitar o quê? (Encolhe os ombros, subitamente desesperada por se sentir incapaz de chorar.) O que há para aproveitar?
(O médico desvia o olhar, constrangido; mas não demasiado. Olha o relógio sub-repticiamente e tenta disfarçar – sem grande empenho – um suspiro.)

Esboço # 67

(Acorda subitamente, assustada.)
MULHER (num tom murmurado e receoso, muito apreensivo): Voltei a ter aquele pesadelo.
(Aguarda durante um instante, ainda incapaz de se mover, de abrir os olhos; logo depois, recorda que está sozinha, que não há ninguém para a escutar, para a tranquilizar, para a abraçar. Passaram meses e meses: mas continua a não haver ninguém. Abre os olhos, num esforço ingénuo de tentar expulsar a escuridão que sente dentro de si; tenta esquecer o pesadelo, perguntando-se se terá gritado; espera não ter acordado os garotos. E mantém-se vigilante, tentando localizar na escuridão as suas suaves respirações, separando-as do silêncio opressivo; tentando distingui-las e acompanhá-las, envolvida pelo seu ritmo monótono e previsível, seguro; tentando sentir-se menos só, apenas um bocadinho menos só.)

Esboço # 66

Prazo de validade expirado.

Esboço # 65

Prazo de validade expirado.

Dão-se livros # 03

Desta vez não há desafio, apenas uma pergunta relativa ao que tem sido disponibilizado no blogue. Quais são as estórias mais interessantes: as normais ou os esboços?
Entre os emails recebidos até 21 de Outubro será sorteado o vencedor do livro.

Autópsia # 02: Convidar

1.
Tenho perfeita consciência de que me descontrolei completamente, ao escolher a roupa que trago vestida (e há quanto tempo a comprara, há quanto tempo fantasiava usá-la? Nem me lembro.). Exagerei ao escolher esta t-shirt elástica que delineia de forma obscena o contorno dos meus seios, centímetro a centímetro, terminando na saliência dos mamilos (suspeito que haja gente a olhar com ânsia de tocar, ânsia de perceber por que motivo estarão tão rígidos, tão protuberantes); e exagerei ao escolher uma saia mais ousada do que o habitual, uma saia cujo principal propósito é revelar o princípio das coxas; apenas o princípio, para que o resto seja intuído, adivinhado, fantasiado. Exagerei ao desistir voluntariamente de ser uma mulher completa, um rosto e uma expressão, um conjunto quase harmonioso de sensações e dores e fantasias, para me transformar num simples corpo, num pedaço de carne.
Sem disfarces ou subterfúgios, sem maquilhagem ou protecção; apenas um corpo, exposto e convidativo; disponível.

2.
O dia passou lento e claustrofóbico, repleto de olhares e insinuações, indícios de convite, desajeitadas manifestações de interesse; sinto que a minha simples mudança de vestuário (ou melhor: o significado que essa mudança representa) libertou em todos uma espécie de vontade de foder (de admissão de vontade de foder), uma avidez de sexo que sempre andou à solta pelo escritório, latente e disfarçada, mas que agora, de súbito, se revela de forma quase palpável, quase sufocante.
Contudo, apenas um colega (um rapaz mais novo da contabilidade que por vezes me pede cigarros e passa à minha frente ao entrar no elevador, sem me segurar a porta) fez uma tentativa concreta, uma verdadeira proposta; e quando o rejeitei, irritou-se.
Não me digas que o modo como estás vestida não é um convite descarado, diz ele misturando ódio nas palavras. (Ódio? Talvez não; decepção, apenas.) Tento reagir com calma, não o afrontar demasiado; não o afastar definitivamente. Claro que é um convite, digo eu. Desvio o olhar e acrescento, num tom mais baixo, menos confiante: mas não é um convite para ti.
Ele parece sentir uma súbita vontade de me bater mas controla-se, claro que se controla; e encolhe os ombros, conformado. Sinto-me agradecida por não me perguntar a quem se dirige o convite, afinal; não saberia que responder.

Autópsia # 01: Silenciar

1.
Estás na sala a ver televisão e eu na cama, à tua espera; excitada, o espírito alvoraçado e o corpo ansioso, a antecipar o orgasmo (mais importante: a antecipar todo o percurso que teremos de percorrer até alcançar o orgasmo, carícia após carícia). E tu sem vir, adiando.
Admito: cedo nos habituámos a criar estratégias para adiar a inevitabilidade do sexo; ambos aprendemos a detectar no outro os indícios da excitação e, como raramente as vontades coincidem, fomos aperfeiçoando alguns métodos que nos permitissem contornar a obrigatoriedade de satisfazer o desejo do outro. Estabelecemos uma estratégia silenciosa e envergonhada, que nos embaraça e constrange, mas que funciona, que nos satisfaz; mas a verdade é que se um de nós quer foder, prefere não o fazer (cerrar os olhos e tentar dissolver a excitação em fantasias, por exemplo) a ter de admitir que o outro o fará contrariado; a ter de admitir que o outro irá foder por favor.
Mas claro que, por vezes, toda esta racionalização se revela absurda e inconsequente: e engolir a excitação, fantasiar orgasmos, não chega; por vezes, é necessário ceder; engolir o orgulho e acreditar que o outro também cederá; que o outro também quer.
Vou esperando, então.

2.
Impaciente, salto da cama e passeio-me, langorosa e convidativa, pela sala; com esperança que percebas e venhas (importa-me lá que o faças por favor; amanhã pensarei nisso, lidarei com o arrependimento; mas, agora, preciso mesmo que venhas), com esperança que não me forces a pedir; tentando desculpar – desculpar, apenas; e não justificar – o teu desinteresse. Mas limitas-te a sorrir, sem alegria nem ânimo; sem me olhar.
Regresso à cama, onde espero, nua e gélida, desesperançada; transformando a frustração em paciência. Quando finalmente chegas, entras na cama cuidadosamente, com movimentos lentos e silenciosos, talvez até sustendo a respiração; tentas que os nossos corpos não se toquem; ou melhor: fazes um esforço consciente para não me tocares. E eu mantenho-me imóvel e rígida, certa de que sabes que estou acordada. Vou esperando, sabendo que nada acontecerá; mas sou incapaz de interromper o silêncio e pedir-te: fode-me, que preciso de acalmar o corpo, adormecer o espírito. Quero fazê-lo mas sei que não conseguirei; e a contradição (há poucos minutos parecia quase disposta à degradação de pedir) destroça-me: porque não a compreendo; não me compreendo.
Por isso, deixo-me estar quieta e infeliz, a tristeza a corroer-me devagarinho; sinto a decepção invadir-me, logo acompanhada pela indignação, pela revolta; pondero se devo confrontar-te, iniciar uma discussão, disfarçar o choro com gritos. Claro que não me movo, que não reajo: limito-me a aguardar que o silêncio da noite me embale, me adormeça.

3.
Depois, subitamente, tomo consciência do teu ressonar; e sinto-me ainda mais só e desamparada, mais triste; como se percebesse finalmente que nunca estive verdadeiramente acompanhada. E o sentimento de solidão e desamparo é tão incisivo, tão dilacerante, que sinto uma desesperada necessidade de conforto, de toque; suponho que poderia suspender o meu ódio por ti e aproximar-me cuidadosamente, aconchegar o meu corpo no teu (como estás a dormir, talvez não te afastasses); sentir a tua pele, a tua pulsação, o teu calor: e enganar a solidão, iludi-la momentaneamente (até que o sono chegue); usar-te. Mas no último instante consigo resistir à tentação e prefiro ceder a uma outra forma de desespero, mais privada, mais segura; prefiro desdobrar-me em companhia (inventar companhia): e toco-me.
Toco-me, numa ingénua tentativa de me sentir menos só; os segundos passam, pérfidos e inconsequentes, acusadores, enquanto os meus toques evoluem inconscientemente (ou muito conscientemente?) para algo novo e diferente, para algo surpreendente e inesperado. Dou por mim a masturbar-me a poucos centímetros de ti, enquanto escuto o teu ressonar monótono e pacificador. E por mais que tente, não consigo sentir-me envergonhada ou culpada ou miserável. Pelo contrário: sinto-me confortável; avançando tranquilamente em direcção ao orgasmo, à auto-suficiência. À libertação, talvez.
(E repara: falo sempre em foder; nunca em fazer amor.)

