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Uma espécie de western: fascículo # 14

Irei certamente morrer por aqui, caído ao chão e rodeado de nada – ou melhor: rodeado de vazio, o que sempre é preferível a nada; e permanecerei de boca aberta e olhos esbugalhados para sempre, assistindo à lenta dissolução do meu corpo, do meu espírito, da memória da minha existência; virá o vento e agitará indolentemente os meus cabelos, hora após hora após hora: até ao dia em que eles se comecem a desprender da minha cabeça e voem pela pradaria, acompanhados pelos ecos da noite, pelas sombras das nuvens. Será tudo o que restará de mim: os meus cabelos esvoaçando por aí.
Olho em redor, curioso e atento: quantos fragmentos de corpos mortos e esquecidos divagarão por aqui, à minha volta?

Uma espécie de western: fascículo # 13

O eco dos tiros acabou de se dissipar no deserto quando o cavalo, finalmente, ergue a cabeça e começa a caminhar na minha direcção; fico a aguardar, sem impaciência nem pressa, apreciando a sua elegância. Depois, ergo-me e subo para o seu dorso, cobrindo o seu pêlo com o meu sangue; aguarda com paciência o meu sinal, perfeitamente imóvel, silencioso; solidário. Por fim, avança. Avançamos: pelo deserto, entre árvores imaginadas.
Há uma palavra que, recorrentemente, volta a preencher-me os pensamentos, parasitando-os; e vou pensando nela, obsessivamente, enquanto perco sangue, gota após gota: arrependimento. Por vezes, espreito por cima do ombro e vejo como o meu sangue se tem espalhado pelo deserto; reparo, com surpresa – e também com orgulho, talvez –, como é vermelho e brilhante, vívido. Depois, volto a olhar em frente: avançando, passo após passo. E pensando, por vezes, em arrependimento.

Uma espécie de western: fascículo # 12

O sangue continua a cair, molhando a areia acastanhada, cobrindo a poeira; toco-o e sinto-me desconfortável. Movo-me, ligeiramente. E então, no mesmo instante, ouço o segundo tiro; como antes, não sinto nenhum impacto no corpo; mas, agora, já não consigo ter a certeza de não ter sido atingido: talvez uma nova bala tenha efectivamente violado o meu corpo; talvez a minha carne tenha perdido a capacidade de perceber quando é trespassada – ou simplesmente tocada; ou pior: talvez já esteja morto. E a morte seja, apenas, isto: a incapacidade de sentir.
Mas suspeito que não. Porque quando dou por mim, tenho a pistola na mão e estou a disparar, tentando simplesmente acertar no horizonte, no vazio, no desconhecido; ou em nada. Faço-o involuntariamente, sem que tenha havido uma decisão consciente, uma vontade, um objectivo. E sabe bem, esta acção espontânea e involuntária, independente da reflexão, da decisão; como um animal.

Uma espécie de western: fascículo # 11

Sei que deveria erguer-me e proteger-me, lutar, adiar a morte; ou, pelo menos, gritar, de dor e fúria, de medo. Mas não me movo, continuo a olhar o cavalo, que agora se imobilizou e espreita na minha direcção, perscrutador; suponho que se sente mal, por me ter abandonado. E apetece-me chamar por ele; mas lembro-me, uma vez mais, que nunca lhe dei um nome.
Volto a distrair-me, divagar. Penso, ingenuamente, que poderei não ter sido atingido por um tiro mas por um raio; e olho o céu, confiante de que talvez aí encontre uma explicação, um qualquer esclarecimento pacificador. Depois, sinto-me ridículo.
Muito tempo depois (uma hora, cinco minutos, meio segundo?), pergunto-me – sem verdadeiro interesse, quase com displicência – se estarei a morrer. Se a morte será isto; assim.

