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# 65: Supositórios

(As duas mulheres estão sentadas na única mesa ocupada de uma pequena pastelaria.)
MULHER (irritada): Não vou voltar à psiquiatra.
AMIGA (desatenta): Porquê? Estás curada?
MULHER: Não gozes.
AMIGA (sem verdadeiro interesse): A sério, não voltas porquê?
MULHER (contrariada): Aconteceu uma coisa esquisita, não percebi bem. Mas senti-me desconfortável.
AMIGA (levemente curiosa): Mas que te disse ela?
MULHER: Não foi nada que ela disse.
AMIGA: Então?
MULHER (num tom embaraçado): Dei com ela a olhar para mim com uma expressão esquisita.
AMIGA (curiosa): Esquisita, como?
MULHER (num tom desagradado): A olhar-me para as pernas. Com interesse, sabes?
AMIGA (espantada): Com interesse?
MULHER (irritada): Não te faças de parva.
AMIGA (tom agastado): Bom, realmente não é hábito presenteares o mundo com esse espectáculo de pernas, sempre escondidinhas nas calças, guardadas não sei para quem. Se calhar, apanhaste-a de surpresa e ela pôs-se a olhar.
MULHER (irritada; tentando não rir): Vai-te lixar. (Empertiga-se e tenta puxar a saia para baixo, protegendo-se.)
AMIGA: Ou achas que é lésbica?
MULHER: Sei lá eu.
AMIGA (provocadora): Estará interessada?
MULHER (peremptória): Não sei nem quero saber. É por isso que não regresso lá.
AMIGA: Conta-me lá como é essa tua psiquiatra, afinal. É gira?
MULHER (distraída): Nem por isso. Deve ser uns dez anos mais velha que nós. Muito formal, sempre impecável. (Pega na chávena de café vazia e brinca com ela, com gestos ligeiramente ansiosos.)
AMIGA: Mas é daquelas armadas em homem, todas tesas e assim?
MULHER: Não. É uma mulher normal. Nem gira nem feia. Passas por ela na rua e não reparas.
AMIGA (encolhendo os ombros): Banal.
MULHER: Como a maioria.
AMIGA (séria, realmente interessada): É simpática? Ri-se?
MULHER: Para mim, é sempre uma psiquiatra a dar consulta. Não a consigo imaginar de outra forma.
AMIGA (insistente): Mas parece-te uma mulher feliz? Triste? Aborrecida? Frustrada? Estimulante? Mal fodida?
MULHER (desgostosa): Estou tão arrependida de te falar disto.
AMIGA (tom firme e irritado): A sério. A mulher também lá deve ter os problemas dela, não? Está para ali todo o dia a aturar as merdas dos outros mas não consegue esquecer-se das suas próprias merdas. Que as há-de ter, não?
MULHER (desinteressada): Isso é lá com ela.
AMIGA (incisiva): Mas tu pegas nos teus problemazinhos e vais lá ver se ela te arranja um supositório para a mente. Um aliviozinho. Mas e ela, onde pode ir? Onde vão os psiquiatras que têm problemas? Com quem falam?
MULHER (tentando não se irritar): Com outros psiquiatras.
AMIGA (irónica): Achas?
MULHER (conclusiva): Acho. Ou se calhar, não falam com ninguém. Não precisam.
AMIGA (contrariada): Não precisam?
MULHER (num tom fingidamente paciente): Se conseguem dar supositórios aos outros também podem arranjar alguns para si próprios. (Concentra-se na chávena que tem nas mãos.)
AMIGA (pensativa): Isso é verdade. Anda tudo à procura de supositórios, já reparaste? É esse o mal. Em vez de se porem a pensar um bocado e tentarem compor as coisas, em vez de se analisarem, de se colocarem em questão, as pessoas preferem que alguém lhes dê soluções padronizadas e instantâneas.
(A Mulher larga a chávena e olha a Amiga, surpreendida.)
MULHER (exasperada): Hoje estás impossível.
AMIGA (tom provocatório, exagerado; fugindo ao olhar da interlocutora): Ai que o meu marido já não me fode; toma, leva o comprimido azul. Ai que o meu marido só pensa em foder; toma, leva o comprimido amarelo. Ai que o meu marido fode muito depressa; toma, leva o comprimido lilás. Ai que o meu marido quer foder em cima da arca frigorífica e eu tenho medo de a estragar; toma, leva o comprimido vermelho.
MULHER (sorrindo, contrariada): Pára com isso.
AMIGA (séria): Ninguém se põe a pensar porque raio o marido quer foder muito ou não quer foder nada. Tentar compreender. Perguntar. Não, vai-se logo pedir o comprimido.
MULHER (atenciosa): Mas que se passa contigo?
(Agora é a Amiga que pega na sua chávena vazia e a faz rodar entre os dedos, completamente abstraída.)
AMIGA: É como aquela tua colega mal cheirosa. Em vez de se lavar mais vezes, põe desodorizante; e é claro que assim não resolve nada, apenas disfarça, apenas adia. Mas é o mesmo por todo o lado, com toda a gente. (Pausa breve.) Andamos para aqui todos cheios de camadas de desodorizantes, a mamar supositórios de todas as cores, mas o cheiro a merda não desaparece.
MULHER (apreensiva): A sério. Que aconteceu? Conta.
AMIGA (irritada): Queres saber o que aconteceu?
MULHER (firme): Quero.
AMIGA (desgostosa): Pois olha que nem eu sei bem o que aconteceu.
MULHER: Contas-me ou não?
AMIGA (cansada): Não.
(A Amiga deixa que a chávena lhe escorregue dos dedos e rebole pela mesa, provocando um ruído inesperado; ambas olham a chávena, como se esperassem que caísse ao chão.)
MULHER: Regressaste da loja sem comprar nada e desististe de ir à cabeleireira, assim de repente. E pões-te para aí com essa palermice de comprimidos e desodorizantes. Só pode ter acontecido uma desgraça qualquer.
AMIGA (indiferente): Deixa lá. Fala-me da tua psiquiatra.
MULHER: Conta, porra.
(A Amiga levanta-se e desaparece; regressa muito tempo depois, com dois copos; pousa-os na mesa e bebe. A Mulher olha-a, atenta.)
AMIGA (num tom de voz algo apreensivo, quase assustado): Sabes quem encontrei quando ia a sair da cabeleireira?
MULHER (neutra): Não faço ideia.
AMIGA (contendo a revolta): O meu ex.
MULHER (surpreendida): Não.
AMIGA (abatida): É verdade.
MULHER: Então, voltou à cidade?
AMIGA (desgostosa): Parece que sim.
MULHER: Quem viu quem, primeiro?
AMIGA (contrariada): Foi ele. Pôs-se a chamar por mim, ali no meio do centro comercial. E eu toda confusa, a reconhecer a voz mas sem conseguir identificá-la.
MULHER (solidária): E depois?
AMIGA (tom triste, como se se sentisse miserável): Fico para ali meio aparvalhada, não sei bem porquê. Completamente apanhada de surpresa. E ele com sorrisinhos, a perguntar-me como tenho passado, a dizer que estou com bom aspecto e mais não sei quê.
MULHER (solidária): E tu?
AMIGA: Com vontade de fugir. Atrapalhada mas sem perceber por que motivo. Com medo não sei de quê.
(A Amiga pegou num guardanapo e está a dobrá-lo meticulosamente. A Mulher olha para as mãos dela, para o guardanapo que vai desaparecendo.)
MULHER: Mas não disseste nada?
AMIGA (forçando um sorriso, desgostosa): Nada. E então ele convida-me para tomar um café.
MULHER (incrédula): E tu aceitaste.
AMIGA (embaraçada): Lá vamos nós, de repente sem nada para dizer, meio embaraçados. Sentamo-nos na mesa mais afastada do primeiro cafezinho que encontramos. E ficamos ali a olhar para as mãos, à espera não sei de quê. Como o raio de um par de namorados.
MULHER: Mas porque não o despachaste logo?
(Agora é a Mulher que pega um guardanapo e o dobra, devagarinho.)
AMIGA (confusa): Sei lá. Porque não consegui. Porque não quis.
MULHER: E que queria ele? Chateou-te?
AMIGA: Não. (Pegando distraidamente num guardanapo e dobrando.) Foi muito civilizado. Falou do novo trabalho e das viagens e dos colegas e dos desafios. Depois, confessou que já se separou da minha substituta.
MULHER (surpreendida): A sério?
AMIGA (tom desdenhoso): Parece que sim. Explicou detalhadamente o que correu mal; tudo culpa dela, como é óbvio. (Pausa breve.) E então, muito tempo depois, percebeu que tinha estado todo o tempo a falar de si próprio. E quis saber de mim.
MULHER: E tu, que disseste?
AMIGA (irritada): Disse-lhe que me despedi e que tenho andado por aí a viajar que nem uma doida. Que me farto de comprar roupa e foder com homens mais novos. Que tenho a maior colecção de sapatos desta parte do país e que por causa disso tive que mudar de casa, que já não tinha espaço para os arrumar.
MULHER (indiferente): Não acredito.
AMIGA (tentando sorrir): Pelo menos, foi o que me apeteceu dizer. Mas limitei-me a encolher os ombros e emborcar meio litro de chá verde.
MULHER (solidária): Este tempo todo depois e ainda não o consegues enfrentar. (Pega num segundo guardanapo e dobra-o meticulosamente.)
AMIGA (tom frio e distante): Estamos divorciados há um ano. Já não há nada a enfrentar.
MULHER: Então porque não reages?
AMIGA (sorrindo): Aí é que te enganas. Reagi.
MULHER (correspondendo ao sorriso): Conta.
(Ambas as mulheres pousam os guardanapos dobrados na mesa; olham o pequeno monte e depois olham-se.)
AMIGA (tom falsamente bem-disposto, irónico): De repente, comecei a perceber as insinuações. Que tinha saudades minhas, que podíamos aproveitar os dias que ele vai ter de passar por cá, que somos os dois jovens e livres.
MULHER (perplexa): Filho da puta.
AMIGA (desgostosa): Convencido que depois da merda que fez, basta chegar aí com o sorrisinho especial e aqui a estúpida vai logo atrás.
MULHER: Mas que disseste?
AMIGA (sorrindo): Disse que também tinha saudades dele.
MULHER (perplexa): O quê?
AMIGA: Disse que precisava de ir tratar de uns assuntos, era só um instantinho. Ele que esperasse ali por mim, que comesse um gelado para ganhar energia. E fugi para aqui. Ainda lá deve estar, à espera.
(A Amiga pego um novo guardanapo; a Mulher olha-a e pouco depois imita-a.)
MULHER (cuidadosa): Mas não te sentiste tentada, pois não?
AMIGA (confusa): Tentada?
MULHER: A regressar ao café.
AMIGA (tom irritado, brutal): Achas que sou como tu?
MULHER (defensiva): Como eu, o quê?
AMIGA (acusatória): Como tu. A ganhar coragem para te divorciares há dois anos. Ou mais.
MULHER (atónita): Cala-te.
(A Mulher atira o guardanapo para cima da mesa, irritada; olha em redor, confusa; como se procurasse uma fuga; tenta acalmar-se.)
AMIGA (tom subitamente indiferente): Eu já sofri tudo o que tinha a sofrer. Posso não saber o que quero mas sei muito bem o que não quero. E uma coisa que não quero é ser o supositório dos outros. Um aliviozinho temporário. Uma distracção. (Sorri, triste; pousa o guardanapo cuidadosamente dobrado e pega de imediato num novo.)
MULHER (magoada): Estás a querer dizer que eu sou um supositório?
AMIGA (neutra): Não. Estou a dizer que andas há dois anos, ou mais, à procura de supositórios.
MULHER (irritada): Não me lixes. Que ganhaste tu com o divórcio? És mais feliz, agora?
AMIGA (após uma hesitação): Incomparavelmente.
MULHER (acusatória): Então porquê esse descontrolo todo, só porque de repente o encontras numa esquina?
AMIGA (fingindo indiferença e desinteresse): Não estou descontrolada.
MULHER (impaciente): Então estás o quê?
AMIGA (subitamente irritada): Danada.
MULHER (espantada): Danada? Porquê?
AMIGA (exasperada): Porquê? Não vês porquê? Por causa da presunção dele. Da arrogância. Da desconsideração. Da sobranceria. Percebes? Porque ele parte do princípio que está tudo bem, que o sofrimento que me causou já não conta para nada; que se pode começar tudo de novo, como se não tivesse havido um casamento que acabou miseravelmente. (Pausa breve. Atira o guardanapo que tinha nas mãos e cruza os braços, como se se quisesse impedir de pegar noutro.) Como se bastasse fazer um sinal e aqui a parvalhona vai logo a correr.
MULHER (tentando aparentar calma): Talvez estejas a interpretar mal. Talvez ele queira apenas.
AMIGA (interrompendo, furiosa): O quê? Foder? Mas se for isso, ainda é pior. Não percebes? É uma instrumentalização completa da relação entre duas pessoas. De mim.
MULHER (correspondendo à irritação; tom arrogante): Qual instrumentalização, qual quê. Chama-se casamento. Tu fazes coisas por mim e eu faço coisas por ti. Tu aturas-me e eu aturo-te. Claro que há momentos maus, momentos em que as vontades e os interesses não coincidem. Claro que há dificuldades em perceber o outro, principalmente quando se deixa de falar, quando se parte do princípio que já se conhece tudo o que há a saber sobre o outro, de tal modo que já não é necessário perguntar. É isso, um casamento. Mas qual é alternativa? Mudar de relação a cada seis meses, mal surja o primeiro indício de monotonia? Ir coleccionando?
AMIGA (agastada): Não sabes o que estás dizer.
MULHER (afrontada): Não sei? Sei é demasiado bem. Não imaginas como sei. Sei que não estou bem, isso pelo menos sei. E não é há dois anos, como dizes. É há mais.
AMIGA (impertinente): Então estás à espera de quê?
MULHER (subitamente cansada): Estou à espera de perceber como funciona isto dos casamentos, da vida. A tentar perceber se viver é como participar numa peça de teatro em que vais seguindo o teu papel, repetindo-o noite após noite, tentando atinar, tentando melhorar, obedecendo ao texto que alguém escreveu, às arbitrariedades de um encenador invisível. Será isso, a vida? (Subitamente desconsolada.) Ou é como aquela coisa que agora toda a gente faz, como se chama? Quando está um tipo sozinho no palco, a dizer graçolas.
AMIGA: Stand up.
MULHER: Isso. Está-se ali sozinho, a improvisar; tem-se umas ideias do que se quer dizer mas o discurso vai variando de acordo com os estímulos do público, de acordo com a própria vontade de se estar ali naquele momento. Não há encenador a mandar isto ou aquilo, não há determinismos nem instrumentalizações. Está-se livre.
AMIGA: Livre para quê?
MULHER: Sei lá. Livre, simplesmente. Não é o que toda a gente quer? Ser livre?
(A Mulher começa distraidamente a recolher todos os guardanapos dobrados que estão em cima da mesa, reunindo-os num montinho.)
AMIGA (tentando aligeirar o diálogo): É disso que falas lá com a tua psiquiatra?
MULHER (indiferente à provocação): Não. É o que penso quando não consigo dormir. Se viver é integrar uma equipa onde cada um sabe o que tem de fazer, sabe quem manda, sabe o que é esperado de si; ou se é estar sozinho em cima do palco e ir improvisando, tentando que os outros não se aborreçam.
AMIGA (sem qualquer provocação): E já chegaste a alguma conclusão?
MULHER (contrariada): Ide chegar, um dia destes.
AMIGA (sorrindo): E depois, que fazes com a tua conclusão?
(A Mulher encolhe os ombros, deixando claro que não irá responder; olha em redor, espreguiçando-se ligeiramente.)
MULHER (forçando um tom aligeirado, bem-disposto): Já reparaste que agora isto está sempre vazio? Vamos mas é dar uma volta. (Começa a levantar-se, perante o olhar indiferente da Amiga.) Onde vamos almoçar? (Arruma a cadeira e olha a Amiga, subitamente impaciente.) Anda lá.
(A Amiga começa a levantar-se, contrariada. Arruma a cadeira sem grande cuidado, embatendo com ela na mesa; ouve-se um ruído metálico, intenso e irritante; alguns dos guardanapos dobrados caem ao chão, esvoaçando ligeiramente, e são distraidamente pisados pelas duas mulheres, que se afastam em silêncio.)