Galeria # 11



Lucian Freud - Hotel bedroom


(Ela permanece há muito deitada, fixando o vazio com um olhar apático e distante. Ele passeia pelo quarto, tentando disfarçar o nervosismo, tropeçando na sua própria ansiedade; senta-se na pequena poltrona e levanta-se logo de seguida, olha pela janela como se procurasse uma possibilidade de fuga ou uma distracção, escuta a respiração amorfa dela tentando detectar irregularidades, volta a sentar-se na poltrona; por vezes, apetece-lhe gritar; ou fugir, em silêncio e sem destino; ou rir bem alto, como um louco.)
ELE (num tom contido, miraculosamente neutro): Já estamos bastante atrasados.
(Ela não reage; como se estivesse a dormir: mas com os olhos abertos. Ele dá mais uns passos, desorientados e inconsequentes; sente-se ridículo por estar constantemente a andar para chegar a lado nenhum.)
ELE (com desprezo): Sabes o que descobri desde que casei contigo? (Hesita, talvez esperançoso que a sua súbita agressividade provoque uma reacção.) Que a tristeza é contagiosa. (E fica a olhar para Ela, sem saber o que mais acrescentar.)

Galeria # 10



Sangram Majumdar - Kitchen light


(Jantam em silêncio, na cozinha escurecida; a lâmpada fundira-se há três dias mas Ele ainda não se decidira a trocá-la; por isso, é necessário abrir a porta do frigorífico para que a sua fraca luz lhes ilumine a solidão. Ela já lhe falara nisso algumas vezes, tentando não parecer desesperada; depois desistira.)
ELA (tom algo defensivo, assustada por surpreender o seu olhar perscrutador e incisivo): Porque estás a olhar-me assim?
(Ele mantém o olhar durante alguns segundos, continuando a mastigar lentamente.)
ELE (tom pensativo): Estava a tentar lembrar-me por que motivo me apaixonei por ti.
(Ela escuta, sem o olhar; e só alguns instantes depois de Ele se calar, percebe o verdadeiro significado das palavras; como se não estivessem apenas a alguns centímetros de distância e o som das vozes tivesse que percorrer vários mundos. Então, quando compreende, sente que o coração pára durante um momento, vacilante; sente: mas sabe que está apenas a imaginar. Entretanto, Ele levanta-se sem pressa e afasta-se. Ela tenta distrair-se, pensando como será quando a lâmpada do frigorífico também fundir.)

Galeria # 09


Sandra Fisher - Mark & Sarah

(Estão os dois deitados em cima dos lençóis; não fizeram nem irão fazer amor, saboreando a volúpia de estarem nus e vagamente excitados mas recusarem a possibilidade de sexo, de a adiarem para um momento talvez próximo mas ainda incerto. Tocam-se ligeiramente, para se sentirem acompanhados; mas ambos apreciam o facto de, na verdade, se sentirem momentaneamente sós.)
ELE (abrindo os olhos mas sem se mover): Qual é a última coisa em que pensas antes de adormecer?
ELA (sem abrir os olhos): Em ti.
ELE (fechando os olhos): Quando vais deixar de me mentir?
(Ela sorri ligeiramente mas não responde; Ele logo desiste de aguardar uma resposta. E ambos adormecem pouco depois, olhando-se através das pálpebras cerradas.)

Dão-se livros # 02

Acabou o passatempozinho. Obrigado a todos os que gastaram algum do seu tempo à procura de quadros com potencialidades literárias; surgiram sugestões verdadeiramente estimulantes e desafiadoras.
O sorteio decidiu que a vencedora fosse a Alexandra.
Em Outubro, dá-se mais um livro. Até lá.

Esboço # 64

(Estão sentados na sala de espera do dentista, sozinhos. Ela olha distraidamente uma revista que retirou da pequena mesa que está à sua frente enquanto Ele espreita com uma expressão aborrecida pela enorme janela; não falam desde que saíram do carro, onde discutiram uma vez mais.)
ELE (sem a olhar; tom agastado, revelando um indício de desespero): Mas que mais queres de mim? Que posso eu fazer? (Hesitando.) Explica-me.
(Ela continua a passar os olhos pelas páginas da revista, indiferente e alheada, como se não o tivesse escutado.)
ELA (algum tempo mais tarde; cedendo a um impulso súbito, incapaz de se conter): Podias fazer algumas das coisas de que falam nas revistas femininas. (Ele olha-a, um pouco surpreendido; depois, desvia o olhar para a revista que Ela segura nas mãos.) Podias ser um marido de revista feminina.
(Ele tenta decifrar o seu tom de voz, perceber se falou com ironia ou não; como é incapaz de o fazer, evita responder. Ela, talvez irritada com o seu silêncio, atira inesperadamente a revista que tem nas mãos para cima da mesa; depois, levanta-se e caminha um pouco pela sala, olhando de perto e com excessiva atenção os quadros que estão pendurados pelas paredes. Ele, sentindo-se ignorado, não resiste à provocação de pegar na revista que Ela estivera a folhear.)
ELE (num tom neutro, olhando sem grande curiosidade as páginas da revista): Mas como? Tu também não és propriamente uma mulher de revista feminina.
(Ela continua a olhar fixamente um quadro, em silêncio; mas é incapaz de conter um sorriso, fugaz e amargurado, contrariado; mas um sorriso.)

Esboço # 63

Prazo de validade expirado.

Esboço # 62

Prazo de validade expirado.

Dão-se livros # 02

Prossegue a série de mini passatempos de que resultará a oferta de exemplares dos livros que aparecem aqui ao lado.
Segundo desafio: enviar um email sugerindo um quadro que possa servir de pretexto à escrita de uma estória; vale tudo menos repetir os pintores que já integram a galeria da gaveta.
Entre as respostas enviadas até 21 de Setembro será sorteado alguém que receberá um exemplar de um dos livros (à sua escolha).

Galeria # 08



Eric Fischl - Untitled


(Permaneço deitada na cama, ainda nua; o prazer proporcionado pelo sexo já se dissipou há muito, deixando-me estranhamente apática e indiferente, quase desconsolada. Não me apetece mover, fechar os olhos ou mantê-los abertos, pensar; não me apetece aceitar que o mundo continue a avançar, levando-me consigo. Ouço-a sair da casa de banho, aproximando-se; não quero – não consigo – olhá-la mas sei que vem enrolada numa toalha. Talvez pudesse perguntar-lhe por que nunca se seca na casa de banho, por que motivo prefere fazê-lo junto de mim.)
ELA (num tom indiferente, como se falasse para si própria): Foda-se, que está outra vez a chover.
(Fecho os olhos e concentro-me momentaneamente no silêncio que preenche o quarto, enquanto respiro o cheiro a sexo que ainda perdura; depois, Ela liga a televisão e o silêncio é estilhaçado – mas o cheiro permanece, insidioso. Pergunto-me por que motivo não se aproxima mais, não me toca; pergunto-me, também, há quanto tempo terá deixado de me amar. Não me movo, insisto em não me mover, paralisada por um receio indefinido e persistente, supersticioso; Ela continua a secar-se, acariciando-se com indiferença. Será que me olha, apreciando o meu corpo? Duvido. Estou quase, quase a perguntar-lhe se faz ideia por que motivo nunca nos tocamos depois de fazer sexo, o que poderá significar isso; mas não o faço: temo a resposta.)
ELA (tom abrupto, um pouco acusador): Vais dormir?
(Não respondo; na verdade, apetecia-me dizer-lhe que me sinto como se andasse a dormir há anos, incessantemente. Ela acaba de se secar e aproxima-se da televisão, mudando o canal. De repente, sinto-me incapaz de me submeter uma vez mais à tristeza e desistir; apetece-me reagir, lutar, agredir.)
EU (sem me mover, sem a olhar): Porque vais sempre tomar banho, depois de fazermos sexo? (Hesito e sinto o seu olhar fixar-se em mim.) Seja ao acordar ou a meio da noite, seja à hora de almoço. Vais sempre. (Respiro fundo, tentando controlar-me. Apetece-me acrescentar: como se o banho fosse o teu verdadeiro orgasmo.) Porquê?
(Finalmente, sinto que estou a libertar-me da paralisia; movo-me ligeiramente e olho-a, sem agressividade mas também sem afecto.)
EU (tom cândido, quase nostálgico): Sentes-te suja, quando beijas o meu corpo? (Ela olha-me durante mais um instante, perplexa e insegura, incapaz de reagir; depois, desvia o olhar, devagarinho. Afasta-se, recuando um passo: pergunto-me se conseguirá voltar a olhar-me.)