Uma espécie de western: fascículo # 10

Não sinto a bala perfurar-me a pele, a carne, o sangue. E isso surpreende-me um pouco; não é a primeira vez que uma bala me atinge, que entra por mim adentro, furando a carne, atravessando-a; e de todas as outras vezes, houve sempre uma dor instantânea e fulgurante, que logo se transformou em fúria e revolta, em reacção; um choque violento e intenso, incontrolável, como se o próprio corpo – e não apenas a consciência, a sensibilidade; a alma – se indignasse com a agressão.
Mas não desta vez. Não posso ter a certeza; mas penso que o cavalo se assustou com o inesperado som da detonação e me surpreendeu com os seus movimentos bruscos e defensivos, que me atiram ao chão; e apenas no momento seguinte, quando já estou a contorcer-me na terra poeirenta é que percebo que algo anormal se passa, algo além da queda; então, vejo o sangue: e compreendo. Simultaneamente, sinto a dor já conhecida de outros tiros, já antes suportada. Mas com atraso: apenas quando consciencializo que deveria estar a senti-la.
Fico, então, a ver o cavalo afastar-se, ouvindo ainda a sua respiração ofegante e descontrolada, tentando discernir o que está a acontecer, ultrapassar a perplexidade, compreender. Concentrando-me em não sentir a dor. Ignorá-la. Fazê-la desaparecer.

Uma espécie de western: fascículo # 09

O sol queima. E a imensidão do deserto, o permanente zumbido feito de silêncio que as suas entranhas libertam, começa a oprimir-me um pouco. Por um momento, desejo companhia; alguém que ouça e reaja; ou que ouça, apenas. (Mas que diria eu, afinal? Que tenho para dizer?)
Penso, de novo (inesperadamente), em árvores; uma floresta, aqui: terá mesmo existido, voltará a existir? Talvez seja esse o fascínio dos desertos: surpreender no âmago da sua desolação e imutabilidade, uma fugaz memória de um passado diferente, um momentâneo indício de um futuro alternativo; possibilidades de mudança.
Avançamos, passo após passo, juntos, partilhando o silêncio, o cansaço. Tento esquecer as árvores e recordo histórias, que por vezes se ouvem, sobre um ou outro cavaleiro solitário que deambula pelo deserto, afastado do mundo, tentando perder-se ou tentando encontrar-se, e é atingido por um raio, caindo fulminado ao chão, envolto numa nuvem de fumo; diz-se que os cavalos sobrevivem sempre; e regressam aos locais de partida, sozinhos.
Vou pensando nisto, não sei porquê. E é quando, por fim, algo acontece.

Dão-se livros # 04

O passatempo está encerrado e o livro atribuído (ao Paulo). Obrigado a todos pelos adjectivos.

Uma espécie de western: fascículo # 08

Começa a amanhecer, por fim. O cavalo já revela algum cansaço, ou talvez apenas fome; e aborrece-me esta acusação silenciosa, esta responsabilidade implícita. Sinto que devo fazer algo, agir; que devo tomar uma decisão, definir um objectivo.
Penso nisso, tentando distrair-me, esforçando-me para me manter vigilante e atento; ou, pelo menos, acordado. Objectivos. Poderia ser algo simples e pragmático; por exemplo: sobreviver até ao fim do dia. Ou algo mais ambicioso e indefinido, mais empírico: ter um dia bom. E mal me ocorre essa ideia, esse conceito – dia bom –, desvio de imediato o rumo dos pensamentos: o que poderia ser um dia bom?
Prosseguimos a caminhada, cansados e tristes. Há uma neblina algo fantasmagórica que se desprende do chão, agora que a noite se dissipa; daqui pouco, nascerá o sol; e as minúsculas gotículas de água que agora pairam indolentemente no ar brilharão durante um instante, quando forem trespassadas pelos raios de luz, e implodirão; será bonito, suponho.
Sim, preciso de definir um objectivo; definir uma distracção. Adiar.

Uma espécie de western: fascículo # 07

Não tenho para onde ir: não sei se por o mundo ser demasiado grande, se demasiado pequeno. Deixo-me conduzir pelo cavalo, o que não será muito diferente de me deixar conduzir pelo destino; ou por um qualquer desejo, objectivo, medo. Em qualquer dos casos, estarei a ser conduzido. Empurrado.
Mas talvez nada exista para além das fronteiras deste deserto; que diferença faz se o mundo for, afinal, tão vasto como dizem? Nunca percorrerei essa vastidão; do mesmo modo que nunca percorrerei o tempo, enclausurado neste momento sem passado nem futuro. Prefiro, então, acreditar que o mundo é isto: esta solidão e este momento, este silêncio, este céu e estes arbustos, este cheiro; e, também, estes fantasmas de árvores há muito esquecidas. Nada mais que isto.
E, assim, não tenho para onde fugir.