Dão-se livros # 11

Desta vez, os livros seguem para a Marisa, para a Lina e para a Ângela. Obrigado a todos pela participação.

20 de Dezembro de 2005

A 20 de Dezembro de 2005 nasceu a Gaveta; poucos dias antes, o primeiro livro (Gastar Palavras) tinha sido apresentado pelo Pedro Rolo Duarte e pelo Jorge Listopad, ali à beirinha da lareira do Alinhavar; o nascimento do blogue foi planeado nessa mesma noite.
A primeira estória a surgir na Gaveta foi “O Perguntador”, um conto inspirado num quadro de Munch e que mais tarde seria integrado no segundo livro (Os Mundos Separados que Partilhamos). Recoloco-o agora na Gaveta, em nome da nostalgia (só um pouquinho, que já chega de fado) e como agradecimento aos fiéis que ainda se mantêm por perto, desde esse longínquo Dezembro. Obrigado.


O Perguntador

1.
Escondo-me por trás do jornal: como se estivesse perante uma ameaça, como se necessitasse de protecção. Mas não consigo deixar de olhar, de assistir ao seu desfile; caminha entre as mesas com indiferença, senta-se, pousa a enorme pasta; não olha para ninguém, para nada; um rapaz aproxima-se e ela faz o seu pedido sem o olhar; desdobra um jornal, começa a ler. Por vezes, passa a mão pelo cabelo. Lê com atenção, sorri, abana a cabeça, muda a página. Não repara que há um mundo à sua volta; não quer saber do mundo que está à sua volta.
É ela: a mulher por quem estou apaixonado há dez anos. Que não via há dez anos.

2.
Escurece.
O mar está tranquilo, empurrando as ondas com suavidade; ei-las, perante nós: chegam envergonhadas, hesitam durante um momento e deslizam de regresso ao oceano, deixando-nos apenas a memória do seu rumor, do seu suspiro. Mais ninguém na esplanada: só nós. Conversamos devagarinho; tu falas, com entusiasmo; eu tento concentrar-me no que dizes, tento acompanhar-te; tento parecer mais interessante do que realmente sou, cativar-te; invento-me, finjo um pouco; mas a nossa relação é desequilibrada: eu esforço-me para te seduzir, tu já me seduziste completamente. Vais falando e eu permito-me uma distracção: pergunto-me se perceberás o meu entusiasmo, preferindo ignorá-lo. Talvez. Por vezes, parece-me que brincas comigo, que me provocas, que insinuas. E depois recuas, rindo. Enfurecendo-me.
Vais falando mas não te ouço; vou imaginando qual será o sabor da tua pele.