Galeria # 07



Alberto Sughi - La Stanza del Tempo


ELA (num tom apático): Não podias sorrir um pouco?
(Ele interrompe a leitura, contrariado, mas não desvia o olhar do livro.)
ELE (cauteloso): Desculpa?
ELA (impertinente, sem o olhar): Sorrir, simplesmente. Uma vez por semana ou assim. (Tom quase impertinente.) Custava-te muito?
ELE (levantando os olhos do livro; tom cauteloso): Desculpa, não percebo.
(Ela suspira e recosta-se no sofá, talvez com vontade de chorar.)
ELE (pesaroso): Queres que eu sorria, mesmo que não tenha vontade de o fazer? Que finja? (Num tom inesperadamente mais afável, quase carinhoso.) Preferirias assim? (Hesita.) Que eu fosse falso e dissimulado e fingido?
(Ela não responde – talvez com vontade de gritar que sim, que preferia a falsidade e a dissimulação e o fingimento à indiferença, à apatia; fecha os olhos durante um momento, respira fundo; Ele observa-a, atento e curioso. Depois, muito mais tarde, quando percebe que o diálogo terminou, regressa à leitura.)

Galeria # 06


Edward Hopper - Cape Cod evening

(Ele está sentado no degrau das traseiras, contemplando pensativamente o horizonte e espreitando o cão que corre por ali; por vezes, homem e animal trocam olhares cúmplices, solidários: como se partilhassem algo. Ela aproxima-se em silêncio e permanece junto dele, olhando-o soturnamente; talvez à espera que ele repare em si.)
ELA (tom constrangido): Esse cão é mais importante para ti do que eu, não é?
ELE (muito tempo depois; tom relutante): Talvez.
(O cão aproxima-se dele e deixa cair aos seus pés algo que prende na boca; depois, afasta-se. Ela cruza os braços e olha para o chão, pensando em como toda a gente a ignora, incluindo o cão; perguntando-se como deverá reagir a uma resposta daquelas; se valerá a pena reagir. Então, uma brisa agreste sopra subitamente do lado da floresta, indiciando que – apesar de tudo – o mundo talvez continue a girar, a vida a avançar; indicando, também, que se aproxima a hora de começar a pensar no jantar. O vento passa, insidioso e desconfortável; ninguém fala: nem o cão rosna, sequer.)

Esboço # 61

Prazo de validade expirado.

Esboço # 60

Prazo de validade expirado.

Esboço # 59

Prazo de validade expirado.

Dão-se livros # 01

Acabou o passatempozinho. Obrigado a todos os que gastaram algum do seu tempo a pensar em títulos (muitos são verdadeiramente notáveis).
O sorteio decidiu que a vencedora fosse a Ângela (que por acaso até avançou com um dos títulos mais interessantes: “Sexológico”).
Em Setembro, dá-se mais um livro. Até lá.

Esboço # 58

Prazo de validade expirado.

Dão-se livros # 01

Inicia-se uma série de mini passatempos de que resultará a oferta de exemplares dos livros que aparecem aqui ao lado.
Primeiro desafio: enviar um email com uma proposta de título para o Esboço # 40. Entre as respostas enviadas (até 24 de Agosto) será sorteado alguém que receberá um exemplar de um dos livros (à sua escolha).

Galeria # 05


Alberto Sughi - La stanza


ELA (tom agastado): Já reparaste que demoramos mais tempo a vestirmo-nos do que a fazer sexo?
ELE (no mesmo tom): Já.
(Ele olha-se ao espelho, ajeitando a gravata; Ela ignora-o. Ambos ouvem os gemidos intercalados de um homem e de uma mulher, fodendo algures num dos quartos do hotel.)

Esboço # 57

Prazo de validade expirado.

Esboço # 56

(A Mãe corta tomate em pedaços, pensativa e distante; a Criança, debruçada na mesa, olha para a televisão, concentrada; de repente, ri: uma gargalhada genuína e explosiva, brutal, totalmente feliz.)
MÃE (tom bruto): Cala-te.
CRIANÇA (surpreendida e magoada, num tom ligeiramente desafiador): Não posso rir?
MÃE (enfática): Não.
CRIANÇA (subitamente receosa): Porquê?
MÃE (incapaz de se conter, de moderar o tom): Porque me incomoda.
(A Criança baixa os olhos e a Mãe continua a cortar tomate.)

Esboço # 55

Prazo de validade expirado.

Esboço # 54

Prazo de validade expirado.

Galeria # 04

Prazo de validade expirou.

Galeria # 03


Alberto Sughi - Caffe' di notte, Notturno


(O bar está quase deserto; apenas alguns pares de namorados tagarelam, com as cabeças muito próximas, sorrindo quase sempre. Três pessoas solitárias estão sentadas em mesas mais resguardadas, olhando e esperando; o barman inventa tarefas, alheado e indiferente aos clientes. Então, um dos homens solitários levanta-se e caminha sem pressa, talvez um pouco tenso, um pouco ansioso, um pouco desesperado; senta-se junto de uma mulher que se encontra ao balcão, sozinha.)
HOMEM (num tom que pretende informal e bem-disposto, assertivo): Esta música faz-me lembrar noites de Verão; calor, festa, risos; coisas assim. (Olha rapidamente pela janela, verificando que recomeçou a chover.) Gosta?
(A Mulher olha-o durante um instante e volta a concentrar-se no copo que tem à sua frente.)
MULHER (tom indiferente): Nem por isso.
(O Homem acena com a cabeça; espreita a mulher, que continua absorta e distante, melancólica; talvez deprimida?)
HOMEM (tom apelativo, tentando parecer despreocupado): Quer sair daqui e ir dar uma volta por aí? (Olha em frente, rígido.) Foder um bocado.
(A Mulher não reage, como se não tivesse ouvido. O Homem espreita-a, um pouco ansioso. A música que lembra Verão termina abruptamente, substituída por outra muito semelhante.)
MULHER (no mesmo tom de indiferença): Talvez, quando parar de chover.
(Mantém-se em silêncio, de olhares rígidos e desamparados; ele força-se a acenar a cabeça ao ritmo da música, tentando não olhar para a janela demasiadas vezes; ela continua indiferente a quem a rodeia, apesar de por vezes olhar o barman enquanto passa mão pelo cabelo.)

Esboço # 53

(Os dois adolescentes estão no quarto, apenas iluminados pela luz do monitor de um computador; um escreve freneticamente no teclado, o outro no telemóvel; como se competissem numa prova de velocidade ou de agilidade. Ouve-se o ruído longínquo de uma televisão, vindo de outra sala.)
ADOLESCENTE 1 (sem interromper a escrita; num tom indiferente, como se estivesse a verbalizar um pensamento fugaz e pouco relevante): Porque fica a mãe a ver televisão até tão tarde, todos os dias?
ADOLESCENTE 2 (sorrindo, sem maldade ou ironia): Está à espera que o pai adormeça. Para não ter que fazer sexo.
(O teclar prossegue, monótono e entediante, envolvido pelo rugido da publicidade televisiva.)

