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# 63: O ensaio (último momento)

(A Mulher desvia o olhar, talvez arrependida de ser ter revelado demasiado. A Irmã olha-a, com surpresa, com temor; com respeito, também. O silêncio é longo, desconfortável.)
IRMÃ (na sua voz normal, esforçando-se por parecer descontraída): Chiça, isto foi um bocado violento.
MULHER (forçando um sorriso mas desviando o olhar): Desculpa, deixei-me levar um bocado longe de mais.
IRMÃ (encolhendo os ombros e espreitando o telemóvel; num tom excessivamente informal): Bom, esse é que é o interesse deste teu jogozinho, não é? (Pausa breve. Recuperando o tom sério, preocupado.) Mas tens aí muita porcaria dentro, muita coisa a precisar de sair cá para fora. Nunca pensei, mana. (Pausa breve.) Nunca conversam sobre estas coisas, sobre vocês? Isso faz-me um bocado de impressão.
(A Mulher encolhe os ombros, talvez ligeiramente envergonhada. A Irmã aguarda uma resposta, um comentário.)
MULHER (num tom pensativo, distante): Conheces aquela sensação de estar a falar com alguém e de repente perceberes que a pessoa não está a ouvir, que não ouviu uma única palavra do que disseste nos últimos cinco minutos? (A Irmã acena com a cabeça, enquanto brinca com o telemóvel.) E logo depois, vem-te assim uma espécie de inspiração divina e percebes que isso já aconteceu mais vezes, sem que tu suspeitasses. Desconfias que se calhar até acontece desde sempre. (Pausa breve.) Já te aconteceu? Perceberes que se calhar nem faz grande diferença, que afinal interessa pouco se és ouvida ou não, que se calhar não és ouvida porque não tens nada de especial para dizer. (Olhando a Irmã directamente, quase com desafio.) Sabes do que estou a falar? Fazes ideia?
IRMÃ (pousando o telemóvel e olhando a Mulher, aceitando o desafio): Acho que não. (Olham-se, um pouco surpreendidas com a frontalidade da resposta.) Acho que nunca aconteceu, acho que não suportaria viver uma relação em que me sentisse irrelevante. (Pensativa.) Apaixono-me e desapaixono-me com muita facilidade, como sabes. Vou andando de homem em homem e sabe bem assim porque com cada um vou tendo coisas novas e diferentes e complementares, de cada um vou recolhendo qualquer coisa especial. Nem imaginas como sabe bem ir coleccionando, ir explorando, ir descobrindo. (Num tom carinhoso.) Sabes que essa coisa do homem perfeito e do amor eterno não é para mim, não me interessa o conhecido, a repetição, a previsibilidade. (Sorri.) Mas também não tenho a pretensão de ser o amor eterno de alguém. Aborreço-me com os homens, da mesma forma que eles se aborrecem comigo. É natural, acho eu. Acontece com toda a gente.
MULHER (tom triste, agastado): É, com toda a gente.
IRMÃ: Esquisito é que a partir do momento em que isso acontece, não se reaja, não se tente seja o que for para contrariar uma situação que não é confortável nem recompensadora, que não está a funcionar. Que não se procurem estratégias, se inventem mecanismos. Ou que não se siga em frente, noutro rumo. (Pausa breve.) Isso é que me faz confusão. Não se estar bem mas não se fazer nada para melhorar.