3.
Pousou o jornal e concentra-se no chá. Pergunto-me se esperará alguém. Observo-a e percebo, com alguma surpresa, que apesar de não pensar nela há muito tempo, ainda a desejo, sempre a desejei. Vou reconhecendo os seus gestos, vou permitindo que as recordações cheguem e se instalem, perturbando-me. Vou fantasiando: o que poderia ter acontecido se a nossa amizade tivesse evoluído, se tivesse inventado a coragem necessária para lhe confessar que estava apaixonado, que a amava. Desvio o olhar, envergonhado, e passeio-o pelos rostos dos desconhecidos que me rodeiam, que me ignoram, que me desprezam (que talvez me amem, em silêncio; sabe-se lá); mas não resisto a regressar, permito que o meu olhar explore vagarosamente, com deleite, os seus cabelos, os seus ombros. E dou mais um passo: pergunto-me se me teria encorajado caso tivesse tido a coragem de lhe tocar o seio, numa daquelas noites escuras que passávamos na esplanada da praia.
O telemóvel toca, atende. Não sorri, fala pouco, abana a cabeça.
Espio os seus movimentos, as suas reacções; intrometo-me na sua existência, violo-a. E pergunto-me: o que teria sido diferente, se tivéssemos feito amor? Teríamos casado, construindo uma vida em conjunto que ainda hoje perduraria? Ou poderia ter sido um momento inconsequente e facilmente esquecível, apenas sexo, um acontecimento embaraçante, talvez constrangedor, algo que acabaria por nos afastar um do outro?
Pousa o telemóvel, pega no jornal. Lê. Muito tempo depois, sorri.
E eu insisto em sofrer, em aprofundar o delírio; o que teria sido preferível: deixar a amizade perecer lentamente, transformando-se em nada, ou ter feito amor – o que eu desejava e ela também, talvez – e, após saciarmos os corpos, afastarmo-nos, e esquecermo-nos? Pergunto-me: se tivéssemos feito amor, uma única vez que fosse, a sua recordação deixaria de me assombrar, poupando-me à perplexidade desta fantasia persistente e um pouco embaraçante, que durante anos me forçou a exorbitar nostalgias e destilar arrependimentos?
Pergunto-me. Sempre fui exímio a perguntar. Sempre fui dos que perguntam, nunca serei dos que agem.

4.
Agora, há mais gente na esplanada; pares de namorados, que segredam e riem, que se olham com fúria e ansiedade, com volúpia. Falas e eu escuto; olho em volta, distraio-me um pouco, regresso a ti. Por vezes, quando consigo reunir a coragem ou o atrevimento suficiente, permito que o meu olhar divague pelo teu corpo e espreite, durante um fragmento de instante, o teu peito; sob o tecido da camisola que vestes, noto o contorno dos mamilos, ligeiramente erectos, expostos e insinuantes, convidativos; culpa do vento fresco que chega do mar, certamente. Olho e sorvo, engulo; depois fujo, embaraçado. Pergunto-me como seria acariciar os teus seios, beijar os teus mamilos; pergunto-me como seria fazer amor contigo. E cerro os dentes, odiando a minha hesitação, o meu medo. Penso como seria fácil: bastaria prolongar o olhar o tempo suficiente até perceberes o brilho dos meus olhos; nem seria necessário falar, verbalizar o meu desejo; bastaria um certo olhar: e tu perceberias. Mas insisto em hesitar, em temer, em adiar.
Continuas a falar; sorrio, aceno com a cabeça. Sinto-me ligeiramente ausente, um pouco alheado, desligado do mundo, de mim mesmo: como aquela estranha amálgama de pânico e indiferença que se sente quando se adivinha um desmaio, quando se sabe que já nada o poderá suspender, quando se percebe a irreversibilidade. Admito que talvez não seja capaz, que não depende de mim. E, de certo modo, intuo que estou perante a minha última oportunidade: se não te falar esta noite, talvez não haja outra ocasião. Talvez desapareças para sempre da minha vida, deixando-me apenas a tua memória; e a dúvida: consigo imaginar-me daqui dez anos, arrependido e amargo, a perguntar-me como teria sido, se ao menos tivesse arriscado.
Felizmente, a noite será longa. Haverá tempo.

5.
Levanto-me e caminho. Passaram todos estes anos: o tempo necessário para reunir alguma coragem, alguma confiança, alguma indiferença. Passo mesmo à sua frente, com esperança que olhe, que me reconheça. Permitindo que seja ela, uma vez mais, a decidir, a tomar a iniciativa. Não tenho tempo para pensar no que faria no caso de ela não me olhar, não me reconhecer, não me chamar: porque ela olha-me, reconhece-me, chama-me.

6.
De repente, dizes: estou farta disto, vamos passear na praia.
Pergunto-me o que significará este convite, pergunto-me se estarás a tomar a iniciativa. Sigo-te, quase entusiasmado. Com medo.

7.
Afinal, é tão fácil. Conversamos freneticamente, com medo que o tempo passe, sem notarmos a sua passagem; rimos, nervosos e felizes; trocamos olhares, partilhamos saudades; quase sentimos o tempo regredir, o passado regressar. Falamos exclusivamente do que foi, não sentimos qualquer curiosidade em conhecer as nossas vidas actuais, em actualizar os nossos currículos pessoais; por enquanto. Fugimos para o passado e lá permanecemos, irredutíveis: como se ainda estivéssemos naquela praia, onde nos vimos pela última vez.
Retomando.

8.
Caminhámos, em silêncio, até às ondas e sentámo-nos na areia húmida e áspera. Pensei: agora, vais beijar-me.
Mas começas a chorar. Falas de desespero e vazio, de cansaço e medo, de morte; falas de ódio e raiva e fúria, de angústia e dúvida, de solidão. Falas muito e preciso de algum tempo até perceber o significado do que dizes, do que choras; não respondo porque não sei que dizer, porque sei que não te apetece ouvir. Pego a tua mão, que está gelada, e aperto-a. Calas-te e soluças, em silêncio. Um pensamento medonho ocorre-me: precisas apenas de alguém que te escute o choro, que te pegue a mão; não importa quem, calhou ser eu. Aperto com mais força e tu correspondes. Permanecemos assim muito tempo; sou incapaz de adivinhar os teus pensamentos, de sentir a tua dor. Não partilhaste nada comigo, não me revelaste a tua alma; confessaste apenas um desânimo profundo e virulento mas passageiro, um desânimo comum a todos os Homens, o desânimo de viver e não perceber para quê. Sinto frio e desconforto, cansaço. Aguardo. Já respiras com mais calma.
Levantas-te e aguardas que me erga, olhando-me com afeição e ternura; depois, abraças-me, aconchegando o teu corpo no meu. Sinto os teus seios comprimirem-se contra o meu peito e fecho os olhos, espero, sinto; sabendo que nunca voltarei a estar tão próximo. Penso: agora, sou eu que tenho vontade de chorar.
Regressamos, apressados. Em silêncio.
Lembras-te?

9.
Inesperadamente, diz: vem comigo, a minha casa.
Saímos à rua, rindo alto; e logo regressamos, envergonhados: esquecemo-nos de pagar a conta; como um par de adolescentes, tolos.
Separamo-nos com um sorriso, continuamos em carros separados; tudo isto me parece tão estranho e apressado que nem tenho tempo para analisar o que está a acontecer, para antever o que se seguirá; não tenho tempo, nem vontade, para fantasiar, para antecipar; ou para temer. Porque já estamos no elevador do seu prédio; sinto o seu cheiro, recordo-o. Apetece-me abraçá-la; mas aguardo.
Abre a porta, entramos. Um garoto aparece a correr, saído das entranhas do apartamento; depois, uma menina muito pequenina, sorridente, tímida; finalmente, o marido. Apresenta-me a todos, com um sorriso inocente e sincero, com um sorriso feliz.
Desvio o olhar do seu rosto, estendo a mão ao marido. E sorrio.

Dão-se livros # 11

Para compensar a escassez de actualizações, oferecem-se livros. Para quem estiver interessado, basta enviar um email (até 19 de Dezembro) dizendo a quem gostaria de oferecer um dos livros que aparecem aqui ao lado; entre os autores dos email recebidos, serão sorteados livros.

# 64: Contabilidade afectiva

1.
Talvez o segredo do sucesso da sua relação fosse o facto de não falarem. Trocavam um sms para definir horas e locais, encontravam-se na recepção do hotel e subiam juntos, depois de se terem saudado sem grandes voracidades ou entusiasmos. O silêncio no interior do elevador não era propriamente agradável ou reconfortante; contudo, também não era particularmente incómodo. Na verdade, se pretendessem falar – não pretendiam –, que poderiam dizer um ao outro? Que havia a dizer, afinal? Talvez pudessem, por exemplo, conversar sobre o facto de a partir de certa idade – a deles –, o diálogo ser quase sempre um simples e imprescindível veículo para alcançar sexo, para superar os primeiros momentos, para justificar e disfarçar e apressar a motivação principal, muitas vezes exclusiva; sim, poderiam talvez conversar sobre isso e sorrir, agradados com a ironia, com a ilusão de subversão. Mas e depois, quando o assunto se esgotasse e não houvesse nada mais a acrescentar, como seria? Não, era preferível nem começarem. E por isso olhavam-se no espelho, sorriam silenciosamente (um sorriso diferente daquele que dirigiriam a um estranho mas, na verdade, não demasiado diferente), talvez se tocassem. Depois, o elevador teria finalmente chegado ao seu destino, um corredor seria percorrido e uma porta aberta; restaria, então (finalmente), foder. E eles foderiam.