Esboço # 52

(A porta da entrada do prédio fecha-se com estrondo e a Mulher caminha sem pressa, carregando a pequena mala; o Menino segue-a, indiferente. Entram no carro, em silêncio.)
MULHER (num tom jovial): O pai costuma falar de mim?
MENINO (olhando pela janela): Às vezes.
MULHER (tentando dissimular a surpresa): A sério? E que lhe contas tu sobre mim?
MENINO (admirado): Eu? Ele nunca me pergunta nada. Fala muito da ti mas é com a namorada dele.
(Silêncio. A Mulher agarra o volante com força. Tenta sorrir. Depois, lembra-se de ligar o rádio; sons de vozes bem-dispostas invadem o carro.)
MENINO (sem olhar a mãe): E riem bastante, quando falam de ti.

Esboço # 51

(Ela fuma, soprando o fumo com preguiça; Ele dormita, ou finge que dormita. Estão deitados sobre a cama desfeita, nus; em silêncio; os corpos não se tocam. Cheira a sexo. Ouvem-se os risos das empregadas de limpeza, no corredor.)
ELA (num tom sedutor, bem-disposto): Porque não perguntaste ainda como me chamo?
ELE (sem abrir os olhos, sem se mover; num tom distante e apático, frio): Porque não me interessa saber.
(Ela ri, nervosa; depois puxa a ponta de um lençol, tentando cobrir um pouco do seu corpo nu.)

Esboço # 50

(Os dois rapazes estão sentados na sala, a jogar playstation.)
RAPAZ 1 (num tom casual, quase desinteressado): Se os pais se divorciarem, com quem preferias ficar?
RAPAZ 2 (concentrado no jogo): Porque haveriam de se divorciar? Nunca os vi discutir.
RAPAZ 1 (tom agastado): És tão parvo. Como poderiam discutir se nem sequer conversam?
(Os sons explosivos do jogo disfarçam o silêncio que preenche a sala semi-escura. Deverá ser quase hora de jantar mas continuam sozinhos em casa, à espera.)

Esboço # 49

(Estão os dois a ver televisão na sala escura; sentados no mesmo sofá mas ligeiramente afastados.)
ELA (sem o olhar): Tens saudades minhas durante o dia?
ELE (concentrado na televisão): Tenho.
ELA (alguns segundos mais tarde, num tom forçadamente indiferente): Então porque nunca telefonas?
ELE (um pouco irritado): Para quê?
ELA (magoada com a resposta dele): Para conversarmos.
ELE (olhando-a, sem hostilidade): Sobre o quê?
(Ela sente o olhar dele mas concentra-se na televisão, incomodada. Ele percebe que não haverá resposta e parece aliviado.)

Esboço # 48

(A Idosa está deitada na cama do hospital, respirando com alguma dificuldade; olha a Filha que está sentada junto da janela, lendo uma revista. Ouvem-se gritos de dor e queixumes ocasionais, vindos do corredor. De repente a Filha atira a revista ao chão e levanta-se.)
FILHA (caminhando em direcção à porta, sem olhar a Idosa): Vou apanhar ar.
IDOSA (num tom choroso e assustado): Tens que ir? Não quero ficar sozinha. (Hesita, baixa a voz.) Não quero morrer sozinha.
FILHA (sem parar, num tom indiferente): E de que serve morrer acompanhada?
(A Idosa fica a olhar para a porta vazia enquanto ouve os ruídos dos outros idosos, despedindo-se ruidosamente do mundo.)

Esboço # 47

(Ele conduz, Ela olha pela janela.)
ELA (continuando a olhar para a paisagem entediante; num tom desapaixonado, quase indiferente): Alguma vez pensas em divórcio?
ELE (vagamente surpreendido): Não. (Espreita-a durante um instante, volta a olhar em frente. Tom apreensivo.) E tu?
ELA (depois de uma hesitação que não se esforça em disfarçar): Não.
(Ela continua a olhar pela janela; ele aumenta um pouquinho o volume do rádio. Depois, toca um telemóvel; mas ninguém o atente.)

Esboço # 46

(Sorriem à cliente, que não corresponde; ainda assim, mantém os sorrisos até que ela saia. Quando ficam sós, os sorrisos desaparecem de imediato. Permanecem por trás do balcão, imóveis e apáticas, olhando em frente, talvez a escutar a música dançável que sussurra por toda a loja, minimal e repetitiva.)
EMPREGADA MAIS NOVA (num tom quase bem-disposto): Nunca te cansas de sorrir?
EMPREGADA MAIS VELHA (num tom agastado, encolhendo os ombros; sem olhar a colega): O meu marido queixa-se que em casa nunca sorrio.
EMPREGADA MAIS NOVA (tom compreensivo): Gastas os sorrisos todos no trabalho, não é? (E sorri; logo depois, suprime o sorriso.)
(Mantém-se em silêncio, olhando para a porta; talvez não entre mais ninguém, talvez apenas volte a haver necessidade de sorrisos amanhã.)

Esboço # 45

(Os dois homens caminham pelo corredor do hotel, em silêncio. Um deles abre a porta e entra, o outro segue-o; permanecem durante alguns segundos no pequeno átrio, olhando o quarto. O que abriu a porta arrisca uns passos exploratórios, o outro despe o casaco.)
HOMEM 1 (num tom ligeiramente ansioso): Costuma-se pagar antes ou no fim?
HOMEM 2 (tom sério mas algo distante, quase desinteressado; procurando um local para pousar o casaco): Antes.
HOMEM 1 (após uma ligeira hesitação): Ok. (Mas não se move.)
(O silêncio do quarto é um pouco opressivo, desconfortável. Talvez fosse um alívio para ambos se, por exemplo, um telemóvel tocasse.)

Esboço # 44

(A Mulher está no sofá, apoiada sobre os joelhos, enquanto o Homem a penetra por trás, com gestos firmes e vigorosos, mecânicos. Os rostos de ambos revelam cansaço e aborrecimento, desinteresse pelo que fazem; pressa. Estão mais cinco pessoas na sala, duas delas apontando-lhes câmaras de filmar.)
HOMEM (aproximando-se do rosto dela, enquanto prossegue a actividade sexual; tom ligeiramente ofegante, muito baixo): Depois de despacharmos isto queres ir almoçar?
MULHER (num tom monocórdico, quase segredado): Não posso. Tenho que me despachar. (Ajeita ligeiramente o corpo, procurando uma posição menos desconfortável.) Tenho que ir falar com a professora da minha filha.
HOMEM (adaptando-se à nova posição da Mulher; ligeiramente surpreendido): Não sabia que tinhas uma filha.
MULHER (olhando fixamente a câmara que está mais próxima): Tenho duas.
HOMEM (parando por um momento e recomeçando logo depois; num tom melancólico, quase triste): Não sabia.
(Prosseguem sem grande entusiasmo, à espera que alguém ordene uma mudança de posição; ou um intervalo. Os homens das câmaras continuam a mover-se em redor do sofá, aborrecidos. De repente, ouve-se uma voz irritada a exigir mais realismo, mais empenho, mais banda sonora. O Homem suspira e aumenta o ritmo; a Mulher geme, de modo obsceno e teatral.)