MULHER (tentando sorrir mas sem disfarçar a tristeza): Isso é o que diz a psiquiatra. (Pausa breve.) O que ela não percebe, como tu não percebes, é que não me interessa especialmente andar por aí a experimentar este e aquele, a testar homens. Já passei essa…
IRMÃ (interrompendo, aborrecida): Não digas que é uma fase, que eu passo-me já. Detesto essa condescendência de irmã mais velha.
MULHER (calma, sem hostilidade nem arrogância): Bom, para mim foi uma fase. Passei por ela e não quero voltar. Dá-se umas fodas e aprende-se umas coisas, chora-se pouco. (Encolhendo os ombros, desviando o olhar.) Ok, tem piada. Mas não pode durar para sempre; não chega. É preciso mais. É preciso investir em…
IRMÃ (interrompendo, irritada): Investir em quê? Num gajo que não te ouve? Que não quer saber o que pensas, o que sentes? Tem paciência mas prefiro não andar cheia de ilusões e de expectativas que se vão frustrando uma a uma; de fantasias com companheirismos e almas gémeas e essas porras todas. (Pausa breve.) Prefiro foder como deve ser, o que já não é mau.
(A Mulher sorri, contrariada mas incapaz de não o fazer; abana a cabeça, como se desistisse.)
IRMÃ (conciliatória): Tu sabes que eu sempre gostei do teu marido, que sempre gostei de vos ver juntos. Que de vez enquanto até te invejo, só um bocadito. Sabes isso. (Pausa breve.) Mas não fazia ideia que tinhas uma relação frustrada…
MULHER (interrompendo, magoada): Não tenho nada uma relação frustrada.
IRMÃ (defensiva): É o que parece, depois deste teu teatrinho.
(Sem que notassem, aproximou-se da mesa uma terceira mulher que, com gestos decididos e peremptórios, puxa uma cadeira e senta-se, surpreendendo-as.)
AMIGA (sorrindo): Qual teatrinho?
MULHER (olhando a Amiga, quase assustada): Que susto, fogo. Sempre a mesma coisa. (Tentando recompor-se.) Por onde tens andado, estás atrasada.
AMIGA (encolhendo os ombros): Perdi-me numa lojinha. Temos que passar por lá, depois. Quero que me dês uma opinião.
(A Irmã pegou no telefone e fez uma chamada, aguardando que atendam. Pressente-se algum desconforto em relação à Amiga.)
AMIGA (olhando as chávenas): Apetecia-me um café. Ainda temos tempo?
MULHER (arrumando o telemóvel na bolsa, com gestos decididos): Acho que não. Já estava para ir sozinha.
AMIGA (sem pressa de se levantar): Estavam a falar de quê, afinal?
MULHER (dirigindo-se à Irmã, que aguarda com alguma ansiedade que lhe atendam a chamada): Ficas?
(A Irmã acena que sim, muda o telemóvel de orelha; a Mulher levanta-se e olha para a Amiga.)
MULHER (dirigindo-se à Amiga): Então?
AMIGA (levantando-se, contrariada): Qual é a pressa?
(A Mulher aproxima-se da Irmã e dá-lhe um beijo algo tímido, no rosto; a Irmã parece estremecer, surpreendida.)
MULHER (começando a afastar-se, dirigindo-se à Irmã): Depois falamos.
AMIGA (acompanhando a Mulher; dirigindo-se à Irmã, sem a olhar): Tchau. (Falando à Mulher, sorrindo.) Há séculos que não te via com saia.
(As duas mulheres afastam-se e desaparecem. A Irmã permanece sentada, agarrando o telemóvel com força e olhando em frente.)