2.
Claro que ela finge os orgasmos, todos eles, desde o primeiro; por que não o faria? É sempre mais fácil – mais confortável – fingir: dá menos trabalho e revela menos, denuncia menos, vulnerabiliza menos. Ele não imagina que é tudo fingido (como poderia imaginar, porque haveria sequer de suspeitar?), na verdade nem repara bem na actuação (na presença?) dela, não pensa nisso (como se a expressão do prazer dela, fingido ou não, tivesse pouca ou nenhuma relevância); numa ou noutra ocasião, notou que ela era um pouco ruidosa, um pouquinho mais do que o aceitável, mas como estão num hotel, anónimos e sós, não importa. A ele jamais lhe ocorreria que o ruído e o esbracejar e o frenesim (a exteriorização) pudesse ser uma distracção, destinada a desviar a atenção e iludir. E ela não é uma mulher especialmente subtil ou perspicaz ou inteligente (apenas uma pessoa normal); contudo, sabe, intuitiva e inconscientemente, que deve exagerar o que sente (ou, se for preciso, inventar; fingir que sente) e, desse modo, evitar intimidades excessivas. Contudo, é sensível (muito sensível) à atenção dele, à ternura que o comportamento dele revela e consubstancia; gosta particularmente quando ele (logo após ela fingir o seu orgasmo), a toca com cuidado e reverência, como se ela fosse frágil e preciosa; quando ele sorri, sereno e saciado, terno; quando ele diz que a ama (não é frequente mas acontece, por vezes). Gosta, muito; claro que não lhe ocorre que ele finge, que a ternura e sensibilidade e amor que ele exterioriza são tão fabricados quanto os seus próprios orgasmos.
Sim, talvez o segredo do sucesso da relação seja o facto de não falarem; caíssem nessa tentação e inevitavelmente acabariam por se denunciar, acabariam por se revelar demasiado; ambos perceberiam o fingimento do outro e cederiam ao desânimo, à revolta, à decepção, ao constrangimento. E depois, logo depois, viria o afastamento; a separação (mais uma).

3.
Ou talvez seja ao contrário: talvez ambos saibam que o outro finge; talvez ambos tenham percebido exactamente aquilo de que o outro necessita e lho ofereçam, não por generosidade mas porque assim o outro se sentirá em dívida, impelido a também oferecer algo. Talvez uma relação madura e sustentável, adulta, seja apenas isso: uma troca. Uma alternância entre débitos e créditos, uma contabilidade afectiva, uma transacção de sentimentos e expectativas e toques e orgasmos e tudo o mais que forma e alimenta a intimidade.
Sim, dirá a psiquiatra mais tarde, toda essa racionalização é muito conveniente e confortável; mas o que acontecerá quando um dos dois deixar de se satisfazer com fingimentos?

4.
(Possibilidade teórica: e se fosse ao contrário? Se ele buscasse amor e não apenas quem lhe amparasse as ejaculações? Se ela buscasse prazer, apenas prazer? Como seria?)

5.
E se eles efectivamente acabassem por conversar, poderia ser assim:
- Eu sei, compreendo o que sentes.
- Não sei se compreendes.
- Compreendo, claro que compreendo. Mas diz-me: que posso fazer? Diz-me, porque eu não sei. Fingir um orgasmo é algo que posso fazer, que consigo fazer.
- Pois consegues.
- Agora, sentir um orgasmo é que eu não sei como fazer. Gostava muito, não imaginas como gostava de sentir, sentir mesmo a sério. Senti-lo, simplesmente. E depois oferecer-te parte dessa sensação, agradecer-ta. Mas não consigo, não sei como se faz. Desculpa, mas não sei que mais dizer.
- Suponho que entendo. Ou tenho que entender, o que vai dar ao mesmo. Afinal, é verdade que também não sei como sentir amor por ti. Fingi-lo é fácil mas senti-lo, efectivamente senti-lo, confesso que…
- Desculpa mas de que estás a falar? Fingir amor? Queres dizer que…

6.
Claro que é melhor manterem-se calados. Claro que sim. Continuar a acreditar (a fingir) que fingimentos é quanto basta, é melhor que nada. Depois, chega sempre o momento em que o silêncio se torna um pouquinho mais desconfortável que antes; e então, quase de repente, ambos sentem pressa de partir, de estar noutro lado qualquer, com outra pessoa; e ambos fingem (quase em simultâneo, o que é curioso) um qualquer compromisso, uma urgência repentina, um pretexto que apresse a despedida; e convergem num fingimento conjunto, comum aos dois: a separação é o único momento em que estão em verdadeira empatia, próximos.
Mas, por enquanto, ele ainda ressona ligeiramente enquanto ela pensa como será quando tiver um orgasmo a sério, se sentirá (como tem sido hábito) sono e enfado e vontade de tomar banho, necessidade de se desligar; ou se será completamente diferente e inimaginável.
O hotel está muito tranquilo e silencioso, nada interrompe ou incomoda a languidez da tarde, nada lembra ou denuncia a pressa e o frenesim e a voracidade inerentes à vida quotidiana, à vida lá de fora, à vida além-hotel; um intervalo, pensa ela, sabe sempre bem. Sempre.
Temos que repetir isto com mais frequência, diz ela quando ele acorda. E não dirão mais nada, até que cada um deles entre no seu automóvel e zarpe em direcção à respectiva família.

# 63: O ensaio (último momento)

(A Mulher desvia o olhar, talvez arrependida de ser ter revelado demasiado. A Irmã olha-a, com surpresa, com temor; com respeito, também. O silêncio é longo, desconfortável.)
IRMÃ (na sua voz normal, esforçando-se por parecer descontraída): Chiça, isto foi um bocado violento.
MULHER (forçando um sorriso mas desviando o olhar): Desculpa, deixei-me levar um bocado longe de mais.
IRMÃ (encolhendo os ombros e espreitando o telemóvel; num tom excessivamente informal): Bom, esse é que é o interesse deste teu jogozinho, não é? (Pausa breve. Recuperando o tom sério, preocupado.) Mas tens aí muita porcaria dentro, muita coisa a precisar de sair cá para fora. Nunca pensei, mana. (Pausa breve.) Nunca conversam sobre estas coisas, sobre vocês? Isso faz-me um bocado de impressão.
(A Mulher encolhe os ombros, talvez ligeiramente envergonhada. A Irmã aguarda uma resposta, um comentário.)
MULHER (num tom pensativo, distante): Conheces aquela sensação de estar a falar com alguém e de repente perceberes que a pessoa não está a ouvir, que não ouviu uma única palavra do que disseste nos últimos cinco minutos? (A Irmã acena com a cabeça, enquanto brinca com o telemóvel.) E logo depois, vem-te assim uma espécie de inspiração divina e percebes que isso já aconteceu mais vezes, sem que tu suspeitasses. Desconfias que se calhar até acontece desde sempre. (Pausa breve.) Já te aconteceu? Perceberes que se calhar nem faz grande diferença, que afinal interessa pouco se és ouvida ou não, que se calhar não és ouvida porque não tens nada de especial para dizer. (Olhando a Irmã directamente, quase com desafio.) Sabes do que estou a falar? Fazes ideia?
IRMÃ (pousando o telemóvel e olhando a Mulher, aceitando o desafio): Acho que não. (Olham-se, um pouco surpreendidas com a frontalidade da resposta.) Acho que nunca aconteceu, acho que não suportaria viver uma relação em que me sentisse irrelevante. (Pensativa.) Apaixono-me e desapaixono-me com muita facilidade, como sabes. Vou andando de homem em homem e sabe bem assim porque com cada um vou tendo coisas novas e diferentes e complementares, de cada um vou recolhendo qualquer coisa especial. Nem imaginas como sabe bem ir coleccionando, ir explorando, ir descobrindo. (Num tom carinhoso.) Sabes que essa coisa do homem perfeito e do amor eterno não é para mim, não me interessa o conhecido, a repetição, a previsibilidade. (Sorri.) Mas também não tenho a pretensão de ser o amor eterno de alguém. Aborreço-me com os homens, da mesma forma que eles se aborrecem comigo. É natural, acho eu. Acontece com toda a gente.
MULHER (tom triste, agastado): É, com toda a gente.
IRMÃ: Esquisito é que a partir do momento em que isso acontece, não se reaja, não se tente seja o que for para contrariar uma situação que não é confortável nem recompensadora, que não está a funcionar. Que não se procurem estratégias, se inventem mecanismos. Ou que não se siga em frente, noutro rumo. (Pausa breve.) Isso é que me faz confusão. Não se estar bem mas não se fazer nada para melhorar.
MULHER (tentando sorrir mas sem disfarçar a tristeza): Isso é o que diz a psiquiatra. (Pausa breve.) O que ela não percebe, como tu não percebes, é que não me interessa especialmente andar por aí a experimentar este e aquele, a testar homens. Já passei essa…
IRMÃ (interrompendo, aborrecida): Não digas que é uma fase, que eu passo-me já. Detesto essa condescendência de irmã mais velha.
MULHER (calma, sem hostilidade nem arrogância): Bom, para mim foi uma fase. Passei por ela e não quero voltar. Dá-se umas fodas e aprende-se umas coisas, chora-se pouco. (Encolhendo os ombros, desviando o olhar.) Ok, tem piada. Mas não pode durar para sempre; não chega. É preciso mais. É preciso investir em…
IRMÃ (interrompendo, irritada): Investir em quê? Num gajo que não te ouve? Que não quer saber o que pensas, o que sentes? Tem paciência mas prefiro não andar cheia de ilusões e de expectativas que se vão frustrando uma a uma; de fantasias com companheirismos e almas gémeas e essas porras todas. (Pausa breve.) Prefiro foder como deve ser, o que já não é mau.
(A Mulher sorri, contrariada mas incapaz de não o fazer; abana a cabeça, como se desistisse.)
IRMÃ (conciliatória): Tu sabes que eu sempre gostei do teu marido, que sempre gostei de vos ver juntos. Que de vez enquanto até te invejo, só um bocadito. Sabes isso. (Pausa breve.) Mas não fazia ideia que tinhas uma relação frustrada…
MULHER (interrompendo, magoada): Não tenho nada uma relação frustrada.
IRMÃ (defensiva): É o que parece, depois deste teu teatrinho.
(Sem que notassem, aproximou-se da mesa uma terceira mulher que, com gestos decididos e peremptórios, puxa uma cadeira e senta-se, surpreendendo-as.)
AMIGA (sorrindo): Qual teatrinho?
MULHER (olhando a Amiga, quase assustada): Que susto, fogo. Sempre a mesma coisa. (Tentando recompor-se.) Por onde tens andado, estás atrasada.
AMIGA (encolhendo os ombros): Perdi-me numa lojinha. Temos que passar por lá, depois. Quero que me dês uma opinião.
(A Irmã pegou no telefone e fez uma chamada, aguardando que atendam. Pressente-se algum desconforto em relação à Amiga.)
AMIGA (olhando as chávenas): Apetecia-me um café. Ainda temos tempo?
MULHER (arrumando o telemóvel na bolsa, com gestos decididos): Acho que não. Já estava para ir sozinha.
AMIGA (sem pressa de se levantar): Estavam a falar de quê, afinal?
MULHER (dirigindo-se à Irmã, que aguarda com alguma ansiedade que lhe atendam a chamada): Ficas?
(A Irmã acena que sim, muda o telemóvel de orelha; a Mulher levanta-se e olha para a Amiga.)
MULHER (dirigindo-se à Amiga): Então?
AMIGA (levantando-se, contrariada): Qual é a pressa?
(A Mulher aproxima-se da Irmã e dá-lhe um beijo algo tímido, no rosto; a Irmã parece estremecer, surpreendida.)
MULHER (começando a afastar-se, dirigindo-se à Irmã): Depois falamos.
AMIGA (acompanhando a Mulher; dirigindo-se à Irmã, sem a olhar): Tchau. (Falando à Mulher, sorrindo.) Há séculos que não te via com saia.
(As duas mulheres afastam-se e desaparecem. A Irmã permanece sentada, agarrando o telemóvel com força e olhando em frente.)