Esboço # 43

(A Empregada aproxima-se erguendo a bandeja apenas com uma mão; coloca o sumo e a torrada em cima da mesa, com gestos hábeis e despachados.)
EMPREGADA (olhando a Cliente e sorrindo): Deseja mais alguma coisa?
(A Cliente parece despertar de um devaneio; olha a Empregada, com atenção e curiosidade: o rosto, as mãos, o peito, de novo o rosto.)
CLIENTE (num tom algo abstraído, quase sonhador): Sim. (A Empregada ainda sorri, sem esforço.) Podia sentar-se aí e conversar um bocado comigo. (Olham-se e o sorriso da Empregada desaparece, devagarinho.) Sei lá. Dizer-me quantas torradas já transportou para estas mesas, por exemplo. Coisas assim, só para passar o tempo.
(Por um breve instante, parece que a Empregada vai aceitar o convite e sentar-se junto da Cliente; mas, logo depois, afasta-se sem pressa. A Cliente pega num pedaço de torrada e mastiga, sem prazer.)

Esboço # 42

(O sol pousa lentamente sobre o mar; o calor ainda é intenso, apenas suavizado por uma ténue brisa que sopra a intervalos regulares, quase previsíveis. Há pouca gente na praia; Ele está deitado sobre a areia, indolente e imóvel, pensativo; Ela, um pouco afastada, parece dormir.)
ELE (voz arrastada, amorfa): Há quanto tempo passamos férias juntos?
ELA (sem se mover mas abrindo os olhos; num tom quase indiferente): Uns cinco, acho. (Volta a fechar os olhos; compõe o corpo na toalha.) Porque perguntas?
ELE (olhando-a com súbita intensidade, espiando-lhe o corpo com timidez): Porque desde essa altura que me apetece dormir contigo.
(Ela sorri, depois olha-o com curiosidade, talvez com carinho; Ele desvia o olhar, embaraçado e receoso.)
ELA (num tom plácido, ligeiramente condescendente): Eu sei.
(Ele mantém-se tenso, sentindo o olhar dela; ouve-se uma gargalhada distante, logo engolida pelo monótono rugido das ondas. Ela passa a mão pela coxa e, depois, acondiciona o fato de banho ao corpo num gesto que poderia ser considerado provocador. O sol move-se muito lentamente: mas ninguém o olha.)
ELA (muito tempo depois): Eles já devem estar à nossa espera. (Não se move, Ele não reage.) É melhor irmos andando.
(Mantém-se imóveis, indiferentes à passagem do tempo; confortáveis. Alguém que os olhe talvez pense que formam um casal feliz.)

Esboço # 41

(Os dois idosos sentaram-se há muito no habitual banco do jardim, à sombra, mesmo junto do rio; Ele vai dormitando, Ela olha disfarçadamente para um casal de adolescentes que está sentado num banco mais afastado e que se beija.)
ELA (num tom de voz triste e resignado): Há quantos anos não fazemos aquilo?
(Ele abre os olhos e, contrariado, espreita o parque; o seu olhar detém-se durante alguns segundos nos adolescentes.)
ELE (num tom desinteressado): Não me lembro.
(Ele volta a fechar os olhos; ela observa o modo desajeitado mas decidido como o rapaz tenta acariciar os seios da rapariga; e sorri.)

Esboço # 40

ELA (sem o olhar): Trouxeste preservativos?
ELE (irritado): Esqueci-me.
(Entram no elevador do hotel, aguardam que a porta feche; um deles carrega no número seis.)
ELA (num tom seco, definitivo): Não vou fazer sexo contigo sem preservativo.
ELE (defensivo): Mas o quarto já está pago.
(O elevador imobiliza-se, a porta abre. Ambos olham o corredor deserto, indecisos; depois, Ele sai; Ela segue-o, hesitante, talvez contrariada.)
ELE (num tom conciliador): Podemos ficar um bocado a conversar.
ELA (olhando-o, um pouco surpreendida): E falamos sobre o quê?
(Caminham pelo corredor, em silêncio.)

Esboço # 39

HOMEM 1 (num tom afável, curioso): De todas as mulheres com que te cruzas na rua, com quantas tens fantasias momentâneas? Mais ou menos.
HOMEM 2 (num tom pensativo e ponderado): Para aí com quarenta por cento.
(Ambos olham em frente, para além do passeio; todas as outras mesas da esplanada estão desertas. Não passam carros na rua há mais de cinco minutos.)
HOMEM 1 (num tom surpreendido, sem qualquer indício de ironia): Só?

Esboço # 38

FILHA (num tom curioso, quase delicado): Quando estás sozinha, em casa ou assim, costumas falar contigo própria?
MÃE (sorrindo, talvez surpreendida com a questão; ou apenas com a seriedade com que a questão foi colocada): Às vezes.
(A Filha fecha a porta do frigorífico e afasta-se até junto da janela; apetece-lhe um cigarro mas não se atreve. A mãe continua junto do fogão, comandando o avanço da refeição.)
FILHA (num tom sério, preocupado): E falas de quê?

Esboço # 37

MÉDICO (num tom displicente): Quando começares a salvar vidas, vais perceber. (Pausa breve.) O olhar de reconhecimento das pessoas é avassalador, transforma-te. (Pausa breve. Tom algo pomposo, exibicionista.) É preciso algum cuidado para não te deslumbrares, pelo menos no início. Depois, habituas-te. Deixas de contar quantos salvas, quantos morrem.
(Caminham pelo corredor deserto e fracamente iluminados, olhando em frente; as suas batas irradiam brancura.)
ESTAGIÁRIO (interrompendo o silêncio com algum receio, num tom respeitoso mas não subserviente): Com que idade comprou o primeiro descapotável?
(O Médico olha-o, surpreendido; depois, sorri.)
MÉDICO (num tom condescendente, bem disposto): Aos vinte e seis.

Esboço # 36

(Os dois homens estão sentados em cadeirões, na varanda; contemplam o horizonte com olhares algo melancólicos, especulativos, enquanto sopram as suas nuvens de fumo com vigor, tentando que não se cruzem. Ouvem-se vozes e risos distantes.)
HOMEM 1 (tentando aparentar indiferença): Há quanto tempo estão juntos?
HOMEM 2 (após uma hesitação, como se precisasse de contar): Uns onze meses, acho.
HOMEM 1 (tom displicente): Gosto dela. (Pausa breve.) Gostei logo, quando ma apresentaste na semana passada.
HOMEM 2 (sem ironia): Ainda bem.
(O Homem 1 pega num copo que está no chão, mesmo junto da sua cadeira; bebe um longo gole, volta a pousar o copo, arrota disfarçadamente.)
HOMEM 1 (tom desprendido, tentando aparentar indiferença): Quando te fartares, avisa.
(O Homem 2 sorri, sem gosto nem prazer; sopra o fumo do cigarro com vagar, olhando o céu.)
HOMEM 2 (num tom seco, agastado): Há onze meses que estou farto.
(Por momentos, os ecos de vozes cessam; depois, há uma inesperada explosão de gargalhadas. Os dois homens tentam manter-se indiferentes, contemplando o horizonte; mas quanto maior é a intensidade dos risos – a exteriorização da felicidade –, maior é o seu desagrado, maior é a tensão com que chupam os respectivos cigarros.)

Esboço # 35

(Caminham os dois pelo passeio, lado a lado, sem pressa; expressões apáticas, abatidas. Ambos olham, com interesse e intensidade diferentes, uma mulher que caminha à sua frente.)
ELA (num tom amargo, talvez magoado): Se conseguisse perder trinta quilos, voltavas a fazer amor comigo?
ELE (após uma breve hesitação, num tom sereno e algo apologético): Acho que não.
(Continuam a caminhar olhando a mulher que se afasta, sem admiração ou inveja; olhando, simplesmente.)

Esboço # 34

ADOLESCENTE 1 (num tom ligeiramente inseguro, hesitante): Costumas masturbar-te muito?
(Estão ambas estendidas num sofá, não muito distantes uma da outra, olhando para a televisão com expressões entediadas.)
ADOLESCENTE 2 (num tom indiferente): Algumas vezes por semana.
ADOLESCENTE 1 (após uma pausa e num tom receoso, quase tímido): Como costumas fazer?
ADOLESCENTE 2 (olhando a interlocutora, com uma expressão subitamente interessada e expectante): Queres que te mostre?
(Pouco tempo depois, uma delas aumenta o volume da televisão. Lá fora começou a chover.)