Edward Hopper - Chop suey

# 63: O ensaio (segundo momento)

(A Irmã abana a cabeça, suspira; olha o relógio, pega o telemóvel que está no cima da mesa, volta a pousá-lo; ajeita o cabelo, de forma inconsciente. A Mulher observa-a, sorrindo.)
IRMÃ (fingindo-se exasperada): Ensaiar o pedido de divórcio. (Ri.) E como se faz isso?
MULHER (sorrindo): Fácil. Só tens que fingir que és o meu marido. E ires reagindo como achas que ele reagiria.
IRMÃ (abanando a cabeça): És tão infantil, tu. (Pausa breve. Verdadeiramente curiosa.) E que esperas conseguir com uma palhaçada dessas?
MULHER (irónica): Divertir-te.
IRMÃ (rindo): Estúpida. (Volta a pegar o telemóvel, confirma o ecrã; depois, espreita a sua chávena.) Apetece-me mais chá?
MULHER (abanando a cabeça): Estás à espera de alguma chamada?
IRMÃ (num tom pesaroso, triste): Já me contentava com uma mensagem. (Fica a olhar para o telemóvel, desconsolada.)
(Silêncio. As duas mulheres parecem momentaneamente distantes, quase ausentes; esquecidas da outra.)
IRMÃ (forçando-se a rir): Vamos lá, então. (Tosse. Fala numa caricatura de voz masculina.) Olá querida. Como foi a tua tarde? (Forçando o tom de paródia na voz.) Sabes o que me apeteceu todo o dia? (Tentando conter o riso.) Que me fizesses um broche. (Ri, descontrolada.)
MULHER (chateada mas incapaz de não rir): Vai-te lixar.
IRMÃ (rindo). Disseste que era para me divertir.
(Olham-se, enquanto o riso se vai dissipando lentamente. Permanecem em silêncio, confortáveis.)
IRMÃ (tom de voz masculino, incongruente, mas forçando-se a permanecer séria): Pareces cansada, amor. O dia foi duro?
MULHER (contrariada): Sabes bem que ele não me trata por amor.
IRMÃ (exasperada, no seu tom de voz normal): Queres fazer isto ou não? (Pausa breve.) Tens que me dar algum espaço, que diabo. (Olhando para o telemóvel.) Vá lá, que está a fazer-se tarde para mim. (Pausa breve. Num tom prático, decidido.) Faz de conta que já jantámos e estamos a ver o noticiário. O garoto… (Interrompendo-se.) Onde costuma estar o meu sobrinho, enquanto vocês discutem?
MULHER (irritada): Nós não costumamos discutir. O problema é precisamente esse, como sabes muito bem. (Breve hesitação; tom desconsolado, rendido.) Quem não fala não pode discutir. (Pausa breve. Percorre o olhar pela sala, como se sentisse desconfortável, aprisionada.) O menino está sempre no quarto dele, entretido com isto ou aquilo. Longe. (Sorriso triste.) Para não interromper o nosso silêncio.
IRMÃ (tentando parecer decidida, prática.) Ok. Estão os dois no sofá, a olhar para a televisão, em silêncio. Sem se tocarem. Aquele chato das orelhas grandes a apresentar as notícias do governo, todo exaltado. Ou aquela que veste mal e toda a gente diz que é sexy, não sei porquê. (Disfarça um sorriso.) O meu sobrinho no quarto a jogar playstation, aqueles jogos de carros de que ele gosta. (Pausa breve. Tom exageradamente subserviente.) Parece-te bem assim?
(A Mulher acena com a cabeça, tentando permanecer séria, tentando não sorrir.)
IRMÃ (afinando a sua imitação de voz masculina): Então começa lá. Livra-te de mim.
(Silêncio. De repente, surge um incómodo indefinido, uma tensão entre as duas. A boa disposição dos momentos anteriores desaparece por completo.)
MULHER (num tom hesitante, empertigado): Desculpa, queria falar uma coisa contigo.
IRMÃ (no seu tom de voz normal; irritada): Porra, que início mais merdoso. (Fugindo ao olhar furioso da Mulher.) Desculpa. (No tom de voz masculino, cada vez mais afectado, mais inverosímil.) Continua.
MULHER (hesitante): Acho que precisamos de falar.
IRMÃ (revirando os olhos e abanando a cabeça, não se contendo): Chiça, és pior que um filme americano.