Uma espécie de western: fascículo # 06

No instante seguinte, a questão inevitável: livre para quê? Tento afastar o assunto da mente; tento, também, ignorar a recorrente suspeita de que liberdade total significa, afinal, nenhuma liberdade.
Recordo o rosto obstinado do Xerife. Certamente que me persegue, certamente que me alcançará; sempre foi mais forte que eu; mais persistente; mais desesperado. Também ria mais alto, quando éramos amigos. Sorrio, não consigo evitar fazê-lo, quando recordo esses dias longínquos, improváveis. Eu e o meu amigo; salvou-me a vida, uma vez; tirar-ma-á, daqui um pouco, um destes dias; a qualquer momento.
Estará aí, algures; olhando a mesma lua que eu agora olho, respirando o mesmo ar. E alcançar-me-á; quando erguer a arma, não hesitará.
Liberdade total: nenhuma liberdade.

Uma espécie de western: fascículo # 05

Paramos durante uns minutos. Salto ao chão e dou uns passos, com gosto, sentindo a terra estremecer debaixo das botas; massajo as pernas, desajeitadamente; respiro fundo. Lembro-me que deixei um maço de cigarros preso na sela do cavalo, junto com a arma; gostava de ter um espelho e contemplar o meu sorriso, enquanto acendo o cigarro; mas depois decido que não preciso de ver: basta sentir.
Vou fumando, invadido por uma sensação de tranquilidade; ou de indiferença, de desinteresse? Olho em redor, perscrutando o horizonte monótono e repetitivo; e tento imaginar-me longe daqui, algures (mas onde, para quê?). Examino a paisagem desolada, sem verdadeira curiosidade ou interesse, sabendo que o meu olhar não encontrará nada de surpreendente, nada de novo; e enquanto sopro o fumo do cigarro, ficando a vê-lo dissipar-se lentamente, recordo uma história que ouvi sobre este deserto, não sei onde nem quando: já foi uma floresta. Olho, tentando imaginar árvores, a densidade e o fulgor do verde, a imponência da vegetação; tentando acreditar.
O cavalo começa a mexer-se, impaciente. Olho-o, com atenção; pensando num nome apropriado, caso alguma vez conseguisse dar-lhe um nome. Ele sente-se observado e intensifica o movimento, transmitindo-me o seu nervosismo.
Atiro o cigarro pelo ar e fico a vê-lo voar, cair, apagar-se. Sopro o último fumo, trepo para a sela; e partimos. Sinto-me livre, completamente livre.

Uma espécie de western: fascículo # 04

Penso em parar; ou regressar: porque não? Mas o cavalo prossegue a sua marcha, num movimento rítmico que me embala e serena; e decido não me opor à sua vontade, submeto-me pacificamente.
Penso, subitamente, em arrependimento. Sim, julgo que poderia arrepender-me de algumas atitudes, de alguns gestos, de algumas omissões, de alguns pensamentos; talvez o faça, um dia. Mas para quê? O que mudaria?
Acaricio o cavalo, sinto-o corresponder ao meu toque. A humidade da noite começa a ser incomodativa, a distrair; mas insisto no pensamento. Arrepender-me de quê, em concreto? Como escolher, qual o critério? Arrepender-me duma morte que causei, que apressei? Ou arrepender-me de um sorriso que não tive, que deveria ter tido? Por onde começar, quando terminar? E porque não arrepender-me de tudo? Renegar a vida que tive, que ainda vou tendo, que terei. Mas o que mudaria, efectivamente? Para que serviria o arrependimento, afinal?
E por que motivo estou a pensar nisso, agora? (Como se estivesse à beira da morte, despedindo-me do mundo; estarei?)