Esboço # 33

(Os dois idosos estão sentados num banco de jardim, olhando para o vazio; um deles talvez esteja quase a adormecer.)
IDOSO 1 (numa voz arrastada, mecânica): Estás a ver aquela nuvem ali? (Aponta com a cabeça.) A mais comprida.
(O outro idoso olha preguiçosamente, sem qualquer ponta de interesse, e acena com a cabeça.)
IDOSO 1 (sem deixar de olhar a nuvem, que se move quase imperceptivelmente): Acho que já a vi, uma vez.
IDOSO 2 (desinteressado): Quando?
IDOSO 1 (no mesmo tom monocórdico, cansado): Há uns quarenta anos. (Pausa breve. Tom hesitante.) Talvez mais.
(O idoso 2 não responde e pouco depois volta a ceder à sonolência, fechando os olhos; o idoso 1 continua a observar a nuvem, vendo-a afastar-se.)
IDOSO 2 (mais tarde, ainda com os olhos fechados; num tom desprendido): Isso quer dizer que a nuvem demorou quarenta anos a dar a volta ao mundo.
(O idoso 1 acena com a cabeça, concordando; ambos se mantêm em silêncio e imperturbáveis durante alguns segundos. Depois, inesperadamente, riem em simultâneo, partilhando uma gargalhada que demora algum tempo a dissipar-se.)

Esboço # 32

(Estão sentados num banco de jardim, ligeiramente afastados mas com as mãos dadas; dezenas de pássaros esvoaçam entre as árvores, com ruído, quase com alegria, embalados por um vento desagradável que arrepia a pele dos namorados; ouve-se a estridência de uma sirene, não muito distante. Ambos olham em frente, silenciosos, satisfeitos e reconfortados com a simples presença do outro, com o silvo da respiração próxima.)
ELA (num tom de voz murmurado e quase imperceptivelmente receoso): Queres ter filhos?
ELE (após um silêncio longo, como se ponderasse cuidadosamente a resposta adequada; ou como se pensasse no assunto pela primeira vez na sua vida; num tom firme e decidido): Sim. Dois.
ELA (sorrindo mas sem o olhar): Dois? É o que eu quero, também.
(Permanecem em silêncio, sem se olharem, tocando-se apenas com as mãos; estranhamente, não há mais ninguém no parque, o que talvez lhes agrade; ou os iniba – o espectáculo do amor parecer-lhes-á, talvez, menos recompensador se não houver ninguém a assistir.)
ELE (olhando-a, com alguma apreensão): Tenho que ir. (Pausa breve.) Explicação de matemática, daqui cinco minutos.
ELA (apertando-lhe a mão com força e, logo depois, libertando-a; tom ligeiramente decepcionado): Ok.
(Ele levanta-se e pega na mochila; ela olha-o, serena.)
ELE (num tom suave): Encontramo-nos depois das aulas da tarde? (Ela acena com a cabeça, sorrindo.) Aqui? (Novo aceno.)
(Ele inclina-se e beija-a rapidamente nos lábios; ela fecha os olhos, ele não.)
ELE: Até logo.
ELA: Tchau.
(Ele afasta-se, colocando a mochila às costas; caminha com rapidez, sem olhá-la uma única vez. Ela observa-o durante alguns segundos; depois, retira o telemóvel do bolso e começa a teclar, com frenesim; talvez esteja a enviar-lhe um sms, dizendo que o ama; ou não. A sirene da ambulância ainda se ouve, insistente, assustando os pássaros.)

Esboço # 31

(A sala de convívio do lar está quase deserta: apenas dois idosos estão sentados num sofá a olhar para a televisão – que tem o som desligado – com expressões apáticas e desinteressadas; ouve-se momentaneamente o choro de alguém – um adulto –, que logo depois cessa. Uma mosca esvoaça de janela para janela, insistente e desesperada, impotente.)
IDOSO (num tom amargo e hesitante, sem retirar os olhos da televisão): Quantas vezes estiveste apaixonada? (Pausa breve; apenas se escuta o zumbido irritante da mosca, perfurando a tranquilidade da tarde.) Durante toda a vida.
IDOSA (algum tempo depois, como se tivesse pensado profundamente na resposta; mas num tom desinteressado): Nenhuma. (Pausa muito breve.) Acho que nenhuma.
(Continuam a olhar para a televisão, indiferentes à presença do outro; talvez à espera que o choro distante regresse; ou que alguém venha e ligue o som da televisão; ou que a mosca desista de tentar lutar; ou que seja hora de ir para a cama.)

Esboço # 30

(Estão sentados numa esplanada, em silêncio. Olham as pessoas que passam, sem curiosidade excessiva, não se esforçando em dissimular o aborrecimento que sentem; por vezes, mudam de posição na cadeira ou espreitam o telemóvel; ou fecham os olhos, momentaneamente. Mas não se olham.)
ELA (falando inesperadamente, como se tivesse sido súbita e irresistivelmente surpreendida pela dúvida, pela curiosidade; tom informal, curioso): Qual foi o dia mais triste da tua vida?
(Pausa breve. O silêncio arrasta-se, acentuando a monotonia da manhã.)
ELE (continuando a olhar com algum interesse uma mulher que se afasta, lânguida e provocadora; fala num tom indiferente, quase contrariado): Acho que foi o dia em que a minha ex-mulher casou.
(Ela olha-o, surpreendida e chocada, aguardando uma explicação, que ele não dá. Passa algum tempo – silêncio mais tenso que antes; mas não demasiado – e um miúdo aproxima-se, cabisbaixo; eles olham-no, talvez aliviados, e começam de imediato a arrumar os objectos espalhados no cimo da mesa, preparando-se para partir.)

Esboço # 29

ELA (num tom algo hesitante): Suspeito que a felicidade, aquilo a que chamam felicidade, seja apenas isso. (Pausa breve.) A capacidade de sincronizar a nossa velocidade pessoal, o nosso movimento, com a velocidade do mundo. (Pausa breve. Num tom tímido, vacilante): Não achas?
EU (pensativo, algo distante): Pode ser o oposto. Pode ser a capacidade de abdicar do movimento, de reduzir a velocidade a nada. (Pausa breve.) Como durante o sono. (Sorrindo.) Não és feliz quando estás a dormir?

Esboço # 28

ADOLESCENTE (num tom quase choroso): Depois, mesmo antes de tocar, levou-me ali para a zona dos cacifos, onde não estava ninguém (Pausa breve, hesitação.) E disse que não queria mais andar comigo.
MÃE (algo condescende, ligeiramente alheada): Oh filha, mas era o teu primeiro namoro. Pensavas que ia durar para sempre?
ADOLESCENTE (sem ouvir a mãe): Nem imaginas como me senti. (Pausa breve.) Raiva. Dor. Decepção. Desalento. Fúria. Desamparo. (Pausa breve. Num tom exasperado.) Sei lá. Ódio. (Pausa breve. De novo no tom choroso.) Oh mãe, foi tão mau. Achas que vou voltar a sentir-me assim tão mal? Não sei se aguento.
MÃE (num tom inesperadamente seco, rude): Habitua-te, que a partir de certa altura vais sentir-te assim permanentemente. (Pausa breve.) Permanentemente.
(A adolescente olha a mãe, incrédula e magoada; tenta sorrir, tenta não chorar. A mãe afasta-se, em silêncio.)