Edward Hopper - Chop suey

# 63: O ensaio (segundo momento)

(A Irmã abana a cabeça, suspira; olha o relógio, pega o telemóvel que está no cima da mesa, volta a pousá-lo; ajeita o cabelo, de forma inconsciente. A Mulher observa-a, sorrindo.)
IRMÃ (fingindo-se exasperada): Ensaiar o pedido de divórcio. (Ri.) E como se faz isso?
MULHER (sorrindo): Fácil. Só tens que fingir que és o meu marido. E ires reagindo como achas que ele reagiria.
IRMÃ (abanando a cabeça): És tão infantil, tu. (Pausa breve. Verdadeiramente curiosa.) E que esperas conseguir com uma palhaçada dessas?
MULHER (irónica): Divertir-te.
IRMÃ (rindo): Estúpida. (Volta a pegar o telemóvel, confirma o ecrã; depois, espreita a sua chávena.) Apetece-me mais chá?
MULHER (abanando a cabeça): Estás à espera de alguma chamada?
IRMÃ (num tom pesaroso, triste): Já me contentava com uma mensagem. (Fica a olhar para o telemóvel, desconsolada.)
(Silêncio. As duas mulheres parecem momentaneamente distantes, quase ausentes; esquecidas da outra.)
IRMÃ (forçando-se a rir): Vamos lá, então. (Tosse. Fala numa caricatura de voz masculina.) Olá querida. Como foi a tua tarde? (Forçando o tom de paródia na voz.) Sabes o que me apeteceu todo o dia? (Tentando conter o riso.) Que me fizesses um broche. (Ri, descontrolada.)
MULHER (chateada mas incapaz de não rir): Vai-te lixar.
IRMÃ (rindo). Disseste que era para me divertir.
(Olham-se, enquanto o riso se vai dissipando lentamente. Permanecem em silêncio, confortáveis.)
IRMÃ (tom de voz masculino, incongruente, mas forçando-se a permanecer séria): Pareces cansada, amor. O dia foi duro?
MULHER (contrariada): Sabes bem que ele não me trata por amor.
IRMÃ (exasperada, no seu tom de voz normal): Queres fazer isto ou não? (Pausa breve.) Tens que me dar algum espaço, que diabo. (Olhando para o telemóvel.) Vá lá, que está a fazer-se tarde para mim. (Pausa breve. Num tom prático, decidido.) Faz de conta que já jantámos e estamos a ver o noticiário. O garoto… (Interrompendo-se.) Onde costuma estar o meu sobrinho, enquanto vocês discutem?
MULHER (irritada): Nós não costumamos discutir. O problema é precisamente esse, como sabes muito bem. (Breve hesitação; tom desconsolado, rendido.) Quem não fala não pode discutir. (Pausa breve. Percorre o olhar pela sala, como se sentisse desconfortável, aprisionada.) O menino está sempre no quarto dele, entretido com isto ou aquilo. Longe. (Sorriso triste.) Para não interromper o nosso silêncio.
IRMÃ (tentando parecer decidida, prática.) Ok. Estão os dois no sofá, a olhar para a televisão, em silêncio. Sem se tocarem. Aquele chato das orelhas grandes a apresentar as notícias do governo, todo exaltado. Ou aquela que veste mal e toda a gente diz que é sexy, não sei porquê. (Disfarça um sorriso.) O meu sobrinho no quarto a jogar playstation, aqueles jogos de carros de que ele gosta. (Pausa breve. Tom exageradamente subserviente.) Parece-te bem assim?
(A Mulher acena com a cabeça, tentando permanecer séria, tentando não sorrir.)
IRMÃ (afinando a sua imitação de voz masculina): Então começa lá. Livra-te de mim.
(Silêncio. De repente, surge um incómodo indefinido, uma tensão entre as duas. A boa disposição dos momentos anteriores desaparece por completo.)
MULHER (num tom hesitante, empertigado): Desculpa, queria falar uma coisa contigo.
IRMÃ (no seu tom de voz normal; irritada): Porra, que início mais merdoso. (Fugindo ao olhar furioso da Mulher.) Desculpa. (No tom de voz masculino, cada vez mais afectado, mais inverosímil.) Continua.
MULHER (hesitante): Acho que precisamos de falar.
IRMÃ (revirando os olhos e abanando a cabeça, não se contendo): Chiça, és pior que um filme americano.
MULHER (ignorando o comentário): Há coisas que não estão bem, que precisamos de resolver.
IRMÃ (voz masculina e grossa, tentando aparentar distracção, quase indiferença): Há algum problema com o garoto?
MULHER (irritada): Com o garoto, não. (Pausa breve.) Não é com o garoto. É entre nós.
IRMÃ (voz masculina): Nós?
MULHER (irritada mas esforçando-se por manter a calma): Sim, nós. Ou achas que está tudo bem?
IRMÃ (voz masculina): Que queres dizer com isso? Claro que está tudo bem.
MULHER (surpreendida): Achas mesmo? (Incrédula.) Acreditas nisso? Acreditas que este casamento ainda é feliz?
IRMÃ (voz masculina): Ainda? Que queres dizer com ainda? (Pausa breve.) Claro que é um casamento feliz. Eu sou feliz. (Hesitando momentaneamente.) Porquê, tu não és?
MULHER (após um silêncio, num tom tímido): Não sei. (Pausa muito breve.) Não sei se sou.
(Pausa. Espreitam-se mas logo desviam o olhar.)
IRMÃ (voz masculina): Desculpa. Apanhaste-me de surpresa. (Pausa breve.) Que queres dizer com isso? Desculpa, mas não percebo. Acho que estou chocado. (Pausa breve.) Não és feliz?
MULHER (hesitante, num tom sonhador, como se pensasse alto; completamente absorvida pela fantasia): Desculpa, não queria magoar-te. Mas nunca falamos sobre isto. Partes do princípio que está tudo bem, de que não há lugar a dúvidas nem hesitações, a perguntas. De que não há nada para falar. (Pausa breve.) E faz-me falta falar, não imaginas quanto.
IRMÃ (voz masculina): Falar? Falar o quê? (Hesitação.) Nós falamos. Fartamo-nos de falar.
MULHER (tentando não se irritar): Não, acho que não nos fartamos de falar. Mas se calhar, até está tudo bem. E a única coisa que falta é mesmo isso: falar um pouco sobre tudo isto, para perceber que as coisas afinal não estão más. Não achas? Enquanto estamos para ali às voltas na cama, sem conseguir dormir, vamos pensando e pensando e tudo parece assustador e sem solução, tudo parece perdido. Mas depois, se falamos um bocado sobre isso, a acompanhar o primeiro cigarro da manhã ou assim, se falamos com alguém que está verdadeiramente interessado em ouvir, as preocupações começam logo a parecer um bocadinho exageradas, um bocadinho apalermadas. Até parece que só por verbalizarmos os nossos medos eles perdem logo um bocado do seu poder.
IRMÃ (voz masculina): Desculpa. A culpa é minha. (Hesitação.) Não fazia ideia que te sentias assim.
MULHER (irritada, subindo o tom de voz): Claro que não sabias. (Olhando em redor, envergonhada. Baixando a voz.) Claro que não sabias. Esse é que é o problema. Eu amo-te e tu amas-me mas a verdade é que, de repente, esse amor passou a ser uma espécie de entidade separada, algo que existe sem a nossa intervenção, sem o nosso esforço. Existe e pronto. (Pausa breve. Confusa.) Amámo-nos e isso foi tão forte que o amor passou a ser auto-suficiente. Independente de nós, da nossa vontade. Uma espécie de amor de subsistência, ou assim.
IRMÃ (voz masculina): Amor de subsistência? Não percebo onde queres chegar. Não percebo o que estás a tentar dizer-me.
MULHER (baixando ainda mais a voz, ignorando a interrupção): Amamo-nos, sim. Mas já não nos conhecemos. (Pausa breve.) E isso é que é assustador, isso é que me atormenta. (Aproximando-se, como se estivesse mesmo em frente do marido): Acredito que nos amamos e que esse amor é verdadeiro e forte e eterno e tudo isso. Mas amor não é felicidade. Amar e ser amado não é suficiente, não é isso que é ser feliz.
(A Mulher desvia o olhar, talvez arrependida de ser ter revelado demasiado. A Irmã olha-a, com surpresa, com temor; com respeito, também. O silêncio é longo, desconfortável.)