MULHER (ignorando o comentário): Há coisas que não estão bem, que precisamos de resolver.
IRMÃ (voz masculina e grossa, tentando aparentar distracção, quase indiferença): Há algum problema com o garoto?
MULHER (irritada): Com o garoto, não. (Pausa breve.) Não é com o garoto. É entre nós.
IRMÃ (voz masculina): Nós?
MULHER (irritada mas esforçando-se por manter a calma): Sim, nós. Ou achas que está tudo bem?
IRMÃ (voz masculina): Que queres dizer com isso? Claro que está tudo bem.
MULHER (surpreendida): Achas mesmo? (Incrédula.) Acreditas nisso? Acreditas que este casamento ainda é feliz?
IRMÃ (voz masculina): Ainda? Que queres dizer com ainda? (Pausa breve.) Claro que é um casamento feliz. Eu sou feliz. (Hesitando momentaneamente.) Porquê, tu não és?
MULHER (após um silêncio, num tom tímido): Não sei. (Pausa muito breve.) Não sei se sou.
(Pausa. Espreitam-se mas logo desviam o olhar.)
IRMÃ (voz masculina): Desculpa. Apanhaste-me de surpresa. (Pausa breve.) Que queres dizer com isso? Desculpa, mas não percebo. Acho que estou chocado. (Pausa breve.) Não és feliz?
MULHER (hesitante, num tom sonhador, como se pensasse alto; completamente absorvida pela fantasia): Desculpa, não queria magoar-te. Mas nunca falamos sobre isto. Partes do princípio que está tudo bem, de que não há lugar a dúvidas nem hesitações, a perguntas. De que não há nada para falar. (Pausa breve.) E faz-me falta falar, não imaginas quanto.
IRMÃ (voz masculina): Falar? Falar o quê? (Hesitação.) Nós falamos. Fartamo-nos de falar.
MULHER (tentando não se irritar): Não, acho que não nos fartamos de falar. Mas se calhar, até está tudo bem. E a única coisa que falta é mesmo isso: falar um pouco sobre tudo isto, para perceber que as coisas afinal não estão más. Não achas? Enquanto estamos para ali às voltas na cama, sem conseguir dormir, vamos pensando e pensando e tudo parece assustador e sem solução, tudo parece perdido. Mas depois, se falamos um bocado sobre isso, a acompanhar o primeiro cigarro da manhã ou assim, se falamos com alguém que está verdadeiramente interessado em ouvir, as preocupações começam logo a parecer um bocadinho exageradas, um bocadinho apalermadas. Até parece que só por verbalizarmos os nossos medos eles perdem logo um bocado do seu poder.
IRMÃ (voz masculina): Desculpa. A culpa é minha. (Hesitação.) Não fazia ideia que te sentias assim.
MULHER (irritada, subindo o tom de voz): Claro que não sabias. (Olhando em redor, envergonhada. Baixando a voz.) Claro que não sabias. Esse é que é o problema. Eu amo-te e tu amas-me mas a verdade é que, de repente, esse amor passou a ser uma espécie de entidade separada, algo que existe sem a nossa intervenção, sem o nosso esforço. Existe e pronto. (Pausa breve. Confusa.) Amámo-nos e isso foi tão forte que o amor passou a ser auto-suficiente. Independente de nós, da nossa vontade. Uma espécie de amor de subsistência, ou assim.
IRMÃ (voz masculina): Amor de subsistência? Não percebo onde queres chegar. Não percebo o que estás a tentar dizer-me.
MULHER (baixando ainda mais a voz, ignorando a interrupção): Amamo-nos, sim. Mas já não nos conhecemos. (Pausa breve.) E isso é que é assustador, isso é que me atormenta. (Aproximando-se, como se estivesse mesmo em frente do marido): Acredito que nos amamos e que esse amor é verdadeiro e forte e eterno e tudo isso. Mas amor não é felicidade. Amar e ser amado não é suficiente, não é isso que é ser feliz.
(A Mulher desvia o olhar, talvez arrependida de ser ter revelado demasiado. A Irmã olha-a, com surpresa, com temor; com respeito, também. O silêncio é longo, desconfortável.)