Esboço # 27

Todos os dias se queixa, insistentemente. Lamenta-se da rotina, da banalidade, da previsibilidade; diz-lhe: a vida contigo é rotineira, banal, previsível. Ela suspira, fica a vê-lo sair, bater com a porta, ouve-o esmurrar o botão de chamada do elevador.
Aproxima-se da janela, fica a vê-lo percorrer a rua com passos furiosos; e suspira, de novo. Depois, passadas algumas horas: eis que regressa. E diz, quando a vê: foda-se, que viver contigo é uma rotineira; ou: uma banalidade; ou: uma previsibilidade. (Por vezes, quando está mais irritado: uma rotineira e uma banalidade e uma previsibilidade.
Até que, certa manhã, ela morre, em silêncio (resignada, talvez); diz-se na vizinhança que o coração falhou. Mas ele sabe que não, ele conhece a verdadeira causa: morreu por causa dele; da sua presença rotineira; banal; previsível.

Esboço # 26

(A praça está deserta, apenas eles ocupam uma das mesas da esplanada. Céu cinzento e claustrofóbico, ameaçador; talvez chova, mais tarde. Ninguém passa, não há crianças a brincar com carros telecomandados, velhos a espreitar os pombos. Apenas os dois, sentados numa mesa repleta de jornais, de destroços do pequeno almoço. Ele tem estado a falar, enquanto ela escuta distraidamente.)
ELE (num tom peremptório, quase pomposo): É o que penso, por mais que encham páginas a dizer o contrário não me fazem mudar de ideias. (Pausa breve. Tom algo condescendeste, sem a olhar.) Não achas que tenho razão?
ELA (após uma breve hesitação, como se tivesse demorado a perceber que ele se lhe dirigira. Tom desprendido, desinteressado. Esforçando-se para não encolher os ombros, não revelar enfado.) Acho que sim. (Continua a passar as páginas de uma revista, desatenta.)
ELE (depois de um longo silêncio, durante o qual prosseguiu a leitura): Gente de merda, sempre a mandar sentenças. A encher os jornais com pretensiosismos e arrogâncias. (Abana a cabeça, irritado. Sobe ligeiramente o tom de voz.) Como se um gajo não tivesse direito à sua própria opinião, a pensar por si.
(Durante algum tempo apenas se ouve o crepitar dos jornais, o som distante e esporádico do tráfego. Os pombos continuam a esvoaçar sem destino nem convicção, talvez intrigados com a ausência dos reformados. E o céu tão cinzento; mas é provável que não chova.)
ELA (olhando-o incisivamente; num tom sério, quase dramático): Há quanto tempo estamos juntos?
(Ele olha-a, surpreendido e perscrutador; um pouco intimidado com o seu tom de voz.)
ELE (hesitante): Quase dois anos. (Sorri, um pouco ansioso.) Vinte meses, acho eu. (Olha-a, simultaneamente inquieto e curioso.) Porque perguntas?
ELA (sonhadora, desviando o olhar; ignorando a pergunta, ignorando-o): Vinte meses. É capaz de ser isso. (Pausa breve. Ele aguarda que ela acrescente uma explicação, incapaz de regressar ao jornal; nervoso. E ela volta a encará-lo, sem complacência ou desafio. Tom neutro, distante; factual.) Acreditas que nestes vinte meses não disseste uma única frase que me interessasse verdadeiramente?
(E é então que lá no fundo da praça aparece a primeira criança da manhã, pedalando furiosamente a sua bicicleta resplandecente.)

Esboço # 25

(Estão num quarto de hotel, estendidos na cama enorme já um pouco desordenada; ele está completamente nu, ela permanece vestida e calçada. Ela beija-lhe o sexo com alguma sofreguidão, enquanto ele se contorce ligeiramente, de olhos fechados e respiração agitada. A chuva bate com violência na janela, provocando um ruído monocórdico, quase hipnótico; há pouca luz no quarto, uma quase ausência de cor.)
ELE (abrindo de súbito os olhos, agitando-se nervosamente, tentando afastá-la; num tom de voz quase sufocado): Calma, espera aí.
(Ela prossegue durante alguns segundos; depois, afasta a boca do sexo dele e fica a olhá-lo, talvez decepcionada.)
ELE (num tom falsamente desprendido, incapaz de disfarçar a ansiedade): Temos tempo. (Sorriso embaraçado.)
(Ela afasta-se um pouco dele, sem o olhar; suspira, quase imperceptivelmente; descalça-se, atirando os sapatos para longe; depois, começa a despir-se, indiferente ao olhar apreciativo dele.)
ELE (sorrindo de novo, tentando aparentar controlo; num tom algo sobranceiro, algo arrogante): Não fazes isto ao teu marido, pois não?
ELA (olhando-o, surpreendida): Broches? Claro que faço. (Ri, enquanto despe o soutien e o deixa cair ao chão.) Sempre que posso. (Aproxima-se um pouco dele, repentinamente séria. Pausa breve.) Não me digas que pensas que o faço apenas para te dar prazer. (Ele agita-se um pouco, nervoso; talvez envergonhado. Ela sorri, tentando parecer carinhosa.) Oh querido, faço-o porque gosto. Porque me dá prazer fazê-lo. (E ri, de novo.)
(Pausa breve. Ela pega-lhe o sexo, acaricia-o com os dedos; depois, recomeça a beijá-lo. Ele fecha os olhos, sentindo o corpo tenso; suspira ruidosamente. Talvez se concentre no som da chuva, tentando ausentar-se um pouco; distrair-se, num esforço ingénuo de retardar ao máximo a ejaculação, como aconselham nas revistas; ou apenas para não se sentir tão idiota.)

Ebook # 02: Céu nublado


Novo ebook.
Colectânea de vinte e quatro micro-narrativas, acompanhadas por vinte e quatro fotografias de Alexandre Louro inspiradas nas estórias. O resultado chama-se, pouco apropriadamente, Céu nublado.
Disponível para download gratuito no RL.

Discografia # 01: Clean

1.
A estrada está deserta e o carro avança demasiado depressa; noite cerrada, brutalmente escura: mas não me lembro de ter visto o sol desaparecer, não me lembro de assistir à lenta transformação do crepúsculo em noite. Dou por mim aqui, conduzindo sem destino, já sem me lembrar de que fujo, que procuro, porque não paro. Sim, poderia parar: e aguardar pacientemente que o tempo passasse por mim, indiferente e desinteressado; assistir passivamente ao lento transformar do negro da noite no cinzento da madrugada e depois no azul da manhã – pausa para perscrutar o branco das nuvens – e no azul da tarde e no cinzento do entardecer e de novo no negro da noite e no cinzento da madrugada. Sim, poderia: como sempre.
Contudo, o carro continua a avançar. Olhos fixos no horizonte e mãos no volante (apertando-o com desnecessária força), ouvidos concentrados no silêncio; e a mente cheia, completamente cheia: pedaços de imagens irreconhecíveis e farrapos de sensações difusas misturando-se com fragmentos de passado e vislumbres de futuros que nunca se concretizarão (sonhos, acho que é como lhes chamam), memórias demasiado ténues (perenes, tão perenes que poderão ser imaginadas) de sorrisos e orgasmos e dores e toques e sabores e cheiros e carícias e choros e beijos e sons e mais sorrisos. Tudo indefinido e confuso, em constante movimento caleidoscópico; arrebatando-me e distraindo-me, devorando-me.
Fecho os olhos durante um momento, pensando que tudo o que desejo, tudo o que necessito, é de um fugaz intervalo de mim próprio, da minha mente claustrofóbica; depois, volto a abri-los: e nada mudou. O negro da escuridão (que será feito das estrelas, afinal?) e o carro a avançar serenamente, o silêncio da noite zumbindo-me nos ouvidos; e a minha mente (cheia, quase a transbordar) a perseguir-me impiedosamente; aconselhando e criticando; condicionando. Cegando-me.

2.
Pergunto, num tom sereno: para onde estamos a ir?
Mas ninguém responde, como é óbvio. Foi, afinal, para isso que perguntei: para ter a certeza, a confirmação, de que ninguém responderia.
E sorrio, sozinho.