Uma espécie de western: fascículo # 03

Agora, é o cavalo que corre. Avançamos na escuridão da noite, sem destino; contudo: quando chegarmos, saberemos; saberei. Agrada-me o contacto com o cavalo, a regularidade quase mecânica do silvo da sua respiração, da sua passada. Mas, inesperadamente, ocorre-me que jamais suportaria viver uma existência semelhante à sua, brutalmente subordinada à vontade e aos caprichos de alguém; um instrumento, apenas. Estranho esta inesperada reflexão mas não a consigo afastar e esquecer, desprezar; e insisto no pensamento, contrariado: como reagiria este mesmo cavalo, se suspeitasse que a sua vida pudesse ser diferente?
Infantilmente, temo que ele perceba os meus pensamentos, os intercepte e assimile, reaja; desperte. E tento concentra-me no caminho, busco orientação nas estrelas, distraio-me com o cheiro do deserto. Mas, insidiosa e destabilizadora, surge uma ideia, mais uma ideia, bailando-se livremente entre os pensamentos, corroendo; e se, numa escala diferente, também os homens são instrumentos de alguém?
Como os cavalos.

Uma espécie de western: fascículo # 02

Corro, ainda. Já não me lembro bem por que motivo o faço; ou melhor: lembro-me; mas de certo modo deixou de fazer sentido, de importar. Corro porque posso, porque decidi que o iria fazer. Porque sim. Antes, houve um propósito, um objectivo; acho que houve. Fugir, talvez apenas para provar que o podia fazer, que havia essa possibilidade, que era uma opção disponível e exequível. Que dependia apenas de mim, da minha vontade.
Corro, em silêncio, tentando ignorar o cansaço do corpo, o seu inútil protesto. E reconheço, sem surpresa, como esta necessidade de concretizar possibilidades, de testar limites, sempre me acompanhou, sempre determinou os meus comportamentos, sempre justificou loucuras e imprudências e temeridades. Reconheço como sempre me deixei subordinar a esta inexplicável urgência de materializar, em acções práticas e concretas, visíveis, todos os pensamentos e impulsos e ímpetos e desejos e devaneios e fantasias que, por algum fugaz instante, cruzassem a minha mente, excitassem o meu espírito, conduzissem os meus pensamentos. Penso nisto, pela primeira vez, talvez pela última vez: consciencializando-o; depois, deixa de importar.
As botas continuam a pisar a terra, que estala suavemente (ou estarei a imaginar?). As sombras movem-se, acompanhando-me, e a lua espreita, sobranceira; as estrelas também. Talvez haja animais, dormindo entre as arbustos, no cimo das árvores; pergunto-me se os animais também terão insónias; se sonharão. E lá à frente, sob a luz do luar, vejo a barraca onde o cavalo talvez ainda permaneça, à espera; diminuo a velocidade de forma quase imperceptível, respiro com menos sofreguidão.

Uma espécie de western: fascículo # 01

Corro em silêncio, com vigor mas sem desespero, sem aflição; sei que a minha vida talvez dependa do sucesso desta corrida mas tento esquecê-lo, tento não pensar nisso, tento efectivamente acreditar que não importa, que nunca importou. A qualquer momento poderá chegar o tiro que me perfurará a carne e atirará ao chão, fazendo-me deslizar pela mesma terra que agora piso, fazendo-me engolir a poeira provocada pela minha queda. E, nesse caso, estes serão os meus últimos instantes de vida: suponho que me agrada que passem assim, frenéticos e tensos, ansiosos, plenos; livres.
Também pode acontecer que o tiro não chegue a tempo de me derrubar; e então continuarei simplesmente a correr, sentindo o frio da noite arranhando-me o rosto, os músculos das pernas doridos, a garganta seca, o riso a crescer e crescer e crescer dentro de mim, a querer explodir, libertar-se. Serão, então, segundos frenéticos e tensos, ansiosos, plenos; livres. Mas também consequentes.
Continuo a correr, talvez continue para sempre.

Dão-se livros # 04

Novo desafio: referir o adjectivo que melhor caracterize ou defina as estórias do blogue. Entre os emails recebidos até 22 de Novembro será sorteado o vencedor do livro.