# 63: O ensaio (primeiro momento)

(Duas mulheres jovens sentadas numa mesa de pastelaria, frente a frente; bules de chá e pedaços secos de torrada pela mesa; dois telemóveis. As outras mesas estão desocupadas.)
MULHER (num tom falsamente desprendido, algo receoso): Preciso que me faças um pequeno favor.
IRMÃ (tom decidido e confiante, sem hesitações calculistas): Diz lá.
MULHER (deixando o olhar vaguear, embaraçada): Quero que me ajudes a treinar o pedido de divórcio.
IRMÃ (rindo, surpreendida mas sem antagonismo): Treinar o quê?
MULHER (sorrindo, envergonhada): O pedido de divórcio.
IRMÃ (abanando a cabeça, ainda rindo): Agora é que vai? É desta vez?
MULHER (encolhendo os ombros): Duvido. (Embaraçada.) É só para ensaiar. (Olhando em redor, desconfortável.) Ver qual é a sensação.
IRMÃ (subitamente séria, apreensiva): As coisas pioraram?
MULHER (hesitante, após uma breve pausa): Não, acho que não. (Sorrindo, sem vontade.) Até melhoraram ligeiramente, nos últimos dias.
IRMÃ (simultaneamente incrédula e satisfeita): A sério? Melhoraram como?
MULHER (incomodada): Sei lá, melhoraram. Não me apetece falar disso agora. (Pausa breve, desconfortável.) Às vezes andas tão cansada que só a intensidade do teu desejo para que as coisas melhorem é suficiente. (Encolhe os ombros.) Queres tanto que melhorem que melhoram mesmo, ou parece que melhoram. (Pausa breve.) O que vai dar ao mesmo, não é?
IRMÃ (desconfortável com a súbita agressividade da interlocutora, falando num tom hesitante): Então para que serve esse disparate de ensaiar pedidos de divórcio? (Pausa breve. Correspondendo inconscientemente com um tom igualmente hostil.) Não te percebo. Por um lado queres que as coisas resultem, nem que seja à força; por outro pareces ansiar por que terminem, de uma vez. (Pausa breve.) Em que ficamos?
(A Mulher desvia o olhar, desconfortável, talvez agastada; a Irmã olha-a com insistência.)
IRMÃ (tom acusatório, vagamente descontrolado): Às vezes, pare que tens vivido numa ilusão de casamento, entretida com uma espécie de ilusão de felicidade. Agora queres um divórcio de ilusão? (Pausa breve.) Foda-se, que me parece ilusão a mais.
(A Mulher mantém-se alheada, mas não necessariamente incomodada; como se estivesse habituada a reprimendas da Irmã.)
IRMÃ (num tom pesaroso, estendendo a mão e acariciando-lhe o braço): Desculpa.
MULHER (magoada, tentando parecer indiferente): Não faz mal.
IRMÃ (tom apologético): Sabes que isto irrita-me como tudo. A tua hesitação. A forma como adias e adias e adias. (Sorrindo, com compreensão; tentando compensar a agressividade anterior.) A tua maldita indecisão.
(A Mulher deixa-se acariciar pela Irmã, sem corresponder, quase sem reparar; não a olha; parece momentaneamente ausente, imperturbável. Confiante nas suas certezas.)
MULHER (num tom rígido, com se recitasse algo): A felicidade não é ilusão. Nem sempre. (Pausa breve.) Muitas vezes, não é. (Pausa breve.) Sabes bem.
IRMÃ (irritada): Está bem. Às vezes, não é ilusão. (Retirando a mão.) Mas e as outras vezes? A maior parte das vezes?
(A Mulher encolhe os ombros, como se desinteressada da conversa.)
IRMÃ (num tom quase impertinente): Basta ser feliz três dias por mês. E os outros vinte e sete?
MULHER (encarando a Irmã, subitamente interessada no diálogo): Três dias? Se eu fosse feliz três dias todos os meses, não me queixava de nada.
(Olham-se e riem em simultâneo. A tensão desaparece de imediato. Permanecem em silêncio, sorrindo.)
IRMÃ (curiosa, ainda sorrindo; falsamente despreocupada): Este mês já tiveste os teus três dias?
MULHER (subitamente alegre e despreocupada): Só um. Mas valeu por um monte deles.
IRMÃ (atenta): Conta lá.
MULHER (depois de uma hesitação): Hoje, não. Logo vou estar com a psiquiatra e não me apetece nada estar desbobinar a história toda duas vezes seguidas. (Estende a mão acariciando o braço da Irmã, tal como ela fizera momentos antes.) Desculpa lá.
IRMÃ (sorrindo): Estúpida. Pagar setenta euros para…
MULHER (interrompendo): Oitenta e cinco.
IRMÃ (ignorando a interrupção): Ouvires exactamente as mesmas coisas que eu te posso dizer de borla.
MULHER (num tom arreliador): Mas ela diz de uma forma mais bonita.
IRMÃ (correspondendo ao tom falsamente provocatório): E por que não lhe pedes a ela para te ajudar a ensaiar o divórcio?
MULHER (sorrindo): Isso é privilégio das irmãs mais novas. (Retira a mão do braço da Irmã.)
(A Irmã abana a cabeça, suspira; olha o relógio, pega o telemóvel que está no cima da mesa, volta a pousá-lo; ajeita o cabelo, de forma inconsciente. A Mulher observa-a, sorrindo.)

Para quando novos contos?

Quando calhar, que por estes dias (meses) não se tem escrito muito (nada).

Dão-se livros # 10

Os livros seguiram para a Patrícia. Obrigado a todos pela participação.