# 63: O ensaio (primeiro momento)

(Duas mulheres jovens sentadas numa mesa de pastelaria, frente a frente; bules de chá e pedaços secos de torrada pela mesa; dois telemóveis. As outras mesas estão desocupadas.)
MULHER (num tom falsamente desprendido, algo receoso): Preciso que me faças um pequeno favor.
IRMÃ (tom decidido e confiante, sem hesitações calculistas): Diz lá.
MULHER (deixando o olhar vaguear, embaraçada): Quero que me ajudes a treinar o pedido de divórcio.
IRMÃ (rindo, surpreendida mas sem antagonismo): Treinar o quê?
MULHER (sorrindo, envergonhada): O pedido de divórcio.
IRMÃ (abanando a cabeça, ainda rindo): Agora é que vai? É desta vez?
MULHER (encolhendo os ombros): Duvido. (Embaraçada.) É só para ensaiar. (Olhando em redor, desconfortável.) Ver qual é a sensação.
IRMÃ (subitamente séria, apreensiva): As coisas pioraram?
MULHER (hesitante, após uma breve pausa): Não, acho que não. (Sorrindo, sem vontade.) Até melhoraram ligeiramente, nos últimos dias.
IRMÃ (simultaneamente incrédula e satisfeita): A sério? Melhoraram como?
MULHER (incomodada): Sei lá, melhoraram. Não me apetece falar disso agora. (Pausa breve, desconfortável.) Às vezes andas tão cansada que só a intensidade do teu desejo para que as coisas melhorem é suficiente. (Encolhe os ombros.) Queres tanto que melhorem que melhoram mesmo, ou parece que melhoram. (Pausa breve.) O que vai dar ao mesmo, não é?
IRMÃ (desconfortável com a súbita agressividade da interlocutora, falando num tom hesitante): Então para que serve esse disparate de ensaiar pedidos de divórcio? (Pausa breve. Correspondendo inconscientemente com um tom igualmente hostil.) Não te percebo. Por um lado queres que as coisas resultem, nem que seja à força; por outro pareces ansiar por que terminem, de uma vez. (Pausa breve.) Em que ficamos?
(A Mulher desvia o olhar, desconfortável, talvez agastada; a Irmã olha-a com insistência.)
IRMÃ (tom acusatório, vagamente descontrolado): Às vezes, pare que tens vivido numa ilusão de casamento, entretida com uma espécie de ilusão de felicidade. Agora queres um divórcio de ilusão? (Pausa breve.) Foda-se, que me parece ilusão a mais.
(A Mulher mantém-se alheada, mas não necessariamente incomodada; como se estivesse habituada a reprimendas da Irmã.)
IRMÃ (num tom pesaroso, estendendo a mão e acariciando-lhe o braço): Desculpa.
MULHER (magoada, tentando parecer indiferente): Não faz mal.
IRMÃ (tom apologético): Sabes que isto irrita-me como tudo. A tua hesitação. A forma como adias e adias e adias. (Sorrindo, com compreensão; tentando compensar a agressividade anterior.) A tua maldita indecisão.
(A Mulher deixa-se acariciar pela Irmã, sem corresponder, quase sem reparar; não a olha; parece momentaneamente ausente, imperturbável. Confiante nas suas certezas.)
MULHER (num tom rígido, com se recitasse algo): A felicidade não é ilusão. Nem sempre. (Pausa breve.) Muitas vezes, não é. (Pausa breve.) Sabes bem.
IRMÃ (irritada): Está bem. Às vezes, não é ilusão. (Retirando a mão.) Mas e as outras vezes? A maior parte das vezes?
(A Mulher encolhe os ombros, como se desinteressada da conversa.)
IRMÃ (num tom quase impertinente): Basta ser feliz três dias por mês. E os outros vinte e sete?
MULHER (encarando a Irmã, subitamente interessada no diálogo): Três dias? Se eu fosse feliz três dias todos os meses, não me queixava de nada.
(Olham-se e riem em simultâneo. A tensão desaparece de imediato. Permanecem em silêncio, sorrindo.)
IRMÃ (curiosa, ainda sorrindo; falsamente despreocupada): Este mês já tiveste os teus três dias?
MULHER (subitamente alegre e despreocupada): Só um. Mas valeu por um monte deles.
IRMÃ (atenta): Conta lá.
MULHER (depois de uma hesitação): Hoje, não. Logo vou estar com a psiquiatra e não me apetece nada estar desbobinar a história toda duas vezes seguidas. (Estende a mão acariciando o braço da Irmã, tal como ela fizera momentos antes.) Desculpa lá.
IRMÃ (sorrindo): Estúpida. Pagar setenta euros para…
MULHER (interrompendo): Oitenta e cinco.
IRMÃ (ignorando a interrupção): Ouvires exactamente as mesmas coisas que eu te posso dizer de borla.
MULHER (num tom arreliador): Mas ela diz de uma forma mais bonita.
IRMÃ (correspondendo ao tom falsamente provocatório): E por que não lhe pedes a ela para te ajudar a ensaiar o divórcio?
MULHER (sorrindo): Isso é privilégio das irmãs mais novas. (Retira a mão do braço da Irmã.)
(A Irmã abana a cabeça, suspira; olha o relógio, pega o telemóvel que está no cima da mesa, volta a pousá-lo; ajeita o cabelo, de forma inconsciente. A Mulher observa-a, sorrindo.)

Para quando novos contos?

Quando calhar, que por estes dias (meses) não se tem escrito muito (nada).

Dão-se livros # 10

Os livros seguiram para a Patrícia. Obrigado a todos pela participação.

Obrigado, Gato (outra vez)

O Gato – Grupo de Teatro voltou a apresentar a encenação que Pedro Wilson criou a partir do livro Chega de Fado, desta vez em colaboração com o Operário Caffé Club e a livraria Livros & Companhia (Marinha Grande). Mudou o cenário mas a emoção repetiu-se. Obrigado.
(Fotos de Sílvia Alves)







Dão-se livros # 10

Regressa o livrinho de borla; para o receber, basta espreitar o ebook Apenas de Passagem e sugerir a palavra que melhor o defina. Entre as respostas chegadas até final de Julho, será sorteado alguém que receberá um dos livros da Deriva (Gastar Palavras, Os Mundos Separados que Partilhamos, Silêncios Entre Nós ou Chega de Fado) e ainda uma raridade: um exemplar de Miniaturas.

Apenas de Passagem

A exposição "Apenas de Passagem" de Tina Azinheiro já pode ser visitada na Livraria Arquivo (Leiria) e o ebook (fotos + estórias) será disponibilizado um destes dias. Por enquanto, fica mais um exemplo.