3.
De repente, regressa o desejo (confuso e avassalador, irresistível) de fechar os olhos durante mais um instante; não sei porquê, para quê. Mas é isso que faço, indiferente a motivos ou consequências: fecho os olhos. Aperto o volante com mais força, ainda mais força; o pé continua no acelerador: acelerando; e os olhos fechados, ainda.
Suponho que por esta altura já os deveria ter aberto.

4.
Depois, o carro embate inesperadamente em algo; ouço o ruído metálico, sinto um abanão. Tiro o pé do acelerador e espero, curioso; o carro rodopia, rodando sobre si próprio várias vezes; ruídos de vidros quebrados, metal arranhando o alcatrão, pedaços de plástico desintegrando-se; a minha cabeça embate no tejadilho do carro (dói um pouco), o corpo é projectado com violência para aqui e para ali, para aqui outra vez; o estômago revolvendo-se, uma estranha sensação de desequilíbrio; a pressão do cinto de segurança no meu peito. E nada mais; quietude e vazio, silêncio.
Sei que não devo largar o volante, não devo abrir os olhos. Não devo desistir.

5.
Não consigo mover-me; mas, na verdade, não preciso de o fazer. Sinto-me momentaneamente confortável, sereno: e decido permanecer assim durante mais algum tempo, expectante. Estarei morto, talvez; mas se for o caso, não posso deixar de me sentir algo decepcionado, algo ludibriado: parece-me pouco; monótono.
Aguardo; gostaria de ouvir alguém chamar-me (não consigo lembrar o meu próprio nome, o que é um pouco desconcertante). Decido abrir os olhos mas percebo que já os tenho abertos; volto a fechá-los, a abri-los: e nada muda. Assusto-me um pouco, depois muito; mas não me mexo: não consigo.

6.
Terá passado algum tempo desde o acidente; duas horas, talvez; ou vinte segundos, cinco dias, quarenta minutos. Não sei. Não importa: porque fui sendo invadido por uma estranha e tórpida sensação de apaziguamento e descompressão, de confortável esvaziamento. E sabe bem, esta inesperada leveza, esta inebriante tranquilidade. Como se tudo estivesse a começar de novo: algo como um renascimento. Ou como se tivesse, finalmente, conseguido fugir de mim próprio; libertar-me: e ver. Controlar.
Sim, agora sinto a mente vazia. Não: limpa. Tão limpa que nem o meu próprio nome recordo.

Inspiração: Clean - Depeche Mode
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Lyrics

Comme d’habitude V

1.
Via-te todos os domingos, durante alguns minutos. Conduzias o teu filho pela mão, em silêncio, sem pressa; depois, despedia-lo com um beijo na testa e ficavas a vê-lo desaparecer na entrada da sala, subindo as escadas; por fim, afastavas-te, ainda sem pressa, indiferente à presença dos outros pais; nunca dizias bom dia ou até logo; nunca sorrias; nunca permitias que o teu rosto revelasse qualquer indício de emoção, contrariedade, agitação; vinhas e partias, simplesmente: majestosa; irrelevante.
E eu espreitava-te; porque eras uma mulher bonita e misteriosa, porque o teu silêncio e a tua indiferença me cativavam. Olhava: e imaginava o som da tua voz, a possibilidade do teu sorriso; devaneava um pouco, sem maldade nem consequência, sem verdadeiro interesse.

2.
Até que, um dia, reages: correspondendo ao meu olhar; enfrentando-me: sem hostilidade nem incómodo, suponho que sem verdadeiro interesse (também). Sorrio, tentando disfarçar o desconforto, surpreendido e agradado com a tua súbita atenção; mas tu logo desvias o olhar (entediada, já?), ignorando o meu convite com displicência. E afastas-te no teu passo pausado e lânguido.
Contudo, foi quanto bastou. A troca de olhares repetiu-se nos domingos seguintes, discreta e fugaz mas intencional, consequente; revelando curiosidade e interesse, convite e disponibilidade; revelando uma ténue mas efectiva possibilidade de entendimento.

3.
Foi, pois, com naturalidade que numa dessas manhãs de domingo deixámos os respectivos filhos na catequese e nos afastámos em direcções opostas, para nos encontrarmos lá mais à frente, longe.
Despimo-nos sem pressa, excitados mas calmos, atentos à revelação do corpo do outro e agradecidos pela possibilidade de concretização da fantasia; ouvindo os inconfundíveis e monótonos burburinhos de uma missa de domingo, vindos da televisão de um vizinho. Fodemos, com vigor e ruído, com ânsia, com vontade. Depois, lavamo-nos, vestimo-nos, despedimo-nos: como se nunca tivéssemos estado verdadeiramente juntos.
Voltamos a encontrarmo-nos, minutos depois, à entrada da catequese; sem sorrisos nem palavras, sem olhares. O efeito dos orgasmos já há muito dissipado, quase esquecido. E os miúdos: atrasados.

4.
O encontro repetiu-se nos domingos seguintes; e o sexo, sempre reconfortante, foi-se tornando rotineiro e previsível mas ainda satisfatório, anestésico; perdeu-se a surpresa e a voracidade: inevitavelmente. Mas não nos ocorreu parar, desistir: porque ainda sabia bem, ainda apetecia.
Nunca conversávamos, nunca sorriamos, nunca nos acariciávamos; estávamos ali para foder, apenas; comme d’habitude? Sim. Saciar corpos, distrair espíritos, disfarçar vazios; ocupar tempo. Comme d’habitude.
Julgo que nem sentíamos curiosidade em conhecer o outro, descobrir afinidades, partilhar sentimentos; para quê? Não. Fustigávamos os sexos, gemíamos um pouco, por vezes (três ou quatro, não mais) gritavas. Gostávamos do torpor, dos cheiros que ficavam, do silêncio que os orgasmos traziam consigo; apreciávamos, em simultâneo, a presença e o desinteresse do outro (sós: mas acompanhados). Misturávamos os corpos, simplesmente: e o tempo ia passando. Uma rotina, sim; mas uma rotina diferente da habitual; um intervalo (de rotina) na rotina.

5.
Até hoje.
Não quis tomar banho e vesti-me apressadamente, enquanto permanecias na cama; talvez me olhasses, não sei. Talvez te apetecesse perguntar: porquê a pressa? (Não saberia o que responder.)
Saí, sem te olhar. E aqui estou, à espera que o garoto acabe a catequese. Há outros pais a aguardar (conversas inconsequentes, iguais às da semana passada e às da outra semana); uma ameaça de chuva a pairar; vontade de estar noutro lado qualquer; pressa de caminhar, de ir. E os risos das crianças, lá longe; um carro a passar, demasiado depressa; um gato gordo e imóvel à espreita de uma janela; o vento a sacudir quase imperceptivelmente as árvores. Tu a aproximares-te (sinto o teu cheiro, antes de te ver: também não tomaste banho.)
Aproximas-te, sim. Mas não paras onde costumas aguardar, junto ao habitual pedaço de parede; continuas a caminhar, sem aparente hesitação ou dúvida, sem pressa; aproximas-te: de mim. E eu não me mexo, não olho, não respiro; estendes as mãos e os teus dedos percorrem-me a face, o cabelo; puxam-me para ti. Depois, os lábios: tocando os meus.
Fecho os olhos, incapaz de resistir, incapaz de não corresponder ao teu beijo; incapaz de perceber. Sinto a tua língua acariciar-me, o teu corpo junto ao meu; sinto, também, os miúdos a descerem as escadas em audível correria, aproximando-se. As conversas circundantes silenciam-se (por um momento, pergunto-me se não terá sido apenas para isso que decidiste beijar-me publicamente: para suspender a monotonia das conversas desta gente) mas o vento continua a agitar as árvores, a embalar as folhas; e o gato continuará à janela, olhando.
Quase tudo como antes, como sempre: excepto o beijo, que prossegue. Conduzindo a nada, certamente; apenas prosseguindo.