(Permanecemos há algum tempo num café, entretidos a olhar quem nos rodeia. Algumas mesas estão ocupadas por pessoas que conversam em voz baixa, sem se olharem; ainda não se ouviu um riso desde que chegámos. Mesmo no meio do café, um velho instalou-se confortavelmente a ler, completamente abstraído. Os dois funcionários permanecem na entrada do café, invejando quem passa lá fora.)
DEUS (apontando o velho): Já reparaste como permanece ali completamente imperturbável e indiferente ao que o rodeia? Que estará a ler?
EU (num tom indiferente mas que poderá parecer provocador): Talvez nem esteja a ler nada.
DEUS (irritado): Então não vês como está concentrado no livro?
EU (tom misterioso): Está a olhar para o livro; isso não significa que esteja a ler.
DEUS (tom irónico, quase corrosivo): Achas que está apenas a olhar para as letras?
EU (enfático): Acho.
DEUS (irritado): Mas porquê?
EU (num tom cálido): Porque não sabe ler.
DEUS (surpreendido): Não sabe ler?
EU (indiferente): Não.
DEUS (curioso): Então por que motivo passou a manhã no meio deste café, a fingir que lê?
EU (sorrindo ligeiramente): Para recordar.
DEUS (interessado mas algo incrédulo): Recordar? Que queres dizer com isso? Recordar o quê?
EU (tom monocórdico e agastado; como se me custasse revelar o segredo do velho): Está a regressar ao seu passado, a revivê-lo. A reencontrar-se consigo mesmo, quando era criança.
DEUS (impertinente): Fingindo que lê?
EU (tom defensivo): Não precisa de ler porque recorda as frases, uma a uma; está simplesmente a revivê-las, ouvindo-as ecoar na sua mente. Escutando-as na voz da sua mãe. (Após uma hesitação, baixando a voz.) Porque esse era um dos livros que ela lhe lia, quando ele era menino.
DEUS (depois de um longo silêncio, desviando finalmente o olhar do velho): Está a recordar a mãe?
EU (num tom quase solene, que me irrita um pouco): A despedir-se, talvez. Ou a completar o ciclo da sua vida, regressando ao princípio. Deixando-se transformar imperceptivelmente em criança, na criança que foi. (Permanecemos em silêncio, envolvidos pelo burburinho do café.) Antes ouvia a voz da mãe e fingia que ele próprio lia, para se sentir adulto; agora escuta o murmúrio distante da mãe e finge que lê, para se sentir durante um fugaz momento a criança que foi.
DEUS (num tom ternurento, que nos embaraça): Não é um velho que ali está, é isso que queres dizer?
Eu (baixando a voz): É uma criança disfarçada de velho. Uma criança que viveu tanto tempo disfarçada de adulto que conquistou o direito de voltar a ser criança.
(O velho permanece completamente alheado ao que o rodeia, concentrado no livro que segura nas mãos; mas os seus olhos, quase fechados e protegidos pelos óculos, parecem não se mover. Espreitamo-lo, atentos e curiosos, reparando que ele parece esquecido da necessidade de mudar a página.)
DEUS (incapaz de não olhar o velho): Mas por que motivo está aqui, no meio deste café? Porque não se refugia em casa, num local secreto e íntimo, privado?
EU (um pouco brusco): Porque deseja estar só. (Num tom mais conciliador.) E onde nos sentimos verdadeiramente sós? Quando estamos no meio da multidão, quando estamos rodeados de pessoas que não reparam em nós, não se interessam por nós, que não percebem que existimos.
(Deus espreita-me, apreensivo e perscrutador; mas ignoro-o, decidindo não responder ao seu olhar interrogativo.)

Apenas de Passagem: Exposição + Ebook

A exposição de fotografia de Tina Azinheiro “Apenas de Passagem” será inaugurada no dia 3 de Julho, na Livraria Arquivo (Leiria); no mesmo dia, será apresentado um ebook contendo reproduções das fotografias expostas e vinte contos originais que escrevi a partir de cada uma das fotos.
Por agora, fica mais um exemplo.



(O homem está sentado num dos troncos, numa postura descontraída. Como se assim estivesse desde sempre, como se assim pretendesse continuar indefinidamente.)
DEUS (desinteressado): Que tem de especial?
EU (sem retirar os olhos do homem): Repara no que faz, sempre que se aproxima alguém.
(Ambos o espiamos; uma mulher aproxima-se e passa, apática e distante.)
EU (entusiasmado): Viste?
DEUS (algo agastado): Não. O quê? De que falas?
EU (paciente, talvez um pouco sobranceiro): O sorriso.
DEUS (após uma breve hesitação): Sim, sorri sempre que alguém se aproxima.
EU (excitado): Pois sorri. Mas ninguém repara nele; ninguém vê os sorrisos.
DEUS (olhando o homem com mais atenção, mais interesse): E apesar disso, sorri.
(Mais alguém que se aproxima; ambos nos preparamos para apreciar o novo sorriso do homem, expectantes.)
EU (pensativo): Porque sorrirá?
DEUS (num tom sonhador, que me surpreende): Talvez porque não consiga evitar fazê-lo.
EU (após uma longa pausa): Mas não faz sentido.
DEUS (sorrindo, com tristeza): Sentido? (Olha-me, com curiosidade; penso que irá dizer algo mas percebo a sua hesitação, a sua desistência. Mantém-se em silêncio durante muito tempo, contemplando o horizonte. Depois acrescenta, num tom displicente; ou provocatório?) Talvez seja essa a sua função.
EU (admirado): Sorrir?
DEUS (num tom introspectivo, como se falasse consigo próprio): Sim, sorrir sempre. (Hesita. Embaraçado?) Até que alguém precise desse sorriso.
EU (curioso): Mas que faria esse alguém com o sorriso?
DEUS (olhando-me): Que faria? Corresponder-lhe-ia. (Sorri.) É para isso que servem os sorrisos, para que alguém sorria de volta.
EU (incapaz de sorrir, de inventar um sorriso, de fingi-lo): Ou talvez a motivação seja outra.
(Permanecemos em silêncio; gostaria de corresponder ao seu sorriso mas não consigo fazê-lo.)
DEUS (perscrutador, ignorando o meu momentâneo e despropositado agastamento): Qual?
EU (num tom fantasista): Talvez sorria simplesmente à espera que alguém lhe pergunte por que motivo está a sorrir.
DEUS (surpreendido; verdadeiramente curioso na minha resposta): E que responderia, se alguém perguntasse?
EU (olhando o homem e reparando como a sua expressão é apática e impassível quando não está a sorrir): Não faço ideia. Talvez algo banal, talvez algo genial. Talvez nada.
(Ambos olhamos o homem, estranhando que ninguém se aproxime há algum tempo, que ninguém venha e lhe proporcione uma oportunidade de sorriso.)
DEUS (surpreendendo-me): E se experimentássemos perguntar-lhe?
(Muito tempo depois, sou eu o primeiro a levantar-me.)

Obrigado, Gato

Chega de Fado, interpretado pelo Gato – Grupo de Teatro, com encenação de Pedro Wilson. Leiria, 17 de Abril de 2010.
(Fotos de Sílvia Alves)







Apenas de Passagem: Exposição + Ebook

A exposição de fotografia de Tina Azinheiro “Apenas de Passagem” será inaugurada no dia 3 de Julho, na Livraria Arquivo (Leiria); no mesmo dia, será apresentado um ebook contendo reproduções das fotografias expostas e vinte contos originais que escrevi a partir de cada uma das fotos.
Por agora, fica um exemplo.


DEUS (apontando a mulher que caminha lentamente na rua, à nossa frente): Que transporta ela naquele saco, sabes?
EU (olhando-o com curiosidade, perguntando-me se estará mesmo interessado em saber): Os seus sonhos.
(Continuamos a avançar, em silêncio. A mulher parece ter alguma dificuldade em sustentar o peso do saco que transporta às costas; mas ninguém se aproxima para a ajudar, ninguém a olha sequer.)
DEUS (olhando o saco): Não percebo. Que queres dizer com isso?
(Apetece-me sorrir; mas não o faço.)
EU (num tom sério, pedagógico; talvez um pouco condescendente): É uma tradição antiga que existe nalgumas aldeias desta parte do país; quando aprendem a escrever, as crianças são encorajadas a registar em pedaços de papel aquilo que mais desejam, aquilo com que sonham. (Pausa breve.) Aquilo que esperam do futuro.
DEUS (interrompendo, ligeiramente agastado): Para quê?
EU (encolhendo os ombros, num tom algo displicente): Quem sabe, talvez apenas para exercitarem a escrita. Mas há crianças que vão crescendo e mantêm o hábito. (Incapaz de contrariar o tom provocatório.) Talvez apenas para que com a passagem do tempo e a dureza da vida não esqueçam aquilo que é importante. O que as motiva a viver.
DEUS (agastado): As pessoas não vivem apenas para concretizar os seus sonhos, as suas fantasias.
EU (num tom desinteressado): Talvez não. Por isso é que para muitas pessoas vai bastando sonhar; vão simplesmente acumulando sonhos, esquecendo-se ou desinteressando-se de os concretizar. (Pausa breve.) Basta a possibilidade.
DEUS (após uma hesitação, apontando a mulher que se afasta lentamente): Como ela?
EU (encolhendo os ombros): Há pessoas que acreditam que aquilo que possuem de mais precioso nas suas vidas são os sonhos que foram acumulando, tudo aquilo que ambicionaram e desejaram para si mas não alcançaram. (Observando a marcha da mulher.) E ainda persiste a tradição de oferecer os sonhos de toda uma vida, simbolicamente guardados em pedaços de papel, ao primeiro neto que nasce na família.
DEUS (ligeiramente comovido): Uma espécie de herança, de passagem de testemunho.
EU (num tom sério, quase solene): Aquilo que de mais precioso possuem. A possibilidade de uma vida melhor.
(Ficamos a ver a mulher afastar-se, arrastando-se com esforço. Quando acaba de cruzar a praça, imobiliza-se durante um momento, talvez para se orientar.)
DEUS (impressionado): E acumulou todos estes sonhos? (Abanando a cabeça, ligeiramente triste.) Quilos e quilos de sonhos.
(Observamos a mulher, atentos e respeitosos, certos de que em breve seguirá pela travessa que conduz à maternidade, onde o recém-nascido a aguardará. Mas quando finalmente retoma a caminhada, a mulher avança na direcção do mercado, onde entra sem hesitação. Deus olha-me, confuso e interrogador; e quase se indigna, quando depara com o meu sorriso e percebe a sua ironia. Quando se descobre enganado.)

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Feira do Livro do Porto

13 de Junho, 17h30 | Auditório APEL
Leituras Cruzadas - Fernando Pinto do Amaral e Paulo Kellerman

Sítio oficial

Esboço # 88

Prazo de validade expirado.

Esboço # 87

Prazo de validade expirado.

17 de Abril de 2010

Absolutamente inesquecível.
Obrigado ao Gato e ao Pedro Wilson. E a todos os que vieram.

Dão-se livros # 09

A proposta deste mês é indicar um bom motivo para não aparecer na apresentação de Chega de Fado (dia 17 de Abril, na Livraria Arquivo, em Leiria); entre todos os que responderem à provocação, será sorteado o vencedor do livro. Valem as respostas chegadas até 17 de Abril.

Leiria, 17 de Abril

A quem não bastarem os argumentos literários, eis os argumentos gastronómicos (cortesia da Lídia):

- Mini muffin de laranja com peru fumado e molho arando
- Caixinhas de milho com ceviche de camarão, manga e lima
- Mini croquete monsieur
- Empadinhas picantes de chouriço
- Biscoito de queijo
- Mini folhado de alheira
- Tranche de café e chocolate com creme de queijo e framboesa
- Bolinhos de coco
- Bolinhos de gema
- Quadrados de chocolate e caramelo
- Muffins de chocolate com ganache
- Fruta

Bom apetite.

Convite


Apresentação de
Chega de Fado
(Deriva Editores)

17 de Abril (Sábado) - 18h

Livraria Arquivo
Com a presença d’ O Gato - Grupo de Teatro
(Encenador: Pedro Wilson)

O convívio (e o lanche / jantar / ceia) continua no
Bar Alinhavar
Para todos os amigos e leitores que queiram aparecer

Arquivo - Av. Comb. da Grande Guerra (Leiria)
Alinhavar - Largo de Infantaria 7 (Leiria)

Um romance!?

Quem sabe...

Esboço # 85

(Ela está na casa de banho, em frente ao espelho, a maquilhar-se; ele aproxima-se e olha-a.)
ELE (tom impaciente): Despacha-te lá, que estamos atrasados. (Afasta-se, sem aguardar uma resposta.)
(Ela suspende o gesto e olha-se ao espelho, apática; depois, sem desviar o olhar do seu reflexo, pousa o batom. E assim permanece, estática, até ele regressar um pouco mais tarde.)

ELE (de novo à porta, irritado): Então?
ELA (tom monocórdico e distante, sem desviar o olhar do espelho, de si própria): Todos os sábados é a mesma coisa, semana após semana após semana. Já reparaste? (Ele olha-a com apreensão.) Jantamos fora, num restaurante que escolhes e onde passo duas horas a mastigar e a sorrir e a ouvir-te. Depois, levas-me a um bar qualquer, onde te exibes fingindo que sabes cantar, sempre as mesmas músicas, porque todos os sítios têm a porcaria dos mesmos cd’s de karaoke; e eu a ver-te actuar, a esforçar-me por rir bem alto, por apresentar gargalhadas, porque sei que é disso que precisas. (Ele continua a olhá-la, agora incrédulo.) Depois, por fim, trazes-me para casa e fodes-me, de forma competente mas desapaixonada e quase indiferente, como se te importasse pouco o meu prazer. (Cala-se e arrasta o silêncio, sabendo que ele não o interromperá; por fim, encara-o e olha-o sem antagonismo ou desafio.) É isto que tens para me dar? Apenas isto? Jantares insípidos, gargalhadas fingidas, fodas de rotina? (Abana a cabeça, triste.) Nada mais? (Ele desvia o olhar.) Porque se é, talvez não valha a pena apressar-me, não achas?

Esboço # 84

(Jantam os três em silêncio, olhando a televisão com apatia, desinteressados em reagir perante o que vêem, o que ouvem, o que sentem. Alguns minutos após todos terem arrumado os talheres, desistindo da refeição, a mulher levanta-se e recolhe os pratos ainda repletos de comida com gestos cansados, conformados; depois, afasta-se, levando consigo a louça.)
CRIANÇA (espreitando a porta, assegurando-se que a mãe não se aproxima; sussurrando, num tom ansioso, quase tenso): Há quanto tempo não dizes à mãe que gostas dela?
HOMEM (alguns segundos mais tarde, sem desviar o olhar da televisão; num tom áspero): Foi ela que te pediu para me perguntares isso?
(A criança não responde, surpreendida com a frieza da reacção, o antagonismo do pai; olha para a televisão com uma expressão triste e desconsolada, talvez com vontade de estar noutro lado qualquer. Pouco depois, a mulher regressa, com passos lentos e indiferentes; coloca uma taça de gelado em frente da criança, surpreendendo-se por ela não sorrir, não agradecer. Senta-se no seu lugar e olha para a televisão, expectante: como se aguardasse que ela lhe transmitisse uma instrução, uma explicação, uma solução; qualquer coisa.)

Esboço # 83

Prazo de validade expirado.

Dão-se livros # 08

Deve valer a pena porque as respostas foram aparecendo; obrigado a todos. Desta vez, o livro segue para a Bárbara.

Esboço # 82

(Estão dentro do carro, tensos e em silêncio, olhando rigidamente pelas janelas.)
PAI (esforçando-se por parecer conciliador): Mas tens que perceber que…
FILHA (interrompendo, num tom rude e irritado): Tu é que tens de perceber que já não sou nenhuma criancinha. Tenho dezanove anos, sou uma mulher. Percebes, dezanove? (Hesita ligeiramente.) Não sou a menina que levavas a passear ao parque e a quem davas gelados, como se isso fosse o gesto supremo de generosidade. (Encolhe os ombros, exasperada.) Cresci, tenho estado sempre a crescer. Como é que não vês isso? Há dezanove anos que cresço, que me afasto dessa imagem idílica e estática que ainda tens de mim. Há muito que não sou a menina do papá ou a adolescente silenciosa. Agora, sou uma mulher, livre e independente e…
PAI (resignado): Eu percebo que…
FILHA (ignorando o pai): Não me apetece ir ao cinema contigo, pai; não me apetece fazer-te companhia, aturar-te, fingir que ainda és o meu melhor amigo. (Respirando fundo, como se tentasse ganhar coragem.) Apetece-me estar com os meus amigos, divertir-me. Apetece-me dançar e rir e beber, perder a cabeça e esquecer-me dos problemas, conhecer gente. Apetece-me ouvir anedotas, fumar gansas; fazer sexo. (Num tom mais baixo, simultaneamente desesperado e provocatório.) Não me interessam parques mas discotecas e praias e bares. Agora, gosto de broches e não de gelados. Percebes?
(Abre a porta e sai, afastando-se apressadamente. O pai olha-a, incrédulo e triste, incapaz de perceber, de assimilar, de reagir. Tentando decidir qual a palavra que doeu mais; broches? Aturar-te? Livre? Ou talvez dezanove?)

Esboço # 81

Prazo de validade expirado.

Esboço # 80

(As duas adolescentes estão sentadas num banco, com os telemóveis na mão; o parque da escola está deserto, como se não houvesse outros alunos por perto.)
ADOLESCENTE 1 (interrompendo o prolongado silêncio num tom apático, olhando fixamente o telemóvel que tem na mão): Sabes qual foi a última coisa que o meu pai me disse?
ADOLESCENTE 2 (depois de abanar a cabeça e percebendo repentinamente que a amiga não a olha; forçando-se a falar): Não.
ADOLESCENTE 1 (incapaz de deixar de olhar o telemóvel): Disse-me para ter paciência mas que só voltava a carregar-me o telemóvel no fim do mês.
(Toca a campainha e ambas estremecem ligeiramente, como se esquecidas de onde se encontravam.)
ADOLESCENTE 1 (tom mais baixo e hesitante que antes): O funeral foi há quatro dias e ainda não tive coragem para pedir à minha mãe para o carregar. (Tom quase lamuriento.) Acreditas que tenho estado este tempo todo sem telemóvel?
(Começam a surgir miúdos de todos os lados, ruidosos e enérgicos, rindo em grupo, correndo; as duas adolescentes permanecem imóveis e silenciosas, talvez com esperança de não serem vistas. Muito tempo depois, a campainha volta a tocar; mas os miúdos levam uma eternidade a abandonar o pátio.)

Esboço # 79



(O carro acabou de parar num semáforo; pessoas atravessam a passadeira, apressadas e rígidas, robóticas. No interior do carro, ambas as mulheres permanecem em silêncio, olhando em frente, apáticas e indiferentes, distantes; sós.)
FILHA (tom mecânico, frio): Estava aqui a pensar, a tentar lembrar-me. (Hesita; baixa um pouco a voz.) Quando foi a última vez em que me disseste algo importante? Algo verdadeiramente definitivo e relevante? Algo decisivo para mim, para a minha vida, para o meu futuro? Algo que fizesse a diferença. (Após uma pausa, tentando controlar-se.) Quando?
MÃE (olhando o vermelho do semáforo; tom ligeiramente abstraído, quase indiferente, quase desinteressado, quase displicente): Não me lembro.
FILHA (pensativa): Eu também não.
(O semáforo muda para verde mas a Filha, que está ao volante, não se mexe; ouve-se uma buzina e depois outra e depois outra.)